terça-feira, 26 de maio de 2009

“Minha querida mãezinha! Não se entristeça mais, acalme seu coração (...) A morte nada mais é que o ponto e vírgula: aquele sinalzinho de pontuação que significa pausa, sem ser o fim no que se escreve.”

O título acima é um trecho de uma carta psicografada. O filho de minha professora de português, Dona Juçara, desapareceu. Após um dia sem contato, os pais percorreram todo o trecho da Via Anchieta, estrada que leva ao litoral, à busca do filho ou de alguma história que os levasse a encontrar o carro dele.

Os dias se passaram, a angústia e o desespero tomaram conta da família. Nem hospitais, nem delegacias, nem necrotérios sabiam onde estava ou que fim tinha tomado o jovem.

Procuraram, então, um centro espírita. E foi lá que, através do trabalho da mediunidade, o filho comunicou-se com seus pais, dizendo que sofrera um assalto, que fora assassinado e seu corpo jogado no mato, num trecho da rodovia, próximo do litoral. Seu corpo foi “achado”, completamente desfigurado e em estado de putrefação, e enterrado numa vala comum em um cemitério de Santos, porque não apresentava nenhum documento que o identificasse; por isso, tinha sido enterrado como indigente.

Os pais foram a Santos e localizaram o corpo do filho no cemitério indicado.

Como o desespero se tornasse maior a cada dia, com revolta presente, continuaram a frequentar a casa espírita, onde recebiam paz e alívio aos coraçõe sofridos. Numa dessas vezes, o filho escreveu a carta pelas mãos do médium.
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Este é o final de minha história que continua a ser vivida. Mesmo que eu morra, a minha trajetória continuará por muitas gerações, através de meus filhos que casarão e terão os meus netos, que casarão e terão os meus bisnetos, que casarão...

Além disso, continuará com os meus amigos e seus filhos, e seus netos, com os meus sobrinhos, com os meus afilhados, com as minhas amigas, com desconhecidos.

Cada um tem a sua história de vida. Nela somos bons, mesquinhos, solidários, egoístas, somos sempre antitéticos e paradoxais.
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Quando eu era criança e fazia uma arte qualquer, minha mãe dizia que, se eu continuasse agindo daquela forma, eu iria ao Inferno, quando morresse, mas se eu fosse um bom menino eu iria ao céu e tornar-me-ia um anjo.
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Eu acho que estou no meio, entre os dois, numa espécie de purgatório, mas penso que tenho grandes chances de ser aprovado por São Pedro.

O final sempre continua, tal qual o ponto e vírgula.

sábado, 23 de maio de 2009

Noites vãs

Eram apenas dias de trabalho que culminavam em começos de noites vãs, sem graça, doídas. Até o dia que decidi que não mais ficaria em casa, após às 18h. Faria qualquer coisa. Sairia sem rumo, mas próximo a outras pessoas. Uma vez ouvi alguém dizer que existe solidão no meio de muitas pessoas, ou seja, não adiantava ficar ao lado de muita gente, se sua alma não estivesse bem. Era isso.

Inúmeras vezes saí acompanhado. Íamos a teatros, a cinemas, a passeios. Depois, quando amanhecia, sentia enorme culpa de não ter feito feliz minha acompanhante. Ela também se sentia sem graça diante de mim, de não ter-me proporcionado a felicidade que eu desejava. O que ela nunca entendeu é que o culpado sempre fui eu, e não ela.

Já senti meu coração frio e fechado. Já tentei até persuadi-lo, mas, em determinados momentos, eu não conseguia enganá-lo. Isso fazia com que eu me cobrasse, não a minha felicidade, mas o respeito e a felicidade de outrem.

“Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...”
(Mário de Sá-Carneiro)

Eu estava vivendo uma busca do próprio “eu”. Foi o meu momento de introspecção, egocentrismo e, graças a Deus, o finalmente da destruição não aconteceu.

Não aconteceu, porque comecei a distrair-me com as pessoas nas ruas, principalmente na Av. Paulista, onde eu costumo viver, porque a adoro.

A Avenida Paulista é muito linda. Uma mistura de arquitetura moderna e clássica. É possível ali recordar bons momentos da Paulicéia Desvairada, vivendo o cotidiano, o contemporâneo.

Parque Trianon. Já imaginou dançar uma valsa pelas alamedas de um parque, tendo como som contínuo o barulho de uma cidade grande? Lá é possível.

Aqui em São Paulo tudo é possível. Basta querer. Basta estar bem consigo mesmo. Foi isso que minha cidade me ensinou. Apesar de tantas barbaridades que ouvimos em noticiários todos os dias, é aqui que me sinto bem, que vivo, que respiro o dom de ser poeta.

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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Os sonhos se realizam – Final

Computador é como carro velho: dá problemas, mas com o tempo você aprende a identificá-los e a corrigi-los.

Sugeri à Sra. Judite que comprasse um. Ela animou-se com a ideia de ter a oportunidade de conhecer alguém em salas de bate-papo. E também seria uma boa ferramenta de trabalhos escolares aos pequenos, desde que vigiados sempre.

Com o tempo, aprendeu a lidar com a máquina e, principalmente, com as armadilhas do Chat. Entretanto, aconteceu também um interesse entre ela e um homem, Mário, morador de Recife, Pernambuco. Durante algum tempo, trocaram, virtualmente, juras de amor e promessas de união matrimonial.

Mário foi ao Guarujá e foi recebido na casa dos pais de Sra. Judite. O receio inicial dissipou-se rapidamente. Ficou na cidade uma semana e convidou a família a conhecer Recife. Um mês depois, Sr. João e esposa, Sra. Judite e as crianças foram a Pernambuco.

Devo fazer um aparte necessário, agora. Mário é médico, seis anos mais velho que Sra. Judite. O que mais me impressionou nele foi a semelhança com Marquinhos. Eu diria, convicto, se eu não os conhecesse, que Mário é o pai de Marquinhos. Incrível a semelhança: Marquinhos é “o rosto de Mário, esculpido em Carrara”, ou, como prefere o povo: “Marquinhos é a cara do pai, cuspido e escarrado (ou guspido e cagado)”.

Sim! Existe amor na primeira teclada virtual.

O enlace matrimonial aconteceu na cidade de São Paulo, na Igreja Nossa Senhora do Brasil, nos Jardins. Presentes, estavam não só toda a família de Sra. Judite, como também a família de Mário, pais, tios e primos, eu (um dos padrinhos), a família do Sr. João, vizinhos e amigos do Guarujá, Marmitão, e penetras. Depois da cerimônia, voltamos ao Guarujá, em um comboio alegre, acompanhado de Batedores da Polícia Rodoviária. A festa foi na praia, inesquecível.

Atualmente, a nova família mora em Recife.

Os sonhos realmente se realizam: as crianças estão ótimas, obrigado! Adaptaram-se facilmente em Recife, têm mamãe e papai que os amam, vovôs e vovós maternos e paternos carinhosos, que vivem enchendo-os de guloseimas, brinquedos, batata frita, refrigerantes, pipoca, etc, etc, etc. Sra. Judite e Mário amam-se, são felizes.

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Dra. Nádia

Vejam só que interessante!

Já tenho computador há muito tempo. Antes eu usava apenas o Word, escrevendo meus textos jornalísticos ou preparando alguma prova ou pesquisa escolar. Internet, nem pensar, porque eu não tinha tempo para isso.

Uma vez, decidi assaltar a geladeira, no meio de um trabalho de pesquisa e digitação. Eu estava tão entretido com a matéria que, ao preparar um sanduíche, coloquei um caroço de azeitona, sem a azeitona.

A primeira mordida foi fatal. Quebrou um dente.

No dia seguinte, cedo, telefonei a minha dentista, Dra. Nádia. Marcamos um horário, que aconteceu no período da tarde.

-- Oi, Nádia!! Quanto tempo, né?

-- Pensei que nunca mais fosse ver você, André! Você some. Aliás, desde a infância não perde essa sua mania.

Nádia foi uma amiga de infância. Sempre quis ser dentista. Realizou todos os seus sonhos de infância: tornou-se dentista, casou-se com um médico e tiveram um filho.

-- Você é a mesma chata de sempre, Nádia!

Sempre tive um medo terrível de dentistas. Se fosse possível compará-los aos filmes de terror de hoje em dia, certamente o escolhido seria o Chuck, aquele boneco descabelado, irônico e ruim.

-- André!! Soube que você se separou da esposa. Está namorando?

-- “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor” – respondi, cantando.

-- Você tem Internet, amiguinho?

-- Não tenho tempo para isso, Nádia!

-- Hoje, há salas de bate-papo. Assine a Internet e entre numa dessas salas. Em breve, você deixará de ser esse chato que é hoje. Você precisa de uma companheira, amigo.

-- Nádia!

-- Oi, André!

-- Faça seu serviço, por favor!! E que doa o menos possível, tá?

-- Cabeça dura! Teimoso! Turrão!

Às vezes acho que as mulheres, mesmo as que não se conhecem, combinam seus xingamentos, porque todas me xingam da mesma forma acima. Por que será? Nunca consegui entender isso.

Depois de “reparado” o dente, voltei a casa. E fiquei pensando no “troço” de Internet. Pensei por alguns meses e resolvi comprar um modem e instalar a Internet.

Uma vez feito isso, entrei numa sala de bate-papo. Mas isso não irei contar agora.

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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um herói

André foi sepultado com todas as honras militares.

Marquinhos fez questão de estar no velório e acompanhar a homenagem, no cemitério. Chorou, apenas, por estar neste lugar. Assim que o último tostão de terra foi lançado pela pá, ajoelhou-se e rezou, chorando, pedindo a Deus que desculpasse seu pai e que o tivesse em Seus Braços.

(*)

Sr. João tentou recolhê-lo em seu colo, mas o pequeno levantou-se e abriu os bracinhos para mim:

-- Titio!

-- Vem, meu amor!

(*)

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(Vou até ali na área, respirar um pouco)
....................

Sr. Abílio não foi ao enterro. Esteve no velório, visivelmente sob efeitos de remédios, amparado pela família. Do lado do corpo de seu filho, fez um discurso, emocionado.

-- Filho! Querido e amado por sua mãe e por seu pai. Talvez se eu não fosse tão rígido, teria você a meu lado hoje, e eu, como seu orgulho. Eu errei em sua educação, não o criei como criança, não respeitei seus momentos infantis. Tentei educá-lo da forma que meu pai me educou, mas me esqueci de que o tempo não para. As tecnologias avançam a cada segundo, e a educação acompanha-as nesse ritmo frenético. Que adiantam palavras de arrependimento se não o terei de volta? Pois bem, filho! Aqui, curvado a seu corpo, e ajoelhado diante de sua alma, eu lhe prometo que não haverá mais acidentes em dias nevoentos. Nossos colegas de farda voltarão todos os dias a suas casas, depois de cumprirem sua missão; nosso povo viajará tranquilo por nossas estradas, em qualquer época do ano.

Um mês depois do trágico acidente, a polícia rodoviária estadual iniciou a “operação descida”, em dias nevoentos. Em determinados horários, os automóveis eram parados no pedágio e seguiam viagem em comboio, tendo à frente viaturas da Polícia Rodoviária.

Sr. Abílio foi homenageado pela Corporação e pelo Governo do Estado, dez dias antes de sua morte. Reduziu em 98% os acidentes nas rodovias, em dias de neblina.

Em seu leito de morte, com um sorriso vitorioso nos lábios, pediu que colocassem, sentado Marquinhos, em sua barriga. Cochichou algo no ouvido dele e descansou a cabeça no colo de Deus.

Um herói, Sr. Abílio! O senhor é, indubitavelmente, um herói.

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terça-feira, 19 de maio de 2009

Neblina, Serra do Mar, Via Anchieta

Em uma manhã nevoenta e fria de final de junho, no começo da “descida” na Serra do Mar, trecho sinuoso da Via Anchieta até a Baixada Santista, houve um acidente, envolvendo automóveis e caminhões.

Os motoristas de outros veículos que vinham atrás mal enxergavam a ponta de seu próprio nariz, tal era a neblina no trecho. Quando se deparavam com o enorme acidente, de forma repentina, acionavam o breque de seus carros, provocando outros acidentes. A narração e a descrição que seguem, abaixo, é de um deles.

