sexta-feira, 3 de abril de 2009

Há vidas, querendo ser vividas – III

Fiquei dois dias no Centro de Recuperação. Fui transferido para um quarto da enfermaria no quinto andar, ala destinada a pacientes com problemas na cabeça. Como eu a havia batido no vidro do carro e operado, internaram-me num quarto com mais três pacientes, todos amarrados.
No começo me preocupei, porque, se estavam amarrados, talvez fossem violentos. Eu estava com a perna engessada, não podia andar, muito menos correr. Além disso, estava com um soro interminável espetado em meu braço.
-- Enfermeira, por que eles estão amarrados à cama?
-- É por uma questão de segurança. São muito agitados durante a noite, se mexem demais. Para evitar uma queda, amarramo-los. Pensou que fossem violentos?
-- Pensei.
-- Fique tranquilo!! O único violento aqui é você, que raciocina, e xinga quem não conhece.
-- Qual o seu nome, enfermeira?
-- Pode me chamar de Jackie.
-- Jackie, já te pedi desculpas. Você não imagina o sofrimento que passei naquela sala, junto aos mortos. Já estava me vendo dentro de um caixão.
-- Eu sei, 32!
-- E você insiste ainda em me chamar de 32!! Muita frieza, não acha?
-- Infelizmente, acabamos acostumadas a isso. Sabe qual é o seu novo número, aqui na enfermaria?
-- Se for 24 eu me jogarei da janela.
-- (risos). O seu novo número é 70. No jogo do bicho, você sabe qual é o animal correspondente ao 70?
-- Porco.
-- (risos)
-- Aposto que foi você quem me deu esse número.
-- Tenho de trabalhar agora. Daqui a pouco voltarei para te dar banho.
-- Engraçadinha!!
Jackie saiu do quarto. Olhei para meus companheiros de quarto. Dois dormiam. O outro, um senhor gordo, olhava com ternura pra mim, boca aberta, língua no canto dos lábios, babando. Ouvia um rádio de pilha.
-- Está tudo bem aí, amigo?
Não respondeu. Nunca respondeu. Eu perguntava, e ele sorria. Os outros dois, em um mês que fiquei internado naquele quarto, só dormiam. Três vidas isoladas do mundo.
Todos os dias, às 6h e às 18h, eu recebia um presente: uma dose de bezetacil no braço direito. Em menos de uma semana, meu braço ficou roxo. Aí, mudaram para o esquerdo.
No início eu aceitava, não reclamava. Já me bastava estar vivo. Mas as injeções de bezetacil não cessavam. Como também não cessavam os gritos de pacientes em outros quartos, toda vez que anoitecia; como também não cessava um rangido ensurdecedor, toda vez que amanhecia.

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