Do cemitério à confraternização
..............................................................................................
Antes de sairmos do cemitério, os homens fomos conversar com o Sr. Agenor. Queríamos uma sepultura razoável, um túmulo, com três urnas, em homenagem à família de Marquinhos. Demos-lhe um sinal em dinheiro e durante a construção da última morada pagaríamos o restante.
E assim foi, até a transferência dos ossos das covas rasas para o eterno descanso. Não fui nessa última fase. Foram o Srs. André, Abílio e João. Estive presente à missa, diante da sepultura. Marquinhos ficou tão emocionado que, num gesto de carinho, abriu seus bracinhos para abraçar a lápide.
-- Eu amo vocês!
..............................................................................................
Machado de Assis, grande escritor brasileiro, maior orador da língua portuguesa, fundador da ABL – Associação Brasileira de Letras --, escreveu: “O menino é o pai do homem”.
Todos, homens e mulheres, já fomos crianças. É na infância que criamos bons hábitos, através de ensinamentos de nossos pais e famílias, de professores, de amigos. E crescemos instruídos e educados, e tornamo-nos homens e mulheres, com nossos ideais. A educação que recebemos na infância servirá de exemplo na idade adulta.
Novamente, todos na rodovia, em direção a São Vicente, que já estava próxima. Ao passarmos por outro posto policial, outras motos e viaturas se juntaram ao comboio. Nem o Príncipe Charles teve tanta homenagem!!
Chegamos ao restaurante com muita festa. Os policiais motorizados, oito, posicionaram-se em duas filas, acompanhados de duas viaturas de cada lado, formando um corredor, por onde passaram o casal, as crianças e os avôs. Os primos lançaram rojões. Fefê e Marquinhos iam pulando, de tão felizes que estavam.
A festa se estendeu até meia-noite. Nesse período, poucas foram as vezes que fiquei com os meus pequenos. Mas eu não os perdia de vista. Mesmo dançando, eu errava os passos, só para acompanhar cada movimento deles. Quem não gostava disso eram as moças com quem eu bailava.
-- Você está com algum problema, André? – perguntou-me uma das primas do casal..
-- Não!! Estou bem! Por quê?
-- Porque eu acho que você não sabe dançar. Já pisou no meu pé duas vezes.
-- Ahhh!! Eu fiz isso? Me desculpa, tá?
-- Você é gay, André?
-- Por que me pergunta isso?
-- Porque estou a fim de ficar com você, e você nem tchum!
-- Ah, tá!! Hoje eu não estou a fim...
Aproximou sua boca em meu ouvido e disse-me:
-- Sua bichona!
E largou-me sozinho no salão.
Mas que malcriada!!
-- Que tanto você olha sobre meu ombro? – perguntou-me a irmã da Sra. Judite.
-- Estou tentando ver as crianças.
-- Daria para você prestar atenção em mim?
-- Estou prestando. Pode falar!
Ela também largou-me no meio do salão.
Que família estressada!!
Quase no fim da noite, fui me despedir das crianças. A Fefê já estava sonolenta; o Marquinhos, eufórico. Peguei-a no colo, fi-la dormir, beijei-lhe o rosto e coloquei-a no colo da mãe. Marquinhos, Srs. André, João e Abílio me acompanharam até o carro. Pedi-lhes que me deixassem a sós com Marquinhos, por alguns minutos.
-- Quero que você me prometa uma coisa: que sempre será este menino educado e carinhoso. Quero que você estude bastante e que ajude a Fefê na escola, sempre que ela precisar de auxílio nas tarefas escolares. Que obedeça a seus pais, seus avós e a família inteira.
Respondeu-me com um forte abraço, demorado, sincero. Depois, beijou-me o rosto, pediu-me à bênção e (*)
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Do Convento ao amor incondicional.
Ao dirigirmo-nos a nossos carros estacionados do lado de fora do Convento, todos os parentes do casal se emocionaram. Não teve um que não chorasse naquele momento.
