terça-feira, 26 de maio de 2009

“Minha querida mãezinha! Não se entristeça mais, acalme seu coração (...) A morte nada mais é que o ponto e vírgula: aquele sinalzinho de pontuação que significa pausa, sem ser o fim no que se escreve.”

O título acima é um trecho de uma carta psicografada. O filho de minha professora de português, Dona Juçara, desapareceu. Após um dia sem contato, os pais percorreram todo o trecho da Via Anchieta, estrada que leva ao litoral, à busca do filho ou de alguma história que os levasse a encontrar o carro dele.

Os dias se passaram, a angústia e o desespero tomaram conta da família. Nem hospitais, nem delegacias, nem necrotérios sabiam onde estava ou que fim tinha tomado o jovem.

Procuraram, então, um centro espírita. E foi lá que, através do trabalho da mediunidade, o filho comunicou-se com seus pais, dizendo que sofrera um assalto, que fora assassinado e seu corpo jogado no mato, num trecho da rodovia, próximo do litoral. Seu corpo foi “achado”, completamente desfigurado e em estado de putrefação, e enterrado numa vala comum em um cemitério de Santos, porque não apresentava nenhum documento que o identificasse; por isso, tinha sido enterrado como indigente.

Os pais foram a Santos e localizaram o corpo do filho no cemitério indicado.

Como o desespero se tornasse maior a cada dia, com revolta presente, continuaram a frequentar a casa espírita, onde recebiam paz e alívio aos coraçõe sofridos. Numa dessas vezes, o filho escreveu a carta pelas mãos do médium.
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Este é o final de minha história que continua a ser vivida. Mesmo que eu morra, a minha trajetória continuará por muitas gerações, através de meus filhos que casarão e terão os meus netos, que casarão e terão os meus bisnetos, que casarão...

Além disso, continuará com os meus amigos e seus filhos, e seus netos, com os meus sobrinhos, com os meus afilhados, com as minhas amigas, com desconhecidos.

Cada um tem a sua história de vida. Nela somos bons, mesquinhos, solidários, egoístas, somos sempre antitéticos e paradoxais.
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Quando eu era criança e fazia uma arte qualquer, minha mãe dizia que, se eu continuasse agindo daquela forma, eu iria ao Inferno, quando morresse, mas se eu fosse um bom menino eu iria ao céu e tornar-me-ia um anjo.
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Eu acho que estou no meio, entre os dois, numa espécie de purgatório, mas penso que tenho grandes chances de ser aprovado por São Pedro.

O final sempre continua, tal qual o ponto e vírgula.

sábado, 23 de maio de 2009

Noites vãs

Eram apenas dias de trabalho que culminavam em começos de noites vãs, sem graça, doídas. Até o dia que decidi que não mais ficaria em casa, após às 18h. Faria qualquer coisa. Sairia sem rumo, mas próximo a outras pessoas. Uma vez ouvi alguém dizer que existe solidão no meio de muitas pessoas, ou seja, não adiantava ficar ao lado de muita gente, se sua alma não estivesse bem. Era isso.

Inúmeras vezes saí acompanhado. Íamos a teatros, a cinemas, a passeios. Depois, quando amanhecia, sentia enorme culpa de não ter feito feliz minha acompanhante. Ela também se sentia sem graça diante de mim, de não ter-me proporcionado a felicidade que eu desejava. O que ela nunca entendeu é que o culpado sempre fui eu, e não ela.

Já senti meu coração frio e fechado. Já tentei até persuadi-lo, mas, em determinados momentos, eu não conseguia enganá-lo. Isso fazia com que eu me cobrasse, não a minha felicidade, mas o respeito e a felicidade de outrem.

“Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...”
(Mário de Sá-Carneiro)

Eu estava vivendo uma busca do próprio “eu”. Foi o meu momento de introspecção, egocentrismo e, graças a Deus, o finalmente da destruição não aconteceu.

Não aconteceu, porque comecei a distrair-me com as pessoas nas ruas, principalmente na Av. Paulista, onde eu costumo viver, porque a adoro.

A Avenida Paulista é muito linda. Uma mistura de arquitetura moderna e clássica. É possível ali recordar bons momentos da Paulicéia Desvairada, vivendo o cotidiano, o contemporâneo.

