Histórias avulsas – I
Arrependimento de mulher!!!
Tenho uma vizinha que me detesta.
Com a reforma de meu apartamento, ela me passou a me odiar... alega que eu sempre arrumo algo pra ter um pedreiro martelando na cabeça dela.
Quando éramos bons vizinhos, ela não se cansava de tocar a campainha pra me pedir favorzinhos estranhos: xícaras de açúcar, café e outros, que não valem à pena citá-los aqui. Nunca recusei nada a ela. O marido era o verdadeiro escravo, manso.
Uma vez ela entrou em meu apartamento sem bater à porta ou mesmo tocar a campainha (ela sabia que eu não trancava a porta). Por uma incrível sorte de meu destino, eu estava na cozinha preparando um café (imagine se eu estivesse no banho?). Saí da cozinha, passei pela sala (nem a notei no sofá... ) e fui para meu escritório, continuar meu trabalho.
Quando fui beber o café, prazerosamente, encostado em minha poltrona, ouvi uma voz do além me dizer "oi". O susto foi tão grande que a xícara bateu asa, e o café se esparramou em meu corpo.
Coitadinha! Ela se assustou mais que eu e correu até a suíte pra pegar uma toalha; depois, quis me examinar pra ver se eu havia me queimado. Demorou quase uma hora pra ela se acalmar...
... e fico aqui pensando como uma mulher tão doce, tão delicada pode se transformar nesta peste de vizinha que é hoje.
Segunda-feira, levei uma multa do síndico: barulho em meu apartamento (aos sábados à tarde e aos domingos não pode haver consertos, para o barulho não atrapalhar o descanso dos vizinhos). Tentei argumentar que o conserto não tinha sido em meu apartamento, mas nada adiantou. Ao receber a multa, a peste estava do lado dele, fulminando-me com os olhos. Ainda bem que não recebi a multa no domingo.. seria um péssimo presente de aniversário.
Você deve estar se perguntando como que minha vizinha, que tinha tanto carinho por mim, passou a ter ódio, não é mesmo?
Toda a vez que eu chegava em meu apartamento, fechava o janelão da sala. Muitas vezes, encontrei o gato dela descansando no vão de minha janela, do lado de fora. Como ele chegava lá, nunca descobri.
O fato é que, determinada noite, depois do happy hour com os amigos, cheguei ao apartamento e fechei o janelão: fazia muito frio naquela noite. E fui dormir.
Acordei no dia seguinte, com um estardalhaço na porta. Era a minha vizinha.
-- Você matou meu gato, seu animal-sem-coração!!
-- Eu não matei gato algum!!
-- Matou sim!! Foi encontrado morto no chão, perto da piscina, embaixo da janela de sua sala.
-- Nós moramos no 14º andar, minha senhora! Como pode ter certeza que ele despencou da minha janela?
-- Ele costumava vir aqui para descansar.
O marido dela estava ao lado e não ousava abrir a boca.
-- Zé!! Leva sua esposa daqui que já estou começando a ficar nervoso com essa história de gato!!
-- Eu não sairei daqui, Zé!!
-- E o que você pretende fazer?? – perguntei, ameaçador. – Não tenho culpa se o seu animal gostava de ficar do lado de fora de meu janelão. E onde estava você que não cuidou dele? Por que não colocou redes de proteção em sua casa, para evitar que ele saísse de lá?
Disse isso e fechei a porta no nariz dela.
Não me recordava de ter chegado em casa e ter visto o gato dela do lado de fora. Apenas fechei e fui dormir.
Ao sair de casa aquele dia, atordoado com muitas ameaças, encontrei-me na rua com o Danyboy.
-- O que aconteceu, André?
Contei-lhe a história do gato.
Danyboy é outro amigo meu. Um garoto de 46 anos de idade, mais moleque que os filhos dele. É arquiteto, um excelente profissional, porque ama o que faz. A ouvir a história, para me deixar mais relaxado, imaginou a cena.
-- Eu acho que aconteceu assim: você chegou ao apartamento, não viu o gato na hora... quando fechou o vidro, deve ter feito algum barulho que assustou o bichano, precipitando-se para o vazio. No dia seguinte o gato foi encontrado morto, mas uma das patinhas apontava para o seu apartamento, com o dedo do meio, duro, mandando você ir tomar no cu.
Não pude deixar de rir. Tivemos que sentar na calçada porque ríamos demais, imaginando a cena inventada por ele.
Até hoje quando nos encontramos no happy hour, lembramo-nos da cena e rimos.
XXXXXXXXXXXXXX
Minha amiga --- Final.
Precipitei-me em conversar com Laís. Se, naquela manhã, eu refletisse um pouco mais, analisaria os prós e os muitos contras, e veria que não daria certo. Agora, ela queria visitar as crianças no Convento.