Adoção é o Amor incondicional, verdadeiro, recíproco, há vida transparente, carregada de sentimentos puros, sem interesse, uma lição de vida a muitos que O trocaram pelo materialismo, pela vida desregrada, pelo poder, pela ambição, pelo egoísmo.
Os avós não se contiveram e aproximaram-se.
-- Aqui está seu neto, Sr. João!! – disse Sr. André, entregando Marquinhos aos braços do sogro.
-- Aqui está sua neta, Sr. Abílio!! – disse Sra. Judite, entregando Fefê aos braços do sogro.
-- Fefêeeeeeeeeee!!! São nossos vovôs e vovós!! – gritou Marquinhos, abraçando carinhosamente e beijando o rosto de seu avô, que chorava feito criança.
-- Meu neto será um policial rodoviário!!
-- Calma lá, João!! Seu neto não... NOSSO neto!! – bronqueou Sr. Abílio, em tom de brincadeira. -- E trate de passá-lo para os meus braços agora!
Os parentes avançaram também. As mulheres rodearam a Fefê. Cada homem que pegava Marquinhos, lançava-o para cima e pegava-o de volta. O menino ria muito. Estava feliz.
-- Bom, gente! – disse Sr. André – Vamos todos ao cemitério.
Cada um entrou em seu carro. O comboio seguiu em direção à rodovia, onde os dois policiais motorizados aguardavam a comitiva. Assim que nos avistaram, ligaram a sirene. De meu carro, eu via os meus pequenos pulando no banco detrás, vibrando com a festa de sirenes e buzinaços.
Ao passarmos novamente pelo posto da polícia rodoviária, ao comboio juntaram-se duas viaturas e, em formação de honra, uma viatura seguiu à frente, uma moto de cada lado do casal com as crianças, e a outra viatura, atrás do último carro.
A 1km do cemitério, cessaram a sirene e o buzinaço.
Sr. Agenor, funcionário administrativo do cemitério, recepcionou a todos, levando-nos até as covas rasas, onde estava a família biológica de Marquinhos. Sra. Judite e as avós entregaram-lhe ramalhetes.
O menino depositou as flores, ramalhete por ramalhete, em cada uma das covas, chorou e disse, quase sussurrando, que sentia muita saudade deles. Depois, ajoelhou-se e rezou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, sendo acompanhado por todos que lá estavam. Enxugou as lágrimas, levantou-se e veio em minha direção, com os braços levantados. Peguei-o no colo.
-- Titio! Quero rezar também para a minha irmãzinha.
-- Claro, Marquinhos! Você já depositou flores para ela também e...
-- Não, titio! Para minha irmã eu já rezei. Quero rezar para a minha outra irmãzinha.
-- A Fefê?
-- Não, titio! A minha irmãzinha, a sua filha. – fixou o olhar em meus olhos, sorrindo um choramingo.
Rezamos, chorando.
Ao sairmos, cada convidado que lá estava, depositou também flores nas covas.
E voltamos aos nossos carros.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Ao dirigirmo-nos a nossos carros estacionados do lado de fora do Convento, todos os parentes do casal se emocionaram. Não teve um que não chorasse naquele momento.
Adoção é o Amor incondicional, verdadeiro, recíproco, há vida transparente, carregada de sentimentos puros, sem interesse, uma lição de vida a muitos que O trocaram pelo materialismo, pela vida desregrada, pelo poder, pela ambição, pelo egoísmo.
Os avós não se contiveram e aproximaram-se.
-- Aqui está seu neto, Sr. João!! – disse Sr. André, entregando Marquinhos aos braços do sogro.
-- Aqui está sua neta, Sr. Abílio!! – disse Sra. Judite, entregando Fefê aos braços do sogro.
-- Fefêeeeeeeeeee!!! São nossos vovôs e vovós!! – gritou Marquinhos, abraçando carinhosamente e beijando o rosto de seu avô, que chorava feito criança.
-- Meu neto será um policial rodoviário!!
-- Calma lá, João!! Seu neto não... NOSSO neto!! – bronqueou Sr. Abílio, em tom de brincadeira. -- E trate de passá-lo para os meus braços agora!
