quinta-feira, 9 de abril de 2009

Amigos universais.

Deley é um amigo raro. É daqueles que te apoiam em tudo, porque também deseja que seja apoiado em tudo.

É um Técnico de Informática... diferente de todos que eu já vi: é honesto. Se seu computador apresentar um problema sério, ele te apresentará um relatório de todos os problemas encontrados e todas as peças que deverão ser trocadas. Não existe aquilo de oito ou oitenta.

Afora sua vida profissional, é um amigo como poucos.

Às vezes, cercamo-nos de pessoas que, mesmo sabendo de nossas falhas, insistem em culpar o próximo. Talvez queiramos ouvir naquele momento toda a falsidade existente no mundo, porque sabemos que os errados nada mais são que nós mesmos.

Deley não é assim. Ele cutuca (ou catuca) a ferida com tal simplicidade, que nos faz ver o quanto estamos errados. Amigo verdadeiro é assim que age: fala a verdade, mesmo sabendo que isso pode nos entristecer. E não é só ele. Luciano Pimenta, Tatá, Nardinho, Mário... todos eles.

Deley é espírita. Já trabalhou voluntariamente no Centro Espírita de São Paulo como Médium.

Quando aconteceu, na década de 90, aquela fatalidade com o grupo Mamonas Assassinas, entristeceu-se como entristeceram milhões de brasileiros e milhares de estrangeiros. Só não esperava que fosse o canal entre a vida presente e a morte recente.

Recebeu no Centro o espírito do líder do grupo, Dinho, o vocalista. Embora tivesse a imagem como fã do grupo, deparou-se com a imagem de uma vítima fatal num acidente aéreo: sangrando, desfigurado, implorando por ajuda espiritual. Depois de Dinho, foram outros do grupo.

Foi um choque, mas mesmo assim procurou ajuda de outros médiuns experientes. E, aos poucos, conseguiu assimilar sua missão na Terra.

Atualmente, Deley não está mais no Centro Espírita. Está com pessoas comuns, como família, parentes, amigos e colegas. O importante é que ele esteja como esperamos que ele seja: sempre do mesmo jeito.

Se os amigos Luciano Pimenta e Tatá nascessem mulheres, certamente estariam brigando pelo Deley. O que eu diria então sobre mim, já que tenho admiração por ele? Eu diria o que diz a realidade: Deley sempre nos presta amizade; é indiferente, não há um amigo em comum. Todos são importantes para ele.

É um orgulho, uma honra mesmo, tê-lo como amigo.
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No Convento.

Assim que cheguei, fui recepcionado pelos dois, Fefê e Marquinhos. Estavam radiantes. Quanta, quanta, quanta emoção senti!!!!! Abaixei-me, e trouxe os dois, em cada braço, em um único abraço, apertado de saudades.
-- Está chorando, titio?
-- Não, Marquinhos!! É suor, está muito quente.
-- Tá chorando sim, titio!
-- Puque tá choiando?
-- Acho que é de saudades de vocês.
Coloquei-os no chão, e os dois, tão felizes como eu estava também, pegaram-me as mãos e levaram-me à recepção do Convento.
-- Bom dia!
-- Bom dia, irmã!
-- Antes de o senhor passar o dia com as crianças, deverá preencher um cadastro e um questionário. Se aprovado, o senhor poderá, inclusive, passear com eles na nossa cidade, mas acompanhados de uma Irmã. Futuramente, se preferir, e se for de nossa total confiança, as crianças poderão passar o fim de semana em sua casa, também devidamente acompanhados.
-- Entendi, irmã!
Fiquei preocupado, porque me lembrei das palavras do Marmitão. Enquanto a Irmã falava, eu olhava as cinquenta questões. Várias referiam-se à minha esposa, que eu não tinha mais. Compreendi que, realmente, as normas deviam ser rigorosas; afinal, eu era um estranho, e a Instituição zelava por suas crianças.
-- Enquanto o senhor preenche o questionário, as crianças ficarão no pátio. Ao terminar, entregue-me e volte à sua cadeira. A aprovação ou não dependerá de nossas superioras, e isso não demorará mais de trinta minutos. Se aprovado, o senhor conhecerá parte de nossa Casa; se reprovado, ficará com as crianças por apenas três horas, todos os domingos, até que regularize a sua situação, se for a sua intenção adotá-los. Se isso não ocorrer até o fim dos próximos 90 dias, o senhor não será mais bem-vindo em nossa Casa. Deve entender que as crianças não podem se apegar ao seu amor, para que não sofram.
-- Sim, irmã! Entendo perfeitamente.
-- Deixe que Deus use sua mão e seu coração para escrever as respostas. Seja verdadeiro sempre! Sente-se agora e comece.
Sentei-me. Deu-me desespero ao ler cada questão. Respirei fundo, rezei um Pai-Nosso e comecei o questionário.
01- Há quantos anos é casado?
Resposta: Não sou casado.
02- Os cônjuges pertencem a que religião?
Resposta: Eu sou católico.
03- Com que regularidade os cônjuges frequentam a igreja ou cultos?
Resposta: Aos domingos.
Mentira. Comecei mal. Sou católico, porque nasci católico. Raramente vou à missa aos domingos. Já disse que, quando preciso falar com Deus, vou à praia. Vejo Deus na Natureza.
04- Quantos filhos o casal tem?
Resposta: Nenhum.
Deixei muitas questões sem respostas.Tem uma expressão no futebol que diz assim: “Perdido por um, perdido por mil... vamos ao ataque!”
Depois de mais uma mentira, tentei o “tudo ou nada”.
50- Teça um breve comentário sobre a frase “A adoção é um ato de amor”.
Resposta: A doação é um ato de amor. Doar-se espiritualmente à determinada causa, a específicas pessoas; doar alimentos e roupas a quem necessita; doar uma palavra de amor e de motivação àqueles que sofrem. Na adoção já há amor: é um estado de espírito, não é uma ação, não é um ato. Na adoção, cabe a doação. A Instituição não pode avaliar uma pessoa por meio de questionários.
Entreguei à freira e fiquei aguardando a expulsão.
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