Fiquei do lado de fora da casa e pude ver, a meia quadra de distância, minha mãe, meus pequenos, Sra. Judite, Sr. João e Sr. Abílio e esposas. Vinham animados.
Sr. Abílio devia, no mínimo, estar contando piadas. Ele é uma pessoa alegre, não admite mau humor. Minha mãe ria muito, com seu jeitinho peculiar: parava, abaixava-se, colocava as mãos no joelho, e soltava uma gargalhada. Ela estava bem e feliz.
Quando me viram, as crianças correram para o meu colo. Precisei sentar-me na calçada para não cair.
-- Deita, titio!
-- Aqui no chão sujo, Marquinhos?
-- Só um pouquinho.
Deitei-me, e os dois pularam em minha barriga.
-- Uffffffffffffffffffff!!
-- (gargalhadas dos dois)
Levantei-me para cumprimentar os avós e a Sra. Judite, que estava de braços dados à minha mãe. Pela expressão tensa em meu rosto, ela já sabia o que havia acontecido.
-- Sr. André! Venha!! Vamos todos a minha casa tomar um bom café.
-- Muito obrigado, Sr. João! Precisamos voltar à capital, agora. Quem sabe um outro dia.
-- Aconteceu algo, Sr. André? Parece tenso.
-- Apenas cansaço.
Os avós entreolharam-se preocupados.
-- Mãezinha, despeça-se das crianças e de nossos amigos. Sua filha está muito preocupada com a senhora.
-- Eu deixei um bilhete escrito, dizendo que eu vinha para cá.
-- Está bem, mãezinha! A senhora tem alguma coisa dentro da casa?
-- Tenho minha bolsa.
-- Veio só com essa roupa do corpo?
-- Eu não esperava dormir aqui.
-- Sra. Judite! Poderia ir buscar a bolsa de minha mãe?
-- Judite, faça um café e vamos todos entrar em sua casa.
-- Sr. Abílio! Mais uma vez eu agradeço, mas temos mesmo de ir embora. Tenho muito serviço para terminar.
Sra, Judite entrou e saiu com a bolsa de minha mãe. Entregou-lhe, beijando-a afetivamente o rosto. Depois, abraçou-a, e disse-lhe:
-- A senhora sempre será bem recebida em minha casa. Mas, antes de vir, me telefone.
-- Obrigada, Judite! Você é uma boa mulher.
-- Judite!! O André não está em casa? – interrompeu-a Sr. João.
-- Ele está lá dentro, assistindo à televisão.
Sr. Judite continuou conversando com minha mãe. Sr. João e Sr. Abílio e suas respectivas esposas me pediram licença e entraram na casa, preocupados.
-- Titio! Quando é que vocês vão vir aqui outra vez?
-- No Dia das Crianças estaremos aqui. Não se esqueçam de me mandar uma cartinha dizendo o que vocês querem ganhar de presente.
-- Quéio baia.
-- Bala outra vez, Fefê?
-- É.
-- Eu quero aquele joguinho que põe na televisão, titio!
-- O PlayStation? – perguntei-lhe surpreso.
-- Isso, titio!
-- Eu quéio uma boneca.
-- Combinado! No Dia das Crianças a vovó, o vovô e eu estaremos aqui.
-- O Dia das Crianças está muito longe, André!
-- Mãe, conversaremos no carro sobre isso, está bem? Vamos embora, agora. Sra. Judite! Transmita aos seus pais e aos pai do André meu sincero carinho e respeito por eles.
-- Sim, Sr. André!
Abraçou-me e, quase sussurrando e abafando uma voz de choro, me pediu desculpas.
Despedimo-nos de meus pequenos e fomos embora.
No carro, em boa parte do trajeto, permanecemos em um silêncio revelador. Ao chegarmos ao planalto, minha mãe me disse:
-- Eu não gosto daquele homem.
-- De quem, mãe?
-- Do pai dos meus netinhos.
-- Por quê?
-- As crianças têm medo dele.
-- Ele bate nas crianças?
-- Isso eu não vi. Mas meu instinto me diz que ele não é nem um bom pai nem um bom marido.
-- Deve ser impressão sua, mãe!! Esqueça isso!
-- Por que devemos ir visitá-los apenas no Dia das Crianças? Isso é em outubro... mais de sete meses.
-- Mãe, preste atenção! Só ouça o que irei dizer. Depois quero ouvi-la também.
-- Fale!
-- A Fefê está tendo progressos na escolinha. Ela já pronuncia corretamente as palavras. Quando a senhora está ao lado dela, ela regride, e passa a falar como uma criancinha de um ou dois anos de idade. Quando estou perto, isso ocorre também.
-- Mas isso é normal, André!!
-- Não é normal, porque as crianças de mesma idade pronunciam corretamente e riem dela, por estar falando assim. Cada vez que vamos para lá, a regressão acontece. A professora, a fonoaudióloga e a psicóloga voltam a se preocupar com isso e solicitam aos pais um acompanhamento mais rigoroso em casa.
-- Riem dela só por que ela fala errado? Eu acho tão bonitinho!
-- É bonitinho sim, mãe, porque ela sempre será nosso eterno bebê, porém ao rirem dela, as outras crianças batem também. E ela se retrai, chora muito, tem medo de ir à escolinha.
-- Ai, meu Deus!! E agora, André?
-- Eu sugeri aos pais que a mudassem de escolinha, a fim de começar um novo trabalho com outras profissionais e também conviver pacificamente com outras crianças.
-- É uma boa ideia, filho!
-- Para que isso aconteça, é fundamental que nós nos afastemos deles num período de 7 ou 8 meses. Por isso, escolhi o Dia das Crianças para visitá-los. Entendeu agora, mãe?
-- Entendi sim, filho! Você tem razão. É isso que iremos fazer, para o bem da Fefê. Mas o Marquinhos poderá vir passar um fim de semana com a gente, né?
-- Tirar o Marquinhos do lado da Fefê? – perguntei-lhe, rindo.
-- É verdade!! Os dois não se desgrudam. – comentou, rindo também.
O que eu disse à minha mãe não foi uma mentira. Realmente estava acontecendo isso, mas não devido à nossa presença junto a eles. Eu apenas omiti a verdade. Ela não precisava e não merecia sofrer por isso.
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