quarta-feira, 1 de abril de 2009

Há vida, querendo ser vivida -- II
Assim que meu pai saiu, a enfermeira me cobriu com o lençol e se afastou.
-- (Moça!! Não faça isso! Estou vivo.)
Algum tempo depois, em meio ao silêncio, ouvi um “psiu”.
-- Psiu! Ei, cara!! Sente aí na sua maca e vamos bater um papo.
-- Não consigo nem tirar o lençol para respirar, quanto mais sentar-me.
-- Você consegue sim. Faça um esforço.
-- Me ajuda, por favor!
-- Eu não posso te ajudar. Só você tem de fazer isso.
Fiz um esforço enorme para levantar meu corpo, mas só consegui mexer o braço direito e, com muita dificuldade, tirei o lençol de minha cabeça..
-- Cadê você, amigo?
Não tinha ninguém, isto é, não tinha ninguém vivo ali. Será que eu estava morto também? Será que realmente eu tinha conseguido descobrir minha cabeça?
Momentos depois ouvi vozes de mulheres e percebi uma enfermeira passando nos corredores formados pelas macas. Tentei chamá-la, mas minha voz não saía.
-- Acalme-se e concentre-se! Arranque a palavra do fundo de sua garganta e grite.
Era a mesma voz. Já tinha me ajudado antes. Acalmei-me. Percebi que a enfermeira estava perto de mim.
-- (Moça! A senhora está me ouvindo?)
A enfermeira parou a meu lado e perguntou à colega que estava mais à frente:
-- Nilde! Foi você que tirou o lençol da cabeça do 32?
-- Nem passei perto, querida.
Eu não estava morto. Eu mesmo tirei o lençol.
-- Que estranho! Eu o cobri, assim que o pai dele saiu daqui.
-- Cubra-o novamente, querida.
-- (Não faça isso, enfermeira.)
Ela fez.
-- Sua filha da putaaaaaaaaaaa!!!
Minha voz saiu. Infelizmente foi com esse palavrão dirigido a ela. Até eu me assustei. A enfermeira voltou e tirou o lençol que me cobria. Com dificuldade, abri os olhos.
-- Filho da puta é você, seu corno safado! – respondeu-me, assustada.
Foram as palavras mais doces que já tinha ouvido na minha vida.
-- A senhora é muito bonita, enfermeira! Desculpa-me!
Minutos depois, já havia uma junta de médicos me examinando ali mesmo.
-- A barriga dele está inchada. – disse um dos médicos. – Vamos fazer uma punção agora.
-- Doutor, minha barriga está normal. O que tem aí é chope.
-- Ele está delirando. A anestesia, enfermeira!
-- Não, doutor! Pelo amor de Deus, eu não quero dormir. Faça a punção aí, eu prometo ficar quieto.
A anestesia foi aplicada e foram três punções, sempre acompanhadas de um “ai, seu filho da puta!”
-- O cara tá acordado ainda. E ele tem razão: é barriga de chope mesmo.
Eu fiquei grogue, mas não dormi. Fui levado ao Centro de Recuperação. Ouvi a conversa dos médicos, as análises que tinham comprovado meu óbito. Ao final, um deles se aproximou de meu ouvido e disse:
-- Não me esqueci de que me chamou de filho da puta. Quando você sair do hospital, vou quebrar seu narigão.
-- Obrigado, doutor!
-- Puta que pariu!! Este cara ainda está acordado!!
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