Os parentes avançaram também. As mulheres rodearam a Fefê. Cada homem que pegava Marquinhos, lançava-o para cima e pegava-o de volta. O menino ria muito. Estava feliz.
-- Bom, gente! – disse Sr. André – Vamos todos ao cemitério.
Cada um entrou em seu carro. O comboio seguiu em direção à rodovia, onde os dois policiais motorizados aguardavam a comitiva. Assim que nos avistaram, ligaram a sirene. De meu carro, eu via os meus pequenos pulando no banco detrás, vibrando com a festa de sirenes e buzinaços.
Ao passarmos novamente pelo posto da polícia rodoviária, ao comboio juntaram-se duas viaturas e, em formação de honra, uma viatura seguiu à frente, uma moto de cada lado do casal com as crianças, e a outra viatura, atrás do último carro.
A 1km do cemitério, cessaram a sirene e o buzinaço.
Sr. Agenor, funcionário administrativo do cemitério, recepcionou a todos, levando-nos até as covas rasas, onde estava a família biológica de Marquinhos. Sra. Judite e as avós entregaram-lhe ramalhetes.
O menino depositou as flores, ramalhete por ramalhete, em cada uma das covas, chorou e disse, quase sussurrando, que sentia muita saudade deles. Depois, ajoelhou-se e rezou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, sendo acompanhado por todos que lá estavam. Enxugou as lágrimas, levantou-se e veio em minha direção, com os braços levantados. Peguei-o no colo.
-- Titio! Quero rezar também para a minha irmãzinha.
-- Claro, Marquinhos! Você já depositou flores para ela também e...
-- Não, titio! Para minha irmã eu já rezei. Quero rezar para a minha outra irmãzinha.
-- A Fefê?
-- Não, titio! A minha irmãzinha, a sua filha. – fixou o olhar em meus olhos, sorrindo um choramingo.
Rezamos, chorando.
Ao sairmos, cada convidado que lá estava, depositou também flores nas covas.
E voltamos aos nossos carros.
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terça-feira, 28 de abril de 2009
Corrigindo os erros de gramática.
Embora eu seja professor de português, eu cometo erros... e alguns grotescos. Como eu não tenho um revisor para me apontar os erros na correção, antes de publicar as histórias, farei isso agora, ou seja, depois de postadas no blog.
Eu não temo erros. Temo não corrigi-los, porque não estaria sendo justo com meus leitores.
Quarta-feira, 18 de março de 2009
1969 a 1980. Zona sul de São Paulo.
3º parágrafo: “Eu estudava próximo de minha residência...”
Análise: Regência Nominal consiste na relação de dependência entre certas palavras e alguns nomes (substantivos e adjetivos).
Embora a preposição de possa ser usada com o adjetivo próximo, a preposição a é a adequada ao sentido da oração.
Correção: “Eu estudava próximo a minha residência...” (o acento indicativo de crase é facultativo, nesse caso).
Antepenúltimo parágrafo: “Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam o bem”.
Análise: Regência Verbal é a relação de dependência que se estabelece entre os verbos e seus complementos.
O verbo visar pode ser:
1- Transitivo Direto, no sentido de apontar ou pôr o visto:
A funcionária visa o passaporte.
2- Transitivo Indireto, no sentido de desejar, ter em vista, exige a preposição a: Muitos visam à tranquilidade.
Correção: “Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam ao bem”.
* Quinta-feira, 19 de março de 2009
1980 a 1990. Quem com Ferro fere...
Último parágrafo da primeira história: “Recebi propostas de outras escolas mais próximas de minha casa”.
Esse erro me persegue!!
Correção: “Recebi propostas de outras escolas mais próximas a minha casa”.
Sábado, 21 de março de 2009
Penúltimo parágrafo da primeira história: “Como estava ainda próximo de casa”.
Pqp!
