sábado, 9 de maio de 2009

Fiquei do lado de fora da casa e pude ver, a meia quadra de distância, minha mãe, meus pequenos, Sra. Judite, Sr. João e Sr. Abílio e esposas. Vinham animados.

Sr. Abílio devia, no mínimo, estar contando piadas. Ele é uma pessoa alegre, não admite mau humor. Minha mãe ria muito, com seu jeitinho peculiar: parava, abaixava-se, colocava as mãos no joelho, e soltava uma gargalhada. Ela estava bem e feliz.

Quando me viram, as crianças correram para o meu colo. Precisei sentar-me na calçada para não cair.

-- Deita, titio!

-- Aqui no chão sujo, Marquinhos?

-- Só um pouquinho.

Deitei-me, e os dois pularam em minha barriga.

-- Uffffffffffffffffffff!!

-- (gargalhadas dos dois)

Levantei-me para cumprimentar os avós e a Sra. Judite, que estava de braços dados à minha mãe. Pela expressão tensa em meu rosto, ela já sabia o que havia acontecido.

-- Sr. André! Venha!! Vamos todos a minha casa tomar um bom café.

-- Muito obrigado, Sr. João! Precisamos voltar à capital, agora. Quem sabe um outro dia.

-- Aconteceu algo, Sr. André? Parece tenso.

-- Apenas cansaço.

Os avós entreolharam-se preocupados.

-- Mãezinha, despeça-se das crianças e de nossos amigos. Sua filha está muito preocupada com a senhora.

-- Eu deixei um bilhete escrito, dizendo que eu vinha para cá.

-- Está bem, mãezinha! A senhora tem alguma coisa dentro da casa?

-- Tenho minha bolsa.

-- Veio só com essa roupa do corpo?

-- Eu não esperava dormir aqui.

-- Sra. Judite! Poderia ir buscar a bolsa de minha mãe?

-- Judite, faça um café e vamos todos entrar em sua casa.

-- Sr. Abílio! Mais uma vez eu agradeço, mas temos mesmo de ir embora. Tenho muito serviço para terminar.

Sra, Judite entrou e saiu com a bolsa de minha mãe. Entregou-lhe, beijando-a afetivamente o rosto. Depois, abraçou-a, e disse-lhe:

-- A senhora sempre será bem recebida em minha casa. Mas, antes de vir, me telefone.

-- Obrigada, Judite! Você é uma boa mulher.

-- Judite!! O André não está em casa? – interrompeu-a Sr. João.

-- Ele está lá dentro, assistindo à televisão.

Sr. Judite continuou conversando com minha mãe. Sr. João e Sr. Abílio e suas respectivas esposas me pediram licença e entraram na casa, preocupados.

-- Titio! Quando é que vocês vão vir aqui outra vez?

-- No Dia das Crianças estaremos aqui. Não se esqueçam de me mandar uma cartinha dizendo o que vocês querem ganhar de presente.

-- Quéio baia.

-- Bala outra vez, Fefê?

-- É.

-- Eu quero aquele joguinho que põe na televisão, titio!

-- O PlayStation? – perguntei-lhe surpreso.

-- Isso, titio!

-- Eu quéio uma boneca.

-- Combinado! No Dia das Crianças a vovó, o vovô e eu estaremos aqui.

-- O Dia das Crianças está muito longe, André!

-- Mãe, conversaremos no carro sobre isso, está bem? Vamos embora, agora. Sra. Judite! Transmita aos seus pais e aos pai do André meu sincero carinho e respeito por eles.

-- Sim, Sr. André!

Abraçou-me e, quase sussurrando e abafando uma voz de choro, me pediu desculpas.

Despedimo-nos de meus pequenos e fomos embora.

No carro, em boa parte do trajeto, permanecemos em um silêncio revelador. Ao chegarmos ao planalto, minha mãe me disse:

-- Eu não gosto daquele homem.

-- De quem, mãe?

-- Do pai dos meus netinhos.

-- Por quê?

-- As crianças têm medo dele.

-- Ele bate nas crianças?

-- Isso eu não vi. Mas meu instinto me diz que ele não é nem um bom pai nem um bom marido.

-- Deve ser impressão sua, mãe!! Esqueça isso!

-- Por que devemos ir visitá-los apenas no Dia das Crianças? Isso é em outubro... mais de sete meses.

-- Mãe, preste atenção! Só ouça o que irei dizer. Depois quero ouvi-la também.

-- Fale!

-- A Fefê está tendo progressos na escolinha. Ela já pronuncia corretamente as palavras. Quando a senhora está ao lado dela, ela regride, e passa a falar como uma criancinha de um ou dois anos de idade. Quando estou perto, isso ocorre também.

-- Mas isso é normal, André!!

-- Não é normal, porque as crianças de mesma idade pronunciam corretamente e riem dela, por estar falando assim. Cada vez que vamos para lá, a regressão acontece. A professora, a fonoaudióloga e a psicóloga voltam a se preocupar com isso e solicitam aos pais um acompanhamento mais rigoroso em casa.

-- Riem dela só por que ela fala errado? Eu acho tão bonitinho!

-- É bonitinho sim, mãe, porque ela sempre será nosso eterno bebê, porém ao rirem dela, as outras crianças batem também. E ela se retrai, chora muito, tem medo de ir à escolinha.

-- Ai, meu Deus!! E agora, André?

-- Eu sugeri aos pais que a mudassem de escolinha, a fim de começar um novo trabalho com outras profissionais e também conviver pacificamente com outras crianças.

-- É uma boa ideia, filho!

-- Para que isso aconteça, é fundamental que nós nos afastemos deles num período de 7 ou 8 meses. Por isso, escolhi o Dia das Crianças para visitá-los. Entendeu agora, mãe?

-- Entendi sim, filho! Você tem razão. É isso que iremos fazer, para o bem da Fefê. Mas o Marquinhos poderá vir passar um fim de semana com a gente, né?

-- Tirar o Marquinhos do lado da Fefê? – perguntei-lhe, rindo.

-- É verdade!! Os dois não se desgrudam. – comentou, rindo também.

O que eu disse à minha mãe não foi uma mentira. Realmente estava acontecendo isso, mas não devido à nossa presença junto a eles. Eu apenas omiti a verdade. Ela não precisava e não merecia sofrer por isso.

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