Parque Trianon. Já imaginou dançar uma valsa pelas alamedas de um parque, tendo como som contínuo o barulho de uma cidade grande? Lá é possível.

Aqui em São Paulo tudo é possível. Basta querer. Basta estar bem consigo mesmo. Foi isso que minha cidade me ensinou. Apesar de tantas barbaridades que ouvimos em noticiários todos os dias, é aqui que me sinto bem, que vivo, que respiro o dom de ser poeta.

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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Os sonhos se realizam – Final

Computador é como carro velho: dá problemas, mas com o tempo você aprende a identificá-los e a corrigi-los.

Sugeri à Sra. Judite que comprasse um. Ela animou-se com a ideia de ter a oportunidade de conhecer alguém em salas de bate-papo. E também seria uma boa ferramenta de trabalhos escolares aos pequenos, desde que vigiados sempre.

Com o tempo, aprendeu a lidar com a máquina e, principalmente, com as armadilhas do Chat. Entretanto, aconteceu também um interesse entre ela e um homem, Mário, morador de Recife, Pernambuco. Durante algum tempo, trocaram, virtualmente, juras de amor e promessas de união matrimonial.

Mário foi ao Guarujá e foi recebido na casa dos pais de Sra. Judite. O receio inicial dissipou-se rapidamente. Ficou na cidade uma semana e convidou a família a conhecer Recife. Um mês depois, Sr. João e esposa, Sra. Judite e as crianças foram a Pernambuco.

Devo fazer um aparte necessário, agora. Mário é médico, seis anos mais velho que Sra. Judite. O que mais me impressionou nele foi a semelhança com Marquinhos. Eu diria, convicto, se eu não os conhecesse, que Mário é o pai de Marquinhos. Incrível a semelhança: Marquinhos é “o rosto de Mário, esculpido em Carrara”, ou, como prefere o povo: “Marquinhos é a cara do pai, cuspido e escarrado (ou guspido e cagado)”.

Sim! Existe amor na primeira teclada virtual.

O enlace matrimonial aconteceu na cidade de São Paulo, na Igreja Nossa Senhora do Brasil, nos Jardins. Presentes, estavam não só toda a família de Sra. Judite, como também a família de Mário, pais, tios e primos, eu (um dos padrinhos), a família do Sr. João, vizinhos e amigos do Guarujá, Marmitão, e penetras. Depois da cerimônia, voltamos ao Guarujá, em um comboio alegre, acompanhado de Batedores da Polícia Rodoviária. A festa foi na praia, inesquecível.

Atualmente, a nova família mora em Recife.

Os sonhos realmente se realizam: as crianças estão ótimas, obrigado! Adaptaram-se facilmente em Recife, têm mamãe e papai que os amam, vovôs e vovós maternos e paternos carinhosos, que vivem enchendo-os de guloseimas, brinquedos, batata frita, refrigerantes, pipoca, etc, etc, etc. Sra. Judite e Mário amam-se, são felizes.

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Dra. Nádia

Vejam só que interessante!

Já tenho computador há muito tempo. Antes eu usava apenas o Word, escrevendo meus textos jornalísticos ou preparando alguma prova ou pesquisa escolar. Internet, nem pensar, porque eu não tinha tempo para isso.

Uma vez, decidi assaltar a geladeira, no meio de um trabalho de pesquisa e digitação. Eu estava tão entretido com a matéria que, ao preparar um sanduíche, coloquei um caroço de azeitona, sem a azeitona.

A primeira mordida foi fatal. Quebrou um dente.

No dia seguinte, cedo, telefonei a minha dentista, Dra. Nádia. Marcamos um horário, que aconteceu no período da tarde.

-- Oi, Nádia!! Quanto tempo, né?

-- Pensei que nunca mais fosse ver você, André! Você some. Aliás, desde a infância não perde essa sua mania.

Nádia foi uma amiga de infância. Sempre quis ser dentista. Realizou todos os seus sonhos de infância: tornou-se dentista, casou-se com um médico e tiveram um filho.

-- Você é a mesma chata de sempre, Nádia!

Sempre tive um medo terrível de dentistas. Se fosse possível compará-los aos filmes de terror de hoje em dia, certamente o escolhido seria o Chuck, aquele boneco descabelado, irônico e ruim.

-- André!! Soube que você se separou da esposa. Está namorando?

