André
Acompanhei Srs. João e Abílio ao supermercado. Tanto eu quanto eles tínhamos muito a conversar.
-- Por que não veio ao Guarujá com seu carro, Sr. André! Ou você o vendeu?
-- Por medo, Sr. Abílio! Não o vendi. Eu sei que seu filho deixou em alerta seus companheiros de farda. Não posso arriscar a vida de meus pais, que não têm nada com isso, nem a minha.
-- Enquanto vocês estiverem no Guarujá ou em qualquer parte do Brasil, estarão por nós protegidos. Já sabemos que há colegas dele vigiando seus passos e já tomamos algumas medidas também. – disse Sr. Abílio
-- Eu realmente não entendi e nunca entenderei a atitude de seu filho, Sr. Abílio! Fiquei surpreso, chateado, triste mesmo naquele dia. Não sabia que seu filho tem mudanças de comportamento tão significativas.
-- Foi surpresa para nós também, Sr. André! A família toda se reuniu na casa do João , inclusive os primos e primas que nos acompanharam no comboio, quando da saída das crianças do Convento. Como pai dele, sinto-me muito envergonhado pelo que ele fez e continua insistindo em fazer.
-- Inclusive, Sr. André, já comunicamos o Comandante, a quem ele está subordinado. – acrescentou Sr. João – Nossa preocupação foi quanto às pessoas que ele pagou para cercar a casa, o bairro, a Balsa Santos-Guarujá, e a rodovia de acesso à cidade.
-- E também no pedágio da Imigrantes. – completei.
-- Na Imigrantes também??? – surpreenderam-se.
-- Sim.
-- Como o senhor sabe disso.
-- Acreditam em mediunidade?
-- Somos católicos, mas acreditamos no espiritismo.
-- Minha mãe tem esse dom. Um amigo também tem, e foi ele quem me avisou. Descreveu, inclusive, o policial rodoviário que entraria em meu carro, a partir do pedágio. Orientou-me a trocar de carro. Assim o fiz. Logo que passei pelo pedágio, vi esse policial rodoviário e mais dois, parando um carro idêntico ao meu. Espero que não tenham feito nada de mau ao motorista e à família dele. Entenderam agora a proporção de minha agonia? Além disso, pessoas de má índole costumam maltratar crianças e mulheres. E isso eu não irei permitir, Sr. Abílio!
-- Ele não mais perturbará as crianças e nem a esposa. – disse Sr. João. – Minha filha se separará dele, e ficará com as crianças.
-- É verdade, Sr. André! Tudo veio à tona naquela noite que veio buscar sua mãe. A Judite nos contou que ele batia nela, quando ela, em seu instinto maternal, se colocava entre ele e as crianças. – completou Sr. Abílio, com lágrimas em seus olhos.
-- Sr. Abílio, eu lamento muito toda essa situação. Imagino o seu sofrimento. Quando o vi pela primeira vez na estrada, pareceu-me uma pessoa serena e religiosa. Durante todo o processo de adoção, admirei seu filho. Hoje, como policial, trabalhando próximo a essa marginalidade, é natural que tenha mudanças de comportamento. O senhor já tentou levá-lo a um psicólogo, ou um psiquiatra?
-- Já o levei, na própria polícia. Os exames feitos e o relatório dos médicos são satisfatórios. O que ele tem mesmo é maldade no coração. O destino dele, Sr. André, não será muito bom. Pessoas assim têm morte violenta. É o que acontecerá com ele, se continuar agindo assim.
Abracei-o, emocionado. Sr. João fez o mesmo, e choramos os três.
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