O que pensariam as crianças quando me vissem chegar ao Convento com uma mulher a meu lado? Pensariam o óbvio: era a minha esposa, a futura mamãe deles.
Decididamente, a Laís não poderia ir comigo ao Convento.
-- Alô!! Ritinha, posso falar com a Laís?
Ritinha é a governanta da casa do “seo” Rodrigo.
-- Sim, Sr. André! Vou chamá-la!
-- Obrigado, Ritinha!!
-- Não há de quê!!
Eu não poderia adiantar-lhe nada pelo telefone. Considerando os últimos acontecimentos, ela poderia ficar mais triste ainda.
-- Oi, André!!
-- Oi, Laís!! Você está bem?
-- Estou ótima! À noite, irei a uma festa nos Jardins. Amaria se você fosse comigo.
Eu detesto esse tipo de festa a que ela vai.
-- Está bem, Laís! A que horas eu passo em sua casa?
-- À 1h da manhã. Não quero ser a primeira a chegar.
-- Então, até daqui a pouco! Beijos, La!
-- Beijos, meu amor!
Só me faltava essa!! Acompanhante da Laís nessas festinhas de gente que não sabe como gastar decentemente seu dinheiro. Da última vez, era o casamento de dois Poodles: a cadelinha Bovary e o cão Roger.
Não sou contra a esse tipo de atitude, mas que convidem as pessoas certas. Eu fui a pessoa errada a ser convidada. Se a alta sociedade não se importa com os problemas do mundo, é problema deles. Mas não posso compartilhar momentos com pessoas excêntricas, esdrúxulas. Pessoas que preferem doar seu dinheiro à Instituição Bichinhos de Madame a doar cestas básicas a quem realmente necessita.
-- Alô! Ritinha!! Esqueci-me de perguntar algo a Laís! O celular dela só dá ocupado.
-- Um momentinho, Sr. André!
Eu precisava saber que tipo de festinha era.
-- Oi, amor!!
-- La! Essa festa a que iremos é aniversário de quem?
-- Não é aniversário.
-- É casamento de cachorro?
-- (risos) Não, André! Se fosse, eu não te convidaria. Eu sei que você não gosta.
-- Não é aniversário, não é festa de casamento, o que é então?
-- É uma festa-surpresa para um casal que está chegando hoje à noite da Europa.
-- É aquele casal de Poodles?
-- (risos) São amigos nossos, André! (risos)
-- Até mais tarde, então!
-- Até!
Talvez não fosse uma festa hipócrita. Procurei não mais pensar no assunto.
A noite chegou, passei na casa de Laís e fomos à festa. Durante o trajeto, o celular de Laís tocou. Conversou durante alguns minutos e desligou.
-- Não houve festa alguma! O casal chegará apenas no domingo e será oferecido um almoço a eles. – disse-me, chateada.
-- Por que está triste, Laís?
-- Não estou triste. Eu queria muito encontrá-los.
-- E você irá. O almoço não será no domingo?
-- Sim, mas irei com você ao Convento.
-- Eu não me incomodo se você for ao almoço. Além desse domingo, terei os dois restantes do mês. Você poderá ir comigo no último? O que acha?
-- Você não ficará magoado, André?
-- Não! O importante é que você entenda que não quero o mal às crianças e muito menos a você. Quando você for comigo, entrará sozinha como se fosse uma visitante. Eu entrarei sozinho também.
-- Por que isso, André?
-- Se entrarmos juntos, as crianças pensarão que você é minha esposa e ficarão ansiosas para serem adotadas por nós. Não podemos iludi-las, não concorda?
-- É verdade! Eu não tinha pensado desta maneira. Acho melhor eu nem ir, então.
-- Eu gostaria de que você fosse conhecer o outro lado da vida: pessoas que gostariam de viver e crescer com os pais, de ter um minuto de atenção e carinho, de levar uma bronca por uma arte qualquer, de ser educada numa escola com crianças diferentes...
-- Iremos no último domingo, André! Quero que você veja, mesmo de longe, que eu tenho essa capacidade de amar o próximo.
-- Você é maluquinha, mas é uma pessoa maravilhosa.
-- Ué! Pra onde você está indo?
-- Já que estamos juntos, vamos aproveitar o momento.
-- Hummmmmmmmmmm... que saudades!!
No sábado à tarde, deixei-a em sua casa.
Nas semanas seguintes, houve muito trabalho. Conversava, por telefone, com Laís, nos primeiros dias. Depois, a conversa foi rareando. Na última semana do mês, pedi a ela que me confirmasse a hora para eu passar na casa dela no domingo. Prometeu-me telefonar no sábado.
Telefonou um mês depois.
Foi bom assim. Pelo menos, ela não saiu ferida, magoada.
Assinar:
Comentários (Atom)
