terça-feira, 24 de março de 2009

1981. O quadro.

Após um ano incessante de pesquisas, inclusive com o fim de meu namoro com Márcia, descobri quem tinha sido a misteriosa mulher retratada naquele quadro, que tanto me assustava.

Muitas vezes durante a pesquisa e toda vez que eu chegava próximo a um fato importante, eu sentia calafrios, desanimando-me a continuar. Mas a recordação da careta que ela me fazia quando eu a via na janela, impulsionava-me a desvendar a história.

O que mais marcou e me assustou foi o último lugar visitado: a mansão decadente de nobres franceses e ingleses no Morumbi. Depois de quase um mês, insistindo através de cartas, expondo a razão de eu estar ali, resolveram me atender.

O portão eletrônico se abriu e pude estacionar próximo à casa. Outrora aquela mansão viveu ares de nobreza, porém agora estava largada ao tempo, raspas de pintura se soltando das paredes, mármore Carrara imundo, jardins tomados pelo mato. Senti-me em um filme de terror, preocupadíssimo com o que encontraria lá dentro.

Um rapaz me conduziu à sala, enorme para os meu padrões de sala, onde se encontrava uma idosa, muito bem vestida. Sentei-me numa poltrona em frente da dela, tentei cumprimentar-lhe. Minha voz não saiu. Pior, senti meu cabelo e pelos do braço, e de todos os lugares do corpo arrepiarem.

Tentei me levantar e sair correndo de lá, mas quando apoiei minhas mãos na poltrona, a senhora me ordenou:

-- Fique onde você está!!

Como ela sabia que eu queria sair de lá? Pensei, então, em desculpar-me, ou que estava passando mal e que precisava ir embora.

-- Fique aí e fale!! O que o senhor deseja saber sobre minha tia?

Senti minha garganta, minha língua e boca ressecarem.

-- Rapaz!! Traga um copo de água fresca para esse senhor!

Não tinha percebido o rapaz atrás de mim, mas foi um alívio quando ele trouxe a água.

-- Fale agora!!

-- Eu queria saber o que aconteceu com a Sra. Marie Strodeau G. T. Cohen? Dados informam apenas o desaparecimento dela.

-- O que isso interessa a você?

-- Sinceramente, senhora, eu não sei o que me move a descobrir algo de uma pessoa que nem conheço. Eu passei a infância vendo o rosto dela, enquanto meus amigos e primos viam apenas um vaso na janela. Eu acho que ela me pôs em seu caminho, sinto algo muito forte dentro de mim, uma estreita ligação que não sei explicar.

-- Talvez por que ela tenha seu sobrenome. – disse-me afetivamente, com uma lágrima escorrendo em seu rosto.

Nem sei ao certo se era um lágrima. Talvez fosse uma gota de suor. Estava um forno lá dentro.

-- O meu sobrenome????

-- Sim, senhor André! Não descobriu ainda as iniciais abreviadas G e T?

Não entendo como não desmaiei naquele momento.

-- Ela não sumiu, não desapareceu. Apenas fugiu do mundo artístico. Queria paz para cuidar de seus dois filhos.

-- Apenas isso?

-- Senhor André!! O senhor não tem filhos... ainda. Daqui a alguns anos, entenderá isso.

-- A senhora lê pensamentos?

Ela riu uma gargalhada gostosa e prosseguiu.

-- Isso é tudo o que o senhor precisava saber. Recolher-me-ei agora.

-- Senhora!! Sobre o meu sobrenome, como...

-- Estranho, não é mesmo? Mas coincidências existem e estão presentes a todo momento de nossas vidas. Em suas cartas de apresentação, li seu nome completo.

-- Ela teve uma morte natural?

-- Sim, meu jovem! Se o senhor ainda pretende mandar rezar uma missa na Igreja de São Judas, seremos eternamente gratas a você.

Claro que ela lia pensamentos. Como saberia de uma coisa dessa?

-- Senhora!! A inicial G abreviada já foi desvendada. Afinal, é meu sobrenome. E a inicial T?

-- Saberá antes de nascer a sua filha.

-- Minha filha??? – espantei-me.

E desapareceu pelo corredor. Desaparecer aqui não significa evaporar-se, não se assuste.

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