terça-feira, 31 de março de 2009
Já restabelecido na vida, voltei às ruas para me encontrar com o amigo Sombra. Minha intenção era ajudá-lo a encontrar uma casinha, comprar-lhe roupas novas, até que se restabelecesse também.
Sombra foi mais que um amigo. Foi meu anjo da guarda. Por viver há mais tempo na mendicância, conhecia todos os perigos e orientava-me. Várias vezes vi a morte passar rente a mim e, apesar de eu querê-la, Sombra fingia que estava brigando comigo, e os marginais se afastavam. Fiquei com o olho roxo mais de uma vez.
-- É melhor um olho roxo com um soco desferido por mim do que ficar sem o olho ou a vida, se eles te pegassem.
Não conseguia encontrá-lo. Alguns conhecidos diziam que havia morrido de desgosto. Sim, isso era possível. Mas ele estava vivo, eu sabia, sentia.
Encontrei-o, finalmente, em um bairro perto de minha casa. Foi uma alegria. Insisti em que ele entrasse em meu carro e levei-o a meu apartamento. Tomou um banho quente, restaurador, vestiu roupas novas.
-- Sombra!! Você viu o clarão naquele dia?
-- Eu vi, professor! Vi sua filha de mãos dadas com meu filho. Ele tentou me convencer a ir embora também.
-- Poxa, Sombra!! Por que você não foi?
-- Para onde eu iria?
-- Inicialmente ao abrigo. De lá me telefonaria. Você tem até o endereço de minha casa.
-- Estou morrendo, amigo! – confessou-me, rindo e tossindo muito.
-- Já conversamos sobre o nosso sofrimento. Seu filho sofre também.
-- Sim, ele me disse. Em breve, estaremos juntos.
-- Você voltará a trabalhar e daí poderá morrer decentemente.
-- Existe esse tipo de morte, professor?
-- Você entendeu o que eu quis dizer. Você tem mais de cinquenta anos. Não trabalhará mais como Oficial de Justiça, mas é inteligente. Pode trabalhar ainda como revisor de textos em editoras.
-- André! Não há mais tempo nem para pagar as roupas novas que me emprestou.
Disse isso e tossiu. Uma golfada de sangue molhou a sua mão. Levei-o ao hospital. Após exames específicos, o médico confirmou o que ele já tinha me dito.
-- Seu amigo não tem mais tempo de vida. Não sou Deus para prever quando ele morrerá, mas pela minha experiência e o estado avançado da doença, poderá falecer em poucos dias. O senhor não notou diferença de timbre na voz dele?
-- Notei, doutor!
-- O câncer está generalizado.
Sombra morreu dois dias depois no hospital... antes de seu último suspiro, inclinou a cabeça.
Aproximei meu ouvido de sua boca.
-- Olhe quem veio me buscar!
Sorriu.
XXXXXXXXXXXXX
segunda-feira, 30 de março de 2009
Meu pai e seus amigos costumavam ir pescar em uma ilha no litoral sul de São Paulo. Neste ano, decidiram levar seus filhos também.
Iríamos de trem. Era uma viagem demorada. Na serra, o trem necessitava de uma máquina-reboque para subir em determinados trechos. E isso levava horas. Uma viagem de trem, da Estação Socorro na capital até o litoral, demorava entre seis a oito horas, dependendo da lotação em seus vagões.
Por outro lado, a viagem era maravilhosa. Em minha visão infantil, que até hoje trago em minha memória, misturada com o cheiro verde, puro de nossa mata atlântica, a paisagem vista do alto da serra, o mar imenso marazul contrastando com o verdevivo verde enchiam-me de paz, alegria e orgulho de estar ali com meu pai.
Chegamos à casa de praia.
-- Filho! Pegue a enxada e limpe a área da frente da casa. Depois, cave um pequeno buraco.
-- Sim, pai!
-- Quando você terminar, procure gravetos secos, e junte-os próximo ao buraco.
Fiquei feliz por estar ajudando a todos. Eu sabia exatamente o que meu pai pretendia fazer naquela área que seria limpa por mim. Era um costume de nossa família, parentes e amigos: depositar-se-iam batatas doces no buraco; depois, fechava-se o buraco com a própria terra ou areia de lá tirada. A fogueira arderia sobre o buraco, assando naturalmente as batatas, que seriam o nosso café da manhã.
E assim foi. Acordamos às 5h, e comemos as batatas com café e leite. E saímos para a pescaria.
Era uma manhã quente de verão, lua cheia, hora da vazante da maré. O canal a ser atravessado para se alcançar a ilha, estava baixo, com pouca água. Um adulto atravessava-o sem maiores problemas, com a água pela cintura. As crianças, inclusive eu, atravessamo-lo a nado. E foi uma diversão.
Na ilha, enquanto os adultos subiam as pedras para acharem o melhor lugar da pescaria, nós ficamos na areia, brincando no canal.
Horas mais tarde, meu pai e seus amigos desceram e fizemos um bom piquenique, que deu sono em todo mundo. Eu estava fascinado e não conseguia dormir... queria brincar no canal.
Na inocência de criança, eu não sabia o que era maré baixa, maré alta. Eu pensei que aquele era o nível constante de água do canal. Até então, eu nadava de um ponto a outro, sem interferência de correnteza, que não havia na maré baixa.
Não conseguia dormir. Decidi brincar sozinho no canal. Todos dormiam.
Assim que mergulhei, senti a água me levando. Com esforço consegui chegar a outra margem, mas bem distante de onde eu havia pulado. Eu tremia muito de medo. Eu poderia correr até o ponto mais próximo de todos e de lá gritar por ajuda. Descartei esse pensamento. Eu, certamente, levaria uma surra de meu pai, por não tê-lo obedecido.
Sentei-me e procurei me acalmar. De lá, via a água do mar furiosamente entrar no canal. Fui para o ponto mais próximo de onde estavam todos. A ideia era mergulhar ali e, se eu fosse levado, não ficaria muito distante deles, e voltaria com as pernas tremendo e trataria de dormir.
Entrei com medo na água. Fui caminhando até não encontrar mais o fundo. Desesperado, comecei a nadar, batendo os braços e as pernas... e cada vez mais sendo levado para longe. Gritei muito. Afundei, retornei para fora, gritei, engoli muita água... cansado, afundei de vez...
... vi meu corpo depositado no fundo do canal, inerte. Eu estava a uma pequena distância dele, embaixo d’água. Vi Jesus Cristo esticando a mão para o meu corpo e sorrindo para mim. Eu estava vendo tudo embaixo d’água, senti muita paz. Vi quando Jesus Cristo pegou meu corpo e tirou-o de lá.
Acordei cinco dias depois na cama de um hospital da Baixada Santista.
XXXXXXXXXXXXXXX
domingo, 29 de março de 2009
Eu tinha dois meses de casado.
Precisava pagar uma conta no Banco. Procurei uma agência que ficasse no trajeto entre o aeroporto e minha casa. Optei em fazer isso em meu horário de almoço.
Eu tinha um carro Gol, ano 1981, praticamente novo ainda. Nossa idéia, de minha esposa e eu, era vendê-lo, para que pudéssemos quitar as dívidas, contraídas antes do casamento.
Após sair do Banco, escolhi as vias de fácil acesso para chegar mais rápido em casa, dar um beijinho na esposa, almoçar e voltar ao trabalho.
Não havia o hábito de se usar cinto de segurança nem era lei usá-lo. Trafegava ora a 40km/h, ora a 50km/h. Eu estava na pista da esquerda, quando recebi sinal de farol de um caminhão, querendo passagem. Fui para a pista da direita, permitindo a ultrapassagem.
A 100m havia um semáforo, que indicava luz verde para nós. Quando o caminhão ultrapassou o semáforo, um Chevette cruzou a avenida. Eu não tive tempo de brecar, e a batida foi inevitável.
