Meu aniversário.
Logo cedo, fui ao cemitério. Ao parar o carro num semáforo da Av. Paulista, o carro ao lado buzinou. Desci o vidro, e uma pessoa-que-sei-lá-quem-é-e-que-nunca-vi-na-vida deu-me os "parabéns". Pensei que tivesse feito alguma barbeiragem lá atrás, e que o cara estava ironizando. Sorri sem graça, quase pedindo desculpas. Ao abrir o farol, ele gritou "feliz aniversário", e o carro arrancou.
Fiquei sem saber como ele tinha adivinhado. Mas segui em frente.
Sabe quando você caminha absorto em pensamentos? Eu estava assim, "desligado" de tudo e de todos, olhando as pessoas tristes, cabisbaixas, dirigindo-se aos túmulos de seus entes queridos.
Quando eu já estava seguindo pra fora do cemitério, ouvi outro "parabéns" e outro "feliz aniversário". Levantei a cabeça e continuei vendo apenas pessoas tristes.
Numa das alamedas, porém, uma mulher, que-eu-nunca-vi-na-vida-e-mais-loira me desejou "feliz aniversário". Embora tivesse ouvido a mesma coisa lá na Av. Paulista, senti um certo receio de perguntar a ela, ali em meio aos túmulos, como ela sabia que era meu aniversário. Agradeci a ela, e resolvi apertar os passos, quase correndo.
Entrei no carro, abri o vidro, e deixei uma gorjeta para o Flanelinha, que também me agradeceu, desejando "feliz aniversário". Foi mais ou menos assim o nosso diálogo:
-- Como você sabe que é meu aniversário?
-- Sô espríta. Sei de tudo. moço.
-- Deve ser algum amigo meu fazendo esta sacanagem comigo. Quanto ele te deu?? Se você me falar, darei uma boa gorjeta.
-- Moço! Sabe a mulher lá drento do açumitério???
-- A loira?
-- A própia. Foi minha isposa. Todo dia mi consulto com ela e com meu ermão: aquele rapaiz que te comprementou na av. Paulista.
Senti o coração acelerar, as pernas bambas. Fechei os olhos por segundos e retomei a prosa.
-- Amigo! Isso é ridículo. Maior besteira que já ouvi na minha vida. Você não tem mais nada que fazer? Vá se danar!!! Vocês três são os piores atores que já vi na vida. E sabe o que mais: fala pro meu amigo que estou mandando-o à puta que o pariu.
Saí de lá.
Percebi aí que meu domingo não seria fácil.
Dirigi-me ao colégio eleitoral.
Como sempre, graças a Deus, não tinha fila. Entrei, assinei, votei. Ao pegar o comprovante, me desejaram "feliz aniversário". Agradeci apenas, porque consta a data de meu nascimento. Nada estranho.
Quanto à festa foi uma surpresa atrás da outra até às 22h.
A respeito do acontecido pela manhã na Paulista e no cemitério, não comentei nada a ninguém. Também nada me falaram... deixarei o tempo passar, daqui a um mês perguntarei a eles quem eram aqueles três.
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