O Convento --- III
“Há vida, querendo ser vivida”: essa era a frase que me sustentava e que me equilibrava, durante os maus momentos no hospital. Tenho-a como um ensinamento: a força, a motivação, a garra de saber que um dia eu estaria diante do mundo novamente.
Ao descer a Rodovia dos Imigrantes, essa frase voltou-me à cabeça. As crianças precisam de uma mamãe e de um papai, necessitam de uma família bem estruturada e, principalmente, teriam que permanecer juntas. É necessário sonhar o futuro, projetar e colocar em prática.
Entendi, nesse momento, que eu não seria o pai, mas seria o instrumento que faria com que eles fossem adotados juntos. Imediatamente, uma paz invadiu-me o coração, a alma.. Parei o carro no acostamento da rodovia, e chorei muito, com a cabeça apoiada nos braços e no volante do automóvel. Fiquei assim alguns minutos e não notei que uma viatura da polícia rodoviária parou atrás de meu veículo.
Quando ergui a cabeça, para colocar novamente o carro na rodovia, notei um policial do lado de fora. Abri o vidro, ele prestou continência a mim e perguntou:
-- O senhor está passando mal?
-- Não, policial! Eu estou bem. Só estava chorando um pouco.
Ao ouvir isso, ele sorriu e balançou afirmativamente a cabeça.
-- Em toda a minha experiência de estrada, é a primeira vez que me deparo com uma situação como essa. Sua dor não é física, naturalmente!
-- Não é, policial! Na verdade, chorei não devido à dor espiritual mas pela paz que me invadiu há pouco, como se tirasse um grande fardo de minhas costas. Estou bem, agora.
Novamente, o policial prestou-me continência.
-- O senhor está refletindo uma boa aura. Que o seu fim de semana seja glorioso!!
-- Bom fim de semana ao senhor também, policial!
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Eu não sou exemplo de vida para ninguém. Que cada um siga a sua, de acordo com o seu livre-arbítrio. Entretanto, aconteceram coisas em minha vida de difícil explicação ou até por coincidências.
Num fim de ano, em uma escola particular, o diretor pediu que todos os professores fossem fotografados juntos. A foto seria dada a cada formando do Ensino Médio.
Quando a foto foi revelada, muitos alunos vieram falar comigo.
-- Professor!! O senhor é iluminado mesmo! Orgulho-me de ter sido seu aluno.
Só entendi o que eles diziam, quando recebi do diretor a foto. No colégio, havia um jardim e foi lá que nos reunimos para a foto. Todos os 30 professores, abraçados no ombro, uns sentados, outros em pé. Eu estava em pé, o terceiro a ser contado da esquerda para a direita. E sobre minha cabeça, um raio solar.. o único que se desprendeu das nuvens naquele momento do clique.
Tenho essa foto guardada até hoje.
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Cheguei ao hotel e para a minha surpresa havia vaga. Fui ao quarto, tomei um banho, vesti bermuda e camiseta, e fui para o quiosque do Marmitão.
-- Meu grande e querido irmão, André!!! Tudo bem com você?? – saiu do quiosque, para me dar um abraço.
-- Tudo ótimo, meu irmão!!
-- Como andam as coisas lá no Convento?
-- Não os adotarei. Você tinha razão, Marmitão!
-- Eu sabia que isso aconteceria! Veja sempre pelo lado bom das coisas. Você voltou à praia para conhecer o Convento e adotar as crianças e, sem querer, ganhou uma família e mais amigos. E meus amigos, minha família e eu ganhamos um irmão. Você sempre será bem-vindo em minha residência e a meu quiosque, André!
-- Obrigado, Marmitão! Não vai me fazer chorar, né? Sabe, amigo, estou conformado já.
-- Quer falar sobre isso?
-- Quero, e provavelmente precisarei de sua ajuda também.
-- Espera!! Vou pegar uma geladinha pra você.
Marmitão conhece toda a Baixada Santista, o Convento e (também sei) algumas freiras.
-- Diga lá, meu irmão!
-- É o seguinte: um casal irá amanhã conhecer a Fefê.
-- E o Marquinhos também?
-- Não, Marmitão! Só a Fefê...
-- Ihhhhhhhhh!!!
-- Pois é!! Entendeu a minha preocupação, não é mesmo?