Bati violentamente a cabeça no pára-brisa do carro e desmaiei. Acordei não sei quanto tempo depois, preso às ferragens, com o sangue jorrando de minha cabeça. Procurei um pano sujo que eu trazia no carro, passei-o em meu rosto. Havia muita fumaça saindo do motor. Olhei em volta e vi muitas pessoas. Diziam que o carro pegaria fogo, que eu precisava sair de lá. O painel do carro prendia minhas pernas. Não consegui nem abrir a porta. E pedi desesperadamente por socorro.
Naquele ano, 1984, não havia Resgate do Corpo de Bombeiros em acidentes de trânsito. Contava-se, apenas, com a boa vontade das pessoas ou de motoristas de outros carros.
-- Socorro!! Pelo Amor de Deus, me tirem daqui!!
E as pessoas não se aproximavam, temendo uma explosão.
Eu sentia muita dor na perna e desmaiei novamente. Quando acordei, quatro pessoas estavam tentando me tirar de lá. Duas usaram um pé-de-cabra e levantaram o painel; os outros dois me puxaram para fora. Os quatro me colocaram num carro e me levaram ao hospital mais próximo.
Fui operado. Houve traumatismo craniano e fratura da rótula no joelho.
Acordei numa grande sala, lotada de macas, com lençóis cobrindo boa parte dos corpos que lá estavam. Ouvi a voz do meu pai, chorando.
-- Sim! É meu filho!
A seu lado, estava um amigo dele, que tentava confortar-lhe.
-- Venha, amigo! Vamos preencher os papéis.
-- Me deixe um pouco a sós com meu filho.
Meu pai chorava muito. A partir disso pude depreender o óbvio: eu estava morto.
Lembro-me de que meu pai aproximou-se de mim e me acariciou o rosto. Senti sua mão mexer em minha face, em meus olhos. Eu necessitava dizer a ele que não estava morto, que eu estava sentindo o seu carinho. Mas não deu tempo. A enfermeira pediu que ele fosse embora.
XXXXXXXXXXXXXXX
sábado, 28 de março de 2009
Olha nos meus olhos
Esquece o que passou
Aqui neste momento
Silêncio e sentimento
Sou o teu poeta
Eu sou o teu cantor
Teu rei e teu escravo
Teu rio e tua estrada
Vem comigo, meu amado amigo
Nessa noite clara de verão
Seja sempre o meu melhor presente
Seja tudo sempre como é
É tudo que se quer
Leve como o vento
Quente como o sol
Em paz na claridade
Sem medo e sem saudade
Livre como o sonho
Alegre como a luz
Desejo e fantasia
Em plena harmonia
Eu sou teu homem, sou teu pai, teu filho
Sou aquele que te tem amor
Sou teu par, o teu melhor amigo
Vou contigo seja aonde for
E onde estiver, estou
Vem comigo, meu amado amigo,
Sou teu barco neste mar de amor
Sou a vela que te leva longe
Da tristeza, eu sei, eu vou
Onde estiver, estou
E onde estiver, estou.”
(Tudo o que se quer, canção interpretada por Verônica Sabino e Emílio Santiago)
Quando se está na rua, perdido na vida e na mendicância, perde-se a noção da passagem do tempo, troca-se apenas o dia pela noite. O Sol, vida, cede lugar às trevas. Seres notívagos vagueiam e se escondem em becos, praças, em esgotos.
Naquela noite eu não tinha conseguido dormir. Encostei-me à parede e meus pensamentos levaram-me até minha filha
Pela primeira vez, depois de sua morte, refleti a situação e o quanto ela devia estar sofrendo por ver-me um trapo. Percebi que tinha me tornado um covarde, um merecedor de dó, de compaixão, por não aceitar a ordem natural dos desígnios de Deus. Quão sofrimento eu tinha dado a meus pais!!!!!!
De repente, um clarão cegou-me momentaneamente os olhos. Pensei que fossem os faróis de um carro desgovernado que nos atropelaria. Empurrei o Sombra.
-- Por que fez isso, professor?
Toda a minha vida se projetou em minha frente, como um falshback, em segundos. Eu era professor. Estudei e trabalhei muito para me formar. Como pude me largar assim?
-- Está vendo o clarão, Sombra? Eu pensei que fosse um carro, mas não vem da rua... vem do céu. É uma luz belíssima, traz-me conforto.
...............
Numa noite de inverno, quando eu trabalhava em Cumbica, presenciei algo semelhante. Por volta das 23h, na escuridão, temperatura de 7º, aguardava o ônibus da empresa para voltar à capital. Enquanto isso, eu olhava o céu carregado e vivo de estrelas, em direção às Três-Marias.
Subitamente, um clarão entre as estrelas, muito distante, como se um pedacinho do céu se abrisse e surgisse, em frações de segundo, um arcoíris, com cores etéreas, puras, inimagináveis. Eu nunca tinha visto algo tão lindo. Do mesmo jeito que o céu se abriu, fechou-se também. Agradeci a Deus por aquele momento tão especial.
...............
-- Olha, Sombra!!! É a minha filha!!! (*)
-- Papai! Me dê sua mão, vamos agora para casa. Sua vida não é essa. Estou sofrendo muito, porque o senhor sofre também. Eu estou num lugar maravilhoso, rodeada de anjinhos, mas não consigo realizar meus trabalhos celestes, devido à angústia de te ver nesse estado.
-- (*)
-- Levante-se, papai! Volte a sua casa, recomece sua vida. Visite creches, asilos, orfanatos... cresça e se desenvolva espiritualmente.
-- Eu sinto muita saudade, filha! (*)
-- Eu também sinto, papai, mas minha alma está presa ao senhor. O mesmo que sente, eu sinto também. Eu estarei sempre com o senhor, em sonhos, todas as semanas. Mostrarei ao senhor aonde vivo. Para isso, é necessário que o senhor esteja bem e aceite a minha curta passagem pela Terra.
-- Está bem, filha!! (*)
-- Eu te amo, papai!! Deus o abençoe!!
O clarão dissipou-se, mas ela estava do meu lado.
-- Eu te amo, filha!! Que Deus sempre te abençoe, anjinho! (*)
Levantei-me, olhei para o lado, não vi o Sombra. Caminhei para a minha casa, completamente seguro e confiante na vida. Cheguei ao amanhecer.
Toquei a campainha do interfone da portaria. O zelador, recém-empregado, vendo minha figura repugnante, maltrapilha, suja, fedida, por pouco não chama a polícia.
-- Amigo! Eu sou morador deste prédio.
-- Sai daqui, antes que eu chame a polícia.
-- Antes de chamar a polícia, chame o síndico. Ele há de confirmar o que estou dizendo.
-- Está ficando louco? Se eu fizer isso, estarei na rua, por justa causa. Afaste-se daí, que abrirei o portão para um morador que está chegando.
Afastei-me para não criar mais confusão. Olhei para o morador que estava chegando. Ele me reconheceu.
-- André!! Que houve, meu amigo?
-- Não houve nada. Eu só quero entrar no meu apartamento, tomar um bom banho e dormir um pouco. Faça um favor para mim. Chame o síndico. Não quero criar problemas para o rapaz da portaria.
Dormi um sono restaurador de energias.
“Olha nos meus olhos, esquece o que passou aqui, neste momento, silêncio e sentimento, sou o teu poeta, eu sou o teu cantor...”
XXXXXXXXXXXXXX
sexta-feira, 27 de março de 2009
Tatá, amigo “top de linha”. Empresário, sócio de Nardinho. Bom baiano, pessoa tranquila, aprazível, alegre, sempre disposto a uma boa conversa, mas não ouse abusar de sua boa vontade.
Passou a infância e parte da juventude no interior de São Paulo e conserva até hoje a mesma humildade da tradição de famílias e costumes interioranos. Quando faleceu Francisco Matarazzo, Tatá, já morando na capital, fez questão de acompanhar o cortejo fúnebre, da Av. Paulista até o cemitério, em sua bicicleta. Chorou e orou à pessoa que ele nunca tinha visto em vida.