-- Eu não perdi minha vida, porque saí rapidamente do carro e atirei-me no mato. De lá, com o coração acelerado, eu via toda a cena de horror e ouvia sons de batida, estrada acima. Vi quando chegou a primeira viatura da polícia rodoviária. Acreditei que, naquele momento, outras viaturas já estivessem bloqueando a estrada. Dois policiais saíram da viatura e foram prestar os primeiros socorros às vítimas. Eu saí do mato, com as pernas tremendo, e já me dirigia ao local do enorme acidente, a fim de ajudar também. De repente, um automóvel desgovernado, batendo na grade de proteção da via e rodopiando, atropelou um dos policiais, lançando-o à frente e passando por cima do corpo, matando-o. Senti-me impotente, medroso, não conseguindo, inclusive, voltar para onde eu estava. Fiquei entre a faixa do acostamento e a pista. O desespero tomou conta de todos que lá estavam. Alguns, fora de seus carros, tentando salvar seus parentes e amigos, implorando ajuda; outros, dentro carro, chorando e gritando de dor. De repente, um vulto rápido e assustador passou pertíssimo de mim: era um motociclista que, ao me ver, desviou-se a tempo, não conseguindo fazer o mesmo mais à frente. Atropelou duas pessoas que estavam na pista. O horror estava instalado. Foram apenas minutos violentos e sangrentos de que, tenho certeza, durarão para o resto de minha vida.

Quase cinco dezenas de feridos. Em hospitais da Baixada, morreram 6 pessoas; na estrada, oito; entre eles, o policial rodoviário André, durante o cumprimento de seu dever.

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domingo, 17 de maio de 2009

(André)

Meu nome é André. Nunca me preocupei de saber significados de nomes; portanto, desconheço o do meu, se é que haja um. Na verdade, é meu nome “brasileiro”, uma vez que fui registrado nessa abençoada terra, aos dois meses e meio de idade. Abracei o Brasil e fui abraçado pelos brasileiros de uma tal forma carinhosa, que às vezes me pego dizendo que nasci aqui, como você pôde já ter lido em alguns trechos deste livro.

Meu sobrenome advém de uma linhagem franco-austríaca. Um general francês, provavelmente em férias, resolveu passear em terras austríacas. Lá conheceu minha bisavó, fixou residência e deu seu sobrenome à família de meu pai. Minha mãe é portuguesa, de uma pequena aldeia ao norte de Portugal. Conheci, como vocês já sabem, meus avós e tios e primos maternos. Orgulho-me da árvore genealógica da família.

Cresci num bairro de classe média, tendo como vizinhos e amigos pessoas carentes de uma comunidade próxima. Muita gente de meu bairro não entendia o porquê de um “alemãozinho” fazer parte da turma do pé-sujo (jogávamos bola em terrenos lamacentos) e, pior, segundo eles, de frequentar rodas-de-samba.

Eu me orgulho de todos os meus amigos. Serão sempre muito importantes para mim, a tal ponto de eu caracterizá-los como universais. Acredito que, assim como a família, os amigos verdadeiros são a base de qualquer estrutura. Se você a tem, mesmo que esteja passando por dificuldades, financeiras ou de saúde, haverá o equilíbrio.

-- Esse menino sempre foi brasileiro! – é o que meu pai sempre afirmou. – Sempre gostou de samba, de jogar bola nesse lamaçal, de se arrebentar em escorregões. Devia ser corinthiano, para completar.

Lembro-me de que, em minha turma, também havia um André. Era o quinto filho de uma família só de meninas. Seus pais viviam na mendicância e colocava-os a pedir esmolas nas ruas.

Meu amigo, André, respeitava a decisão de seus pais e cumpri-as à risca, mas depois disso, frequentava uma oficina mecânica. Ficava lá só observando.

Uma vez, o dono da oficina pediu que ele limpasse o chão, porque estava escorregadio de tanto óleo esparramado. E André foi ficando e ganhando a confiança de todos.

Num determinado sábado, André resolveu dormir na oficina, para limpá-la durante o domingo. Sua curiosidade e sua vontade de aprender era tão grande que, ao invés de dormir, resolveu mexer nos motores de alguns carros. Nasceu, assim, um profissional.

André trabalhou como mecânico-chefe por vários anos na mesma oficina. Um dia, foi convidado a fazer um curso no Canadá.

Nunca mais o vi, mas tenho certeza que hoje está aposentado e é um bom chefe de família.

São exemplos como esse que esperamos de nossas crianças, carentes ou não. Vencerem na vida pelo que representam, apenas.

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sábado, 16 de maio de 2009

Amigos universais

Estar num barzinho, numa lanchonete ou num restaurante, durante um happy hour, é realmente necessário. Estar com a turma reunida, depois de um longo e cansativo dia de trabalho, é uma necessidade.

Um por um vai chegando, semblante cansado, puto da vida, pensativo, nervoso e blá blá blá blá abaixo.

-- Boa noite, putada! – é dessa forma que Mingo nos cumprimenta sempre que chega de bom humor. Aí dá um tapinha nas costas de cada um, e pede uma cerveja. Se não está de bom humor, nem entra; vai pra casa.

-- Boa noite, sala! – é assim que eu cumprimento o pessoal, quando chego. Sempre estão sentados nas mesmas cadeiras, o que dá a impressão de ser uma sala de aula.

-- Boa noite, boa noite, boa noite! – é o Tatá chegando. Senta-se e já pede a “saideira” ao dono do comércio. Essa “saideira” é cerveja, e pode demorar até cinco ou seis “saideiras”.

-- Boa noite, cambada! – é o Fácio chegando. Pega um copo, vai até a “saideira” do Tatá e se serve, naturalmente.

-- Boa noite, pervertidos! – é o Deley chegando. – Cadê o resto do pessoal, cacete? Pô! To morrendo de fome! – e já pede um porção de queijo.

-- Meus amigos! Boa noite! – é o Nelsão chegando e depositando sua bolsa, na mesa ao lado.

-- Boa noite! – é o Daniel chegando, sempre sorrindo.

-- Boa noite, imprestáveis! – é o Neneco adentrando. – Cacete! Ninguém trabalha aqui?

-- Boa noite a todos! – é o Nardinho. – Uma geladinha pra mim, por favor! – pede uma cerveja, levantando a mão.

-- Boa noite! – é o Tanaka. – Puta que pariu! Mas vocês não saem daqui, hein! Vocês não têm família? – senta-se e já pede uma cerveja e um frango a passarinho.

Meus amigos são assim. Ai daquele que provocar um deles. Não vai prestar! Como o lema de Os Três Mosqueteiros (ou como preferem alguns: Mosqueiteros): “Um por todos, todos por um!”.

Somos assim.


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sexta-feira, 15 de maio de 2009

André

Acompanhei Srs. João e Abílio ao supermercado. Tanto eu quanto eles tínhamos muito a conversar.

-- Por que não veio ao Guarujá com seu carro, Sr. André! Ou você o vendeu?

-- Por medo, Sr. Abílio! Não o vendi. Eu sei que seu filho deixou em alerta seus companheiros de farda. Não posso arriscar a vida de meus pais, que não têm nada com isso, nem a minha.

-- Enquanto vocês estiverem no Guarujá ou em qualquer parte do Brasil, estarão por nós protegidos. Já sabemos que há colegas dele vigiando seus passos e já tomamos algumas medidas também. – disse Sr. Abílio

-- Eu realmente não entendi e nunca entenderei a atitude de seu filho, Sr. Abílio! Fiquei surpreso, chateado, triste mesmo naquele dia. Não sabia que seu filho tem mudanças de comportamento tão significativas.

-- Foi surpresa para nós também, Sr. André! A família toda se reuniu na casa do João , inclusive os primos e primas que nos acompanharam no comboio, quando da saída das crianças do Convento. Como pai dele, sinto-me muito envergonhado pelo que ele fez e continua insistindo em fazer.

-- Inclusive, Sr. André, já comunicamos o Comandante, a quem ele está subordinado. – acrescentou Sr. João – Nossa preocupação foi quanto às pessoas que ele pagou para cercar a casa, o bairro, a Balsa Santos-Guarujá, e a rodovia de acesso à cidade.

-- E também no pedágio da Imigrantes. – completei.

-- Na Imigrantes também??? – surpreenderam-se.

-- Sim.

-- Como o senhor sabe disso.

-- Acreditam em mediunidade?

-- Somos católicos, mas acreditamos no espiritismo.

-- Minha mãe tem esse dom. Um amigo também tem, e foi ele quem me avisou. Descreveu, inclusive, o policial rodoviário que entraria em meu carro, a partir do pedágio. Orientou-me a trocar de carro. Assim o fiz. Logo que passei pelo pedágio, vi esse policial rodoviário e mais dois, parando um carro idêntico ao meu. Espero que não tenham feito nada de mau ao motorista e à família dele. Entenderam agora a proporção de minha agonia? Além disso, pessoas de má índole costumam maltratar crianças e mulheres. E isso eu não irei permitir, Sr. Abílio!

-- Ele não mais perturbará as crianças e nem a esposa. – disse Sr. João. – Minha filha se separará dele, e ficará com as crianças.

-- É verdade, Sr. André! Tudo veio à tona naquela noite que veio buscar sua mãe. A Judite nos contou que ele batia nela, quando ela, em seu instinto maternal, se colocava entre ele e as crianças. – completou Sr. Abílio, com lágrimas em seus olhos.

-- Sr. Abílio, eu lamento muito toda essa situação. Imagino o seu sofrimento. Quando o vi pela primeira vez na estrada, pareceu-me uma pessoa serena e religiosa. Durante todo o processo de adoção, admirei seu filho. Hoje, como policial, trabalhando próximo a essa marginalidade, é natural que tenha mudanças de comportamento. O senhor já tentou levá-lo a um psicólogo, ou um psiquiatra?

-- Já o levei, na própria polícia. Os exames feitos e o relatório dos médicos são satisfatórios. O que ele tem mesmo é maldade no coração. O destino dele, Sr. André, não será muito bom. Pessoas assim têm morte violenta. É o que acontecerá com ele, se continuar agindo assim.

Abracei-o, emocionado. Sr. João fez o mesmo, e choramos os três.


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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sonhos se realizam – III

Antes de telefonar à Sra. Judite, telefonei ao Tatá.

-- Alô, Tatá!

-- Fala aí, meu camarada!! Fizeram boa viagem?

-- Sim, Tatá!! Foi tranquila! Quando passamos pelo pedágio, vi os três guardas. Eu gostaria que você me fizesse um favor.

-- Claro que faço, André! O que quer?

-- Quero que venha de ônibus ao Guarujá, e volte dirigindo o carro de minha irmã. Eu o tirarei agora do estacionamento do hotel e o deixarei num outro estacionamento a 2km daqui, em frente ao Terminal Rodoviário. Quando você chegar lá, te entregarei as chaves e os documentos do carro.

-- Está combinado, meu camarada!! Sairei daqui a pouco da empresa. Quando eu já estiver no ônibus, te telefonarei.

-- Obrigado por mais essa, Tatá!

-- Que obrigado nada!!! Vai preparando o bolso pra me pagar umas cervejinhas, quando você voltar.

-- (risos)

Estava com medo de envolver gratuitamente minha irmã e o marido dela, além de meus sobrinhos, é claro. Não me pegaram na ida ao Guarujá, mas não sabia nada da volta. Afinal, eu estava no território deles. Se meu xará deixou tudo planejado entre os amigos, quem poderia me garantir paz na Baixada Santista?

-- Já telefonou pra ela, André? – perguntou-me meu pai, ansioso.

-- Chegamos cedo demais, pai! – disse-lhe rindo – telefonarei daqui a duas horas, conforme o combinado. Você não estão com fome? Por que não vão tomar um chá no restaurante do hotel.

-- Você vai para aonde?

-- Vou comprar cigarros e conversar um pouco com o Sr. Manoel, dono da padaria.

Nesse momento, tocou o telefone. Era o Tatá.

-- André!! Já estamos no pedágio.

-- Legal! Estou indo à rodoviária. Abraços, amigo!

Desliguei o telefone e desci ao estacionamento. Peguei o carro e fui ao Terminal.

90 minutos depois, chegou o ônibus. Sem dizer nada, entreguei chaves e documentos a Tatá. Depois, apanhei um táxi e me dirigi à Locadora de Veículos, onde aloquei um carro idêntico ao de minha irmã. E voltei ao hotel.