-- Perfeitamente, irmão! Não podemos deixar isso acontecer.
Marmitão coçou levemente a cabeça. Quando fazia isso, é por que estava preocupado.
-- Você ficará com o Marquinhos amanhã?
-- Ficarei, mas a hora em que o casal sair do Convento, eu os seguirei.
-- Para quê, irmão!! Você deseja atrapalhar a adoção da Fefê?
-- Eu desejo conversar com o casal, falar sobre o Marquinhos, sobre o amor que há entre os dois e que não deve ser separado.
-- E onde eu entro nessa?
-- Eu sei que o casal mora no Guarujá. Eu temo perdê-los de vista durante o trajeto. Não sei se eles irão pela Rodovia ou se irão por Santos, pela balsa. Eu gostaria de que você os seguisse. Eu te telefonaria, informando a saída deles do Convento. Você aguardaria na rodovia. Quando eu passar por você, buzinarei e seguiremos o casal, cada um em seu carro. Se eu perdê-los de vista, certamente você não os perderá, porque conhece tudo aqui na Baixada. Só quero que os siga até a casa deles, anote o nome da rua e o número. O resto é comigo.
-- Conheço tudo, mas não enxergo bem, André! Eu tenho uma idéia melhor. Conseguirei pra você o endereço e te informarei por telefone na segunda-feira. Está combinado assim, irmão?
-- Serei sempre grato a você, meu querido amigo!!
No domingo de manhã, fui ao Convento. Fui recepcionado pelo Marquinhos. Fefê estava sentadinha, no banquinho da praça, aguardando o casal. Quando me viu, me mandou muitos beijinhos com sua mãozinha.
-- Sr. André! Hoje o senhor ficará em outro jardim, brincando com o Marquinhos.
-- Eu não poderei ver nem por minutos a minha menina?
-- Infelizmente, hoje não. Não seria bom para ela nem para o casal que virá visitá-la.
Meu plano não daria certo. Ainda bem que Marmitão tinha seus métodos.
-- Titio! Hoje eu vou te contar a minha história. É muito triste, mas já tem um final feliz.
-- Todas as historinhas têm final feliz, Marquinhos.
Ele gesticulou seu dedinho, dizendo-me que não.
-- Você não quer brincar hoje?
-- Não, titio! Quero ficar sentado no banco, contando a historinha.
-- Você está triste que a Fefê não está com a gente aqui?
Abaixou a cabecinha e chorou. Depois, deitou-se em meu colo, com os olhos vermelhos fixos nos meus, limpou seu narizinho na minha calça e me disse:
-- Titio! A Fefê vai ganhar uma mamãe e um papai. Eu ficarei sozinho outra vez.
Tentando segurar o meu choro, disse-lhe:
-- Vocês serão adotados juntos pelo mesmo casal.
-- Como sabe disso, titio? Quem te contou? – perguntou-me, expressando um largo sorriso, e sentando-se em meu colo.
-- Ontem, quando eu descia a Serra do Mar, minha filha me contou.
-- Que legal!! Cadê ela, titio? Por que ela não veio com o senhor?
-- Ela é um anjinho, Marquinhos! Mas tenho certeza de que ela está aqui sorrindo pra você e protegendo a Fefê.
-- Ela morreu, titio?
-- Morreu.
-- Esta noite eu rezarei muito pra ela.
-- Isso, Marquinhos!
-- Titio! A polícia matou meu papai, minha mamãe e minhas irmãs.
Surpreendi-me.
-- Eu tinha dois aninhos, mas eu me lembro de tudo
-- Por que a polícia fez isso?
-- A polícia não gostava deles. Estou com muitas saudades de meu papai e de minha mamãe. Eles gostavam muito de mim.
Mesmo sem saber se era verdade ou não aquela história, se não era invenção da cabecinha dele, não pude segurar mais e chorei.
-- Não chora, titio! As irmãs me contaram que os policiais não foram culpados. Eu não tenho raiva deles.
Puta merda!! Que história!! Como pode uma criança se lembrar disso tudo? Talvez tenha vivenciado o assassinato dos pais! Possivelmente, tenha acontecido isso. Não seria eu que perguntaria isso a ele.