Anos mais tarde, sofreu um grave acidente de carro e foi levado à Santa Casa de São Paulo, onde, já em estado crítico, permaneceu na Ala Matarazzo. E ali foi curado.
Coincidências à parte, Tatá goza perfeita saúde até hoje.
Mesmo nos momentos de descontração, após um intenso dia de trabalho, há instantes em que desejamos sossego, curtir a cervejinha calado, sem que ninguém venha nos perturbar. Isso vale para todas as pessoas que frequentam lugares públicos.
Estávamos no Toy Restaurante, do amigo Dilso. Parte de nosso grupo, em pé no balcão; outros, sentados numa mesa em frente. Numa mesa mais distante, estavam três pessoas, conversando e bebendo muito. Um deles eu conhecia: um pedreiro, a quem nomearei João.
João é um trabalhador muito requisitado para pequenas obras em casas da região. Sistemático no trabalho, detalhista ao extremo, realiza seu trabalho com perfeição. O difícil é entender o que ele fala, atropela sílabas, junta palavras com outras. Quando bebe, é impossível entendê-lo. Torna-se também chato demais, como qualquer outro bêbado. No estado etílico, não se satisfaz enquanto não paga uma bebida a conhecidos.
Naquela noite, João estava extremamente chato. Insistiu em pagar uma cerveja ao Tatá, que recusou. A partir daí, iniciou-se uma discussão.
-- Vrocêtemolrreinabarriga, seumetido!Tápensandoquinãosouomi? – perguntou o enrolado João, nervoso, olhando fixamente para Tatá.
Para evitar uma briga, Tatá virou-se para o balcão, mas a expressão de seu rosto já não era das melhores. Nossa turma percebeu isso, e Deley levantou-se, a fim de acalmar o pedreiro.
-- João! Vá pra sua casa! Estamos aqui conversando. Se Tatá não quis que você pagasse a cerveja, é porque ele não acha justo que você desperdice o que ganha com tanto esforço.
-- Divrocê,doAndé,ditodoseugostosónãogostodessefrilhodaputa.
Tatá ouviu com clareza a última expressão: “frilho da puta”, e voltou-se a João.
-- De que que você me xingou aí? Seu cueca suja de meeeeeeerda!
Tatá deu-lhe um abraço que João nunca mais esquecerá na vida, de tanta dor que sentiu. Pegou sua maleta e foi embora.
Depois disso, nunca mais vi João.
XXXXXXXXXXXXXXX
quinta-feira, 26 de março de 2009
(...)
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos;
D’altas virtudes, ‘té capaz de crimes!
Compreender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma.
Fontes de pranto intercalar sem custo,
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!”
(Gonçalves Dias)
“Cântico do calvário
(À memória de meu filho morto a 11 de dezembro de 1863)
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. – Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, -- a inspiração, -- a pátria,
O porvir de teu pai! – Ah! No entanto,
Pomba, -- varou-te a flecha do destino!
Astro, -- engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! – Crença, já não vives!”
(Fagundes Varela)
Às sextas-feiras, chegava a meu apartamento às 18h. Tomava banho, trocava de roupa, e saía.
Freqüentava, assiduamente, todos os salões de jogos no centro de São Paulo. Jogos de carteado, pôquer, caça-níqueis. Jantava numa casa dessas e ficava até a madrugada. Depois ia a barzinhos ou a boates. Amanhecia o sábado, voltando a minha casa. Dormia ou ficava na cama até às 18h. Depois, tomava banho, me trocava e saía para fazer a mesma coisa do dia anterior. Nenhum café da manhã, nada de almoço... tinha perdido o prazer de tudo.
E assim continuei por mais de um mês, até...
... até não voltar mais para casa. Preferi a sarjeta a meu apartamento.
Saía de meu lar às quintas à noite. Sempre o mesmo itinerário até a madrugada de domingo, quando preferia dormir na calçada junto a tantas outras pessoas, tão e até mais dignas que eu. Entreguei-me ao álcool, à vida mundana; só a Morte não parecia compreender que eu a queria, que eu a desejava demais, que ela era o bálsamo para mim.
Hoje eu entendo que fui mais covarde que um suicida. Nada como os anos a completar nossas vidas, para compreendermos nossas atitudes passadas.
Naquela época, pensei que eu tivesse muitos amigos. Talvez em torno de uns quatrocentos. Eram tantas festas, tantos amigos, todos tão próximos, impossível não dizer que tal afetividade, tanto interesse não fossem senão apenas de amizade.
O que me importava era estar na sarjeta. Bêbado, jogado, fedido, aos trapos. E bem longe da família... longe de meus pais, a fim de que eles não vissem seu filho no estado lamentável que estava.
-- Alô!! Oi, mãe!!
-- Oi, filho!! Você está bem?
-- Estou ótimo. E a senhora? E o papai? Estão bem também?
-- O seu pai continua chato como sempre.
-- (risos)
-- Filho!! Estou sentindo muita angústia... você está mesmo bem?
-- Sim, mãe!! Estou telefonando apenas para dizer que irei viajar amanhã. Devo retornar na segunda ou na terça-feira. Não quero que se preocupem comigo. Vou a trabalho.
-- Assim fico mais sossegada, filho! Obrigada por ter ligado.
-- Beijos, mãe!! Quando eu retornar, irei almoçar aí com vocês.
-- Está bem, filho! Cuide-se, está bem? Beijos!
Eu não tinha mais dignidade, amor próprio. Só me interessava a morte, mas sem coragem de executá-la.
Numa noite, depois de muitos dias fora de casa, mal alimentado, sentado e encostado numa parede, um clarão encobriu minha visão.
Eu tinha acabado de acordar, fazia muito frio. Muitos indigentes estavam ali comigo. Do meu lado direito, dormindo, estava uma pessoa que, num passado não muito distante, viveu momentos de alegria, ao lado de sua esposa e de seu filho.
Às vezes, passamos pela rua e nos deparamos com indigentes, largados, dormindo ao relento, comendo restos no lixo de algum restaurante, mas não temos a menor idéia de quem são ou de quem foram.
A pessoa a meu lado, cujo apelido era Sombra, tinha sido um Oficial de Justiça. Era um bom orador, falava e escrevia corretamente a língua portuguesa. Um certo dia, passeando com sua esposa e filho, este soltou-se de sua mão e correu para o meio da rua, atrás de uma bexiga que ele vira caindo. Um caminhão que passava não conseguiu frear a tempo.
A esposa nunca o perdoou. Muito menos, ele.
XXXXXXXXXXXX
quarta-feira, 25 de março de 2009
Tenho muitos colegas.
Colegas são aqueles que te envolvem em qualquer lugar, seja num barzinho, seja num churrasco, seja em seu cotidiano. Aparecem de repente, te envolvem, e você sente que conquistou um amigo.
De colega a amigo há um processo demorado: só há a transformação com o tempo, com a convivência. O tempo evidencia a frequência; a convivência, a metamorfose.
Tenho infinitos colegas, e poucos mas fiéis amigos.
Deley, Tatá, Luciano Pimenta, Sombra, Daniboy, Nelsão da Fiel, Nardinho, Porfírio, Ric Santista, Daniel, Boni, Memeco, Yoshi, Kabo, Dilso, Mário. Empresários, engenheiros, comerciantes, arquiteto, corretor, advogado, oficial de justiça, contadores, funcionários públicos. Nossas reuniões ocorrem em happy hour, ora no Toy Restaurante, ora na lanchonete do Giba e do Paulinho, ora no Magno’s Bar.
Aprendemos diferenciar conhecidos, colegas, amigos. A todos somos fiéis companheiros, e todos têm atenção de todos.
Amigo é um ser especial. Ele não tem o seu sangue, mas te compreende; não tem suas atitudes, porém age da mesma forma que você; não possui seus sentimentos, contudo chora ou ri com você.