-- Aconteceu alguma coisa, André? Você demorou muito.

-- Muita conversa pra se colocar em dia, né? – ri – Bem! Vamos telefonar à senhora Judite.

Quem atendeu ao telefone foi a Fefê.

-- Alô! Quem fala? – atendeu uma voz doce e meiga de garotinha.

-- Oi, Fefê!!

-- Titiooooooooooooooo!!!

-- Chama a mamãe que eu quero falar com ela.

Depois de alguns segundos, quem me atendeu foi um homem.

-- Alô! Sr. André! Aqui é o João. Fizeram boa viagem?

-- Muito boa viagem, Sr. João! O senhor e sua senhora estão bem?

-- Estamos felizes por estarem aqui. Amanhã vocês almoçarão em minha casa. E não aceito um não como resposta. Agora estamos indo todos ao hotel. Chegaremos daqui a 20 minutos, porque iremos a pé.

-- Muito obrigado, Sr. João. Aceitamos o convite. Estamos ansiosos para que cheguem logo.

-- Até daqui a pouco, amigo!

-- Até, Sr. João!

Minha menina tinha falado corretamente ao telefone. Estava progredindo.


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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Os sonhos se realizam – II

Dois meses depois que saímos do Guarujá, recebi um telefonema em minha casa.

-- Sr. André!

-- Olá, Sra. Judite! Estão todos bem aí? A Fefê e o Marquinhos estão bem também?

-- Sim, eles estão com muitas saudades do senhor e de seus pais.

-- Nós também estamos, Sra. Judite.

-- O meu marido viajou ontem e ficará uma semana em Brasília. Por que não traz seus pais aqui.

-- Isso poderá trazer consequências ruins à senhora.

-- O convite não é só meu, Sr. André. Nossos pais estão de acordo também. Eles tiveram uma discussão assim que vocês saíram daqui naquela noite, e a relação entre nós está muito abalada ainda. Ficaria imensamente grata se o senhor trouxesse seus pais aqui.

-- Obrigado, Sra. Judite! Reservarei quartos no Hotel da Orla. É lá que nos hospedaremos e é lá que eu gostaria de receber as crianças, a senhora, e vossos pais.

-- Quando pretendem vir?

-- Amanhã, estaremos por aí.

-- Avisarei meus pais e meus sogros. Eles ficarão muito felizes.

-- Obrigado, e até amanhã, então. Assim que chegarmos, telefonarei à senhora.

-- Está bem, Sr. André! Até amanhã!

Chorei. Peguei o telefone várias vezes para comunicar a meus pais, mas desisti. Fui à casa deles e dei a boa-nova ao vivo e em cores.

-- Mãe e pai! Amanhã vamos visitar as crianças e ficar com eles até segunda-feira.

-- Ai, Meu Deus!! – gritou alegremente minha mãe – Eu estava sentindo que alguma coisa boa ia acontecer.

-- Amanhã, passarei logo após o almoço. Ficaremos no Hotel da Orla.

-- Sim, filho! É bom não darmos trabalho a ninguém e, além do mais, teremos mais liberdade.

-- Essa é a ideia! Vou ao shopping comprar uns presentinhos para eles.

-- Vá sim, filho!

-- Querem vir comigo?

-- Não, filho! Prefiro ficar aqui, arrumando as malas.

Dei um beijinho nos dois.

-- Até amanhã!

Passeei, feliz, pelo shopping (coisa rara, porque não gosto de shoppings). Cada presente que comprava, enxergava o rostinho feliz de cada um. Levei as compras para o carro e fui embora.

Como já era final de tarde, resolvi passar no restaurante para o happy hour com a turma.

-- Que cara de bobão é essa, André? – perguntou-me Tatá.

-- Amanhã meus pais e eu iremos visitar meus pequenos.

-- Cara!! Que legal!

-- O seu xará permitiu, André? – perguntou-me seriamente Deley.

-- Não exatamente. Ele viajou. O convite partiu dos pais deles e a Sra. Judite me comunicou, por telefone.

-- Então, tome cuidado, André!

-- Ué! Por que devo tomar cuidado, Deley?

-- Porque ele pode ter armado alguma pra você.

-- Está pressentindo algo, Deley? -- perguntou-lhe Tatá, preocupado.

-- Assim que vi você estacionando o carro, enxerguei uma imagem. Quem estará no carro com você, além de seus pais?

-- Apenas nós três, Deley!

-- Haverá mais alguém dentro do carro.

Entrou em transe, ali mesmo à mesa do restaurante. Depois, ergueu os olhos e me disse que eu seria parado na estrada e um homem entraria no carro. Fiquei assustado. Eu não colocaria em risco meus pais. Deley pressentiu.

-- Descreva o homem, Deley! – pediu Tatá.

-- É um policial rodoviário, moreno, baixo. Você dará carona a ele assim que passar pelo pedágio da Imigrantes. Seu carro será parado por policias rodoviários, que pedirão a você que dê uma carona a esse homem até o Guarujá. Sua reação será imediata, André, dizendo aos policiais que o seu destino não é o Guarujá. Eles insistirão porque sabem quem é você.

Abaixou novamente os olhos e, depois de alguns segundos, reergueu-os novamente e completou:

-- Troque de carro com sua irmã ou vão de ônibus, que nada disso ocorrerá.

-- É isso, André! Troque de carro com sua irmã. Deixe o seu com ela e vá com o dela ao Guarujá. – disse-me Tatá.

Deley voltou do transe.

-- O que decidiu, André? – perguntou-me.

Peguei o telefone e liguei para minha irmã. Expliquei-lhe o motivo e ela aceitou fazer a troca.

-- Farei a troca, Deley!! Muito obrigado, meu amigos!!

Despedi-me deles, levantei-me e fui embora. Na manhã seguinte, fiz as trocas de carro, com os presentes e mala de viagem.

Às 13h, eu já estava na casa dos meus pais. Quando viu o carro da filha, meu pai perguntou o motivo.

-- Meu carro está falhando a partida. Troquei com ela, para não perdermos essa chance de ficar com os pequenos. Ela pedirá ao mecânico para verificar o carro e consertá-lo.

-- Tive um pesadelo essa noite.

-- O que sonhou, mãe?

-- Sonhei que fomos parados pelos policiais rodoviários, logo depois do pedágio. E eles não nos deixaram seguir viagem.

Arrepiei-me. Minha mãe é médium e morre de medo de desenvolver-se espiritualmente. Às vezes, tem bons pressentimentos, mas tem ruins também.

-- Nada de ruim acontecerá, mãe! Ajeite-se aí e durma um pouquinho. Quando acordar, já estaremos à porta do hotel.

Assim que passamos o pedágio, vi, do lado direito, no acostamento, três policiais acenando para um carro, idêntico ao meu. Um deles era moreno e baixo.

Chegamos ao Guarujá.

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terça-feira, 12 de maio de 2009

Vidas passadas -- I

Alguns anos depois que me divorciei, namorei uma mulher que falava muito durante a noite. Pode até parecer engraçado isso, mas, confesso, na primeira vez que isso aconteceu, fiquei muito impressionado.

Com um acentuado sotaque português, falava sobre si própria, sobre os “nossos” filhos e sobre mim.

-- Tua mãe matou-me.

Acordado, impressionado e assustado, aproximei-me de seu ouvido e, sussurrando, iniciei um diálogo com ela.

-- Por que ela te assassinou?

-- Porque eu era uma rapariga.

-- Só por que tu nasceste no campo? Isso não é motivo.

-- Tu pertences à casta aristocrática. Ela não me aceita como tua esposa. Os tiranos dela já haviam ameaçado minha família, caso eu ficasse contigo.

-- Como tu foste assassinada?

-- Com tiros de rifles.

Dormiu. Quem não conseguiu dormir mais fui eu.

Ao acordar, pela manhã, perguntei-lhe com o que havia sonhado, porque estava muito agitada. Ela respondeu-me de que não se lembrava.

Procurei ajuda de profissionais.

-- Sua namorada teve uma regressão, Sr. André! Traga-a aqui em meu consultório. Farei a regressão com ela e um tratamento para que possa ter noites tranquilas de sono.

Telefonei a ela e marcamos um encontro num restaurante.

-- Você parece preocupado, André!

-- Lourdes, estou preocupado com você. Como é o seu dia, depois que acorda de sonos agitados?

-- Você está se referindo àquela noite?

-- Sim! Sente cansaço durante o dia?

-- Eu sinto muita dor de cabeça.

-- Pois bem, Lourdes! Naquela noite, você regrediu no tempo, talvez ao século XVII ou XVIII, e mantivemos um diálogo. Você falava um português acentuadíssimo, comum em Trás-os-Montes.

-- (risos)

-- Isso é sério, Lourdes! Há quanto tempo você sente essas dores de cabeça?

-- Desde criança eu sinto, mas ultimamente tem piorado.

-- Esse “ultimamente” significa desde que estamos juntos?

-- Sim, André!

-- Deseja acabar com essas dores ou, ao menos, amenizá-las?

-- Claro! É tudo o que mais quero.

-- Conversei com um profissional, um médico, estudioso nesse assunto de regressão. Ele pediu-me que a levasse no consultório dele.

-- Tenho muito medo disso. Se eu regredir e não voltar?

-- Você está aqui, não está? Regrediu naquela noite e voltou, sozinha, isto é, sem ajuda de ninguém. Não há o que temer. Estarei a seu lado.

-- Quando será a consulta?

-- Daqui a pouco. Como é um médico conceituado, foi difícil marcar a consulta.

-- Então, vamos.

Chegamos 40 minutos antes do horário marcado. Diferentemente de outros, o consultório do Dr. Keyson transmite paz. A sala de espera, por exemplo, é embaixo de uma videira. A sala de relaxamento é no centro de um jardim, com muitas flores e um gramado bem cuidado. A sala de regressão, local de trabalho do médico, é rodeada de um grande viveiro, com diferentes espécies de pássaros.

Ao entrar na sala, parece que o paciente está no meio de uma floresta, tal é o canto dos pássaros. Entretanto, quando se começa o tratamento, os pássaros diminuem o ritmo dos cantos e ouvem-se, apenas, piados isolados e em tom baixo.

Em minha opinião, Dr. Keyson não nasceu na Terra. Veio para cá em missão de paz e ajuda. Como diria meu pai, “é um médico das antigas”, porque atende e ajuda pessoas pobres, ricas, humildes e é presenteado, como forma de pagamento, com valores da terra: verduras, frutos, galinhas, aves. Os mais abastados, geralmente mais desconfiados, pagam a consulta em dinheiro.

Exatamente no horário marcado, fomos chamados pela voz doce da enfermeira.

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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Os sonhos se realizam

Qualquer sonho se realiza. Quem sonha, há de ter perseverança, lutar para conseguir. Tudo o que eu escrever aqui sobre esse tema será cair em lugar comum.

Diariamente, recebemos e-mails com imagens e lindas palavras, encorajando-nos a seguir em frente, a buscar nossos sonhos.

Reflita! Relembre bons e maus momentos de sua vida. Se precisar, pegue um caderno, divida-o em duas partes e anote todos os melhores e piores momentos. Não se esqueça, porém, de que cada período ruim traz um ensinamento, traz-nos maior poder de julgamento, a fim de que o evitemos no futuro.

Uma vez, assisti, por vídeo, transmitido a mim por Clarita, a uma palestra de Sir Ken Robinson, cujo tema era: Escolas matam a criatividade? Sir Robinson pensa que sim, porque a escola direciona o ensino a matérias como matemática, línguas, ciências, deixando praticamente de lado artes, pintura, música, dança. Em parte ele tem razão, porque o mundo está focado em concorrências e ambições. A criança, na escola, aprende desenho e música; durante seu crescimento, as artes são colocadas de lado. “Em qualquer lugar do mundo, isso ocorre”, afirma Sir Robinson.

Anos atrás, lecionando no 3º ano do Ensino Médio, um adolescente veio conversar comigo:

-- Professor!! Já é a terceira vez que faço o 3º ano e pelo que estou percebendo, reprovarei novamente.

-- Realmente! Suas notas são péssimas. Você mal sabe escrever uma redação. Como espera ser aprovado em um exame de vestibular?

-- Eu não pretendo prestar o vestibular. Meu sonho é ser cozinheiro, é trabalhar com chefs franceses, em cozinhas internacionais. Meus pais não se conformam com isso. Meus professores, muito menos.