Correção: “Como estava ainda próximo a casa”. (aqui não há acento indicativo de crase, porque a “casa” é minha. Se viesse determinada como “a casa de meus avós”, teria o acento)
Terça-feira, 24 de março de 2009
1981. O quadro
Segundo parágrafo: “...toda vez que eu chegava próximo a um fato importante...”
Que merda!!!
Correção: “...toda vez que eu chegava próximo de um fato importante...” (não indica lugar; logo, a preposição exigida é “de”)
Embora eu seja professor de português, eu cometo erros... e alguns grotescos. Como eu não tenho um revisor para me apontar os erros na correção, antes de publicar as histórias, farei isso agora, ou seja, depois de postadas no blog.
Eu não temo erros. Temo não corrigi-los, porque não estaria sendo justo com meus leitores.
Quarta-feira, 18 de março de 2009
1969 a 1980. Zona sul de São Paulo.
3º parágrafo: “Eu estudava próximo de minha residência...”
Análise: Regência Nominal consiste na relação de dependência entre certas palavras e alguns nomes (substantivos e adjetivos).
Embora a preposição de possa ser usada com o adjetivo próximo, a preposição a é a adequada ao sentido da oração.
Correção: “Eu estudava próximo a minha residência...” (o acento indicativo de crase é facultativo, nesse caso).
Antepenúltimo parágrafo: “Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam o bem”.
Análise: Regência Verbal é a relação de dependência que se estabelece entre os verbos e seus complementos.
O verbo visar pode ser:
1- Transitivo Direto, no sentido de apontar ou pôr o visto:
A funcionária visa o passaporte.
2- Transitivo Indireto, no sentido de desejar, ter em vista, exige a preposição a: Muitos visam à tranquilidade.
Correção: “Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam ao bem”.
* Quinta-feira, 19 de março de 2009
1980 a 1990. Quem com Ferro fere...
Último parágrafo da primeira história: “Recebi propostas de outras escolas mais próximas de minha casa”.
Esse erro me persegue!!
Correção: “Recebi propostas de outras escolas mais próximas a minha casa”.
Sábado, 21 de março de 2009
Penúltimo parágrafo da primeira história: “Como estava ainda próximo de casa”.
Pqp!
Correção: “Como estava ainda próximo a casa”. (aqui não há acento indicativo de crase, porque a “casa” é minha. Se viesse determinada como “a casa de meus avós”, teria o acento)
Terça-feira, 24 de março de 2009
1981. O quadro
Segundo parágrafo: “...toda vez que eu chegava próximo a um fato importante...”
Que merda!!!
Correção: “...toda vez que eu chegava próximo de um fato importante...” (não indica lugar; logo, a preposição exigida é “de”)
segunda-feira, 27 de abril de 2009
O Convento – Final
“Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê.
Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei por quê.”
(Camões)
O Convento já fazia parte de minha vida, mas, decididamente, eu tinha que me afastar. Seria, então, a última vez que eu entraria lá, pelo menos por algum tempo. Procuraria uma creche qualquer, no futuro, e trabalharia como voluntário. Dessa forma, estaria junto às crianças, faria algo útil para elas.
Chegamos. Fui recebido pelo Marquinhos, que me levou ao jardim interno. Fefê recepcionou o casal, e ficaram no jardim externo.
Vinte minutos depois, uma freira nos convocou para irmos ao jardim externo.
-- Ué! Será que já levaram a Fefê, titio? Por que temos de ir ao jardim externo? É lá que estava a Fefê, titio!
-- Marquinhos...
-- Será que a Fefê já foi embora para sempre, titio?
Começou a chorar, triste. Peguei-o no colo.
-- Marquinhos! Olha pra mim!
Ele se agarrou ao meu pescoço, colocando sua cabecinha em meu ombro, chorando muito.
-- Marquinhos! Você não se lembra do que minha filha disse para mim?
Parou de chorar. Tirou a cabeça de meu ombro e olhou para mim, entre sorrisos e soluços. Sorri pra ele também. Confiante, pediu que eu o colocasse no chão. Deu-me a mão e fomos caminhando até o jardim externo. Ao chegarmos, apresentei-lhe ao casal, enquanto a Fefê tentava escalar meu colo.