Deley, Tatá, Luciano Pimenta. Você se importa com a ordem e a idade? Importa-me o espírito de cada um. Dos quatro, Luciano Pimenta é o mais novo; em idade, sou o segundo mais velho. Considerando uma ordem cronológica, estaríamos assim classificados em ordem decrescente por idade: Deley, eu, Tatá, Luciano Pimenta.
Se fosse considerar a idade de nossos espíritos, essa seria a classificação: Deley, Tatá, Luciano Pimenta e André.
Luciano Pimenta é um garoto. Um menino com mais de mil anos a minha frente. Alma boa, espírito bom, humilde, solidário, trabalhador, sincero, honesto. Herança que recebeu do pai. Nasceu em Realengo, Rio de Janeiro, e depois a família se mudou para o bairro da Penha. Sua educação está nos alicerces de pai, mãe, avô e avó. Você conhece algum termo mais enraizado do que alicerce? Não há.
É fácil pronunciar e escrever a palavra “amigo”, quando se torna comum. Para mim, o escrever e o pronunciar são profundos... o termo é arrancado do fundo da alma, passa e vem esquentando por todo o-de-dentro, chega à garganta, arranha, porque é maior que meu ser, e explode em alegria. Daí o resultado é um abraço sincero.
Tricolor fanático. Ao casar-se, na Igreja de São Judas, em São Paulo, o que se ouviu não foi a marcha nupcial. Foi o hino do Fluminense. O das Laranjeiras. O bairro onde pretendo passar meus melhores anos de vida.
XXXXXXXXXXXXX
terça-feira, 24 de março de 2009
Após um ano incessante de pesquisas, inclusive com o fim de meu namoro com Márcia, descobri quem tinha sido a misteriosa mulher retratada naquele quadro, que tanto me assustava.
Muitas vezes durante a pesquisa e toda vez que eu chegava próximo a um fato importante, eu sentia calafrios, desanimando-me a continuar. Mas a recordação da careta que ela me fazia quando eu a via na janela, impulsionava-me a desvendar a história.
O que mais marcou e me assustou foi o último lugar visitado: a mansão decadente de nobres franceses e ingleses no Morumbi. Depois de quase um mês, insistindo através de cartas, expondo a razão de eu estar ali, resolveram me atender.
O portão eletrônico se abriu e pude estacionar próximo à casa. Outrora aquela mansão viveu ares de nobreza, porém agora estava largada ao tempo, raspas de pintura se soltando das paredes, mármore Carrara imundo, jardins tomados pelo mato. Senti-me em um filme de terror, preocupadíssimo com o que encontraria lá dentro.
Um rapaz me conduziu à sala, enorme para os meu padrões de sala, onde se encontrava uma idosa, muito bem vestida. Sentei-me numa poltrona em frente da dela, tentei cumprimentar-lhe. Minha voz não saiu. Pior, senti meu cabelo e pelos do braço, e de todos os lugares do corpo arrepiarem.
Tentei me levantar e sair correndo de lá, mas quando apoiei minhas mãos na poltrona, a senhora me ordenou:
-- Fique onde você está!!
Como ela sabia que eu queria sair de lá? Pensei, então, em desculpar-me, ou que estava passando mal e que precisava ir embora.
-- Fique aí e fale!! O que o senhor deseja saber sobre minha tia?
Senti minha garganta, minha língua e boca ressecarem.
-- Rapaz!! Traga um copo de água fresca para esse senhor!
Não tinha percebido o rapaz atrás de mim, mas foi um alívio quando ele trouxe a água.
-- Fale agora!!
-- Eu queria saber o que aconteceu com a Sra. Marie Strodeau G. T. Cohen? Dados informam apenas o desaparecimento dela.
-- O que isso interessa a você?
-- Sinceramente, senhora, eu não sei o que me move a descobrir algo de uma pessoa que nem conheço. Eu passei a infância vendo o rosto dela, enquanto meus amigos e primos viam apenas um vaso na janela. Eu acho que ela me pôs em seu caminho, sinto algo muito forte dentro de mim, uma estreita ligação que não sei explicar.
-- Talvez por que ela tenha seu sobrenome. – disse-me afetivamente, com uma lágrima escorrendo em seu rosto.
Nem sei ao certo se era um lágrima. Talvez fosse uma gota de suor. Estava um forno lá dentro.
-- O meu sobrenome????
-- Sim, senhor André! Não descobriu ainda as iniciais abreviadas G e T?
Não entendo como não desmaiei naquele momento.
-- Ela não sumiu, não desapareceu. Apenas fugiu do mundo artístico. Queria paz para cuidar de seus dois filhos.
-- Apenas isso?
-- Senhor André!! O senhor não tem filhos... ainda. Daqui a alguns anos, entenderá isso.
-- A senhora lê pensamentos?
Ela riu uma gargalhada gostosa e prosseguiu.
-- Isso é tudo o que o senhor precisava saber. Recolher-me-ei agora.
-- Senhora!! Sobre o meu sobrenome, como...
-- Estranho, não é mesmo? Mas coincidências existem e estão presentes a todo momento de nossas vidas. Em suas cartas de apresentação, li seu nome completo.
-- Ela teve uma morte natural?
-- Sim, meu jovem! Se o senhor ainda pretende mandar rezar uma missa na Igreja de São Judas, seremos eternamente gratas a você.
Claro que ela lia pensamentos. Como saberia de uma coisa dessa?
-- Senhora!! A inicial G abreviada já foi desvendada. Afinal, é meu sobrenome. E a inicial T?
-- Saberá antes de nascer a sua filha.
-- Minha filha??? – espantei-me.
E desapareceu pelo corredor. Desaparecer aqui não significa evaporar-se, não se assuste.
XXXXXXXXXXXX
segunda-feira, 23 de março de 2009
Conheci minha ex-esposa em uma festa junina, promovida pelo colégio em que eu lecionava. É irmã de uma ex-aluna.
Na semana seguinte, eu já estava conhecendo seus pais e família, que me receberam muito bem.
Eu sempre sonhei em ter filhos. Fazíamos planos, como qualquer casal. Eu queria cinco filhos; ela, apenas três. O importante é que teríamos filhos.
Casamos em um sábado, 1984, às 11h da manhã. Nossa primeira noite foi em um hotel, na região da Avenida Paulista. No dia seguinte, cedo, viajamos a Portugal.
Vivemos um lindo caso de amor durante muito tempo até os anos tornarem rotina a vida de casal.
Nosso primeiro filho haveria de nascer dois anos após o casamento. Não nasceu. Ela iniciou sua carreira de Jornalista e, um filho, segundo ela, atrapalharia a sua ascensão profissional. Concordei com ela, embora triste.
E os anos se passaram. Quase não a via durante a semana em nossa casa. Apenas nas tardes de sábado e nos dias de domingo.
Em 1990, disse a ela que eu teria um filho com outra mulher.
-- Você me traiu, André?
-- Depende de que você entende por traição, Vera! No início de nosso casamento, mesmo com tudo já planejado anteriormente, acatei sua decisão de não ter filhos, em razão de seu emprego. Os anos se passaram e você continua não querendo filhos.
-- Mas eu nunca te traí, André! – disse, chorando.
-- É uma questão de ponto de vista. Eu fui traído por você.
-- Quem é a mulher? Eu a conheço?
-- Não! Vocês nunca se viram. Ela terá a nossa filha, dela e minha. E eu a criarei, quero participar de todos os momentos da vida dela.
-- Essa mulherzinha sabe que você é um homem casado?
-- Sabe.
-- Você morará com ela?
-- Não pretendo, mas estarei lá todos os dias e passarei algumas horas com minha filha.
-- Não quero essa criança aqui na nossa casa.
-- Está bem! Vamos nos divorciar, então. Minha filha virá a minha casa, que é dela também. Garanto que ela passará mais tempo aqui do que você em seis anos, Vera.
-- Vou à casa de meus pais contar o que fez comigo.
-- Ótima idéia!! Iremos juntos.
Sempre considerei meus sogros como meus pais. Ficaram tristes, porque lá no cantinho de suas almas queriam netos também. Abraçaram a filha, sorriram para mim e disseram que minha filha em casa deles sempre seria bem-vinda.
