quinta-feira, 19 de março de 2009

1980 a 1990. Quem com Ferro fere...

Lecionei em escolas públicas e particulares, e ainda dividia meu tempo com um trabalho na aviação comercial: Cruzeiro do Sul e Transbrasil Linhas Aéreas, ambas extintas.

Minha primeira experiência em escola particular não foi nada boa. Era uma escola nova e já tinha muitos alunos nos cursos de supletivo ginasial (atual Ensino Fundamental) e colegial (atual Ensino Médio). Após três meses, a escola foi fechada pela Secretaria de Educação porque não estava com os documentos em ordem. Pouco importou a essa Secretaria os alunos e os funcionários e professores que lá trabalhavam. Menos se importou o dono que não legalizou os cursos.

Os alunos foram transferidos para duas escolas, longe dali. Alguns professores foram “aproveitados” (foi essa também a primeira vez que percebi que não tinham a menor consideração pelo professor... como se fôssemos um objeto enferrujado, e depois polido). Eu e o Alan, professor de Ciências, fomos com alguns alunos do colegial a um bairro distante, próximo ao centro de São Paulo.

Era um colégio mantido por uma ordem religiosa. Ficamos dois anos. Por sermos jovens, o diretor não gostava da gente. Enquanto outros professores descansavam no mês de janeiro, o diretor nos escalava para organizar a biblioteca.

Em pleno mês de janeiro, verão, à noite, estávamos empoeirados em meio a tantos livros. Numa certa noite, Alan “achou” um livro que ensinava a fazer armadilhas infalíveis, do tipo Cebolinha para Mônica.

-- André!! Veja isso!! Podemos construir essa aqui e colocar à porta do diretor. O que você acha?

-- Sensacional, Alan!! Amanhã, trarei o fio de náilon. Vê se capricha no tamanho da aranha.

-- Combinado.

A nossa intenção era dar um pequeno susto no diretor e também nos divertirmos um pouco, porque nosso trabalho já estava monótono. No dia seguinte, chegamos um pouco mais cedo. Sabíamos que o diretor chegaria uma hora mais tarde, então tivemos tempo suficiente para montar a “armadilha do susto”.


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Náilon

A engenhoca era simples: um fio de náilon, um prego entortado acima da porta do diretor, e a aranha amarrada à ponta do fio. Coisa de criança.

Como prevíamos, o diretor chegou, passou pela biblioteca, não nos cumprimentando como sempre e seguiu no corredor pouco iluminado em direção a sua sala. Assim que entrou, deslizamos o fio de náilon, com a aranha na ponta, até metade da porta. Amarramos a outra extremidade do fio, no final do corredor.

Voltamos à biblioteca.

Uma hora depois, ouvimos a funcionária Dalva gritando muito. Fomos ao corredor.

-- Cuidado, gente!!! Tem uma aranha enorme na peruca do diretor.

Peruca??? Nossaaaa!! O homem usava peruca.

-- Cadê o diretor, dona Dalva??

-- Eu acho que ele está desmaiado dentro da sala dele.

Batemos à porta. Nada de respostas.

-- Dona Dalva, vá buscar gelo e água, por favor!!

-- Boa idéia, professor. Estou indo.

-- Alan!! Vamos entrar.

-- Caramba!! E se o homem estiver morto?

-- Não diga isso, pelo amor de Deus.

Entramos. O diretor estava sentado à poltrona, segurando o fio de náilon com a mão esquerda e balançando a aranha com toques do dedo direito. E sem peruca.

Fomos demitidos por justa causa.

Quinze dias depois, comparecemos ao colégio, a pedido do padre mantenedor. Atendeu-nos muito bem e fomos à sala dele.

-- Vocês são realmente professores? Não me respondam agora, por favor! Parecem-me mais dois jovens arrelientos, mas voltados para o mau. O diretor Ferro quase teve um infarto. Dona Dalva, ao gritar, perdeu a dentadura, que se espedaçou no chão. Por que fizeram isso, meus jovens?

-- Inicialmente, padre, não tivemos intenção de machucar nem o diretor Ferro nem Dona Dalva. Nosso objetivo era dar apenas um susto nele. Desde que chegamos a este colégio fomos desdenhados por ele. Não se importou em reconhecer o nosso valor de professor, uma vez que somos respeitados por todos os alunos e pais, apesar de nossa idade. Colocou-nos para organizar a biblioteca em pleno mês de janeiro, quando todos os outros colegas estão em suas casas ou viajando, devido ao recesso escolar. Nunca nos cumprimentou com um “boa noite”. Sempre sisudo. É uma pena que tenha acontecido isso com a dona Dalva, mas iremos ajudá-la.

