2000 a 2002. “Se se morre de amor
(...)
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos;
D’altas virtudes, ‘té capaz de crimes!
Compreender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma.
Fontes de pranto intercalar sem custo,
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!”
(Gonçalves Dias)
“Cântico do calvário
(À memória de meu filho morto a 11 de dezembro de 1863)
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. – Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, -- a inspiração, -- a pátria,
O porvir de teu pai! – Ah! No entanto,
Pomba, -- varou-te a flecha do destino!
Astro, -- engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! – Crença, já não vives!”
(Fagundes Varela)
Às sextas-feiras, chegava a meu apartamento às 18h. Tomava banho, trocava de roupa, e saía.
Freqüentava, assiduamente, todos os salões de jogos no centro de São Paulo. Jogos de carteado, pôquer, caça-níqueis. Jantava numa casa dessas e ficava até a madrugada. Depois ia a barzinhos ou a boates. Amanhecia o sábado, voltando a minha casa. Dormia ou ficava na cama até às 18h. Depois, tomava banho, me trocava e saía para fazer a mesma coisa do dia anterior. Nenhum café da manhã, nada de almoço... tinha perdido o prazer de tudo.
E assim continuei por mais de um mês, até...
... até não voltar mais para casa. Preferi a sarjeta a meu apartamento.
Saía de meu lar às quintas à noite. Sempre o mesmo itinerário até a madrugada de domingo, quando preferia dormir na calçada junto a tantas outras pessoas, tão e até mais dignas que eu. Entreguei-me ao álcool, à vida mundana; só a Morte não parecia compreender que eu a queria, que eu a desejava demais, que ela era o bálsamo para mim.
Hoje eu entendo que fui mais covarde que um suicida. Nada como os anos a completar nossas vidas, para compreendermos nossas atitudes passadas.
Naquela época, pensei que eu tivesse muitos amigos. Talvez em torno de uns quatrocentos. Eram tantas festas, tantos amigos, todos tão próximos, impossível não dizer que tal afetividade, tanto interesse não fossem senão apenas de amizade.
O que me importava era estar na sarjeta. Bêbado, jogado, fedido, aos trapos. E bem longe da família... longe de meus pais, a fim de que eles não vissem seu filho no estado lamentável que estava.
-- Alô!! Oi, mãe!!
-- Oi, filho!! Você está bem?
-- Estou ótimo. E a senhora? E o papai? Estão bem também?
-- O seu pai continua chato como sempre.
-- (risos)
-- Filho!! Estou sentindo muita angústia... você está mesmo bem?
-- Sim, mãe!! Estou telefonando apenas para dizer que irei viajar amanhã. Devo retornar na segunda ou na terça-feira. Não quero que se preocupem comigo. Vou a trabalho.
-- Assim fico mais sossegada, filho! Obrigada por ter ligado.
-- Beijos, mãe!! Quando eu retornar, irei almoçar aí com vocês.
-- Está bem, filho! Cuide-se, está bem? Beijos!
Eu não tinha mais dignidade, amor próprio. Só me interessava a morte, mas sem coragem de executá-la.
Numa noite, depois de muitos dias fora de casa, mal alimentado, sentado e encostado numa parede, um clarão encobriu minha visão.
Eu tinha acabado de acordar, fazia muito frio. Muitos indigentes estavam ali comigo. Do meu lado direito, dormindo, estava uma pessoa que, num passado não muito distante, viveu momentos de alegria, ao lado de sua esposa e de seu filho.
Às vezes, passamos pela rua e nos deparamos com indigentes, largados, dormindo ao relento, comendo restos no lixo de algum restaurante, mas não temos a menor idéia de quem são ou de quem foram.
A pessoa a meu lado, cujo apelido era Sombra, tinha sido um Oficial de Justiça. Era um bom orador, falava e escrevia corretamente a língua portuguesa. Um certo dia, passeando com sua esposa e filho, este soltou-se de sua mão e correu para o meio da rua, atrás de uma bexiga que ele vira caindo. Um caminhão que passava não conseguiu frear a tempo.
A esposa nunca o perdoou. Muito menos, ele.
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