Há vidas, querendo ser vividas – Final
Acordei com Jackie a meu lado, acariciando-me o braço, com um sorriso doce nos lábios. Assim que abri os olhos, mudou a sua expressão facial.
-- Bom dia, Jackie!
-- Tome o seu café com leite. Daqui a pouco voltarei com sua bezetacil.
-- A que horas poderei sair daqui para caminhar no corredor.
-- O médico cancelou a autorização. Você ainda não está bem, segundo ele.
Ninguém sabe o ódio que eu senti daquele filho da puta. Na certa, não gostou de minha pergunta quando aqui esteve no dia anterior. Mas minha pergunta foi justa: “quem, em sã consciência, engessaria a perna de um defunto?”
-- Está bem, Jackie!
-- Não fique triste, André!! Nós, enfermeiras, não concordamos com a decisão dele. É uma pessoa arrogante, mas é um ótimo médico.
-- Não estou triste.
-- Daqui a pouco voltarei com a injeção.
Dias e dias naquela cama, com uma sonda no canal do pênis, porque, deitado, não conseguia urinar naquele pinico hospitalar. Mais de cem horas, tomando injeção de bezetacil nos braços, que ficaram roxos.
Dois dias depois, o arrogante apareceu em minha frente.
-- Acabei de receber o relatório de seu psiquiatra. Você recebeu alta da parte dele.
Não falei nada, permaneci quieto, olhando-o fixamente, esperando-o se aproximar da cama. Eu sabia que uma atitude violenta de minha parte, complicaria minha situação, mas eu só queria dar um soco na cara daquele filho da puta. Se fosse realmente um bom médico, no meu entender, não agiria da forma que vinha agindo comigo; assumiria o seu erro já que, segundo a enfermeira, era um ótimo médico. Profissional de merda.
-- Não gostei do tom de sua pergunta da última vez em que aqui estive.
-- Você devia ser humorista e não médico. E de humor negro.
-- Está nervoso, bocudo? Ou preocupado?
-- De forma alguma, necrófilo!! Quem deve estar preocupado é você, açougueiro!
-- E por que eu estaria preocupado, babaca?
-- Porque sabe que é incompetente e inseguro.
Aproximou-se de meu ouvido para sussurrar alguma ameaça. Foi o meu momento. Agarrei-lhe a gravata e puxei com a força de meu ódio, não de meus braços que estavam debilitados. Enquanto tentava sufocá-lo, como uma corda no pescoço, ele tentava com sua mãos livrarem-se das minhas, que tentavam trazer sua cabeça perto de mim.
Eu fui arrancado da cama, tudo o que tinha em volta foi para o chão, inclusive eu e ele. Eu caí de lado. Ele caiu ajoelhado, quase sufocado, quase roxo. Minhas mãos seguravam ainda a gravata do corno.
Jackie e outros enfermeiros entraram no quarto. Tentaram em vão desvencilhar minhas mãos da gravata dele, até que um enfermeiro, com uma tesoura, conseguiu salvar o carniceiro.
Isso me custou mais um mês de internação, assistido por outros médicos e por outros psiquiatras. Aquele doutorzinho de merda ou saiu do hospital ou saíram com ele.
Eu vivi o quinto de andar daquele hospital. Três dias depois da tentativa de assassinato, fui autorizado a caminhar pelo corredor. O primeiro quarto que fui visitar foi o 12.
Fiquei extremamente chocado. Havia quatro pessoas internadas. Todos com várias cicatrizes no couro cabeludo. Um deles girava a manivela da cama, que a fazia inclinar... a cada volta de manivela era um rangido: nhec, nhec, nhec, nhec, nhec. Era esse o rangido a que me referi em outro texto.
-- O senhor ainda não conseguiu arrumar essa cama? – perguntei-lhe, sorrindo.
Levantou-se, enxugou o suor em seu rosto, olhou para mim, sorrindo também.
-- O amigo acredita que é a única cama que está me dando mais trabalho neste hospital?
-- O senhor terá muito trabalho ainda. Depois de consertar a manivela, há outras em vários quartos necessitando de seu conserto.
-- Eu sei disso. O patrão me disse ontem que há muito trabalho aqui. Me disse também que só sairei do hospital quando terminar o conserto de todas as camas. Espero terminar o mais rápido possível. Minha senhora e meus filhos já estão com muita saudade de mim.
-- Aonde o senhor mora?
-- O amigo conhece o bairro do Ipiranga? – perguntou-me, fazendo o famoso gesto de D. Pedro, erguendo o braço direito. Só faltou gritar “Independência ou Morte”.
-- Conheço muito bem.
-- Moro na Rua Leais Paulistanos. Ficaria grato se fosse algum dia visitar-nos.
-- Irei, amigo, certamente irei.
Abatido, sentou-se na cadeira.
-- Eu nunca mais sairei daqui. O amigo não imagina a saudade que tenho dos meus filhos e de minha querida esposa!! Faz muito tempo que não os vejo. Faz muito tempo que não ouço o sabiá cantando, o vento batendo em meu rosto. Daqui para o cemitério, é o meu destino. (*)
-- (*)
Depois de uma demorada pausa, ele me pediu um favor, quase sussurrando.
-- Se o amigo sair daqui, ou seja, se receber alta, poderia levar uma carta à minha família?
-- Eu prometo ao senhor que farei isso.
-- Eu não posso escrever, minhas mãos tremem muito. Gostaria de que o senhor redigisse a carta, que ditarei.
-- Faremos isso. Conseguirei o papel de carta e a caneta.
Levantou-se da cadeira, num ímpeto.
-- Preciso trabalhar agora. O amigo queira se retirar.
Duas vezes por semana eu recebia a visita de meus pais, de minha esposa e de meus amigos.
-- Eu preciso de caneta e de um caderno.
-- Para quê?
-- Para registrar tudo o que passo aqui dentro, como um diário.
E assim foi feito. Por todos os quartos que eu passava, registrava a vida. Demorava-me mais no quarto de Dom Pedro. Em seu pouco momento de lucidez, ele ditava-me a carta.
Eu vivi realmente o quinto andar daquele hospital. Certo dia, o médico entrou em meu quarto e me disse que eu seria transferido para o terceiro andar, onde ficaria em um quarto particular.
-- O senhor acha que estou bem, doutor?
-- Sim, André! Você está muito bem.
-- Por que, então, o senhor quer que eu vá ao terceiro andar?
-- Porque é assim que funciona o Hospital.
-- Então não é uma decisão sua?
-- A decisão é minha!
-- Não é, doutor! É uma decisão do hospital.
-- É minha, André! Que saco!!
-- Se fosse do senhor, me daria alta. O senhor sabe que estou bem, que não represento uma ameaça à sociedade, a não ser se aquele filho da puta do Carniceiro aparecer em minha frente.
Levantou-se, rindo muito, e saiu.
No dia seguinte, eu já estava em minha casa.
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