Confesso que fiquei surpreso. Nunca tive um aluno que me relatasse isso com naturalidade e tristeza ao mesmo tempo. Abracei-o e disse-lhe que me desse um tempo, pois eu conversaria com os outros professores.

Nos dias seguintes, conversei com a coordenadora, com a diretora e com o orientador educacional. Houve preocupação, e a diretora resolveu fazer uma reunião com os professores.

Durante 4 horas, na reunião, discutimos sobre o problema.

-- Em minha disciplina, ele não será aprovado, se não estudar. – afirmava o professor de matemática.

-- Eu não vejo problemas, em minha disciplina, de aprová-lo. Afinal, ele quer seguir seu sonho e poderá se dar muito bem. – comentava a professora de Física.

-- Eu concordo com a professora. Mas... se ele estiver mentindo? Depois de aprovado, entra numa universidade particular, e passaremos por idiotas, enganados por um adolescente.

-- E daí? Quantos e quantos foram aprovados sem terem merecido, e hoje estão muito bem profissionalmente? Penso que devemos dar essa chance a ele. – comentei.

-- Eu não o aprovarei! – insistiu o professor de matemática.

-- Quem mais não o aprovará? – perguntou a diretora.

Ninguém levantou a mão.

-- Bem, professor, no exame final ele reprovará em sua matéria. Como será a única, ele irá a conselho de classe. E será aprovado pelos demais.

-- Que assim seja, então!

O aluno foi aprovado. Anos mais tarde, eu estava no Largo de São Bento, saindo do Colégio, quando o reencontrei.

-- Meu querido e estimado professor!!!

-- Puxa! Como você mudou! Está trabalhando?

-- Sim, mestre! Sou cozinheiro profissional. Nos últimos anos, estudei até na França. Hoje trabalho num conceituado restaurante de São Paulo, como chef.

Uma chance dada, um sonho realizado.


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domingo, 10 de maio de 2009

Tudo é questão de...

Existem pessoas, em outro país, que comem carne de cachorro. Para nós, brasileiros, é inconcebível uma coisa dessa. Entretanto, para eles, é uma questão de cultura.

Aqui em São Paulo, como em muitos outros estados, há pessoas que comem churrasquinho de gato e ainda aproveitam o couro do animal para revestir o tamborim. Contudo, é uma questão de sobrevivência e diversão. Sobrevivência, porque gato tem em qualquer lugar; os aproveitadores, ditos espertos, os caçam, matam, temperam a carne e vendem em forma de churrasco, em portas de botecos da periferia, acompanhado de muito samba e toques de tamborim. E todos comem gato por alcatra e divertem-se.

Há uma companhia aérea chamada Pet Airways, especializada em transporte “executivo” de animais de estimação. É uma questão de inversão de valores.

Em muitos países, a água é escassa. É um produto caro; logo, há de ter-se consciência em usá-la. É uma questão de bom senso. No sertão brasileiro, onde a água é escassa também, prevalece o mercado negro e a falta de interesse de seus governos. É uma questão de corrupção e “coronelismos”.

Em São Paulo, adolescentes ficam embaixo da água corrente do chuveiro por mais de 60 minutos e, ainda assim, saem de lá e deixam a toalha suja. É uma questão de desperdício, de falta de respeito com o planeta, de má-educação.

Em alguns países, homens e mulheres só se conhecem no dia de seus casamentos. As famílias dos “noivos” combinam o destino de seus filhos. É uma questão de cultura e reprodução.

Aqui, no Brasil, essa ideia causa repugnância, porque, segundo a maioria, não se pode casar sem amor. No entanto, em grandes capitais é comum um ilustre (jogador de futebol, ator, atriz) casar-se e, dias após, separar-se. É uma questão de prepotência, de brilho nos meios sociais; certamente, sabe que será convidado a se hospedar na Ilha de Caras, sem que seja preciso ficar com a de bunda. Tornou-se tão normal isso, que os fãs, geralmente pobres, ficam torcendo por um novo amor de seu ídolo. É uma questão de pobreza cultural.

Em alguns países da Velha Europa, não se pode fumar em locais públicos. Carteiras (maços) de cigarros são vendidas apenas em Tabacarias e são caríssimas. Só fuma quem pode sustentar o vício. É uma questão de cultura, porque a educação oferecida em escolas públicas é de qualidade e milenar.

Em São Paulo, daqui a 90 dias, não se poderá fumar em lugares públicos, fechados. Apenas na rua e em casa. É uma questão de ignorância governamental, porque não temos uma educação de qualidade em nossas escolas públicas.

Recentemente, professores tentaram uma audiência com o governador que, mais uma vez, repetindo atitudes de Mário Covas, não os recebeu, como também não recebeu os policiais civis, em sua reivindicação justa por salários melhores. É uma questão de esperteza: tira-se do funcionário público para acrescentar no “mísero” jetom de nossos políticos. E continuamos votando neles. É uma questão de burrice.

Tudo é uma questão de ignorância.

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sábado, 9 de maio de 2009

Fiquei do lado de fora da casa e pude ver, a meia quadra de distância, minha mãe, meus pequenos, Sra. Judite, Sr. João e Sr. Abílio e esposas. Vinham animados.

Sr. Abílio devia, no mínimo, estar contando piadas. Ele é uma pessoa alegre, não admite mau humor. Minha mãe ria muito, com seu jeitinho peculiar: parava, abaixava-se, colocava as mãos no joelho, e soltava uma gargalhada. Ela estava bem e feliz.

Quando me viram, as crianças correram para o meu colo. Precisei sentar-me na calçada para não cair.

-- Deita, titio!

-- Aqui no chão sujo, Marquinhos?

-- Só um pouquinho.

Deitei-me, e os dois pularam em minha barriga.

-- Uffffffffffffffffffff!!

-- (gargalhadas dos dois)

Levantei-me para cumprimentar os avós e a Sra. Judite, que estava de braços dados à minha mãe. Pela expressão tensa em meu rosto, ela já sabia o que havia acontecido.

-- Sr. André! Venha!! Vamos todos a minha casa tomar um bom café.

-- Muito obrigado, Sr. João! Precisamos voltar à capital, agora. Quem sabe um outro dia.

-- Aconteceu algo, Sr. André? Parece tenso.

-- Apenas cansaço.

Os avós entreolharam-se preocupados.

-- Mãezinha, despeça-se das crianças e de nossos amigos. Sua filha está muito preocupada com a senhora.

-- Eu deixei um bilhete escrito, dizendo que eu vinha para cá.

-- Está bem, mãezinha! A senhora tem alguma coisa dentro da casa?

-- Tenho minha bolsa.

-- Veio só com essa roupa do corpo?

-- Eu não esperava dormir aqui.

-- Sra. Judite! Poderia ir buscar a bolsa de minha mãe?

-- Judite, faça um café e vamos todos entrar em sua casa.

-- Sr. Abílio! Mais uma vez eu agradeço, mas temos mesmo de ir embora. Tenho muito serviço para terminar.

Sra, Judite entrou e saiu com a bolsa de minha mãe. Entregou-lhe, beijando-a afetivamente o rosto. Depois, abraçou-a, e disse-lhe:

-- A senhora sempre será bem recebida em minha casa. Mas, antes de vir, me telefone.

-- Obrigada, Judite! Você é uma boa mulher.

-- Judite!! O André não está em casa? – interrompeu-a Sr. João.

-- Ele está lá dentro, assistindo à televisão.

Sr. Judite continuou conversando com minha mãe. Sr. João e Sr. Abílio e suas respectivas esposas me pediram licença e entraram na casa, preocupados.

-- Titio! Quando é que vocês vão vir aqui outra vez?

-- No Dia das Crianças estaremos aqui. Não se esqueçam de me mandar uma cartinha dizendo o que vocês querem ganhar de presente.

-- Quéio baia.

-- Bala outra vez, Fefê?

-- É.

-- Eu quero aquele joguinho que põe na televisão, titio!

-- O PlayStation? – perguntei-lhe surpreso.

-- Isso, titio!

-- Eu quéio uma boneca.

-- Combinado! No Dia das Crianças a vovó, o vovô e eu estaremos aqui.

-- O Dia das Crianças está muito longe, André!

-- Mãe, conversaremos no carro sobre isso, está bem? Vamos embora, agora. Sra. Judite! Transmita aos seus pais e aos pai do André meu sincero carinho e respeito por eles.

-- Sim, Sr. André!

Abraçou-me e, quase sussurrando e abafando uma voz de choro, me pediu desculpas.

Despedimo-nos de meus pequenos e fomos embora.

No carro, em boa parte do trajeto, permanecemos em um silêncio revelador. Ao chegarmos ao planalto, minha mãe me disse:

-- Eu não gosto daquele homem.

-- De quem, mãe?

-- Do pai dos meus netinhos.

-- Por quê?

-- As crianças têm medo dele.

-- Ele bate nas crianças?

-- Isso eu não vi. Mas meu instinto me diz que ele não é nem um bom pai nem um bom marido.

-- Deve ser impressão sua, mãe!! Esqueça isso!

-- Por que devemos ir visitá-los apenas no Dia das Crianças? Isso é em outubro... mais de sete meses.

-- Mãe, preste atenção! Só ouça o que irei dizer. Depois quero ouvi-la também.

-- Fale!

-- A Fefê está tendo progressos na escolinha. Ela já pronuncia corretamente as palavras. Quando a senhora está ao lado dela, ela regride, e passa a falar como uma criancinha de um ou dois anos de idade. Quando estou perto, isso ocorre também.

-- Mas isso é normal, André!!

-- Não é normal, porque as crianças de mesma idade pronunciam corretamente e riem dela, por estar falando assim. Cada vez que vamos para lá, a regressão acontece. A professora, a fonoaudióloga e a psicóloga voltam a se preocupar com isso e solicitam aos pais um acompanhamento mais rigoroso em casa.

-- Riem dela só por que ela fala errado? Eu acho tão bonitinho!

-- É bonitinho sim, mãe, porque ela sempre será nosso eterno bebê, porém ao rirem dela, as outras crianças batem também. E ela se retrai, chora muito, tem medo de ir à escolinha.

-- Ai, meu Deus!! E agora, André?

-- Eu sugeri aos pais que a mudassem de escolinha, a fim de começar um novo trabalho com outras profissionais e também conviver pacificamente com outras crianças.

-- É uma boa ideia, filho!

-- Para que isso aconteça, é fundamental que nós nos afastemos deles num período de 7 ou 8 meses. Por isso, escolhi o Dia das Crianças para visitá-los. Entendeu agora, mãe?

-- Entendi sim, filho! Você tem razão. É isso que iremos fazer, para o bem da Fefê. Mas o Marquinhos poderá vir passar um fim de semana com a gente, né?

-- Tirar o Marquinhos do lado da Fefê? – perguntei-lhe, rindo.

-- É verdade!! Os dois não se desgrudam. – comentou, rindo também.

O que eu disse à minha mãe não foi uma mentira. Realmente estava acontecendo isso, mas não devido à nossa presença junto a eles. Eu apenas omiti a verdade. Ela não precisava e não merecia sofrer por isso.

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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Continuação...

Telefonei ao casal.

-- Boa tarde, Sra. Judite! – É o André.

-- Boa tarde, Sr. André!

-- A minha mãe está aí, Sra. Judite?

-- Sim, está arrumando a sala de brinquedos. O senhor não sabia que ela tinha vindo para cá?

-- Ninguém sabia, e estamos preocupados. Já estou indo ao Guarujá. Não a deixe sair daí, por favor. Se ele quiser sair para fazer alguma compra, eu peço que a senhora vá junto também.

-- Está bem, Sr. André!

Em 70 minutos, eu já estava no portão da casa deles, no Guarujá.

-- Fez boa viagem, xará?

-- Não tão boa... estou preocupado, André!

-- Eu entendo. Estamos preocupados também. Não exatamente com a sua mãe, mas na interferência dela na vida das crianças.

-- O que está querendo dizer? Vá direto ao ponto.

-- Estou tentando dizer-lhe que não queremos mais seus pais aqui em nossa casa. Meus filhos têm avós. Sua mãe está prejudicando a relação das crianças com os nossos pais.