-- “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor” – respondi, cantando.

-- Você tem Internet, amiguinho?

-- Não tenho tempo para isso, Nádia!

-- Hoje, há salas de bate-papo. Assine a Internet e entre numa dessas salas. Em breve, você deixará de ser esse chato que é hoje. Você precisa de uma companheira, amigo.

-- Nádia!

-- Oi, André!

-- Faça seu serviço, por favor!! E que doa o menos possível, tá?

-- Cabeça dura! Teimoso! Turrão!

Às vezes acho que as mulheres, mesmo as que não se conhecem, combinam seus xingamentos, porque todas me xingam da mesma forma acima. Por que será? Nunca consegui entender isso.

Depois de “reparado” o dente, voltei a casa. E fiquei pensando no “troço” de Internet. Pensei por alguns meses e resolvi comprar um modem e instalar a Internet.

Uma vez feito isso, entrei numa sala de bate-papo. Mas isso não irei contar agora.

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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um herói

André foi sepultado com todas as honras militares.

Marquinhos fez questão de estar no velório e acompanhar a homenagem, no cemitério. Chorou, apenas, por estar neste lugar. Assim que o último tostão de terra foi lançado pela pá, ajoelhou-se e rezou, chorando, pedindo a Deus que desculpasse seu pai e que o tivesse em Seus Braços.

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Sr. João tentou recolhê-lo em seu colo, mas o pequeno levantou-se e abriu os bracinhos para mim:

-- Titio!

-- Vem, meu amor!

(*)

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(Vou até ali na área, respirar um pouco)
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Sr. Abílio não foi ao enterro. Esteve no velório, visivelmente sob efeitos de remédios, amparado pela família. Do lado do corpo de seu filho, fez um discurso, emocionado.

-- Filho! Querido e amado por sua mãe e por seu pai. Talvez se eu não fosse tão rígido, teria você a meu lado hoje, e eu, como seu orgulho. Eu errei em sua educação, não o criei como criança, não respeitei seus momentos infantis. Tentei educá-lo da forma que meu pai me educou, mas me esqueci de que o tempo não para. As tecnologias avançam a cada segundo, e a educação acompanha-as nesse ritmo frenético. Que adiantam palavras de arrependimento se não o terei de volta? Pois bem, filho! Aqui, curvado a seu corpo, e ajoelhado diante de sua alma, eu lhe prometo que não haverá mais acidentes em dias nevoentos. Nossos colegas de farda voltarão todos os dias a suas casas, depois de cumprirem sua missão; nosso povo viajará tranquilo por nossas estradas, em qualquer época do ano.

Um mês depois do trágico acidente, a polícia rodoviária estadual iniciou a “operação descida”, em dias nevoentos. Em determinados horários, os automóveis eram parados no pedágio e seguiam viagem em comboio, tendo à frente viaturas da Polícia Rodoviária.

Sr. Abílio foi homenageado pela Corporação e pelo Governo do Estado, dez dias antes de sua morte. Reduziu em 98% os acidentes nas rodovias, em dias de neblina.

Em seu leito de morte, com um sorriso vitorioso nos lábios, pediu que colocassem, sentado Marquinhos, em sua barriga. Cochichou algo no ouvido dele e descansou a cabeça no colo de Deus.

Um herói, Sr. Abílio! O senhor é, indubitavelmente, um herói.

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terça-feira, 19 de maio de 2009

Neblina, Serra do Mar, Via Anchieta

Em uma manhã nevoenta e fria de final de junho, no começo da “descida” na Serra do Mar, trecho sinuoso da Via Anchieta até a Baixada Santista, houve um acidente, envolvendo automóveis e caminhões.

Os motoristas de outros veículos que vinham atrás mal enxergavam a ponta de seu próprio nariz, tal era a neblina no trecho. Quando se deparavam com o enorme acidente, de forma repentina, acionavam o breque de seus carros, provocando outros acidentes. A narração e a descrição que seguem, abaixo, é de um deles.

