Minha amiga.
Na noite de domingo para segunda, sonhei com minha filha. Ela sabia que eu estava triste. Eu procurei confortá-la dizendo que nada mais me faria voltar às ruas. Por sua vez, ela pediu-me calma, muita paz de espírito, a fim de que eu conseguisse refletir sobre toda situação que envolvia a adoção das crianças. Prometeu-me que estaria a meu lado sempre, que ficaria imensamente feliz se a Fefê e o Marquinhos fossem meus filhos. Ao final da conversa, beijou-me o rosto e eu acordei.
Fiquei na cama alguns minutos, refletindo sobre a situação. Lembrei-me daquela amiga que sempre disse ser apaixonada por mim. Pronto! Ela poderia ser a solução, mesmo sabendo que eu não a amava. Resolvi telefonar para ela.
-- Bom dia, Laís! Tudo bem?
-- Oiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Estou ótima! E você, André?
-- Estou bem! Faz tempo que a gente não se encontra. Você se casou, Laís? – perguntei-lhe, brincando (na verdade, não foi bem uma brincadeira).
-- (risos) Ainda não...
-- Como assim “ainda não”?
-- Estou namorando há 2 meses.
Putz!! Que azar!!
-- Mas você o ama?
-- Eu gosto dele. É muito carinhoso, sempre preocupado comigo. Ganho flores dele, quase todos os dias.
-- Gostar não é amar. Pelo visto, esse cara te ama!!
-- Ué!! O que está havendo, André? Está com ciúmes de mim ou virou conselheiro amoroso?
-- Mudando de assunto, Laís... eu preciso conversar com você.
-- Poderíamos, nós três, jantar qualquer noite dessa semana. Aí vocês se conheceriam.
-- Eu preciso conversar com você, a sós. Não estou interessado em seu namorado!
-- (gargalhada)
-- Podemos jantar então na quinta?
-- Não poderei. Na quinta, eu e meu namorado iremos ao cinema.
-- Na sexta?
-- Também não. Iremos ao teatro.
-- Quando então, Laís?
-- Sei lá!! Qualquer noite dessas!! Me ligue na segunda.
-- Já sei o que farei. Na quinta à noite, irei à casa de seu pai. Você estará com o seu namoradinho no cinema. Faz tempo que eu não converso com o “seu” Rodrigo. Ele também ficará contente em me ver.
-- E o que vai conversar com ele?
-- Muitos assuntos.
-- Aos domingos, eu fico com o Brian até às 11h da manhã. Se você quiser, poderemos almoçar juntos.
-- Domingo? Não! Eu tenho compromisso.
-- Hummmmmmmmm!! Está namorando?
-- Não estou.
-- Eu posso cancelar o cinema da quinta, se você quiser.
-- Não! Vá ao cinema com o Brian! Ficarei bem com o seu pai. Ele sabe de seu namoro com o coreano?
-- O Brian não é coreano! E o meu pai sabe sim e até gosta dele.
-- O seu pai gosta dele? Duvido! O seu pai gosta de mim.
-- Puta que pariu!! Você é muito convencido, André!
-- Está bem, Laís! Qualquer dia a gente se fala. Felicidades em seu namoro com o chinês. Beijos!
-- O Brian não é chinês.
Desliguei o telefone. Alguma coisa me dizia que ela estava mentindo para mim. Se eu forçasse mais um pouco, ela me contaria a verdade. Mas eu não quis deixá-la chateada.
Na terça-feira, ela me telefonou à noite, dizendo que estava indo ao meu apartamento com o namorado. Fiquei decepcionado. Então ela falava a verdade!! Estava tendo um namoro sério.
Desliguei a televisão, liguei o som e inseri um CD de músicas românticas, e aguardei os pombinhos.
Chegaram vinte minutos depois.
-- Oi, André!! – cumprimentou-me com um abraço e um beijo no rosto.
-- Oi, Laís!! Linda, como sempre!
Brian vinha logo atrás dela, escondido. Laís é uma mulher alta, ruiva, olhos verdes... verdadeiramente um tela rara, belíssima। Brian é um sujeito franzino, esquálido, baixinho. E feio pra cacete!!
-- Este é o Brian, André!!
-- Olá, Brian!! Seja bem-vindo em minha casa! – estiquei-lhe a mão para cumprimentá-lo. Ele veio a mim e me abraçou. Sua cabeça não chegou nem no meu peito.
Vocês podem estar imaginando que estou a exagerar na descrição física de Brian. O único exagero de minha parte foi não entender o que Laís viu de bom naquele sujeitinho.
O abraço dele foi mais apertado que o de Laís, a ponto de eu afastar meu quadril, para não sentir nada em meu joelho.
-- Esse CD que está tocando é aquele que eu adoro, André?
-- Sim.
Olhou-me, mordendo os lábios, como estivesse se lembrando de alguns momentos nossos. Tratei de disfarçar, e conversar com o Brian.
-- Você é um homem de sorte. Tem uma linda mulher e uma boa companhia a seu lado.
-- Ambos nos completamos.
-- Isso é bom! O sr. Rodrigo deve estar feliz com a união de vocês.
-- Quem é o sr. Rodrigo? – perguntou-me.
Olhei sério para a Laís. Ela havia mentido para mim.
-- Brian! O sr. Rodrigo é o meu pai. Não se lembra dele?
O rapaz ficou vermelho na hora.
-- Realmente eu tinha me esquecido dele. A pergunta do André me causou surpresa.
Laís levantou-se, foi ao bar e preparou drinques para nós.
