quinta-feira, 2 de abril de 2009

Após 2002. A praia.
-- André!! Procure Deus! Você precisa falar com Ele. Vá procurá-LO!
Quem me fala isso, às vezes, é o meu coração. E quando isso acontece, vou à praia. É ali à beira da água, molhando os pés, que levanto minhas mãos para o alto, e rezo a oração que Ele nos presenteou. Meu corpo arrepia-se, lágrimas molham meu rosto, e retorno à capital com uma paz tremenda, com o espírito livre, renovado.
Numa dessas vezes, decidi passar o fim de semana na praia.
No domingo, sentado sob o guarda-sol de um quiosque, notei um pequeno grupo diferente chegando à praia, a uns cinquenta metros de onde eu estava. Eram duas freiras e umas dez crianças, com menos de seis anos de idade.
Estavam felizes... quem é que não fica feliz ao ver o mar? Enquanto as freiras arrumavam o local na areia para acomodar as crianças, uma delas se afastou do grupo, caminhando para a avenida. As freiras não perceberam.
Levantei-me e fui em direção à criança. Precisei correr porque ela já estava a atravessar a ciclovia. Peguei-a no colo e aquele tiquinho de gente se pôs a chorar, batendo suas mãozinhas em meu rosto. Levei-a até as freiras.
-- Bom dia, irmãs!! Esta ferinha desgarrou-se do grupo e já estava quase na avenida.
-- Graças a Deus, o senhor estava vendo tudo e conseguiu trazê-la de volta. Nós não tínhamos nem notado. Agradecemos muito ao senhor.
-- Todas essas crianças são órfãs, irmã?
-- Sim. Nós pertencemos a uma ordem religiosa a alguns quilômetros daqui.
-- Bom domingo a todos!!
-- Bom domingo ao senhor também.
Voltei ao quiosque, para terminar a leitura do jornal.
Uns quarenta minutos depois, senti mexerem na minha perna direita. Tirei o jornal da frente e lá estava a pequena fujona, tentando escalar meu colo. Olhei para o grupo, e dessa vez a freira estava acompanhando a menina.
-- Ela quer ficar um pouco aqui. O senhor se importa?
-- Claro que não.
-- O senhor não se importa de o irmãozinho dela ficar junto também.
-- Nem um pouco!!
-- Estamos um pouco à frente. Se eles perturbarem, o senhor poderá levá-los até nós.
-- Está bem, irmã.
Peguei a pequena e coloquei-a na minha perna direita. O menino não quis sentar-se na perna esquerda; preferiu a cadeira. Em poucos segundos, a ferinha rasgou o meu jornal. Cada vez que eu olhava bravo, ela ria muito, o que contribuiu para nada sobrar do jornal.
-- E agora? O que você irá rasgar?
-- Quéio chovete de choncholate.
-- Quantos aninhos você tem?
-- Quéio chovete de choncholate.
-- Ela tem quatro anos e eu tenho seis.
-- Você quer um sorvete de chocolate também?
-- Não. Eu quero de abacaxi.
Fomos os três comprar os sorvetes no quiosque. Desnecessário dizer que eu me apaixonei por eles; portanto, nem comentarei isso. Ao menino chamarei Marquinhos; à menina chamarei Fefê, apelido carinhoso de Fernanda.
Durante as poucas horas que ficamos juntos, não vi um sorriso no rosto de Marquinhos, nenhuma expressão em seu rosto. Semblante sério, triste. Mas, apesar da pouca idade, pronuncia corretamente as palavras e forma frases com correção gramatical, demonstra conhecimento.
Fefê é o oposto. Ô menina danada!!! Não se contentou em se lambuzar com o sorvete, deixou-me todo enchocolatado.
-- Quéio água geiada.
-- Depois de um sorvete, é bom tomar água fresca. Nada de gelado mais!
-- Quéio água geiada.
-- Água fresca, se quiser.
-- Tio! Eu quero água fresca.
-- Muito bem, Marquinhos.
-- Quéio água fesca.
-- Muito bem, Fefê! Antes, vamos nos limpar.
Levei-os até a entrada do hotel, onde os hóspedes retiram o excesso de areia antes de entrar no hall. Como Fefê estava com um maiozinho, entrou embaixo do chuveiro com alegria.
-- Vem, titio!
-- Vou nada. Só tirarei a meleca das pernas e dos pés, senão grudo no chão.
Voltamos ao quiosque.
-- Quéio água fesca e chagadinho e baia e chiquete e piuito.
-- Traduza o que ela disse, Marquinhos! O que ela pediu?
-- Ela quer água fresca e salgadinho e bala e chiclete e pirulito.
-- Só isso, Fefê?
-- Eu também quero, tio.
Voltamos à mesa, levando quase todo o quiosque.
-- Prestem atenção!! Se nos encontrarmos outras vezes aqui ou em qualquer lugar, não me peçam mais essas porcarias de comer. Balas, chicletes, pirulitos e salgadinhos só de vez em quando.
Depois de comerem, fomos brincar na areia.
“Livre como o sonho / Alegre como a luz / Desejo e fantasia / Em plena harmonia”

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