terça-feira, 5 de maio de 2009

* Maristela é uma jovem intelectual. Foi acolhida pela ONG aos sete anos de idade. Desde cedo, interessou-se por todos os projetos, destacando-se.

A gerente da ONG, Sra. Cíntia, percebeu que, se Maristela continuasse interessada, poderia ter um futuro brilhante. Então, providenciou livros, inicialmente infantis. Conversou com a mãe dela, a fim de que ela também incentivasse a leitura dos livros, em casa. E assim foi feito.

Aos doze anos de idade, lia Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, a trilogia do Harry Potter, Senhor dos Anéis, Frankstein, além de outros da literatura universal.

Nessa época, as escolas públicas ofereceram, fora do horário de aulas normais, cursos de espanhol e inglês. Maristela optou pelo curso de espanhol e lá se destacou também.

Aos 14 anos, Sra. Cíntia, inscreveu-a num “vestibulinho” de um conceituado e tradicional colégio particular de São Paulo, a fim de tentar ganhar uma bolsa de estudos para o Ensino Médio, em horário integral. Sra. Cíntia e todos os educadores e funcionários da ONG tinham confiança no sucesso de Maristela.

Maristela não os decepcionou. Conseguiu uma bolsa de estudos de 80% do valor da mensalidade. Entretanto...

....a mãe de Maristela não a matriculou, pelas seguintes razões:

da comunidade em que vive ao colégio particular, são duas conduções;

apesar dos 80%, havia os 20%, ou seja, mais ou menos R$ 200,00/mês, que a mãe, empregada doméstica, não teria como pagar;

os livros: na média R$ 50,00 cada um, por disciplina;

uniforme escolar: R$ 180,00;

Almoço ou lanches: R$ 8,00 a R$ 12,00/dia;

Além disso, a mãe de Maristela teria de pagar uma babá para ficar com a filha menor, enquanto estivesse no trabalho.

-- Babá é coisa pa rico. – lamentava-se, com parcial razão. – Minha fia vai ficá na escola púbrica, pruque não tenho condição de pagar tudo isso pa ela. Sô empregada doméstica, trabaio o dia inteiro, não tenho com quem deixá minha bebê. Quem toma conta dela é a Tela.

-- Os associados da ONG podem arcar com a despesa extra. É o futuro de sua filha, talvez até o ingresso em uma excelente universidade pública – insistia a gerente.

-- O colégio particular é dimais longe daqui. Ela é dimenor. Só sai di ômbus na minha companhia. Não vou deixá minha fia andando sozinha por aí.

-- Gostaria de que a senhora refletisse melhor.

-- A sinhora tá me chamanu di burra? Eu já decidi o futuro da minha fia. Vai estudá no colégio púbrico até o fim. Dispois, se não consegui entrá nas iniversidade, vai trabaiá de doméstica como eu. Pelo meno vai tê o dinheirinho pa ajudá nas despesa da casa.

-- Lamentamos muito a sua decisão, mas a senhora é a mãe.

-- Qui bom qui a sinhora intendeu.

Nessa época, a ONG não recebia ajuda governamental, como a maioria recebe. ONG significa Organização Não Governamental, deveria ser um órgão particular. Mas não é o que ocorre nas inumeráveis existentes no Brasil.

A ONG, em questão, era mantida por pequenos empresários e até mesmo por moradores de classe média alta, de bairros vizinhos. Certamente, presenteariam com agrado o futuro de Maristela.

A mãe de Maristela não deixa de ter razão. Sofreu na vida, quando o ex marido deixou-a na rua, tendo Maristela nos braços. Lutou para conseguir uma casinha de dois cômodos, na comunidade pobre onde mora.

Tem medo de perder a filha. Não importa se está atrapalhando ou não a vida da jovem, porque ela (mãe) não compreende isso.

Se houvesse a vontade de um esforço maior, Maristela estudaria no colégio particular. Sabemos que, para que alcancemos nossos sonhos, é necessário garra, luta, mas a mãe de Maristela já tinha se acomodado na vida e não pretendia mudar.

Maristela não aceitou a decisão da mãe e tornou-se uma adolescente triste.

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