Volks, 1968: o fusca.
Meu primeiro carro foi um fusca, ano 1968, nem me lembro mais a cor dele. Comprei-o usado. O fusca adorava ficar parado, eram inúmeros os problemas mecânicos, além de estar mal acabado por dentro. Foi uma alegria imensa quando o vendi.
Com a ajuda de meus pais, comprei um mais novo: um fuscão, ano 1975, branco. Também tinha seus problemas mecânicos, mas eu também já tinha aprendido muito com o outro e sabia consertá-lo.
O carro dormia na rua, não havia lugar na garagem. Passava as noites em frente de casa, devidamente travado com equipamentos de segurança.
Numa certa noite de sábado, por volta das 21h, um colega da rua, com quem eu não tinha muita conversa, foi a minha casa pedir-me o carro emprestado, pois queria sair com sua namorada, e seu carro estava quebrado.
-- Jorge!! Você nunca ouviu dizer que carro, violão e mulher não se emprestam?
-- Você não vai fazer isso comigo. Ou vai, André?
-- Amanhã cedo vou prestar o vestibular. Preciso sair cedo de casa...
-- Chegarei às 2h. Fecharei o carro e deixarei a chave embaixo da roseira do seu jardim.
-- Vocês não está entendendo. Se eu emprestar e, por um azar danado, o carro quebrar em sua mão, ficarei sem ele para ir ao vestibular.
-- Se quebrar eu conserto.
-- Como o carro que está em sua garagem, quebrado há mais de um mês? Outra coisa, tenho apenas ¼ de gasolina e sei que você não tem grana para colocar mais.
-- Não vai emprestar mesmo?
-- Não vou.
No dia seguinte, já a caminho da Faculdade, o motor do fusca morreu, ou seja, parou de funcionar. Como ainda estava próximo de casa, estacionei-o e voltei para pegar dinheiro e ir de táxi. Ao chegar em casa, vi a poça de óleo e a tampa do reservatório no chão.
Nunca soube o que tinha acontecido, mas até hoje desconfio do Jorge.
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1980. Final de curso.
O feriado chegou e cedo fui buscar minha namorada, para irmos à casa de seus avós.
--- Márcia, aonde vamos?
--- Você conhece a av. Caiçara? O Clube Montanhês?
--- Fica próximo do bairro onde nasci e passei a infância.
--- Puxa!! Sério?
--- Seriíssimo.
Quando chegamos à rua, me arrepiei todo, quando ela apontou a antiga casa de seus avós: o sobradão assombrado.
Hesitei entrar. Subi a rua, a pé, até enxergar a janela. Lá estava ela, sorrindo para mim.
--- Márcia, venha até aqui, por favor. Vamos nos sentar à calçada.
--- O que houve, André?
--- Foi nesta rua que nasci e cresci.
--- Será, então, que já nos conhecíamos na infância? Morei com meus avós, durante alguns meses. Eu brincava ali, próximo ao córrego, onde hoje é aquela avenida.
--- É. Muita coisa mudou por aqui. Meus pais estão pensando em voltar para cá. Temos uma casa na quadra de cima. Depois te levarei até lá. Sabe, Márcia, desde que me conheço por gente, nunca vi ninguém nessa casa. Sempre esteve abandonada. Passei toda a minha infância aqui, catando mamona às margens do córrego.
--- Puxa! Eu também, André.
--- Como pode isso? Ninguém morava nessa casa.
--- Está achando que estou mentindo?
--- Não penso isso, mas é muito estranho. Venha comigo até o meio da rua e olhe a janela que eu apontar.
--- Está bem, amor.
--- Quem é aquela moça?
--- É uma pintura. Um quadro antigo que meu avô adorava. Dizia que era uma artista muito bonita e que tinha morrido misteriosamente. Vamos lá, mostrarei o quadro a você.
Márcia era muito meiga comigo. Conquistava-me com seu olhar. Entramos.
Não me senti bem lá dentro. Senti tonturas. Márcia abriu as janelas, tirou os lençóis que cobriam as poltronas e sentei-me. Mesmo com a brisa arejando a enorme sala, faltou-me respiração. Caminhei com dificuldade para fora. Márcia tinha subido ao quarto para pegar o quadro.
A respiração normalizou-se no momento em que fui para o meio da rua. Márcia saiu da casa com o quadro na mão. Sentamo-nos na calçada, e ela colocou o quadro em minhas pernas.
Era mesmo uma linda mulher retratada naquele quadro. Um sorriso doce, feições nobres, nariz minúsculo, loira, um olhar triste.
Lembrei-me da infância, das vezes que eu olhava para a janela e a via me fitando com ódio, com os olhos estatelados, descabelada. Como teria morrido essa mulher? Precisava saber o nome completo dela. Pesquisaria em todas as fontes de informação, pediria ao padre da Igreja de São Judas que rezasse uma missa só para ela, a fim de que alcançasse paz junto a Deus.
Pedi ajuda à Márcia, que se comprometeu a perguntar a seus pais e parentes próximos. E saímos de lá.
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