O coração gelado de minha ex-esposa despedaçou-se quando a menina nasceu. Foi registrada com o meu sobrenome e com o sobrenome de sua mãe: T.G.
O casamento ainda durou mais seis anos.
XXXXXXXXXXXX
domingo, 22 de março de 2009
Doze anos casado. Uma filha, fora do casamento, minha eterna paixão. (*)
Está sendo difícil continuar a escrever, as lágrimas ainda insistem em correr pelo meu rosto, as mãos fraquejam. Ela está a meu lado encorajando-me. É presença imprescindível, porém minhas palavras estão molhadas, afogadas; a emoção impede, neste momento, a aproximação da razão. (*)
Preciso respirar um pouco. Sairei da frente do computador, irei à rua, sentarei à sombra da figueira e conversarei com Deus. Antes quero que você saiba que, quando eu utilizar o sinal do asterisco (*), estarei chorando.
Era necessário o divórcio, apesar de minha esposa e eu nos querermos bem. Não havia mais sexo nos últimos anos, nossa relação era fraterna.
O fim do casamento foi de comum acordo. Somos amigos até hoje.
XXXXXXXXXXXX
1990 a 2000. Minha filha, meu amor "além do amor".
Minha filha não tem nome. Está universalizada no sorriso sincero e puro de todas as crianças do mundo.
Não tenho fotos dela. Tenho imagens guardadas em minha alma e vejo-a em todos os momentos de seu crescimento. Ano após ano, em datas festivas, nos dodóis, os primeiros dentinhos, nas brincadeiras, nas cochiladas de seu corpinho em minha barriga... (*)
... a doença, o cansaço físico, a confirmação do mau, do infortúnio.
Idas a hospitais, internações, atendimentos de especialistas, remédios, injeções, orações, orações, orações... (*)
Desde 2000, ela é um anjinho, com dez anos completados em vida.
XXXXXXXXX
sábado, 21 de março de 2009
Meu primeiro carro foi um fusca, ano 1968, nem me lembro mais a cor dele. Comprei-o usado. O fusca adorava ficar parado, eram inúmeros os problemas mecânicos, além de estar mal acabado por dentro. Foi uma alegria imensa quando o vendi.
Com a ajuda de meus pais, comprei um mais novo: um fuscão, ano 1975, branco. Também tinha seus problemas mecânicos, mas eu também já tinha aprendido muito com o outro e sabia consertá-lo.
O carro dormia na rua, não havia lugar na garagem. Passava as noites em frente de casa, devidamente travado com equipamentos de segurança.
Numa certa noite de sábado, por volta das 21h, um colega da rua, com quem eu não tinha muita conversa, foi a minha casa pedir-me o carro emprestado, pois queria sair com sua namorada, e seu carro estava quebrado.
-- Jorge!! Você nunca ouviu dizer que carro, violão e mulher não se emprestam?
-- Você não vai fazer isso comigo. Ou vai, André?
-- Amanhã cedo vou prestar o vestibular. Preciso sair cedo de casa...
-- Chegarei às 2h. Fecharei o carro e deixarei a chave embaixo da roseira do seu jardim.
-- Vocês não está entendendo. Se eu emprestar e, por um azar danado, o carro quebrar em sua mão, ficarei sem ele para ir ao vestibular.
-- Se quebrar eu conserto.
-- Como o carro que está em sua garagem, quebrado há mais de um mês? Outra coisa, tenho apenas ¼ de gasolina e sei que você não tem grana para colocar mais.
-- Não vai emprestar mesmo?
-- Não vou.
No dia seguinte, já a caminho da Faculdade, o motor do fusca morreu, ou seja, parou de funcionar. Como ainda estava próximo de casa, estacionei-o e voltei para pegar dinheiro e ir de táxi. Ao chegar em casa, vi a poça de óleo e a tampa do reservatório no chão.
Nunca soube o que tinha acontecido, mas até hoje desconfio do Jorge.
XXXXXXXXXX
1980. Final de curso.
O feriado chegou e cedo fui buscar minha namorada, para irmos à casa de seus avós.
--- Márcia, aonde vamos?
--- Você conhece a av. Caiçara? O Clube Montanhês?
--- Fica próximo do bairro onde nasci e passei a infância.
--- Puxa!! Sério?
--- Seriíssimo.
Quando chegamos à rua, me arrepiei todo, quando ela apontou a antiga casa de seus avós: o sobradão assombrado.
Hesitei entrar. Subi a rua, a pé, até enxergar a janela. Lá estava ela, sorrindo para mim.
--- Márcia, venha até aqui, por favor. Vamos nos sentar à calçada.
--- O que houve, André?
--- Foi nesta rua que nasci e cresci.
--- Será, então, que já nos conhecíamos na infância? Morei com meus avós, durante alguns meses. Eu brincava ali, próximo ao córrego, onde hoje é aquela avenida.
--- É. Muita coisa mudou por aqui. Meus pais estão pensando em voltar para cá. Temos uma casa na quadra de cima. Depois te levarei até lá. Sabe, Márcia, desde que me conheço por gente, nunca vi ninguém nessa casa. Sempre esteve abandonada. Passei toda a minha infância aqui, catando mamona às margens do córrego.
--- Puxa! Eu também, André.
--- Como pode isso? Ninguém morava nessa casa.
--- Está achando que estou mentindo?
--- Não penso isso, mas é muito estranho. Venha comigo até o meio da rua e olhe a janela que eu apontar.
--- Está bem, amor.
--- Quem é aquela moça?
--- É uma pintura. Um quadro antigo que meu avô adorava. Dizia que era uma artista muito bonita e que tinha morrido misteriosamente. Vamos lá, mostrarei o quadro a você.
Márcia era muito meiga comigo. Conquistava-me com seu olhar. Entramos.
Não me senti bem lá dentro. Senti tonturas. Márcia abriu as janelas, tirou os lençóis que cobriam as poltronas e sentei-me. Mesmo com a brisa arejando a enorme sala, faltou-me respiração. Caminhei com dificuldade para fora. Márcia tinha subido ao quarto para pegar o quadro.
A respiração normalizou-se no momento em que fui para o meio da rua. Márcia saiu da casa com o quadro na mão. Sentamo-nos na calçada, e ela colocou o quadro em minhas pernas.
Era mesmo uma linda mulher retratada naquele quadro. Um sorriso doce, feições nobres, nariz minúsculo, loira, um olhar triste.
Lembrei-me da infância, das vezes que eu olhava para a janela e a via me fitando com ódio, com os olhos estatelados, descabelada. Como teria morrido essa mulher? Precisava saber o nome completo dela. Pesquisaria em todas as fontes de informação, pediria ao padre da Igreja de São Judas que rezasse uma missa só para ela, a fim de que alcançasse paz junto a Deus.
Pedi ajuda à Márcia, que se comprometeu a perguntar a seus pais e parentes próximos. E saímos de lá.
XXXXXXXXXX
sexta-feira, 20 de março de 2009
Estudei numa Faculdade particular. Por ser o último ano do curso de Letras, o valor das mensalidades havia triplicado; além disso, eu não tinha conseguido notas que me aprovassem em Latim, no ano anterior. “Passei” de ano, mas carreguei duas dependências para o ano seguinte. E o pior: tinha que pagá-las também.
Estudava no período da noite, das 19h às 23h. Trabalhava na aviação comercial, das 6h às 12h, e lecionava das 13h às 17h30. Mesmo somando os dois salários, havia sempre uma conta em atraso, ora uma mensalidade da faculdade, ora a prestação do carro. Eu precisava de um rendimento extra.
Gilberto, um amigo da Cruzeiro do Sul, ao sair da empresa, passou a trabalhar como autônomo: entregava pães e leite nas residências, principalmente em prédios, das 3h às 5h. Sua iniciativa tornou-se tão bem remunerada, que comprou um forno industrial e assava os pãezinhos. Mas precisava de alguém para entregar as encomendas no mesmo horário. Interessei-me por essa nova oportunidade de trabalho e comecei no dia seguinte.