-- Sr. André! Está sendo radical. Tudo aconteceu de repente. Não pode proibir a visita dela. Eu concordo que deve haver um espaçamento entre uma visita e outra, a fim de que nossas crianças se acostumem com a presença e os carinhos de seus pais.

-- Nossas crianças?

-- Sim! Queira ou não, sempre me dirigirei a eles como minhas crianças, meus pequenos. Quando eles tiverem 50 anos idade, eu direi, de onde eu estiver, “Que saudades de meus pequenos! Foram bem criados pelos pais, André e Judite; amados por seus avós, e eternizados por mim”. Ou será que o senhor vai me proibir, vai me processar depois de morto?

-- O fato é que não quero mais seus pais aqui ou em qualquer outro lugar. Deixe-me fazer uma pequena correção: eu não quero mais ninguém aqui, nem você, seja em aniversários ou qualquer outra data comemorativa.

-- Está se valendo de sua profissão?

-- Se eu precisar recorrer a ela, farei isso.

-- A sua senhora tem a mesma opinião?

-- Isso não lhe interessa!

-- Onde está a minha mãe?

-- Foram os quatro passear na orla. Daqui a pouco estarão aqui.

-- Bem! Eu farei isso, André! É uma decisão só sua. Nem sua esposa nem seus pais compartilham dessa opinião absurda. Isso é próprio de gente sem caráter, que não cumpre sua palavra. Para mim, você não tem hombridade, é um pobre coitado da vida, bem pior que qualquer morador de rua, um trapo de gente.

-- O senhor está em minha casa. Meça suas palavras!

-- Vamos lá pra fora! Continuarei dizendo isso e mais um pouco.

-- Não estou aqui para ouvir desaforos de um derrotado.

-- Dizem, moleque, que “a vida dá voltas, que as pedras se reencontram”. Hoje, rapaz, você está bem. Amanhã, eu rezarei para você estar melhor.

-- Você rezará por mim? – perguntou-me, rindo.

-- Claro que sim! Afinal, meus pequenos precisam de você. – respondi-lhe, com um sorriso irônico.

-- Seus pequenos? Quem?

-- Oras, os meus filhos, a Fefê e o Marquinhos! Quem mais? – eu ria muito, com o objetivo de provocá-lo.

-- Aquela porta ali – apontou-me a porta da sala – é a da rua. É serventia de casa. Saia daqui agora!

-- Sairei, mas quero que saiba que você me verá muitas vezes aqui no bairro.

-- Saia daqui! – ordenou, gritando.

-- Abaixe o tom de sua voz, porque não sou seu subordinado e muito menos o policial de merda que você é – disse com o em dedo em riste no rosto dele – O julgamento que estou tendo de você é péssimo e me preocupa mais. Se eu souber, que você agride fisicamente meus pequenos, eu enfiarei uma bala na sua testa.

-- É uma ameaça?

-- Não! É uma promessa.

Saí da casa.


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quarta-feira, 6 de maio de 2009

O casal, Fefê e Marquinhos

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Confesso a vocês que foi difícil chegar a este capítulo e ainda assim está sendo difícil continuá-lo.

Quero que saibam que este capítulo demorou a ser publicado, porque, quando o escrevi, guardei-o na gaveta de minha escrivaninha, por covardia. Achei-o muito emotivo e até agora não mudei minha opinião, nem meus sentimentos. Revisei-o diversas vezes, mas nada adiantou. E assim será publicado.

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Durante o magnífico ano, participei de todos os momentos importantes na vida de meus pequenos. Teatrinhos, datas comemorativas, festas religiosas, festas juninas, dia das crianças, encerramento de fim de ano etc... etc.

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Eu tornei pessoas infelizes.

Em minha ânsia de me tornar feliz com minha filha, com meus filhos adotados, atingi quem não merecia sofrer: meus pais. Sofreram demais, por minha culpa. Há fatos que foram mascarados, por necessidade do desenvolvimento dos capítulos, mas que não podem ficar na obscuridade. Estão vindo à tona, porque me sinto um nojo.

Meus pais não me merecem. Não foi exatamente essa educação que recebi deles. Trabalhei com mentiras, com o único propósito de não feri-los. Arrependo-me, amargamente.

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Houve fins de semana que Fefê e Marquinhos conheceram seus avós, meus pais. Conviveram com eles. Os quatro demonstraram amor e uma convivência natural entre netos e avós.

Houve uma integração entre minha família e mim, a fim de que eu casasse para poder adotá-los, tal era o amor entre as crianças e meus pais.

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Quando minha mãe soube da adoção, a vida ruiu... problemas de saúde apareceram, depressões, internações.

Depois de seu restabelecimento, levei-a ao Guarujá algumas vezes, em festas comemorativas, e ela tinha ainda todo amor das crianças.

Amor, o maior sentimento que recebemos dO Filho de Deus. Eu O ignorei. Fiz-me de vítima, acovardei-me...

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Semanas depois de termos ido a festas comemorativas junto às crianças, minha irmã me telefonou.

-- André!! A mamãe tá aí em seu apartamento?

-- Não!! Faz dois dias que não a vejo. O que está acontecendo, Roseli?

-- A mamãe sumiu, André!

-- Sumiuuuuu??? Comoooo sumiuuu???

-- Estou na casa deles... o papai já não a vê há mais de um dia, e está muito preocupado.

-- Meu Deus!!! Eu acho que sei aonde ela foi.

-- Ache a mamãe, André!

Certamente, eu sabia onde ela estava.

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terça-feira, 5 de maio de 2009

* Maristela é uma jovem intelectual. Foi acolhida pela ONG aos sete anos de idade. Desde cedo, interessou-se por todos os projetos, destacando-se.

A gerente da ONG, Sra. Cíntia, percebeu que, se Maristela continuasse interessada, poderia ter um futuro brilhante. Então, providenciou livros, inicialmente infantis. Conversou com a mãe dela, a fim de que ela também incentivasse a leitura dos livros, em casa. E assim foi feito.

Aos doze anos de idade, lia Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, a trilogia do Harry Potter, Senhor dos Anéis, Frankstein, além de outros da literatura universal.

Nessa época, as escolas públicas ofereceram, fora do horário de aulas normais, cursos de espanhol e inglês. Maristela optou pelo curso de espanhol e lá se destacou também.

Aos 14 anos, Sra. Cíntia, inscreveu-a num “vestibulinho” de um conceituado e tradicional colégio particular de São Paulo, a fim de tentar ganhar uma bolsa de estudos para o Ensino Médio, em horário integral. Sra. Cíntia e todos os educadores e funcionários da ONG tinham confiança no sucesso de Maristela.

Maristela não os decepcionou. Conseguiu uma bolsa de estudos de 80% do valor da mensalidade. Entretanto...

....a mãe de Maristela não a matriculou, pelas seguintes razões:

da comunidade em que vive ao colégio particular, são duas conduções;

apesar dos 80%, havia os 20%, ou seja, mais ou menos R$ 200,00/mês, que a mãe, empregada doméstica, não teria como pagar;

os livros: na média R$ 50,00 cada um, por disciplina;

uniforme escolar: R$ 180,00;

Almoço ou lanches: R$ 8,00 a R$ 12,00/dia;

Além disso, a mãe de Maristela teria de pagar uma babá para ficar com a filha menor, enquanto estivesse no trabalho.

-- Babá é coisa pa rico. – lamentava-se, com parcial razão. – Minha fia vai ficá na escola púbrica, pruque não tenho condição de pagar tudo isso pa ela. Sô empregada doméstica, trabaio o dia inteiro, não tenho com quem deixá minha bebê. Quem toma conta dela é a Tela.

-- Os associados da ONG podem arcar com a despesa extra. É o futuro de sua filha, talvez até o ingresso em uma excelente universidade pública – insistia a gerente.

-- O colégio particular é dimais longe daqui. Ela é dimenor. Só sai di ômbus na minha companhia. Não vou deixá minha fia andando sozinha por aí.

-- Gostaria de que a senhora refletisse melhor.

-- A sinhora tá me chamanu di burra? Eu já decidi o futuro da minha fia. Vai estudá no colégio púbrico até o fim. Dispois, se não consegui entrá nas iniversidade, vai trabaiá de doméstica como eu. Pelo meno vai tê o dinheirinho pa ajudá nas despesa da casa.

-- Lamentamos muito a sua decisão, mas a senhora é a mãe.

-- Qui bom qui a sinhora intendeu.

Nessa época, a ONG não recebia ajuda governamental, como a maioria recebe. ONG significa Organização Não Governamental, deveria ser um órgão particular. Mas não é o que ocorre nas inumeráveis existentes no Brasil.

A ONG, em questão, era mantida por pequenos empresários e até mesmo por moradores de classe média alta, de bairros vizinhos. Certamente, presenteariam com agrado o futuro de Maristela.

A mãe de Maristela não deixa de ter razão. Sofreu na vida, quando o ex marido deixou-a na rua, tendo Maristela nos braços. Lutou para conseguir uma casinha de dois cômodos, na comunidade pobre onde mora.

Tem medo de perder a filha. Não importa se está atrapalhando ou não a vida da jovem, porque ela (mãe) não compreende isso.

Se houvesse a vontade de um esforço maior, Maristela estudaria no colégio particular. Sabemos que, para que alcancemos nossos sonhos, é necessário garra, luta, mas a mãe de Maristela já tinha se acomodado na vida e não pretendia mudar.

Maristela não aceitou a decisão da mãe e tornou-se uma adolescente triste.

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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Crianças carentes

Trabalhar, tendo como meta o aprendizado de crianças, é gratificante, e amplia a visão de mundo, seja do voluntário, seja do profissional de Educação, seja de empresários que incentivam uma iniciativa, como, por exemplo, uma ONG.

Estar em uma sala de aula como Educador e desenvolver projetos junto a crianças carentes, é sentir-se útil, solidário, de bem consigo mesmo.

Em uma ONG, que trabalha para esses fins, o adulto-educador se torna o responsável legal, porque influencia, positivamente, o comportamento e a disciplina de crianças e jovens. A partir disso, há uma troca de conhecimentos e informações com o envolvimento de todos. Abaixo, alguns exemplos:

* Danicarlos era um jovem arredio. Foi acolhido pela ONG aos oito anos de idade. Esperto, logo se tornou um líder de caráter negativo: influenciava colegas a cometerem pequenos delitos. Contudo, seu comportamento foi trabalhado pelos educadores; verdadeiramente, não foi um trabalho fácil. Em menos de um ano, a criança apresentou bons resultados.

Quando completou nove anos, seus pais se separaram. A mãe mudou-se com os filhos para outro bairro, bem distante da ONG.

A vida de Danicarlos mudou completamente. Precisava de dinheiro para o ônibus, afinal estudava em uma escola pública perto da ONG e não queria ser transferido para outra em seu bairro. Procurou seu pai e disse-lhe que estava interessado em aprender um ofício. Dono de uma Borracharia, o pai fê-lo trabalhar aos fins de semana, mostrando ao jovem que nada se consegue sem nenhum esforço.

Durante a semana, de segunda a sexta-feira, Danicarlos ia à ONG, aprendia as disciplinas que não entendia na escola, auxiliava os menores em Matemática, almoçava e ia à escola pública, na parte da tarde. Retornava à sua casa à noite; aos sábados de manhã, com muito esforço, o pai pagava um curso de Desenho a ele; aos sábados à tarde e aos domingos de manhã, Danicarlos auxiliava o pai na Borracharia.

Aos 12 anos, já era referência de bom comportamento e responsabilidades. Sua esperteza lhe proporcionou ricos conhecimentos em Artes, Informática e Art Attack.

Juntou-se com seu melhor amigo, Alan, e ensinavam o que aprendiam a outros colegas.

Aos 15 anos, despediu-se, chorando, da ONG.

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domingo, 3 de maio de 2009

EU – I

EU é o pseudônimo de uma linda mulher que faz comentários sobre as histórias publicadas neste livro.

A primeira vez que nos vimos foi em um shopping de São Paulo, no fim de novembro de um ano especial, durante uma confraternização de “amigo secreto” ou “amigo oculto”.

Havia mais de 80 pessoas, e meus olhos brilharam quando a viram. O coração arrefecido até então, esquentou e começou a pulsar de um jeito diferente. No entanto, outras pessoas notaram-me babando por ela, e trataram de me apresentar a todos que lá estavam, menos a ela.

Percebi sua decepção.