-- Eu não perdi minha vida, porque saí rapidamente do carro e atirei-me no mato. De lá, com o coração acelerado, eu via toda a cena de horror e ouvia sons de batida, estrada acima. Vi quando chegou a primeira viatura da polícia rodoviária. Acreditei que, naquele momento, outras viaturas já estivessem bloqueando a estrada. Dois policiais saíram da viatura e foram prestar os primeiros socorros às vítimas. Eu saí do mato, com as pernas tremendo, e já me dirigia ao local do enorme acidente, a fim de ajudar também. De repente, um automóvel desgovernado, batendo na grade de proteção da via e rodopiando, atropelou um dos policiais, lançando-o à frente e passando por cima do corpo, matando-o. Senti-me impotente, medroso, não conseguindo, inclusive, voltar para onde eu estava. Fiquei entre a faixa do acostamento e a pista. O desespero tomou conta de todos que lá estavam. Alguns, fora de seus carros, tentando salvar seus parentes e amigos, implorando ajuda; outros, dentro carro, chorando e gritando de dor. De repente, um vulto rápido e assustador passou pertíssimo de mim: era um motociclista que, ao me ver, desviou-se a tempo, não conseguindo fazer o mesmo mais à frente. Atropelou duas pessoas que estavam na pista. O horror estava instalado. Foram apenas minutos violentos e sangrentos de que, tenho certeza, durarão para o resto de minha vida.

Quase cinco dezenas de feridos. Em hospitais da Baixada, morreram 6 pessoas; na estrada, oito; entre eles, o policial rodoviário André, durante o cumprimento de seu dever.

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domingo, 17 de maio de 2009

(André)

Meu nome é André. Nunca me preocupei de saber significados de nomes; portanto, desconheço o do meu, se é que haja um. Na verdade, é meu nome “brasileiro”, uma vez que fui registrado nessa abençoada terra, aos dois meses e meio de idade. Abracei o Brasil e fui abraçado pelos brasileiros de uma tal forma carinhosa, que às vezes me pego dizendo que nasci aqui, como você pôde já ter lido em alguns trechos deste livro.

Meu sobrenome advém de uma linhagem franco-austríaca. Um general francês, provavelmente em férias, resolveu passear em terras austríacas. Lá conheceu minha bisavó, fixou residência e deu seu sobrenome à família de meu pai. Minha mãe é portuguesa, de uma pequena aldeia ao norte de Portugal. Conheci, como vocês já sabem, meus avós e tios e primos maternos. Orgulho-me da árvore genealógica da família.

Cresci num bairro de classe média, tendo como vizinhos e amigos pessoas carentes de uma comunidade próxima. Muita gente de meu bairro não entendia o porquê de um “alemãozinho” fazer parte da turma do pé-sujo (jogávamos bola em terrenos lamacentos) e, pior, segundo eles, de frequentar rodas-de-samba.

Eu me orgulho de todos os meus amigos. Serão sempre muito importantes para mim, a tal ponto de eu caracterizá-los como universais. Acredito que, assim como a família, os amigos verdadeiros são a base de qualquer estrutura. Se você a tem, mesmo que esteja passando por dificuldades, financeiras ou de saúde, haverá o equilíbrio.

-- Esse menino sempre foi brasileiro! – é o que meu pai sempre afirmou. – Sempre gostou de samba, de jogar bola nesse lamaçal, de se arrebentar em escorregões. Devia ser corinthiano, para completar.

Lembro-me de que, em minha turma, também havia um André. Era o quinto filho de uma família só de meninas. Seus pais viviam na mendicância e colocava-os a pedir esmolas nas ruas.

Meu amigo, André, respeitava a decisão de seus pais e cumpri-as à risca, mas depois disso, frequentava uma oficina mecânica. Ficava lá só observando.

Uma vez, o dono da oficina pediu que ele limpasse o chão, porque estava escorregadio de tanto óleo esparramado. E André foi ficando e ganhando a confiança de todos.

Num determinado sábado, André resolveu dormir na oficina, para limpá-la durante o domingo. Sua curiosidade e sua vontade de aprender era tão grande que, ao invés de dormir, resolveu mexer nos motores de alguns carros. Nasceu, assim, um profissional.

André trabalhou como mecânico-chefe por vários anos na mesma oficina. Um dia, foi convidado a fazer um curso no Canadá.

Nunca mais o vi, mas tenho certeza que hoje está aposentado e é um bom chefe de família.

São exemplos como esse que esperamos de nossas crianças, carentes ou não. Vencerem na vida pelo que representam, apenas.

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