-- Há muita tristeza nessa vida, Marquinhos! Mas chegou o momento de sua felicidade ao lado de sua irmãzinha e desse casal maravilhoso.
-- Titio! No próximo domingo, o senhor me leva no cemitério para eu rezar?
-- Falarei com a irmã superiora. Se ela autorizar, te levarei sim, Marquinhos!
Um pouco antes do término da visita, fui convocado a comparecer à sala da madre.
-- Sr. André! A Fefê será adotada. Como ela falou muito a seu respeito, o casal quer conhecê-lo. Eles estão a sua espera na sala ao lado. Pode entrar.
Estava mais fácil do que tinha imaginado.
-- Irmã! Antes de eu entrar, gostaria de conversar um pouco com a senhora.
-- Que seja breve, Sr. André!
-- Marquinhos me contou que viu os pais serem assassinados, quando tinha dois anos de idade. Ele me pediu que o levasse, no próximo domingo, ao cemitério onde os pais estão enterrados, que ele gostaria de rezar junto ao túmulo.
-- Ele te contou a verdade, Sr. André! O próximo domingo o senhor está autorizado a levá-lo ao cemitério. A irmã Adelaide irá junto e te indicará o caminho. Agora, queira entrar, por favor!
Abriu-me a porta e lá estava o casal.
-- Boa tarde!! Sou André! – cumprimentei-os, sorrindo.
-- Boa tarde! Meu nome também é André! E minha esposa, Judite. A Fefê te ama, Sr. André! Nós desejaríamos que fosse o padrinho dela, que estivesse em seus momentos mais importantes, como aniversário, festas religiosas, dia das crianças, formaturas.
-- (*)
Enxuguei as lágrimas, agradeci-lhes o convite e continuei a conversa.
-- Senhor André e Senhora Judite! Vocês conhecem o Marquinhos?
-- A Fefê nos falou muito dele também. Disse-nos que é seu irmãozinho, apesar de a freira dizer que eles se conheceram aqui.
-- É verdade! Não sei se vocês, como católicos, acreditam em vidas passadas. Há uma ligação muito forte entre eles. É um amor sincero, fraternal, incomum nos dias de hoje. Uma separação, agora, poderia ser prejudicial aos dois, mais para o Marquinhos.
-- A nossa intenção, Sr. André, é conhecermos também o Marquinhos e, futuramente, adotá-lo.
-- Futuramente é tarde demais. Se têm que sair daqui, que saiam juntos. Foram separados no nascimento, não podem ser separados agora.
Os dois se entreolharam surpresos.
-- Olha!! Se eu pudesse adotá-los, já teria feito isso há algum tempo. O que me barrou foi o fato de eu não ser casado. Vocês têm mais filhos?
-- Não posso ter filhos! – respondeu-me Sra. Judite.
-- Infelizmente, não podemos adotar mais de um por enquanto. Minha esposa está desempregada, e mais de um filho complicaria nossa situação.
-- Se vocês adotarem o Marquinhos, eu os ajudarei financeiramente até a sua esposa conseguir um novo emprego. Depois disso, poderei ainda ajudar na educação deles, numa boa escola, livros, material e ônibus escolares, uniformes, etc.
-- Não seria justo, Sr. André!
-- É justíssimo! Não seria justo separar os dois. E ninguém precisa saber disso. É um acordo entre cavalheiros.
-- Precisamos pensar! Nos dê um tempo.
-- Claro!! Mas não tirem a Fefê daqui antes disso. Domingo que vem, levarei o Marquinhos ao cemitério para rezar junto ao túmulo dos pais biológicos. Seria gratificante que vocês fossem também e levassem a Fefê junto. Peçam uma autorização à madre. Ela não negará. Terão a oportunidade de se encantar com o carinho, a inteligência e a seriedade do menino.
-- Pediremos hoje a autorização. Parece que eu já te vi antes, Sr. André! O senhor mora em Santos?
-- Vocês não sabem a alegria e a felicidade que me proporcionaram. Muito obrigado!! Eu moro na capital. Eu também fiquei com essa impressão quando entrei na sala.
Despedi-me de Marquinhos, recebi um beijo e um abraço apertado da Fefê, e fui à casa do Marmitão, informar-lhe que tudo estava caminhando bem. E retornei, feliz, a São Paulo! Realmente, o final de semana tinha sido glorioso.
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