1981. O quadro.
Após um ano incessante de pesquisas, inclusive com o fim de meu namoro com Márcia, descobri quem tinha sido a misteriosa mulher retratada naquele quadro, que tanto me assustava.
Muitas vezes durante a pesquisa e toda vez que eu chegava próximo a um fato importante, eu sentia calafrios, desanimando-me a continuar. Mas a recordação da careta que ela me fazia quando eu a via na janela, impulsionava-me a desvendar a história.
O que mais marcou e me assustou foi o último lugar visitado: a mansão decadente de nobres franceses e ingleses no Morumbi. Depois de quase um mês, insistindo através de cartas, expondo a razão de eu estar ali, resolveram me atender.
O portão eletrônico se abriu e pude estacionar próximo à casa. Outrora aquela mansão viveu ares de nobreza, porém agora estava largada ao tempo, raspas de pintura se soltando das paredes, mármore Carrara imundo, jardins tomados pelo mato. Senti-me em um filme de terror, preocupadíssimo com o que encontraria lá dentro.
Um rapaz me conduziu à sala, enorme para os meu padrões de sala, onde se encontrava uma idosa, muito bem vestida. Sentei-me numa poltrona em frente da dela, tentei cumprimentar-lhe. Minha voz não saiu. Pior, senti meu cabelo e pelos do braço, e de todos os lugares do corpo arrepiarem.
Tentei me levantar e sair correndo de lá, mas quando apoiei minhas mãos na poltrona, a senhora me ordenou:
-- Fique onde você está!!
Como ela sabia que eu queria sair de lá? Pensei, então, em desculpar-me, ou que estava passando mal e que precisava ir embora.
-- Fique aí e fale!! O que o senhor deseja saber sobre minha tia?
Senti minha garganta, minha língua e boca ressecarem.
-- Rapaz!! Traga um copo de água fresca para esse senhor!
Não tinha percebido o rapaz atrás de mim, mas foi um alívio quando ele trouxe a água.
-- Fale agora!!
-- Eu queria saber o que aconteceu com a Sra. Marie Strodeau G. T. Cohen? Dados informam apenas o desaparecimento dela.
-- O que isso interessa a você?
-- Sinceramente, senhora, eu não sei o que me move a descobrir algo de uma pessoa que nem conheço. Eu passei a infância vendo o rosto dela, enquanto meus amigos e primos viam apenas um vaso na janela. Eu acho que ela me pôs em seu caminho, sinto algo muito forte dentro de mim, uma estreita ligação que não sei explicar.
-- Talvez por que ela tenha seu sobrenome. – disse-me afetivamente, com uma lágrima escorrendo em seu rosto.
Nem sei ao certo se era um lágrima. Talvez fosse uma gota de suor. Estava um forno lá dentro.
-- O meu sobrenome????
-- Sim, senhor André! Não descobriu ainda as iniciais abreviadas G e T?
Não entendo como não desmaiei naquele momento.
-- Ela não sumiu, não desapareceu. Apenas fugiu do mundo artístico. Queria paz para cuidar de seus dois filhos.
-- Apenas isso?
-- Senhor André!! O senhor não tem filhos... ainda. Daqui a alguns anos, entenderá isso.
-- A senhora lê pensamentos?
Ela riu uma gargalhada gostosa e prosseguiu.
-- Isso é tudo o que o senhor precisava saber. Recolher-me-ei agora.
-- Senhora!! Sobre o meu sobrenome, como...
-- Estranho, não é mesmo? Mas coincidências existem e estão presentes a todo momento de nossas vidas. Em suas cartas de apresentação, li seu nome completo.
-- Ela teve uma morte natural?
-- Sim, meu jovem! Se o senhor ainda pretende mandar rezar uma missa na Igreja de São Judas, seremos eternamente gratas a você.
Claro que ela lia pensamentos. Como saberia de uma coisa dessa?
-- Senhora!! A inicial G abreviada já foi desvendada. Afinal, é meu sobrenome. E a inicial T?
-- Saberá antes de nascer a sua filha.
-- Minha filha??? – espantei-me.
E desapareceu pelo corredor. Desaparecer aqui não significa evaporar-se, não se assuste.
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