Em um determinado momento, uma amiga chamou-me para uma fotografia num grupo em que a linda mulher estava também. Antes de me aproximar, ouvi-a dizer:

-- Deixe-o pra lá!! Vamos tirar a foto nós duas!

Confesso que fiquei, em termo popular, bem puto da vida, e tratei de sair de lá, dar uma volta pelo shopping, esquecer aquela mulher alta, ruiva, de olhos verdes... uma verdadeira obra-prima.

Ao retornar, entreguei meu presente ao meu “amigo secreto”, recebi o meu, despedi-me e fui embora.

Os dias se passaram, eu não conseguia esquecer aquela mulher arrogante, que eu nem sabia quem era, nunca a tinha visto em minha vida. Na primeira semana de dezembro, fui convidado a uma festa de aniversário em um karaokê num bairro nobre da zona sul.

Naquele sábado da festa, fazia frio (aqui em São Paulo é assim, mesmo no começo do verão. Ou 8 ou 80). Ao chegar, fui recepcionado por algumas amigas e com elas fiquei conversando. Vinte minutos depois, chegou a soberba. Ela estava muito linda (mulher linda sabe que é linda, sabe que está sendo notada, e se torna mais ainda altiva)!

Quando ela se aproximou da mesa em que eu estava, levantei-me e fui ao balcão do bar. Mostrei-lhe que ela não era a única insolente. Enquanto eu estava esperando para ser atendido, ela se aproximou de mim e perguntou:

-- Por que você não me cumprimentou lá no shopping? Eu te fiz alguma coisa?

-- Fez sim. Mostrou-se arrogante, no momento da foto.

-- Antes da foto, por que você não me cumprimentou?

-- Durante os cumprimentos, pensei que você não fizesse parte da turma que lá estava. Eu conhecia apenas uma pessoa, e esta apresentou-me a todos que lá estavam. Quando ela passou por você, pensei que fosse apenas mais uma no shopping.

-- Nunca é tarde pra gente se conhecer!!

Abraçamo-nos e ficamos até o fim da festa conversando.

Havia começado um relacionamento amoroso naquela noite.


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sábado, 2 de maio de 2009

Férias de Verão.

Os meses de dezembro e janeiro sempre contagiaram minha turma. No último mês do ano, reunimo-nos em uma tradicional churrascaria, dias antes do Natal, para a confraternização de uma amizade selada nos happy hours, que fizemos durante o ano. Em janeiro, alguém deu com a idéia (acho que foi o Luciano Pimenta) de jogar bola e andar de bicicleta.

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Ano passado, resolvemos descer e, depois de um dia de descanso, subir a estrada velha de Santos...a pé. Na metade da descida, todos os pernilongos, muriçocas e outros insetos já haviam sugado boa parte do sangue de cada um.

Durante a descida, Nardinho telefonou à locadora de veículos Transgala e contratou uma Van especial, que nos trouxesse de volta a São Paulo.

Além dos ferimentos, provocados pelas picadas dos insetos, tínhamos os pés inchados e cheio de bolhas. Não voltaríamos a pé de jeito nenhum.

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A quadra de futebol está localizada a 6km daqui. Deixaríamos os carros em casa e iríamos de bicicleta.

Cada um com sua "bike". À noite. Cada um com sua mochilinha. O primeiro quilômetro foi tranquilo; o segundo, uma leve descida e mais um retão pela frente.

O problema foi a partir do quinto quilômetro: subida, subida, subida... todos a pé, carregando a bicicleta. No topo, decidimos parar numa lanchonete pra recuperarmos as forças. Todos bebemos água. Cerveja estava proibido. Afinal, estávamos dispostos a perder a barriga.

Voltamos ao selim.

A quadra, como diz o mineiro, estava logo ali. Mas tinha a mais brava subida.

Eu já estava sentindo muita dor na panturrilha; dois colegas sofrem de dores na coluna... já estavam arrependidos de estarem ali; um outro, ao subir na bicicleta e tentar pedalar, levou um tombo. E do jeito que caiu, ficou. Quatro "simularam" que a corrente do pedal havia saído do lugar. Outros diziam que o capacete estava incomodando. Outro esvaziou a mochila, porque achava que haviam colocado pedra, porque estava muito pesada.

Na verdade, todos queriam voltar, inclusive eu. Fizemos uma breve reunião de olhares. Quem estava de acordo a voltar, que fechasse um olho. Foi uma ação difícil, mas todos conseguiram.

E voltamos, quinto quilômetro ladeira abaixo; quarto, retão, pedalando; terceiro, segundo, e primeiro, empurrando a bicicleta.. a pé. Chegamos e fomos ao nosso pit stop, ao nosso happy end, tomar um chopinho.

Ninguém se atrevia a comentar. Aqueles dois do problema na coluna deitaram-se no chão. Nem sei que fim levaram. Voltei pra casa.

No dia seguinte, acordei e não conseguia sair da cama. Estava doendo tudo, até os dedos das mãos, de tanto acionar o breque daquela coisa de duas rodas.

Voltamos a nos encontrar duas semanas depois, totalmente restabelecidos. Não foi feito sequer um comentário a respeito da performance física e psicológica de cada um.

-- Gente! Precisamos resolver uma coisa muito importante. – disse Neneco – Fizemos a locação da quadra e o pagamento adiantado, por três meses. Não podemos perder esse dinheiro. Que vocês acham? Poderíamos ir até lá com os nossos carros e jogar bola.

-- André, acho que comprarei uma Scooter!

-- Que legal, Deley! Mas o que é Scooter? – perguntei, surpreso.

-- Scooter é uma lambretinha. – respondeu Luciano Pimenta.

-- Está a fim de morrer, Deley? – perguntou Tatá, rindo.

-- Já tive moto. A Scooter não é muito diferente. Tem bom preço, é econômica, o ideal no trânsito de São Paulo.

-- Turmaaaaaa!! E a quadra, como é que fica, heim?

-- Neneco, vá à merda!! – disse Nardinho, irritado.

-- Ontem, fiz uma boa ação. Presenteei uma criança carente.

-- E o que você deu a ela, Porfírio? – perguntou Nelsão.

-- A bicicleta que ainda estou pagando o carnê. – respondeu Porfírio, fuzilando Neneco com o olhar.

-- Não me apareça aqui com essa Scooter, Deley!! Iremos esconder as chaves, para você ir embora a pé. – ameaçou Nelsão.

Nelsão tinha razão. Achamos loucura do Deley comprar uma lambreta. O trânsito de São Paulo é muito perigoso.

Na noite seguinte, Deley chegou ao happy hour de Scooter, acompanhado de Porfírio, com sua Halley Davidson.

-- Ela é bonitinha, Deley!!

-- E econômica, André!

-- Se você não cair até a metade do ano, comprarei uma dessa também. – brinquei, rindo muito.

-- Turmaaaaa!! E a quadra? – insistiu Neneco.

Sendo o segundo mais jovem da turma, é certo que ele queria nosso bem. Um exercício físico torna-se dolorido nos dias seguintes, mas se houver persistência e vontade para continuar, certamente, ficaríamos mais saudáveis.

A média de idade de nossa turma é de 49 anos. Neneco tem 40. Está sempre procurando uma aventura que nos divirta, que nos faça esquecer dos problemas diários.

Compreendemos isso, mas nossas últimas experiências esportivas não foram nada agradáveis. Então, combinamos que, quando ele insistisse numa outra atividade, mudaríamos o assunto.

-- Poderíamos acampar em Boracéia, no próximo feriado prolongado.

-- Excelente ideia, Nelsão! – animou-se Neneco – O melhor acampamento é aquele que se faz no meio do mato. Levaremos enxadas e capinaremos a área para montarmos as barracas.

-- Detesto acampamentos!! Vou para um hotel. O que acha, André?

-- Ótima idéia, Tatá.

-- Além do conforto, teremos todas as comodidades. Tô nessa!! – ratificou Luciano Pimenta.

O restante da turma aprovou. Iríamos, então, a um hotel.


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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Do restaurante à paz de espírito

Ao sair do restaurante, decidi não voltar a São Paulo. Resolvi ficar no hotel, em Praia Grande, por alguns dias.

A noite estava estrelada, a rodovia estava tranquila. Sentia muita paz, uma felicidade misturada à saudade, mas lembranças boas por saber que as crianças já tinham uma família, sensação de equilíbrio entre razão e sentimentos. Liguei o rádio e, por incrível que pareça, estava se iniciando a música All I ask of you, de Weber Andrew, Chris Harl e Richard Herry Zachar, interpretada por Sarah Brightman e Steve Barton.

E segui o trajeto, cantando a versão de Nelson Motta, Tudo que se quer.

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Acordei às 8h, segunda-feira, e fui agradecer a Deus, com os pés na água, braços erguidos...

...e viajei, como se alçasse vôo. Atravessei o oceano e aterrissei à margem do Rio Douro, em Portugal. Ali me vi criança, fascinado pela beleza e pelo ar puro da região. Olhei morro acima e vi a Quinta de meus avós maternos, com a grande casa no meio, entre videiras, cerejeiras e outras árvores frutíferas...

...alcei vôo novamente e pousei dentro da adega de meu avô, com seus enormes barris de vinho. Fiquei escondido atrás de uma coluna, enquanto meu avô me chamava, e eu, criança, conversava com ele.

-- Andrezinho! Senta nesse banquinho de madeira, em minha frente.

Meu avô era um homem forte e alto. Mãos ásperas, pele enrugada pelo sol, trabalhador da terra. Andrezinho caminhou até ele e sentou-se.

-- Tu já tomaste vinho alguma vez em tua vida?

-- Não, vovô! Sou muito pequeno ainda.

-- Tens vontade?

-- Tenho, vovô!

Na adega, onde se apuravam o vinho, deixando-o envelhecer, havia também um cômodo, onde a família defumava as carnes e os peixes.

-- Toma cá esta fatia de pernil e esta pequena taça de vinho. Come-o e aprecia o líquido em pequenos goles.

Foi a primeira vez que comi uma carne defumada e bebi vinho. Eu tinha cinco anos. Lembro-me até hoje do odor da adega, do cheiro gostoso do defumador, um fogão à lenha. Vi-me, minutos depois, levantando-me do banquinho e caindo de tonturas. Meu avô pegou-me no colo e levou-me, rindo muito, para a casa principal. Saí detrás da coluna, rindo um riso saudoso, e acompanhei seus passos.

Quando minha avó e minha mãe viram-me desacordado nos braços de meu avô, não se contiveram:

-- Pai, o que fizeste a ele? O menino está cheirando a álcool!!

-- Dei ao meu pequeno um cálice de vinho. Está na hora de ele se tornar um homem.

-- Velho rabugento e sem juízo!! Sai daqui antes que eu te meta este rolo na tua cabeça! – disse minha avó, ameaçando-o com um rolo de macarrão.

Eu, adulto, estava sentado na cadeira, rindo muito. De repente, senti-me flutuar, e uma forte brisa carregou-me por sobre o Douro, sobre o oceano, fazendo-me aterrissar, suavemente, nas areias de Praia Grande, São Paulo, Brasil...
...agradeci mais uma vez a Deus e voltei ao hotel para tomar o café da manhã.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Do cemitério à confraternização

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Antes de sairmos do cemitério, os homens fomos conversar com o Sr. Agenor. Queríamos uma sepultura razoável, um túmulo, com três urnas, em homenagem à família de Marquinhos. Demos-lhe um sinal em dinheiro e durante a construção da última morada pagaríamos o restante.

E assim foi, até a transferência dos ossos das covas rasas para o eterno descanso. Não fui nessa última fase. Foram o Srs. André, Abílio e João. Estive presente à missa, diante da sepultura. Marquinhos ficou tão emocionado que, num gesto de carinho, abriu seus bracinhos para abraçar a lápide.

-- Eu amo vocês!

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Machado de Assis, grande escritor brasileiro, maior orador da língua portuguesa, fundador da ABL – Associação Brasileira de Letras --, escreveu: “O menino é o pai do homem”.

Todos, homens e mulheres, já fomos crianças. É na infância que criamos bons hábitos, através de ensinamentos de nossos pais e famílias, de professores, de amigos. E crescemos instruídos e educados, e tornamo-nos homens e mulheres, com nossos ideais. A educação que recebemos na infância servirá de exemplo na idade adulta.