-- Desculpe-me, Brian!! Não foi minha intenção. Laís tinha me dito que o sr. Rodrigo gostou muito de você. Por isso, perguntei.
Antes de falar, Brian ajeitou-se na poltrona. Confesso que, naquela hora, deu-me a impressão de ele ter desmunhecado. Foi tão delicado ao se ajeitar, que cheguei a pensar que ele era homossexual.
-- Quem deve pedir desculpas sou eu. Ando meio desligado do mundo, com o pensamento em outros lugares. Sou tímido também. Talvez bebendo um pouco, eu consiga me soltar um pouco mais.
-- Olha, Brian!! Fique à vontade aqui. O que tiver de falar, fale. Sou apenas um amigo de sua futura esposa.
Laís veio com os drinques.
-- Obrigado, amor! Você parece à vontade no apartamento do André. Conhece todos os cômodos?
-- Por que você não faz a pergunta direta, Brian?
-- Eu só perguntei se você conhece todos os cômodos. Não precisa ficar nervosa, amor!
-- Sim, eu conheço o QUARTO dele. Não me perco lá nem no escuro. É isso que você queria ouvir, Brian?
-- Gente!! Estou aqui, tá? Deixe pra lá essas cenas de ciúmes, Brian!! Quando aconteceu você não era nem nascido ainda.
Não pude deixar de dar uma cutucada também. Mas o baixinho ficou bravo.
-- Não liga não, Brian!! Foi só força de expressão!! Vamos tomar nossos drinques e conversar sobre outros assuntos.
-- Isso mesmo, Brian! Não viemos aqui para brigarmos – disse isso, deslizando a mão na perna dele.
Depois de mais quatro copos de whiskie, Brian estava mais relaxado e começou a se insinuar para mim.
-- Dezinho, você mostra o seu quarto para mim? – perguntou-me num tom mais delicado que o da própria Laís.
-- Laís, seu namorado é homossexual.
-- Eu sei, André!
-- Ô garoto!! Você está em minha casa, foi bem recebido aqui, mas para por aí. Entendeu bem?
-- O que você tem contra os homossexuais, Dezinho?
-- Eu não tenho nada contra e muito menos a favor. Você chegou como homem aqui, como namorado de minha amiga, essa doida que está a seu lado. Eu não permito que você se insinue, tampouco que me chame de Dezinho ou outro apelido qualquer.
-- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Só quero conhecer a sua cama...
Levantei-me da poltrona. Jogar o esquálido homossexual pela janela passou por minha cabeça. Entretanto, ele não era o culpado. Deve ser cabeleireiro da Laís, que o contratou para ser o seu namorado por essa noite, com o único objetivo de me provocar.
-- Gostaria de que vocês dois fossem embora.
-- Ainnnnnn!! Que mal educado!! Não sairei daqui antes de conhecer a sua cama.
-- Ahh!! Sairá sim, bichona!! – já disse isso, pegando-o pela nuca e levando-o até a porta.
-- André, não faça isso, por favor!! Ele está bêbado!!
Abri a porta, empurrei-o para fora, chutando-lhe, com vontade, a bunda. Fechei imediatamente a porta e interfonei ao zelador, pedindo que retirasse o vagabundo do prédio.
-- Eu também vou embora, seu grosso!!
-- Não!! Ficará aqui, que quero conversar com você. Ele se vira.
-- Você nunca quis o meu amor e agora está me afastando de meus amigos. – disse, choramingando.
-- Laís! Sente-se um pouco, por favor! Preciso realmente conversar com você.
-- Quero outro whiskie!
-- Não agora! Daqui a pouco, está bem?
Nem me ouviu. Foi ao bar e preparou uma dose dupla, sem gelo. E voltou com a cara amarrada para o sofá.
-- O que você quer, André? Fala logo, que eu quero sair daqui.
-- Há alguns meses eu conheci duas crianças órfãs. Visito-as todos os domingos, no Convento onde moram...
-- Foi por isso que me disse que não poderia almoçar comigo no domingo?
-- Sim, foi por isso.
-- Está apaixonado pelas crianças, André?
-- Completamente! Posso continuar?
Laís descansou o copo na mesa central, enxugou as lágrimas, se recompôs, e sentou-se a minha frente, sorrindo um sorriso muito doce.
-- Continue, querido!
-- Eu vou direto ao ponto, Laís!
-- Sim, seja objetivo!
-- Para adotá-los, o Convento exige que eu me case...
Laís desatou a rir e não parava mais. Olhava para mim e gargalhava. Levantou-se novamente, foi ao banheiro, sempre gargalhando, fechou a porta, e permaneceu lá dentro. Saiu vinte minutos depois, dizendo que havia feito xixi na calcinha. Emprestei-lhe uma bermuda.
-- Posso continuar, Laís?
-- Você só pode estar brincando comigo.
-- Não estou brincando.
-- Considerando que você não esteja brincando, me responda: com quem você pretende se casar?
-- É essa pergunta que me faço todos os dias. Eu não sei a resposta, Laís! Estou aqui pedindo que você me ajude.
-- Passou por sua cabeça se casar comigo?
-- Sim.
-- Você se casaria comigo apenas para adotar as crianças?
-- Laís, eu não quero que você se ofenda com isso.
Levantei-me atordoado. Na minha obsessão de adotar as crianças, não tinha refletido que eu poderia causar tristeza à Laís. Fiquei envergonhado dessa minha atitude.
-- André!! Te fiz uma pergunta: você se casaria comigo apenas para adotar as crianças?
-- Sim, Laís! Eu me casaria sim.
Laís desmaiou na पोल्त्रोना
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