domingo, 12 de abril de 2009

Minha amiga.

Na noite de domingo para segunda, sonhei com minha filha. Ela sabia que eu estava triste. Eu procurei confortá-la dizendo que nada mais me faria voltar às ruas. Por sua vez, ela pediu-me calma, muita paz de espírito, a fim de que eu conseguisse refletir sobre toda situação que envolvia a adoção das crianças. Prometeu-me que estaria a meu lado sempre, que ficaria imensamente feliz se a Fefê e o Marquinhos fossem meus filhos. Ao final da conversa, beijou-me o rosto e eu acordei.

Fiquei na cama alguns minutos, refletindo sobre a situação. Lembrei-me daquela amiga que sempre disse ser apaixonada por mim. Pronto! Ela poderia ser a solução, mesmo sabendo que eu não a amava. Resolvi telefonar para ela.

-- Bom dia, Laís! Tudo bem?

-- Oiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Estou ótima! E você, André?

-- Estou bem! Faz tempo que a gente não se encontra. Você se casou, Laís? – perguntei-lhe, brincando (na verdade, não foi bem uma brincadeira).

-- (risos) Ainda não...

-- Como assim “ainda não”?

-- Estou namorando há 2 meses.

Putz!! Que azar!!

-- Mas você o ama?

-- Eu gosto dele. É muito carinhoso, sempre preocupado comigo. Ganho flores dele, quase todos os dias.

-- Gostar não é amar. Pelo visto, esse cara te ama!!

-- Ué!! O que está havendo, André? Está com ciúmes de mim ou virou conselheiro amoroso?

-- Mudando de assunto, Laís... eu preciso conversar com você.

-- Poderíamos, nós três, jantar qualquer noite dessa semana. Aí vocês se conheceriam.

-- Eu preciso conversar com você, a sós. Não estou interessado em seu namorado!

-- (gargalhada)

-- Podemos jantar então na quinta?

-- Não poderei. Na quinta, eu e meu namorado iremos ao cinema.

-- Na sexta?

-- Também não. Iremos ao teatro.

-- Quando então, Laís?

-- Sei lá!! Qualquer noite dessas!! Me ligue na segunda.

-- Já sei o que farei. Na quinta à noite, irei à casa de seu pai. Você estará com o seu namoradinho no cinema. Faz tempo que eu não converso com o “seu” Rodrigo. Ele também ficará contente em me ver.

-- E o que vai conversar com ele?

-- Muitos assuntos.

-- Aos domingos, eu fico com o Brian até às 11h da manhã. Se você quiser, poderemos almoçar juntos.

-- Domingo? Não! Eu tenho compromisso.

-- Hummmmmmmmm!! Está namorando?

-- Não estou.

-- Eu posso cancelar o cinema da quinta, se você quiser.

-- Não! Vá ao cinema com o Brian! Ficarei bem com o seu pai. Ele sabe de seu namoro com o coreano?

-- O Brian não é coreano! E o meu pai sabe sim e até gosta dele.

-- O seu pai gosta dele? Duvido! O seu pai gosta de mim.

-- Puta que pariu!! Você é muito convencido, André!

-- Está bem, Laís! Qualquer dia a gente se fala. Felicidades em seu namoro com o chinês. Beijos!

-- O Brian não é chinês.

Desliguei o telefone. Alguma coisa me dizia que ela estava mentindo para mim. Se eu forçasse mais um pouco, ela me contaria a verdade. Mas eu não quis deixá-la chateada.

Na terça-feira, ela me telefonou à noite, dizendo que estava indo ao meu apartamento com o namorado. Fiquei decepcionado. Então ela falava a verdade!! Estava tendo um namoro sério.
Desliguei a televisão, liguei o som e inseri um CD de músicas românticas, e aguardei os pombinhos.
Chegaram vinte minutos depois.

-- Oi, André!! – cumprimentou-me com um abraço e um beijo no rosto.

-- Oi, Laís!! Linda, como sempre!

Brian vinha logo atrás dela, escondido. Laís é uma mulher alta, ruiva, olhos verdes... verdadeiramente um tela rara, belíssima। Brian é um sujeito franzino, esquálido, baixinho. E feio pra cacete!!

-- Este é o Brian, André!!

-- Olá, Brian!! Seja bem-vindo em minha casa! – estiquei-lhe a mão para cumprimentá-lo. Ele veio a mim e me abraçou. Sua cabeça não chegou nem no meu peito.

Vocês podem estar imaginando que estou a exagerar na descrição física de Brian. O único exagero de minha parte foi não entender o que Laís viu de bom naquele sujeitinho.
O abraço dele foi mais apertado que o de Laís, a ponto de eu afastar meu quadril, para não sentir nada em meu joelho.

-- Esse CD que está tocando é aquele que eu adoro, André?

-- Sim.

Olhou-me, mordendo os lábios, como estivesse se lembrando de alguns momentos nossos. Tratei de disfarçar, e conversar com o Brian.

-- Você é um homem de sorte. Tem uma linda mulher e uma boa companhia a seu lado.

-- Ambos nos completamos.

-- Isso é bom! O sr. Rodrigo deve estar feliz com a união de vocês.

-- Quem é o sr. Rodrigo? – perguntou-me.

Olhei sério para a Laís. Ela havia mentido para mim.

-- Brian! O sr. Rodrigo é o meu pai. Não se lembra dele?

O rapaz ficou vermelho na hora.

-- Realmente eu tinha me esquecido dele. A pergunta do André me causou surpresa.

Laís levantou-se, foi ao bar e preparou drinques para nós.