Novamente, todos na rodovia, em direção a São Vicente, que já estava próxima. Ao passarmos por outro posto policial, outras motos e viaturas se juntaram ao comboio. Nem o Príncipe Charles teve tanta homenagem!!

Chegamos ao restaurante com muita festa. Os policiais motorizados, oito, posicionaram-se em duas filas, acompanhados de duas viaturas de cada lado, formando um corredor, por onde passaram o casal, as crianças e os avôs. Os primos lançaram rojões. Fefê e Marquinhos iam pulando, de tão felizes que estavam.

A festa se estendeu até meia-noite. Nesse período, poucas foram as vezes que fiquei com os meus pequenos. Mas eu não os perdia de vista. Mesmo dançando, eu errava os passos, só para acompanhar cada movimento deles. Quem não gostava disso eram as moças com quem eu bailava.

-- Você está com algum problema, André? – perguntou-me uma das primas do casal..

-- Não!! Estou bem! Por quê?

-- Porque eu acho que você não sabe dançar. Já pisou no meu pé duas vezes.

-- Ahhh!! Eu fiz isso? Me desculpa, tá?

-- Você é gay, André?

-- Por que me pergunta isso?

-- Porque estou a fim de ficar com você, e você nem tchum!

-- Ah, tá!! Hoje eu não estou a fim...

Aproximou sua boca em meu ouvido e disse-me:

-- Sua bichona!

E largou-me sozinho no salão.

Mas que malcriada!!

-- Que tanto você olha sobre meu ombro? – perguntou-me a irmã da Sra. Judite.

-- Estou tentando ver as crianças.

-- Daria para você prestar atenção em mim?

-- Estou prestando. Pode falar!

Ela também largou-me no meio do salão.

Que família estressada!!

Quase no fim da noite, fui me despedir das crianças. A Fefê já estava sonolenta; o Marquinhos, eufórico. Peguei-a no colo, fi-la dormir, beijei-lhe o rosto e coloquei-a no colo da mãe. Marquinhos, Srs. André, João e Abílio me acompanharam até o carro. Pedi-lhes que me deixassem a sós com Marquinhos, por alguns minutos.

-- Quero que você me prometa uma coisa: que sempre será este menino educado e carinhoso. Quero que você estude bastante e que ajude a Fefê na escola, sempre que ela precisar de auxílio nas tarefas escolares. Que obedeça a seus pais, seus avós e a família inteira.

Respondeu-me com um forte abraço, demorado, sincero. Depois, beijou-me o rosto, pediu-me à bênção e (*)

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Do Convento ao amor incondicional.

Ao dirigirmo-nos a nossos carros estacionados do lado de fora do Convento, todos os parentes do casal se emocionaram. Não teve um que não chorasse naquele momento.

Adoção é o Amor incondicional, verdadeiro, recíproco, há vida transparente, carregada de sentimentos puros, sem interesse, uma lição de vida a muitos que O trocaram pelo materialismo, pela vida desregrada, pelo poder, pela ambição, pelo egoísmo.

Os avós não se contiveram e aproximaram-se.

-- Aqui está seu neto, Sr. João!! – disse Sr. André, entregando Marquinhos aos braços do sogro.

-- Aqui está sua neta, Sr. Abílio!! – disse Sra. Judite, entregando Fefê aos braços do sogro.

-- Fefêeeeeeeeeee!!! São nossos vovôs e vovós!! – gritou Marquinhos, abraçando carinhosamente e beijando o rosto de seu avô, que chorava feito criança.

-- Meu neto será um policial rodoviário!!

-- Calma lá, João!! Seu neto não... NOSSO neto!! – bronqueou Sr. Abílio, em tom de brincadeira. -- E trate de passá-lo para os meus braços agora!

Os parentes avançaram também. As mulheres rodearam a Fefê. Cada homem que pegava Marquinhos, lançava-o para cima e pegava-o de volta. O menino ria muito. Estava feliz.

-- Bom, gente! – disse Sr. André – Vamos todos ao cemitério.

Cada um entrou em seu carro. O comboio seguiu em direção à rodovia, onde os dois policiais motorizados aguardavam a comitiva. Assim que nos avistaram, ligaram a sirene. De meu carro, eu via os meus pequenos pulando no banco detrás, vibrando com a festa de sirenes e buzinaços.

Ao passarmos novamente pelo posto da polícia rodoviária, ao comboio juntaram-se duas viaturas e, em formação de honra, uma viatura seguiu à frente, uma moto de cada lado do casal com as crianças, e a outra viatura, atrás do último carro.

A 1km do cemitério, cessaram a sirene e o buzinaço.

Sr. Agenor, funcionário administrativo do cemitério, recepcionou a todos, levando-nos até as covas rasas, onde estava a família biológica de Marquinhos. Sra. Judite e as avós entregaram-lhe ramalhetes.

O menino depositou as flores, ramalhete por ramalhete, em cada uma das covas, chorou e disse, quase sussurrando, que sentia muita saudade deles. Depois, ajoelhou-se e rezou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, sendo acompanhado por todos que lá estavam. Enxugou as lágrimas, levantou-se e veio em minha direção, com os braços levantados. Peguei-o no colo.

-- Titio! Quero rezar também para a minha irmãzinha.

-- Claro, Marquinhos! Você já depositou flores para ela também e...

-- Não, titio! Para minha irmã eu já rezei. Quero rezar para a minha outra irmãzinha.

-- A Fefê?

-- Não, titio! A minha irmãzinha, a sua filha. – fixou o olhar em meus olhos, sorrindo um choramingo.

Rezamos, chorando.

Ao sairmos, cada convidado que lá estava, depositou também flores nas covas.

E voltamos aos nossos carros.


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terça-feira, 28 de abril de 2009

Corrigindo os erros de gramática.

Embora eu seja professor de português, eu cometo erros... e alguns grotescos. Como eu não tenho um revisor para me apontar os erros na correção, antes de publicar as histórias, farei isso agora, ou seja, depois de postadas no blog.

Eu não temo erros. Temo não corrigi-los, porque não estaria sendo justo com meus leitores.

Quarta-feira, 18 de março de 2009

1969 a 1980. Zona sul de São Paulo.

3º parágrafo: “Eu estudava próximo de minha residência...”

Análise: Regência Nominal consiste na relação de dependência entre certas palavras e alguns nomes (substantivos e adjetivos).
Embora a preposição de possa ser usada com o adjetivo próximo, a preposição a é a adequada ao sentido da oração.

Correção: “Eu estudava próximo a minha residência...” (o acento indicativo de crase é facultativo, nesse caso).

Antepenúltimo parágrafo: “Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam o bem”.

Análise: Regência Verbal é a relação de dependência que se estabelece entre os verbos e seus complementos.
O verbo visar pode ser:
1- Transitivo Direto, no sentido de apontar ou pôr o visto:
A funcionária visa o passaporte.
2- Transitivo Indireto, no sentido de desejar, ter em vista, exige a preposição a: Muitos visam à tranquilidade.

Correção: “Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam ao bem”.

* Quinta-feira, 19 de março de 2009

1980 a 1990. Quem com Ferro fere...

Último parágrafo da primeira história: “Recebi propostas de outras escolas mais próximas de minha casa”.

Esse erro me persegue!!

Correção: “Recebi propostas de outras escolas mais próximas a minha casa”.

Sábado, 21 de março de 2009

Penúltimo parágrafo da primeira história: “Como estava ainda próximo de casa”.

Pqp!

Correção: “Como estava ainda próximo a casa”. (aqui não há acento indicativo de crase, porque a “casa” é minha. Se viesse determinada como “a casa de meus avós”, teria o acento)

Terça-feira, 24 de março de 2009

1981. O quadro

Segundo parágrafo: “...toda vez que eu chegava próximo a um fato importante...”

Que merda!!!

Correção: “...toda vez que eu chegava próximo de um fato importante...” (não indica lugar; logo, a preposição exigida é “de”)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O Convento – Final

“Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê.

Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei por quê.”

(Camões)

O Convento já fazia parte de minha vida, mas, decididamente, eu tinha que me afastar. Seria, então, a última vez que eu entraria lá, pelo menos por algum tempo. Procuraria uma creche qualquer, no futuro, e trabalharia como voluntário. Dessa forma, estaria junto às crianças, faria algo útil para elas.

Chegamos. Fui recebido pelo Marquinhos, que me levou ao jardim interno. Fefê recepcionou o casal, e ficaram no jardim externo.

Vinte minutos depois, uma freira nos convocou para irmos ao jardim externo.

-- Ué! Será que já levaram a Fefê, titio? Por que temos de ir ao jardim externo? É lá que estava a Fefê, titio!

-- Marquinhos...

-- Será que a Fefê já foi embora para sempre, titio?

Começou a chorar, triste. Peguei-o no colo.

-- Marquinhos! Olha pra mim!

Ele se agarrou ao meu pescoço, colocando sua cabecinha em meu ombro, chorando muito.

-- Marquinhos! Você não se lembra do que minha filha disse para mim?

Parou de chorar. Tirou a cabeça de meu ombro e olhou para mim, entre sorrisos e soluços. Sorri pra ele também. Confiante, pediu que eu o colocasse no chão. Deu-me a mão e fomos caminhando até o jardim externo. Ao chegarmos, apresentei-lhe ao casal, enquanto a Fefê tentava escalar meu colo.

Sra. Judite, carinhosamente, pegou-o e fê-lo sentar em sua perna. Coloquei a Fefê na perna do Sr. André, que olhando Marquinhos, fixamente, disse-lhe:

-- Filho! Vamos para casa!

Bem, eu não preciso expressar o que senti naquele momento, como também não preciso escrever o que estou sentindo neste momento. Você já me conhece.

-- Titio! Eu tenho papai e mamãe e uma irmãzinha.

-- Para sempre, Marquinhos!

-- O senhor vai nos visitar?

-- O titio André sempre irá em nossa casa. – respondeu-lhe o papai dele – Agora iremos ao cemitério para rezar e depositar flores para os seus pais.

Saímos os cinco. Os dois nos braços de seus pais.

-- Titio! Eu nunca me esquecerei do senhor.

-- Acho bom mesmo, Marquinhos, porque, se esquecer vai apanhar no bumbum.

Soltou uma deliciosa gargalhada.

“Livre como o sonho
Alegre como a luz
Desejo e fantasia
Em plena harmonia.

Eu sou o teu homem, sou teu pai, teu filho
Sou aquele que te tem amor
Sou teu par, o teu melhor amigo
Vou contigo seja aonde for
E onde estiver, estou.”

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domingo, 26 de abril de 2009

O comboio.

Ao sair do estacionamento do hotel, deparei-me com toda a família do casal. Estavam lá desde às 7h30.

-- Gostou da surpresa, Sr. André? – perguntou-me o pai da Sra. Judite.

-- Estou surpreso e feliz, mas poderiam ter pedido que me chamassem.

-- A nossa ideia foi essa. Queríamos fazer-te uma supresa.

-- E conseguiram. Vamos todos ao convento? Quantos carros têm aqui?

-- Iremos em comboio até o convento e estacionaremos próximos à entrada. Só entrarão você, meu genro e minha filha. Quando vocês saírem com as crianças, os 11 carros, que estão aqui, seguirão em comboio até o cemitério.

-- Então a festa será no cemitério? – sorri.

-- Não! A festa será em um restaurante. Assim que vocês prestarem homenagens aos pais do Marquinhos, iremos todos a um restaurante próximo a São Vicente.

-- Puxa!! Não será cansativo a vocês? Entre o convento e o cemitério, pode demorar muito!

-- Queremos acompanhar nossos netos, ao menos vê-los de longe. Esperamos por isso há muito tempo. Ninguém conseguiu dormir de ontem para hoje.

-- Nem eu, Sr. João!

Abraçamo-nos emocionados. Depois de uma breve pausa, Sr. João pediu que todos entrassem em seus carros e seguissem ao convento.

No trajeto era só festa, buzinaço. Ao passar pelo Posto da Polícia Rodoviária, o carro, onde estavam o Sr. André e a Sra. Judite, foi parado por um policial. Como estava “puxando” a fila do comboio, todos pararam também. A estrada foi, imediatamente, bloqueada pelos policiais. Dois oficiais graduados, em seus uniformes de gala, atravessaram a pista na direção do carro do Sr. André, que já estava fora dele, sorrindo e acenando aos policiais. Entendi, então, que o Sr. André também era policial rodoviário.