Havia, então, conseguido um dinheirinho extra, mas já não encontrava tempo suficiente para estudar, ler livros, realizar pesquisas. Não passeava mais aos finais de semana; ficava trancado em meu quarto, estudando, e preparando resumos que me auxiliassem durante a semana, em minutos de folga. Era extremamente difícil, porque meus amigos sempre estavam em casa tentando me convencer a sair.
Eu não trocaria todo meu esforço de trabalho e estudo por passeios noturnos. Teria muito tempo depois de concluir o curso na Faculdade.
Na escola em que lecionava, conheci uma professora jovem como eu e tivemos um relacionamento. Sabendo de minha dificuldade de estudo aos finais de semana, convidou-me a morar, apenas por esses dias, em uma casa, que tinha pertencido aos avós, ainda toda mobiliada, mas vazia. Aceitei, é claro.
Iríamos à casa de seus avós no dia seguinte, já que era feriado.
XXXXXXXXXX
1957 a 1975. A casa mal assombrada.
Nasci em um bairro próximo ao Parque do Ibirapuera, junto à família de meu pai, tios, avós, primos.
Minha mãe, portuguesa, veio nova ao Brasil. Conheceu meu pai, casaram-se, e um ano depois, nasci. Naquela época, meu pai era dono de um bar na mesma rua onde morávamos.
Como qualquer outro moleque, costumava brincar na rua, esconder-me nos terrenos baldios. E junto com a turminha, andávamos pela região. No final da rua, existia um córrego e, 50 metros antes, um sobrado enorme, que me assustava demais. Íamos até o matagal do córrego para apanhar mamonas, que serviam para as nossas brincadeiras de estilingue.
Toda vez que descíamos a rua, eu via numa das janelas da casa, fechada por vidro, um rosto de mulher, e sempre com feições diferentes. Dizem que cada um enxerga o que quer ver. Meus primos enxergavam um vaso. Às vezes, eu a via sorrindo, o que me deixava com bons sentimentos; mas a maioria das vezes eu a via descabelada, com olhos esbugalhados, como se estivesse com muita raiva, muito ódio... e isso me assustava.
Os adultos diziam que o sobradão era mal assombrado, que viviam espíritos, antigos donos que morreram e, não conseguindo desvencilhar-se de seus bens materiais, permaneceram na casa. Havia muitas histórias que meu pai e meus tios contavam, quando sentávamos diante de uma fogueira, no terreno baldio em frente de casa. Nem preciso dizer o medo que eu sentia, não é mesmo? Para conseguir dormir nas noites, seguidas das histórias, eu rezava um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, pedindo a Deus que iluminasse aquela mulher que eu via à janela.
O fato é que, toda vez que passava por lá, tentava abaixar a cabeça, mas a curiosidade me fazia erguer os olhos. E lá estava ela, arreganhando os dentes pra mim.
O bairro todo, décadas antes, era uma grande fazenda. Suíços, alemães e ingleses saíam de suas mansões, em bairros distantes, e iam caçar na fazenda. Talvez seja devido a isso, que muitos fixaram residência no bairro. Ainda hoje há muitas mansões, algumas com suas famílias ricas, outras, em decadência.
O sobradão “assombrado” devia ser dessa época, mas humilde em relação às casas dos estrangeiros. Penso até que, por estar próximo ao córrego, que dividia a fazenda, poderia ser um ponto de descanso para eles. Sei lá.
XXXXXXXXXX
quinta-feira, 19 de março de 2009
Lecionei em escolas públicas e particulares, e ainda dividia meu tempo com um trabalho na aviação comercial: Cruzeiro do Sul e Transbrasil Linhas Aéreas, ambas extintas.
Minha primeira experiência em escola particular não foi nada boa. Era uma escola nova e já tinha muitos alunos nos cursos de supletivo ginasial (atual Ensino Fundamental) e colegial (atual Ensino Médio). Após três meses, a escola foi fechada pela Secretaria de Educação porque não estava com os documentos em ordem. Pouco importou a essa Secretaria os alunos e os funcionários e professores que lá trabalhavam. Menos se importou o dono que não legalizou os cursos.
Os alunos foram transferidos para duas escolas, longe dali. Alguns professores foram “aproveitados” (foi essa também a primeira vez que percebi que não tinham a menor consideração pelo professor... como se fôssemos um objeto enferrujado, e depois polido). Eu e o Alan, professor de Ciências, fomos com alguns alunos do colegial a um bairro distante, próximo ao centro de São Paulo.
Era um colégio mantido por uma ordem religiosa. Ficamos dois anos. Por sermos jovens, o diretor não gostava da gente. Enquanto outros professores descansavam no mês de janeiro, o diretor nos escalava para organizar a biblioteca.
Em pleno mês de janeiro, verão, à noite, estávamos empoeirados em meio a tantos livros. Numa certa noite, Alan “achou” um livro que ensinava a fazer armadilhas infalíveis, do tipo Cebolinha para Mônica.
-- André!! Veja isso!! Podemos construir essa aqui e colocar à porta do diretor. O que você acha?
-- Sensacional, Alan!! Amanhã, trarei o fio de náilon. Vê se capricha no tamanho da aranha.
-- Combinado.
A nossa intenção era dar um pequeno susto no diretor e também nos divertirmos um pouco, porque nosso trabalho já estava monótono. No dia seguinte, chegamos um pouco mais cedo. Sabíamos que o diretor chegaria uma hora mais tarde, então tivemos tempo suficiente para montar a “armadilha do susto”.
----|-----------------------! !-----------------------------------------------
! ! @ !
! ! !
| ! !
! DIRETORIA
|
Náilon
A engenhoca era simples: um fio de náilon, um prego entortado acima da porta do diretor, e a aranha amarrada à ponta do fio. Coisa de criança.
Como prevíamos, o diretor chegou, passou pela biblioteca, não nos cumprimentando como sempre e seguiu no corredor pouco iluminado em direção a sua sala. Assim que entrou, deslizamos o fio de náilon, com a aranha na ponta, até metade da porta. Amarramos a outra extremidade do fio, no final do corredor.
Voltamos à biblioteca.
Uma hora depois, ouvimos a funcionária Dalva gritando muito. Fomos ao corredor.
-- Cuidado, gente!!! Tem uma aranha enorme na peruca do diretor.
Peruca??? Nossaaaa!! O homem usava peruca.
-- Cadê o diretor, dona Dalva??
-- Eu acho que ele está desmaiado dentro da sala dele.
Batemos à porta. Nada de respostas.
-- Dona Dalva, vá buscar gelo e água, por favor!!
-- Boa idéia, professor. Estou indo.
-- Alan!! Vamos entrar.
-- Caramba!! E se o homem estiver morto?
-- Não diga isso, pelo amor de Deus.
Entramos. O diretor estava sentado à poltrona, segurando o fio de náilon com a mão esquerda e balançando a aranha com toques do dedo direito. E sem peruca.
Fomos demitidos por justa causa.
Quinze dias depois, comparecemos ao colégio, a pedido do padre mantenedor. Atendeu-nos muito bem e fomos à sala dele.
-- Vocês são realmente professores? Não me respondam agora, por favor! Parecem-me mais dois jovens arrelientos, mas voltados para o mau. O diretor Ferro quase teve um infarto. Dona Dalva, ao gritar, perdeu a dentadura, que se espedaçou no chão. Por que fizeram isso, meus jovens?
-- Inicialmente, padre, não tivemos intenção de machucar nem o diretor Ferro nem Dona Dalva. Nosso objetivo era dar apenas um susto nele. Desde que chegamos a este colégio fomos desdenhados por ele. Não se importou em reconhecer o nosso valor de professor, uma vez que somos respeitados por todos os alunos e pais, apesar de nossa idade. Colocou-nos para organizar a biblioteca em pleno mês de janeiro, quando todos os outros colegas estão em suas casas ou viajando, devido ao recesso escolar. Nunca nos cumprimentou com um “boa noite”. Sempre sisudo. É uma pena que tenha acontecido isso com a dona Dalva, mas iremos ajudá-la.