-- Desculpe-me, Brian!! Não foi minha intenção. Laís tinha me dito que o sr. Rodrigo gostou muito de você. Por isso, perguntei.

Antes de falar, Brian ajeitou-se na poltrona. Confesso que, naquela hora, deu-me a impressão de ele ter desmunhecado. Foi tão delicado ao se ajeitar, que cheguei a pensar que ele era homossexual.

-- Quem deve pedir desculpas sou eu. Ando meio desligado do mundo, com o pensamento em outros lugares. Sou tímido também. Talvez bebendo um pouco, eu consiga me soltar um pouco mais.

-- Olha, Brian!! Fique à vontade aqui. O que tiver de falar, fale. Sou apenas um amigo de sua futura esposa.

Laís veio com os drinques.

-- Obrigado, amor! Você parece à vontade no apartamento do André. Conhece todos os cômodos?

-- Por que você não faz a pergunta direta, Brian?

-- Eu só perguntei se você conhece todos os cômodos. Não precisa ficar nervosa, amor!

-- Sim, eu conheço o QUARTO dele. Não me perco lá nem no escuro. É isso que você queria ouvir, Brian?

-- Gente!! Estou aqui, tá? Deixe pra lá essas cenas de ciúmes, Brian!! Quando aconteceu você não era nem nascido ainda.

Não pude deixar de dar uma cutucada também. Mas o baixinho ficou bravo.

-- Não liga não, Brian!! Foi só força de expressão!! Vamos tomar nossos drinques e conversar sobre outros assuntos.

-- Isso mesmo, Brian! Não viemos aqui para brigarmos – disse isso, deslizando a mão na perna dele.

Depois de mais quatro copos de whiskie, Brian estava mais relaxado e começou a se insinuar para mim.

-- Dezinho, você mostra o seu quarto para mim? – perguntou-me num tom mais delicado que o da própria Laís.

-- Laís, seu namorado é homossexual.

-- Eu sei, André!

-- Ô garoto!! Você está em minha casa, foi bem recebido aqui, mas para por aí. Entendeu bem?

-- O que você tem contra os homossexuais, Dezinho?

-- Eu não tenho nada contra e muito menos a favor. Você chegou como homem aqui, como namorado de minha amiga, essa doida que está a seu lado. Eu não permito que você se insinue, tampouco que me chame de Dezinho ou outro apelido qualquer.

-- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Só quero conhecer a sua cama...

Levantei-me da poltrona. Jogar o esquálido homossexual pela janela passou por minha cabeça. Entretanto, ele não era o culpado. Deve ser cabeleireiro da Laís, que o contratou para ser o seu namorado por essa noite, com o único objetivo de me provocar.

-- Gostaria de que vocês dois fossem embora.

-- Ainnnnnn!! Que mal educado!! Não sairei daqui antes de conhecer a sua cama.

-- Ahh!! Sairá sim, bichona!! – já disse isso, pegando-o pela nuca e levando-o até a porta.

-- André, não faça isso, por favor!! Ele está bêbado!!

Abri a porta, empurrei-o para fora, chutando-lhe, com vontade, a bunda. Fechei imediatamente a porta e interfonei ao zelador, pedindo que retirasse o vagabundo do prédio.

-- Eu também vou embora, seu grosso!!

-- Não!! Ficará aqui, que quero conversar com você. Ele se vira.

-- Você nunca quis o meu amor e agora está me afastando de meus amigos. – disse, choramingando.

-- Laís! Sente-se um pouco, por favor! Preciso realmente conversar com você.

-- Quero outro whiskie!

-- Não agora! Daqui a pouco, está bem?

Nem me ouviu. Foi ao bar e preparou uma dose dupla, sem gelo. E voltou com a cara amarrada para o sofá.

-- O que você quer, André? Fala logo, que eu quero sair daqui.

-- Há alguns meses eu conheci duas crianças órfãs. Visito-as todos os domingos, no Convento onde moram...

-- Foi por isso que me disse que não poderia almoçar comigo no domingo?

-- Sim, foi por isso.

-- Está apaixonado pelas crianças, André?

-- Completamente! Posso continuar?

Laís descansou o copo na mesa central, enxugou as lágrimas, se recompôs, e sentou-se a minha frente, sorrindo um sorriso muito doce.

-- Continue, querido!

-- Eu vou direto ao ponto, Laís!

-- Sim, seja objetivo!

-- Para adotá-los, o Convento exige que eu me case...

Laís desatou a rir e não parava mais. Olhava para mim e gargalhava. Levantou-se novamente, foi ao banheiro, sempre gargalhando, fechou a porta, e permaneceu lá dentro. Saiu vinte minutos depois, dizendo que havia feito xixi na calcinha. Emprestei-lhe uma bermuda.

-- Posso continuar, Laís?

-- Você só pode estar brincando comigo.

-- Não estou brincando.

-- Considerando que você não esteja brincando, me responda: com quem você pretende se casar?

-- É essa pergunta que me faço todos os dias. Eu não sei a resposta, Laís! Estou aqui pedindo que você me ajude.

-- Passou por sua cabeça se casar comigo?

-- Sim.

-- Você se casaria comigo apenas para adotar as crianças?

-- Laís, eu não quero que você se ofenda com isso.

Levantei-me atordoado. Na minha obsessão de adotar as crianças, não tinha refletido que eu poderia causar tristeza à Laís. Fiquei envergonhado dessa minha atitude.

-- André!! Te fiz uma pergunta: você se casaria comigo apenas para adotar as crianças?

-- Sim, Laís! Eu me casaria sim.
Laís desmaiou na पोल्त्रोना