Enquanto eles conversavam mais à frente, Sr. João foi até meu carro, falar comigo.

-- Está estranhando tudo isso, Sr. André?

-- O seu genro é policial rodoviário?

Estufou o peito e disse-me:

-- Sim! Somos uma família de policiais rodoviários. Os dois oficiais, que estão conversando com meu genro, guiarão, com suas motos, o comboio, a partir de agora e até o fim, lá no restaurante.

-- Sabe, Sr. João, quando eu entrei na sala do convento para conversar com eles, o seu genro disse que me conhecia de algum lugar. Eu respondi a ele que eu tive a mesma impressão.

-- Ele contou-nos isso. Mas de onde será que vocês se conhecem? Vai ver que ele já te multou e, no mínimo, você deve tê-lo xingado!! – disse, rindo muito.

-- Provavelmente tenha sido isso! – ri também.

Os policiais, com suas motos, posicionaram-se à frente do comboio e seguimos ao convento, provocando a curiosidade de todos que nos ultrapassavam pela pista da esquerda da rodovia.

Haviam preparado uma linda festa aos pequenos.


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sábado, 25 de abril de 2009

No Guarujá.

Cheguei à casa do Sr. André e de Sra. Judite e fui recebido como membro da família, não só pelo casal mas também por seus pais e irmãos.

A casa é térrea. Possui uma boa área de quintal, entre o portão e a agradabilíssima varanda. Entre a sala e a cozinha, há um extenso corredor. Neste, as entradas de cada quarto: o dos pais, o da Fefê e o do Marquinhos, devidamente nomeados na porta com plaquinhas de madeira e à espera deles, mobiliados e decorados pelas avós.

No fim do corredor, chega-se à copa e à cozinha. No fundo, há outro quintal, bem maior e com árvores típicas do litoral. Há também uma edícula, com três cômodos: banheiro, um escritório e uma “brinquedolândia”, chamado assim, carinhosamente, pelos futuros pais.

O almoço de confraternização, entre as famílias e eu, foi um deliciosa feijoada. Os futuros avós não conseguiam esconder a felicidade e estavam ansiosos por conhecerem as crianças. Pediam que eu contasse a eles como tinha sido o meu primeiro encontro com a Fefê e com o Marquinhos.

Saí de lá à noite, às 20h, e fui ao hotel na Praia Grande. Antes de me recolher ao quarto, passei no quiosque para cumprimentar o meu grande amigo Marmitão.

-- Tudo bem, santista?

-- Tudo ótimo, Marmitão! Estou chegando agora do Guarujá. Fui almoçar com os futuros pais da Fefê e do Marquinhos.

Marmitão levantou-se, visivelmente emocionado, com os olhos encharcados de lágrimas, e entrou no quiosque. De onde eu estava, ouvia claramente seus soluços e voz, embargada, agradecendo a Deus o destino dos meus pequenos. (*)

Havia casais e grupos de amigos em outras mesas que não entenderam o que se passava naquele momento; Marmitão, soluçando dentro do quiosque; eu, chorando, na mesa. Entenderam menos ainda, quando Marmitão saiu e veio me abraçar, prometendo a todos uma festa no sábado seguinte, com cinco engradados de cerveja, gratuitos.

-- Assim você irá à falência, Marmitão!

-- É minha promessa e a cumprirei.

Despedi-me, emocionado, de meu amigo e voltei ao hotel.

Na cama, eu não conseguia dormir. Ficava imaginando a reação de Marquinhos quando soubesse que seria adotado junto à irmã. De acordo com o casal, a adoção foi selada e confirmada, durante a semana. Pediram às irmãs que não contassem a Marquinhos. Ele saberia apenas no domingo, quando eu estivesse presente, e antes de irmos ao cemitério.

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

ENTARDECEU -- uma composição belíssima!!! Confesso -- não entenda como vício de linguagem -- que não a ouvi com os ouvidos, mas com a alma. Belíssima!!!! BRAVO!!! E viajei...

... me vi em pleno Terraço Itália, admirando a cidade de São Paulo, cheia de luzes, fervilhando...

um céu raramente estrelado, com a Lua Cheia despontando no horizonte, firme, amarela, intensa...

... e, envolto a uma melodia serena, buscando sensações, misturando-as, ora com a audição e visão, ora com o paladar e olfato, ora com olfato, audição, visão, olfato... e... tato. Enfim, um sonho real... em um profundo paradoxo. Busquei a mulher em meus sentimentos e sonhos celestes... e a vi ali, em pleno Terraço, junto a mim, orgulhosa de seu irmão, apaixonada pela vida...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Amigos universais.


Clara, Clarinha, Clarita.



Dizem os sábios que nada acontece por acaso. Um simples encontro de desconhecidos, por exemplo, pode ser o início de uma amizade eterna. Entretanto, depende de muitos fatores que propiciem tal encontro, principalmente o destino.

Patiens, quia aeternum (Paciente, que será eterno). Não há como acelerar o presente para se chegar ao futuro. Tudo acontece de acordo com o tempo. Por que ser, então, ansioso? Paciência é o melhor chá.

Quando eu me casei, naquele distante sábado de 1984, Clarita morava em frente à igreja. Da janela de seu apartamento, assistia aos casamentos. Quem poderá dizer que ela não tenha assistido ao meu? Si parva licet componere magnis (expressão de Virgilio), “Se é permitido comparar as coisas pequenas às grandes”, por que não posso comparar a pequena distância entre a casa de Clarita e a igreja, com o distante tempo do primeiro “oi”?

Clarita, anjo-criança, alma-sábia, colo protetor de esperança, visão privilegiada de sentidos sinestésicos, coração de ternura, feições sinceras, delicados sentimentos etéreos. Vera incessu patuit dea, “Pelo andar, revela-se uma verdadeira deusa”. Esta expressão de Virgilio resume a elegância e a pureza de Clarita, comparada aqui como a deusa Vênus.

Clarita é uma mulher solidária. Ver uma criança sorrir é acreditar que pode haver esperança num futuro melhor. Por isso, luta contra a miséria, batalha em prol de uma educação de qualidade, é uma guerreira. Maxima debetur puero reverentia: máxima célebre de Juvenal, em que o poeta exprime quanto se deve ter cuidado em nada dizer ou fazer que possa ofender a inocência das crianças. “Deve-se à criança o máximo respeito”.

Ouvi-la é transportar-se para a natureza, ouvindo a corredeira de um regato, entre bambuzais, admirar os pássaros, principalmente o beija-flor, sua ave-símbolo, é deslumbrar-se com o brilho de seus olhos, à sombra de árvores, é buscar Deus na vida simples da roça.

Clarita apareceu em um momento de minha vida de que eu mais necessitava. As pessoas não sabem o quanto é importante ouvir uma palavra de apoio, de motivação, encorajadora. Ela apareceu exatamente nesse momento, modificando minha maneira de pensar e agir.

Clarita é minha querida amiga. É eterna e universal.


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terça-feira, 21 de abril de 2009

Meu aniversário.

Logo cedo, fui ao cemitério. Ao parar o carro num semáforo da Av. Paulista, o carro ao lado buzinou. Desci o vidro, e uma pessoa-que-sei-lá-quem-é-e-que-nunca-vi-na-vida deu-me os "parabéns". Pensei que tivesse feito alguma barbeiragem lá atrás, e que o cara estava ironizando. Sorri sem graça, quase pedindo desculpas. Ao abrir o farol, ele gritou "feliz aniversário", e o carro arrancou.

Fiquei sem saber como ele tinha adivinhado. Mas segui em frente.
Sabe quando você caminha absorto em pensamentos? Eu estava assim, "desligado" de tudo e de todos, olhando as pessoas tristes, cabisbaixas, dirigindo-se aos túmulos de seus entes queridos.

Quando eu já estava seguindo pra fora do cemitério, ouvi outro "parabéns" e outro "feliz aniversário". Levantei a cabeça e continuei vendo apenas pessoas tristes.

Numa das alamedas, porém, uma mulher, que-eu-nunca-vi-na-vida-e-mais-loira me desejou "feliz aniversário". Embora tivesse ouvido a mesma coisa lá na Av. Paulista, senti um certo receio de perguntar a ela, ali em meio aos túmulos, como ela sabia que era meu aniversário. Agradeci a ela, e resolvi apertar os passos, quase correndo.

Entrei no carro, abri o vidro, e deixei uma gorjeta para o Flanelinha, que também me agradeceu, desejando "feliz aniversário". Foi mais ou menos assim o nosso diálogo:

-- Como você sabe que é meu aniversário?

-- Sô espríta. Sei de tudo. moço.

-- Deve ser algum amigo meu fazendo esta sacanagem comigo. Quanto ele te deu?? Se você me falar, darei uma boa gorjeta.

-- Moço! Sabe a mulher lá drento do açumitério???

-- A loira?

-- A própia. Foi minha isposa. Todo dia mi consulto com ela e com meu ermão: aquele rapaiz que te comprementou na av. Paulista.

Senti o coração acelerar, as pernas bambas. Fechei os olhos por segundos e retomei a prosa.

-- Amigo! Isso é ridículo. Maior besteira que já ouvi na minha vida. Você não tem mais nada que fazer? Vá se danar!!! Vocês três são os piores atores que já vi na vida. E sabe o que mais: fala pro meu amigo que estou mandando-o à puta que o pariu.

Saí de lá.

Percebi aí que meu domingo não seria fácil.

Dirigi-me ao colégio eleitoral.

Como sempre, graças a Deus, não tinha fila. Entrei, assinei, votei. Ao pegar o comprovante, me desejaram "feliz aniversário". Agradeci apenas, porque consta a data de meu nascimento. Nada estranho.

Quanto à festa foi uma surpresa atrás da outra até às 22h.

A respeito do acontecido pela manhã na Paulista e no cemitério, não comentei nada a ninguém. Também nada me falaram... deixarei o tempo passar, daqui a um mês perguntarei a eles quem eram aqueles três.


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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sr. André, Sra. Judite e Laís.

Na sexta-feira daquela gloriosa semana, momentos antes de eu viajar ao litoral, o telefone tocou.

-- Sr. André?

-- Sim, sou eu. Quem fala?

-- Sou a Judite, esposa do André, futuros pais da Fefê e do Marquinhos.

-- (*)... (decididamente eu sou um chorão!)

-- Meu marido, antes de sair para o trabalho, pediu-me que eu telefonasse para dar essa notícia ao senhor.

-- Muito obrigado, Sra. Judite!

-- Ele pediu-me também para convidar-te a um almoço amanhã, sábado, aqui em nossa casa no Guarujá. Anote o endereço, por favor!

Anotei, agradeci muito, desliguei e, claro, कोन्तिनुएइ chorando. Durante esta última ação, tocou novamente o telefone. Atendi:

-- Oi, André!

-- Oi!

-- Você está chorando, André?

-- Estou.

-- O que aconteceu, amor?

-- Estou muito feliz, La! – disse, ainda soluçando.

-- Esse choro não é de tristeza?

-- Não!

-- Posso saber o motivo?

-- Fefê e Marquinhos serão adotados pelo mesmo casal.

-- André!! Não estou entendendo nada, amor! Não era você que queria adotá-los?

-- Era, mas só conseguiria isso se eu me casasse, se eu tivesse uma mulher que os amasse do mesmo jeito que eu os amo.

-- Por minha culpa, você não conseguiu adotá-los, né André?

-- Não foi a sua culpa, Laís! Eu sabia desde o princípio que eu não conseguiria; o tempo era muito curto.

-- Eu me distanciei de você por medo. Fiquei amedrontada de ir ao Convento e ser castigada por Deus.

-- Deus só quis abrir mais um caminho a você, Laís! Entendo seu medo. Quem sabe um dia você não esteja melhor preparada, não é doidinha?

-- Queria passear com você hoje à noite.

-- Estou saindo para a praia agora. Amanhã, irei a um almoço na casa do casal que irá adotá-los.

-- Você irá sozinho?

-- Irei acompanhado, Laís!

-- Podemos sair a semana que vem? Talvez na terça-feira?

-- Claro, Laís!! Segunda-feira, telefonarei a você para combinarmos.

-- Boa viagem, amor! Bom almoço! Tomara que sua companhia se afogue bebendo um copo d’água!

Praguejou e desligou. Ela não precisava saber que minhas companhias eram Deus e minha filha.


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