Sra. Judite, carinhosamente, pegou-o e fê-lo sentar em sua perna. Coloquei a Fefê na perna do Sr. André, que olhando Marquinhos, fixamente, disse-lhe:
-- Filho! Vamos para casa!
Bem, eu não preciso expressar o que senti naquele momento, como também não preciso escrever o que estou sentindo neste momento. Você já me conhece.
-- Titio! Eu tenho papai e mamãe e uma irmãzinha.
-- Para sempre, Marquinhos!
-- O senhor vai nos visitar?
-- O titio André sempre irá em nossa casa. – respondeu-lhe o papai dele – Agora iremos ao cemitério para rezar e depositar flores para os seus pais.
Saímos os cinco. Os dois nos braços de seus pais.
-- Titio! Eu nunca me esquecerei do senhor.
-- Acho bom mesmo, Marquinhos, porque, se esquecer vai apanhar no bumbum.
Soltou uma deliciosa gargalhada.
“Livre como o sonho
Alegre como a luz
Desejo e fantasia
Em plena harmonia.
Eu sou o teu homem, sou teu pai, teu filho
Sou aquele que te tem amor
Sou teu par, o teu melhor amigo
Vou contigo seja aonde for
E onde estiver, estou.”
XXXXXXXXXXXXXXXXXX
“Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê.
Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei por quê.”
(Camões)
O Convento já fazia parte de minha vida, mas, decididamente, eu tinha que me afastar. Seria, então, a última vez que eu entraria lá, pelo menos por algum tempo. Procuraria uma creche qualquer, no futuro, e trabalharia como voluntário. Dessa forma, estaria junto às crianças, faria algo útil para elas.
Chegamos. Fui recebido pelo Marquinhos, que me levou ao jardim interno. Fefê recepcionou o casal, e ficaram no jardim externo.
Vinte minutos depois, uma freira nos convocou para irmos ao jardim externo.
-- Ué! Será que já levaram a Fefê, titio? Por que temos de ir ao jardim externo? É lá que estava a Fefê, titio!
-- Marquinhos...
-- Será que a Fefê já foi embora para sempre, titio?
Começou a chorar, triste. Peguei-o no colo.
-- Marquinhos! Olha pra mim!
Ele se agarrou ao meu pescoço, colocando sua cabecinha em meu ombro, chorando muito.
-- Marquinhos! Você não se lembra do que minha filha disse para mim?
Parou de chorar. Tirou a cabeça de meu ombro e olhou para mim, entre sorrisos e soluços. Sorri pra ele também. Confiante, pediu que eu o colocasse no chão. Deu-me a mão e fomos caminhando até o jardim externo. Ao chegarmos, apresentei-lhe ao casal, enquanto a Fefê tentava escalar meu colo.
Sra. Judite, carinhosamente, pegou-o e fê-lo sentar em sua perna. Coloquei a Fefê na perna do Sr. André, que olhando Marquinhos, fixamente, disse-lhe:
-- Filho! Vamos para casa!
Bem, eu não preciso expressar o que senti naquele momento, como também não preciso escrever o que estou sentindo neste momento. Você já me conhece.
-- Titio! Eu tenho papai e mamãe e uma irmãzinha.
-- Para sempre, Marquinhos!
-- O senhor vai nos visitar?
-- O titio André sempre irá em nossa casa. – respondeu-lhe o papai dele – Agora iremos ao cemitério para rezar e depositar flores para os seus pais.
Saímos os cinco. Os dois nos braços de seus pais.
-- Titio! Eu nunca me esquecerei do senhor.
-- Acho bom mesmo, Marquinhos, porque, se esquecer vai apanhar no bumbum.
Soltou uma deliciosa gargalhada.
“Livre como o sonho
Alegre como a luz
Desejo e fantasia
Em plena harmonia.
Eu sou o teu homem, sou teu pai, teu filho
Sou aquele que te tem amor
Sou teu par, o teu melhor amigo
Vou contigo seja aonde for
E onde estiver, estou.”