-- Serei sincero com vocês. Eu me diverti demais com toda essa situação, quando soube do fato. O diretor Ferro é um bom profissional, mas tenho recebido muitas reclamações de pais e alunos, a respeito do comportamento dele. A semana que vem começam as aulas deste ano, e ficaria satisfeito em vê-los em nosso quadro de professores novamente. Quanto à dona Dalva, já está com a dentadura nova.

Retornamos na semana seguinte e fiquei até o fim do ano. Recebi propostas de outras escolas mais próximas de minha casa. Durante aquele ano, o padre foi assistir às minhas aulas, várias vezes. E sempre saía sorrindo da sala. Recomendou-me às escolas com uma carta de apresentação. Que saudades eu tenho dele!!!

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Não me lembro de ter sido bagunceiro em minha infância nem arreliento. Mas aprontei alguns bons sustos em meus amigos. E já me dei também muito mal com isso.

A caixa de sapatos como careta e uma vela dentro, sobre o muro, ao lado janela onde dormia um amigo. Não me saí bem dessa. Ao colocar a caixa sobre o muro, não prestei atenção ao degrau, e caí lá de cima, quebrando o meu pé direito.

A máscara de carnaval com uma adaga falsa enterrada na cabeça. Foi assim que entrei na casa de outro amigo, à noite. Quase matei de susto a mãe dele. Apanhei e saí de lá a pauladas, correndo e gritando.

Certa vez em casa, conversando com minha mãe no quintal, uma vizinha e o filho dela entraram chorando e desesperados;

-- Dona Lina!! Por favor, me socorre!!!

-- O que aconteceu, Dona Ceci?

-- Tem uma bruxa no banheiro de minha área de serviço. Peça ao André que vá lá para matá-la.

-- Eu não vou não.

Fiquei imaginando a bruxa com aquela cabeleira nunca penteada, um narigão cheio de perebas e verrugas, com sua vassoura maldita, dentes amarelados e enormes, vestida de trapos pretos.

-- De jeito nenhum!!! Não vou mesmo. Peça a seu marido.

-- Papai está trabalhando, André. Eu sou muito pequeno e também tenho muito medo.

Minha mãe olhou-me meiga.

-- André!! Pega essa vassoura e vá até lá.

-- Mãe!! Por favor!! Se com todo esse tamanho, a dona Ceci tem medo, o que eu poderei fazer?

-- Reúna sua turminha e vão lá. Hoje a bruxa está lá, não sabemos onde poderá estar amanhã, André.

Peguei a vassoura e fui chamar meus amigos em suas casas. Dos quinze, contando comigo, nove não aceitaram. Fomos os seis para a casa da Dona Ceci, devidamente armados com cabos de vassoura, tijolos, estilingues.

A casa era um sobrado, grande. Um quintal enorme; ao fundo, uma edícula. À esquerda, a área de serviço e, em frente à porta do cafofo, o banheiro onde estava a maldita.

Mais dois desistiram no meio do quintal; outro, ao fundo. Éramos três. Tiramos no par ou ímpar. Quem perdesse iria até a porta, entreaberta, e entraria distribuindo pauladas para todo canto. Estávamos morrendo de medo. Tremíamos muito. Começamos o jogo.

O primeiro a sair, aliviado, foi Antônio; o segundo, Fernando. Eu perdi.

Caminhei a passos lentos, tremendo. Os dois ficaram com tijolos e estilingues preparados. Aproximei-me da porta do banheiro e empurrei-a. Entrei, dando paulada em tudo. Quebrei pia, vaso sanitário e o globo da luz. Não vi bruxa alguma, só uma grande borboleta no canto superior esquerdo da parede.

-- Aqui não tem bruxa nenhuma. Fernando!! Vá chamar a dona Ceci, em minha casa.

Lá fora já havia uma multidão, olhando receosos para nós, no fundo do quintal.
Minutos depois, entram minha mãe, a dona Ceci e o filhinho dela.

-- Dona Ceci, aqui não tem bruxa nenhuma. Só uma grande borboleta na parede.

-- Ai, meu Deus!! É essa a bruxa!! Mate-a! Mate-a!!

Dona Ceci é mineira. Nasceu e cresceu no sítio de seu pai. Viveu todas as crendices populares do campo. Qualquer borboleta grande ou mariposa, que tivesse em suas asas desenhos de um olho, era chamada de bruxa, e trazia mau agouro.

-- Mãe!! Eu não irei matar a borboleta. Irei pegá-la, colocá-la num saquinho e a soltarei longe daqui, está bem assim?

-- Sim, filho. Faça isso!

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