-- Serei sincero com vocês. Eu me diverti demais com toda essa situação, quando soube do fato. O diretor Ferro é um bom profissional, mas tenho recebido muitas reclamações de pais e alunos, a respeito do comportamento dele. A semana que vem começam as aulas deste ano, e ficaria satisfeito em vê-los em nosso quadro de professores novamente. Quanto à dona Dalva, já está com a dentadura nova.
Retornamos na semana seguinte e fiquei até o fim do ano. Recebi propostas de outras escolas mais próximas de minha casa. Durante aquele ano, o padre foi assistir às minhas aulas, várias vezes. E sempre saía sorrindo da sala. Recomendou-me às escolas com uma carta de apresentação. Que saudades eu tenho dele!!!
----------
Não me lembro de ter sido bagunceiro em minha infância nem arreliento. Mas aprontei alguns bons sustos em meus amigos. E já me dei também muito mal com isso.
A caixa de sapatos como careta e uma vela dentro, sobre o muro, ao lado janela onde dormia um amigo. Não me saí bem dessa. Ao colocar a caixa sobre o muro, não prestei atenção ao degrau, e caí lá de cima, quebrando o meu pé direito.
A máscara de carnaval com uma adaga falsa enterrada na cabeça. Foi assim que entrei na casa de outro amigo, à noite. Quase matei de susto a mãe dele. Apanhei e saí de lá a pauladas, correndo e gritando.
Certa vez em casa, conversando com minha mãe no quintal, uma vizinha e o filho dela entraram chorando e desesperados;
-- Dona Lina!! Por favor, me socorre!!!
-- O que aconteceu, Dona Ceci?
-- Tem uma bruxa no banheiro de minha área de serviço. Peça ao André que vá lá para matá-la.
-- Eu não vou não.
Fiquei imaginando a bruxa com aquela cabeleira nunca penteada, um narigão cheio de perebas e verrugas, com sua vassoura maldita, dentes amarelados e enormes, vestida de trapos pretos.
-- De jeito nenhum!!! Não vou mesmo. Peça a seu marido.
-- Papai está trabalhando, André. Eu sou muito pequeno e também tenho muito medo.
Minha mãe olhou-me meiga.
-- André!! Pega essa vassoura e vá até lá.
-- Mãe!! Por favor!! Se com todo esse tamanho, a dona Ceci tem medo, o que eu poderei fazer?
-- Reúna sua turminha e vão lá. Hoje a bruxa está lá, não sabemos onde poderá estar amanhã, André.
Peguei a vassoura e fui chamar meus amigos em suas casas. Dos quinze, contando comigo, nove não aceitaram. Fomos os seis para a casa da Dona Ceci, devidamente armados com cabos de vassoura, tijolos, estilingues.
A casa era um sobrado, grande. Um quintal enorme; ao fundo, uma edícula. À esquerda, a área de serviço e, em frente à porta do cafofo, o banheiro onde estava a maldita.
Mais dois desistiram no meio do quintal; outro, ao fundo. Éramos três. Tiramos no par ou ímpar. Quem perdesse iria até a porta, entreaberta, e entraria distribuindo pauladas para todo canto. Estávamos morrendo de medo. Tremíamos muito. Começamos o jogo.
O primeiro a sair, aliviado, foi Antônio; o segundo, Fernando. Eu perdi.
Caminhei a passos lentos, tremendo. Os dois ficaram com tijolos e estilingues preparados. Aproximei-me da porta do banheiro e empurrei-a. Entrei, dando paulada em tudo. Quebrei pia, vaso sanitário e o globo da luz. Não vi bruxa alguma, só uma grande borboleta no canto superior esquerdo da parede.
-- Aqui não tem bruxa nenhuma. Fernando!! Vá chamar a dona Ceci, em minha casa.
Lá fora já havia uma multidão, olhando receosos para nós, no fundo do quintal.
Minutos depois, entram minha mãe, a dona Ceci e o filhinho dela.
-- Dona Ceci, aqui não tem bruxa nenhuma. Só uma grande borboleta na parede.
-- Ai, meu Deus!! É essa a bruxa!! Mate-a! Mate-a!!
Dona Ceci é mineira. Nasceu e cresceu no sítio de seu pai. Viveu todas as crendices populares do campo. Qualquer borboleta grande ou mariposa, que tivesse em suas asas desenhos de um olho, era chamada de bruxa, e trazia mau agouro.
-- Mãe!! Eu não irei matar a borboleta. Irei pegá-la, colocá-la num saquinho e a soltarei longe daqui, está bem assim?
-- Sim, filho. Faça isso!
XXXXXXXXXXXXXXX
quarta-feira, 18 de março de 2009
Biocrônicas & contos
Trinta alunos. Assim que entrei, todos se levantaram e se posicionaram ao lado de suas carteiras.
O respeito era uma prática comum. Foi assim comigo, quando eu era aluno.
Turma de 6ª série, horário noturno. Idades entre 14 e 22 anos. Eu também era novo. Lembro-me de meu nervosismo, por causa de minha timidez. Era visível minhas mãos tremendo, o que provocou risos dos alunos. Respirei fundo, aguardei alguns segundos, controlei-me.
-- Boa noite a todos!
-- Boa noite, professor!
-- Meu nome é André, tenho 21 anos, sou professor de inglês e português. A partir de hoje até o fim do ano, lecionarei inglês. A professora de vocês pediu afastamento, por estar enfrentando problemas de saúde. Espero que eu consiga atingir os meus e os seus objetivos.
Não tive problemas com a classe. Eles estavam mais preocupados em saber traduções de músicas. Em pouco tempo, conquistei a simpatia deles.
Odilon, 21 anos, amigo de fanfarras e de sala de aula, era agora meu aluno.
1969 a 1980. Zona sul de São Paulo.
Passei minha adolescência num bairro de classe média, estudando numa escola pública. Meu pai tinha um pequeno comércio no bairro e, tanto ele quanto minha mãe, trabalharam muito. Foi uma época difícil, ditadura militar.
Inúmeras vezes, vi meu pai sendo conduzido à delegacia de polícia, tal qual um marginal, por não permitir que agentes policiais consumissem gratuitamente produtos que ele colocara com tanto esforço em seu comércio.
Eu estudava próximo de minha casa. A escola não tinha quadra esportiva. Nas aulas de Educação Física, íamos às 7h da manhã, em um clube, que cedia a quadra à escola. Acordava às 6h, vestia meu uniforme: shorts branco, camiseta branca, meias brancas e tênis branco. Isso valia para qualquer época do ano: verão, inverno, primavera ou outono. Acompanhava meu pai até o comércio, ajudava-o a abrir as portas de aço, varria o salão e saía correndo para a aula de educação física. Chegava sempre atrasado, 5 ou dez minutos.
O professor era rigoroso. Não aceitava atrasos nem agasalhos. Portava uma corrente de ouro e quando me via chegar, ordenava aos demais que fizessem um corredor polonês para me recepcionar. Ao final do corredor, ele. Sentado num banquinho de madeira, girando a corrente, pegava-me pelo braço e, sem dó, castigava-me com “correntadas” em minhas pernas, braços e costas que chegavam a sangrar.
Entretanto, minha dor maior não eram as feridas. Era a vergonha de chegar em casa, com aqueles vergões enormes. Na verdade, eu sentia medo, porque sabia que eu poderia ser castigado em casa por meus pais que não admitiam falta de respeito com adulto ou professor algum.
Ao retornar para casa, fazia um trajeto maior, para não passar em frente ao mercadinho de meu pai. Entrava escondido em casa. Ficava à porta da cozinha, esperando uma distração de minha mãe, para entrar.
