sábado, 28 de março de 2009

2002. Um raio noturno de Luz.

Olha nos meus olhos
Esquece o que passou
Aqui neste momento
Silêncio e sentimento
Sou o teu poeta
Eu sou o teu cantor
Teu rei e teu escravo
Teu rio e tua estrada

Vem comigo, meu amado amigo
Nessa noite clara de verão
Seja sempre o meu melhor presente
Seja tudo sempre como é
É tudo que se quer

Leve como o vento
Quente como o sol
Em paz na claridade
Sem medo e sem saudade
Livre como o sonho
Alegre como a luz
Desejo e fantasia
Em plena harmonia

Eu sou teu homem, sou teu pai, teu filho
Sou aquele que te tem amor
Sou teu par, o teu melhor amigo
Vou contigo seja aonde for
E onde estiver, estou

Vem comigo, meu amado amigo,
Sou teu barco neste mar de amor
Sou a vela que te leva longe
Da tristeza, eu sei, eu vou
Onde estiver, estou
E onde estiver, estou.”
(Tudo o que se quer, canção interpretada por Verônica Sabino e Emílio Santiago)

Quando se está na rua, perdido na vida e na mendicância, perde-se a noção da passagem do tempo, troca-se apenas o dia pela noite. O Sol, vida, cede lugar às trevas. Seres notívagos vagueiam e se escondem em becos, praças, em esgotos.


Naquela noite eu não tinha conseguido dormir. Encostei-me à parede e meus pensamentos levaram-me até minha filha


Pela primeira vez, depois de sua morte, refleti a situação e o quanto ela devia estar sofrendo por ver-me um trapo. Percebi que tinha me tornado um covarde, um merecedor de dó, de compaixão, por não aceitar a ordem natural dos desígnios de Deus. Quão sofrimento eu tinha dado a meus pais!!!!!!


De repente, um clarão cegou-me momentaneamente os olhos. Pensei que fossem os faróis de um carro desgovernado que nos atropelaria. Empurrei o Sombra.


-- Por que fez isso, professor?


Toda a minha vida se projetou em minha frente, como um falshback, em segundos. Eu era professor. Estudei e trabalhei muito para me formar. Como pude me largar assim?


-- Está vendo o clarão, Sombra? Eu pensei que fosse um carro, mas não vem da rua... vem do céu. É uma luz belíssima, traz-me conforto.


...............
Numa noite de inverno, quando eu trabalhava em Cumbica, presenciei algo semelhante. Por volta das 23h, na escuridão, temperatura de 7º, aguardava o ônibus da empresa para voltar à capital. Enquanto isso, eu olhava o céu carregado e vivo de estrelas, em direção às Três-Marias.


Subitamente, um clarão entre as estrelas, muito distante, como se um pedacinho do céu se abrisse e surgisse, em frações de segundo, um arcoíris, com cores etéreas, puras, inimagináveis. Eu nunca tinha visto algo tão lindo. Do mesmo jeito que o céu se abriu, fechou-se também. Agradeci a Deus por aquele momento tão especial.


...............


-- Olha, Sombra!!! É a minha filha!!! (*)


-- Papai! Me dê sua mão, vamos agora para casa. Sua vida não é essa. Estou sofrendo muito, porque o senhor sofre também. Eu estou num lugar maravilhoso, rodeada de anjinhos, mas não consigo realizar meus trabalhos celestes, devido à angústia de te ver nesse estado.


-- (*)


-- Levante-se, papai! Volte a sua casa, recomece sua vida. Visite creches, asilos, orfanatos... cresça e se desenvolva espiritualmente.


-- Eu sinto muita saudade, filha! (*)


-- Eu também sinto, papai, mas minha alma está presa ao senhor. O mesmo que sente, eu sinto também. Eu estarei sempre com o senhor, em sonhos, todas as semanas. Mostrarei ao senhor aonde vivo. Para isso, é necessário que o senhor esteja bem e aceite a minha curta passagem pela Terra.


-- Está bem, filha!! (*)


-- Eu te amo, papai!! Deus o abençoe!!


O clarão dissipou-se, mas ela estava do meu lado.


-- Eu te amo, filha!! Que Deus sempre te abençoe, anjinho! (*)


Levantei-me, olhei para o lado, não vi o Sombra. Caminhei para a minha casa, completamente seguro e confiante na vida. Cheguei ao amanhecer.


Toquei a campainha do interfone da portaria. O zelador, recém-empregado, vendo minha figura repugnante, maltrapilha, suja, fedida, por pouco não chama a polícia.


-- Amigo! Eu sou morador deste prédio.


-- Sai daqui, antes que eu chame a polícia.


-- Antes de chamar a polícia, chame o síndico. Ele há de confirmar o que estou dizendo.


-- Está ficando louco? Se eu fizer isso, estarei na rua, por justa causa. Afaste-se daí, que abrirei o portão para um morador que está chegando.


Afastei-me para não criar mais confusão. Olhei para o morador que estava chegando. Ele me reconheceu.


-- André!! Que houve, meu amigo?


-- Não houve nada. Eu só quero entrar no meu apartamento, tomar um bom banho e dormir um pouco. Faça um favor para mim. Chame o síndico. Não quero criar problemas para o rapaz da portaria.


Dormi um sono restaurador de energias.


“Olha nos meus olhos, esquece o que passou aqui, neste momento, silêncio e sentimento, sou o teu poeta, eu sou o teu cantor...”

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