domingo, 5 de abril de 2009

Amigos universais

Depois de eu bater meu carro e acordar do desmaio, uma multidão assistia à cena de horror pela qual eu estava passando.
-- Tinha mais gente lá que em shows do Roberto Carlos. – assim Mário define, exageradamente, a quantidade de pessoas presentes naquele dia.
Mário é o meu herói.
-- Eu estava passando embaixo do viaduto quando vi muitas pessoas correndo lá em cima. Fiquei curioso e fiz uma volta enorme, mudando o meu trajeto, só para ver o que estava acontecendo. Cheguei ao local do acidente trinta e cinco minutos depois.
Mário não é o Romário, mas certamente é o “cara”.
-- Peguei o pé-de-cabra no porta-malas de meu carro, abri caminho para chegar até o seu carro. Umas pessoas diziam que nada adiantaria porque você já estava morto; outras contestavam e diziam que você estava vivo e que o carro explodiria.
Mário não é um super herói de quadrinhos. É um herói de carne e osso e, principalmente, com sangue correndo em suas veias. Eu acho até que o Super Mário foi criado por se espelharem nele.
-- Já próximo do carro, notei que eu não conseguiria nada sozinho. Pedi ajuda, mas ninguém se ofereceu. Então, voltei ao meu carro, peguei meu revólver e retornei ao local.
Mário é um Hércules-Quasímodo.
-- Fiquei à porta de seu carro. Você tinha desmaiado. Apontando meu revólver a três pessoas, ameacei matá-los, caso não me ajudassem a te tirar de lá. A adesão foi imediata. Quem tem cu, tem medo, não é André?
Mário é um sujeito feio ficamente (Quasímodo – O corcunda de Notre-Dame), maltratado pela seca do sertão de Pernambuco, porém é dotado de uma força interna impressionante (Hércules – semideus da Mitologia).
-- Retiramos você do carro e o ajeitamos em meu carro. Estávamos os quatro tão lambuzados de sangue e desesperados, que ninguém sabia onde era o hospital mais próximo.
Mário é um trabalhador. Mecânico mas profissional: frequentou diversos cursos de mecânica, antes de se agarrar à profissão. Criou seus filhos da forma que sempre desejou ter sido criado por seus pais: com respeito e cumplicidade.
-- Foi você, André, que nos indicou o hospital mais próximo. Aquelas pessoas não te ajudaram por medo. E não foi só o medo da explosão. Foi o medo de se envolverem e terem de prestar contas na Delegacia de Polícia por mais de um ano.
A esposa de Mário faleceu em um acidente de carro, em 1986. Seu filho mais novo, meu afilhado, tinha um ano de idade quando a mãe morreu. O do meio, 5 anos; o mais velho, 8 anos. Mário não se despedaçou... desdobrou-se corajosamente.
-- Muitos motoristas que pararam para ver o resgate, acompanharam-nos até o hospital, interrompendo o fluxo de carros de outras vias, a fim de que chegássemos mais rápido ao Pronto-Socorro. Do local do acidente até o Hospital demoramos apenas quatro minutos.
Mário é pai de dois médicos e de um engenheiro mecânico. Este é o único que não se casou ainda; os outros dois já lhe deram cinco netos.
-- Alguns motoristas que nos abriram caminho, os três e eu ficamos na sala do Pronto-Socorro à espera de notícias boas. Nem o policial de plantão conseguiu nos tirar de lá para prestarmos depoimentos. Só sairíamos depois de notícias suas. Parece até coisa de vidas passadas!!! Eu nunca tinha visto aqueles motoristas, nunca tinha visto aqueles três que me ajudaram a te tirar do carro... E estávamos lá, andando em círculos, nervosos, preocupados com um cara que nós nunca havíamos visto na vida.
Mário é sinônimo de solidariedade. É um vencedor!!
-- Horas depois recebemos a notícia de sua morte. Saímos cabisbaixos, tristes, e, depois de prestarmos depoimento, cada um retomou seu caminho. Por isso que, quando você foi à minha oficina mecânica, oito meses depois do acidente, agradecer-me por ter te salvado a vida, eu quase tive um infarto. Assim que você entrou, te reconheci. Pensei que fosse um fantasma.
Mário é meu herói, é meu amigo.

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