Quanto ódio eu sentia daquele professor!!! Nunca quis saber o porquê de eu chegar atrasado. As aulas eram somente na sexta-feira, graças a Deus. Era um homem alto, forte, ruim. Apenas uma vez por semana, mas eu tremia antecipadamente nos dias anteriores, porque sabia que passaria pelo corredor e pela corrente dele.
Quantas vezes, em pleno verão, um calor sufocante, eu ia brincar com meus amigos, usando calças compridas!!! Camisas que cobriam braços e costas!!!
Certa vez, não consegui passar despercebido por minha mãe. Ela ficou horrorizada, chegando inclusive a chorar. Perguntou-me quem tinha feito tamanha maldade. Chorei também, mas não respondi. Pegou-me carinhosamente pela mão e levou-me a meu pai.
-- Filho, quem fez isso com você?
Havia vergões sangrando, outros já cicatrizados, manchas roxas em meu corpo, orelhas sangrando, de tanto puxão rasgou a pele.
-- É por isso que você sempre usa calças e camisas longas para brincar com seus amigos?
-- Sim, pai.
-- Quem fez isso, filho?
Não respondi.
A semana se passou rapidamente e a sexta-feira chegou novamente. A mesma rotina de sempre: acordar às 6h, ajudar meu pai no mercadinho, chegar atrasado à aula de educação física.
Ao chegar, o corredor polonês já me esperava. Naquele tempo, os tênis mais se pareciam com botas, duras. Um chute bem dado significava mais uma ferida profunda em minhas pernas e em minha alma.
Suspirei triste. Afinal de contas, muitos que formavam aquele corredor eram meus amigos. Por que me batiam, se nada tinha feito a eles? Hoje, sei que eles tinham medo também. Se não batessem, seriam eles que entrariam no corredor e na corrente do professor.
Entrei cabisbaixo, protegendo a cabeça, como sempre, no corredor, e caminhei até o professor. Curiosamente, ninguém me chutou ou bateu em minhas costas, o que causou indignação do professor.
-- Bando de frouxos!!! Arrebentem com ele!!
Meus colegas e amigos se dispersaram, encostando-se às grades de proteção, todos quietos, enquanto o professor se dirigia a mim, balançando furiosamente sua corrente.
Antes de ele levantar a mão, meu pai e muitos outros pais apareceram à entrada da quadra.
-- Vai, professor!! Bata em meu filho! Nós queremos ver.
O professor, covarde, recuou.
-- Vai, seu filho da puta!! Bata em meu filho agora, na minha presença.
Meu pai era um homem de estatura média, gordinho, mas muito forte.
-- Vai, canalha!! Pega essa merda de corrente e marque mais o corpo dele!!
O professor foi encurralado no canto da quadra. Era ele e meu pai, apenas. Os outros adultos ficaram observando.
O ódio de meu pai era tanto que, mesmo depois de ter derrubado o professor, de ter-lhe quebrado o nariz e alguns dentes, despiu-o à frente de todos. Arrancou-lhe a corrente do pescoço, e bateu sem dó alguma no corpo daquele infeliz, que chorava feito criança.
As aulas das semanas seguintes foram dadas por outro professor, porque aquele tinha solicitado licença ao médico.
Agosto, 1978. Sala dos professores, intervalo de aulas.
-- Professor! Você é jovem. Não dê sequência à sua carreira. Ser professor hoje não vale mais a pena. O Estado nos paga mal.
Professora Maria José tentava me desanimar. Outrora, tinha sido minha professora, na mesma escola onde naquela época eu lecionava. Muitos professores que lá estavam eu já os conhecia. Foram os meus mestres.
-- Professor!! Não dê ouvidos a ela. Já está para se aposentar e está a cada dia mais ranzinza.
Ri, porque ela sempre foi ranzinza.
Olhei a sala dos professores. Do mesmo jeito de antes, os mesmos detalhes, os mesmos quadros. E meus mestres ali me encorajando.
O Diretor, Dr. José, foi nos fazer uma visita. Depois de cumprimentar a todos, pediu que eu o acompanhasse até a sua sala. O Dr. José sempre foi admirado por alunos, pais, funcionários e professores. Era baixo, gordo, calvo, inteligentíssimo, bondoso, amigo.
-- André!! No tempo em que você estudava aqui, a direção era outra. Permanecem na escola os secretários, professores e alguns alunos, seus amigos, da época.
-- Sim! O Odilon, meu amigo, está aqui ainda. Diz que gosta tanto daqui que, quando chega o fim do ano, não realiza as provas, porque deseja continuar no ano seguinte.
-- É isso mesmo, André. Além dele, existem as mocinhas. Muitas têm a sua idade; outras, um pouco mais jovens. Será natural que elas se interessem por você. Você, porém, é um professor e deve exigir respeito.
-- Eu sei disso, Dr. José. Quanto a isso não se preocupe.
-- Outra coisa, meu jovem professor. Você se lembra do Professor Valdir, de Educação Física?
Como não haveria de me lembrar, se ainda em meu corpo havia cicatrizes?
-- Lembro-me dele sim, apontando a cicatriz em meu ombro.
-- André!! Você é um homem agora. Alto, forte, jovem. O professor Valdir ainda leciona nesta escola. Está um velho, alcoólatra, quase se aposentando.
-- Quais são os dias em que o encontrarei na sala dos professores?
-- Às quintas e sextas-feiras. Eu te peço que entre na sala e faça um cumprimento geral. Finja que não o vê. Eu sei que você guarda rancor dele, mas eu não gostaria de ter de te afastar por algum motivo. Ele é um professor concursado do Estado; você é um professor substituto.
-- Dr. José! Não sei qual será a minha reação ao reencontrá-lo. Procurarei manter-me afastado da sala, nestes dias. Ficarei no pátio, junto aos alunos.
-- Se quiser, venha à minha sala. Tomaremos café e conversaremos outros assuntos.
E assim foi. Às quintas-feiras, eu passava o intervalo na sala do Dr. José; às sextas-feiras, passava junto aos alunos no pátio, conversando, contando piadas, orientando, tirando dúvidas, cantando etc.
Em final de novembro, sexta-feira, no pátio, tocando violão e cantando MPB, o professor Valdir gritou a quem quisesse ouvir, apontando para mim:
-- Meu único objetivo é matar seu pai.
Alguns alunos me pediram calma. O inspetor que estava no pátio correu para chamar o diretor.
-- Eu farei com você, Valdir, o que meu pai não fez. – disse-lhe, já próximo a ele, quase encostando meu dedo em riste em seu rosto.
-- Não tenho medo nem de você nem de seu pai.
-- Não tem, não é? Tanto que chorou feito criança depois da surra que ele te deu. Você sempre foi um covarde. Deveria estar preso, pois é um marginal travestido de professor. Tornou-se um velho antes do tempo, bebum, anda aos trapos, sem dentes. Não devemos nunca ter dó de seres humanos, porque é um sentimento que não cabe a ninguém. Você, para mim, é um ninguém.
-- Eu devia ter te arrebentado naquela época.
-- Sempre há tempo para isso, Valdir. Vamos sair agora da escola. Venha!! Te convido para acertar as nossas pendências lá fora. Longe dos olhos de todos.
-- Eu não vou para lugar nenhum.
-- É claro que não vai. Você sempre foi covarde. Batia em criança, em jovens e, quiçá, em mulheres, mas morre de medo de encarar um homem. Arrebente-me agora. Temos a mesma altura, apesar de que você já está curvado agora. Você é uma figura triste, Valdir.
-- Fique aqui no pátio, se for homem de verdade. Tenho um presentinho para você lá na sala dos professores. Vou buscá-lo. Não saia daí.
Foi contido pelo diretor, pelos professores e por alunos. Seu armário foi arrombado pelo inspetor. Lá dentro estava o meu presente: um revólver 38.
Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam o bem.
Usei a sua corrente de ouro para amarrar-lhe as mãos, enquanto aguardávamos a chegada da polícia. Nunca mais o vi, depois disso.
Lecionei nessa escola por mais cinco anos. Consegui formar meu amigo Odilon.
