Há vidas, querendo ser vividas – IV
No quinto andar do Hospital, eu recebia a visita de um Psiquiatra de três em três dias. Fazia-me muitas perguntas, queria saber de minha vida, de minha convivência com minha esposa, com os pais dela, com meus pais, de meus momentos de lazer, de minhas preferências...
Eu sabia que ele só estava tentando me ajudar, afinal ali só havia pessoas com distúrbios mentais. Uma vez eu perguntei-lhe o porquê de os doentes gritarem toda a vez que anoitecia.
-- A noite sugere trevas. É o início do medo para esses pacientes. Nesta hora, têm de ser acalmados com injeções para que durmam.
-- Representam algum perigo aos outros pacientes?
-- Nenhum perigo.
-- Há cura para eles?
-- Para aqueles, que estão internados nos quartos 12 e 13, o quinto andar é o seu mundo; as enfermeiras, os seus anjos-da-guarda; os médicos, suas famílias. Fora daqui, não existem parentes que os reclamem.
-- É muito triste, doutor!!
-- É a realidade.
-- Como diagnosticar se uma pessoa está em perfeitas condições de juízo?
-- Como assim, André?
-- Como o senhor sabe que uma pessoa está curada de seu mal?
Não me respondeu.
-- Quando eu receberei alta, doutor?
-- Em breve!
-- Este seu breve me preocupa. O que será “breve” na cabeça de um psiquiatra?
-- Como é que o senhor sabe que eu sou psiquiatra?
-- Se eu disser, o senhor se ofenderá. Ofendendo-se, este “breve” poderá se tornar um “nunca”. É melhor deixar pra lá.
-- (risos) O senhor está indo muito bem. Concatena ideias, relaciona frases. Possui um humor irônico.
Levantou-se e saiu.
Depois de alguns dias internado, recebi a autorização do médico para caminhar no corredor.
-- A partir de amanhã, o senhor poderá fazer algumas caminhadas pelo corredor, esticar as pernas. -- (eu sempre achei esse médico gozador. A minha perna direita estava engessada da virilha até a canela. Mais esticada que isso, impossível!) -- Ao levantar-se, permaneça sentado por alguns instantes para que não tenha tonturas. Caminhe com cuidado, não vá correr!! E se correr, não chute a bola com o pé direito.
Ele ria das próprias piadas. Chegava a gargalhar, enquanto eu o olhava sério.
-- Lembre-se de que você só veste este avental, sem nada por baixo, nem uma sunga, nem uma cuequinha. Se decidir ir até o boteco e tomar uma cachaça, rirão da sua cara. Então, é melhor ficar por aqui, já que todos estão sem nada por baixo. Só não vale orgia.
-- O senhor é bem-humorado, doutor!!
Levantou-se, rindo, e me disse:
-- Lembre-se também de que não esqueci que me chamou de filho da puta.
-- Doutor!! Por que engessaram minha perna se tinham certeza de que eu estava morto?
-- (sem respostas).
Mal dormi naquela noite। Estava louco (aqui é apenas força de expressão!) para caminhar।
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