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domingo, 26 de abril de 2009
O comboio.
Ao sair do estacionamento do hotel, deparei-me com toda a família do casal. Estavam lá desde às 7h30.
-- Gostou da surpresa, Sr. André? – perguntou-me o pai da Sra. Judite.
-- Estou surpreso e feliz, mas poderiam ter pedido que me chamassem.
-- A nossa ideia foi essa. Queríamos fazer-te uma supresa.
-- E conseguiram. Vamos todos ao convento? Quantos carros têm aqui?
-- Iremos em comboio até o convento e estacionaremos próximos à entrada. Só entrarão você, meu genro e minha filha. Quando vocês saírem com as crianças, os 11 carros, que estão aqui, seguirão em comboio até o cemitério.
-- Então a festa será no cemitério? – sorri.
-- Não! A festa será em um restaurante. Assim que vocês prestarem homenagens aos pais do Marquinhos, iremos todos a um restaurante próximo a São Vicente.
-- Puxa!! Não será cansativo a vocês? Entre o convento e o cemitério, pode demorar muito!
-- Queremos acompanhar nossos netos, ao menos vê-los de longe. Esperamos por isso há muito tempo. Ninguém conseguiu dormir de ontem para hoje.
-- Nem eu, Sr. João!
Abraçamo-nos emocionados. Depois de uma breve pausa, Sr. João pediu que todos entrassem em seus carros e seguissem ao convento.
No trajeto era só festa, buzinaço. Ao passar pelo Posto da Polícia Rodoviária, o carro, onde estavam o Sr. André e a Sra. Judite, foi parado por um policial. Como estava “puxando” a fila do comboio, todos pararam também. A estrada foi, imediatamente, bloqueada pelos policiais. Dois oficiais graduados, em seus uniformes de gala, atravessaram a pista na direção do carro do Sr. André, que já estava fora dele, sorrindo e acenando aos policiais. Entendi, então, que o Sr. André também era policial rodoviário.
Enquanto eles conversavam mais à frente, Sr. João foi até meu carro, falar comigo.
-- Está estranhando tudo isso, Sr. André?
-- O seu genro é policial rodoviário?
Estufou o peito e disse-me:
-- Sim! Somos uma família de policiais rodoviários. Os dois oficiais, que estão conversando com meu genro, guiarão, com suas motos, o comboio, a partir de agora e até o fim, lá no restaurante.
-- Sabe, Sr. João, quando eu entrei na sala do convento para conversar com eles, o seu genro disse que me conhecia de algum lugar. Eu respondi a ele que eu tive a mesma impressão.
-- Ele contou-nos isso. Mas de onde será que vocês se conhecem? Vai ver que ele já te multou e, no mínimo, você deve tê-lo xingado!! – disse, rindo muito.
-- Provavelmente tenha sido isso! – ri também.
Os policiais, com suas motos, posicionaram-se à frente do comboio e seguimos ao convento, provocando a curiosidade de todos que nos ultrapassavam pela pista da esquerda da rodovia.
Haviam preparado uma linda festa aos pequenos.
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Ao sair do estacionamento do hotel, deparei-me com toda a família do casal. Estavam lá desde às 7h30.
-- Gostou da surpresa, Sr. André? – perguntou-me o pai da Sra. Judite.
-- Estou surpreso e feliz, mas poderiam ter pedido que me chamassem.
-- A nossa ideia foi essa. Queríamos fazer-te uma supresa.
-- E conseguiram. Vamos todos ao convento? Quantos carros têm aqui?
-- Iremos em comboio até o convento e estacionaremos próximos à entrada. Só entrarão você, meu genro e minha filha. Quando vocês saírem com as crianças, os 11 carros, que estão aqui, seguirão em comboio até o cemitério.
-- Então a festa será no cemitério? – sorri.
-- Não! A festa será em um restaurante. Assim que vocês prestarem homenagens aos pais do Marquinhos, iremos todos a um restaurante próximo a São Vicente.
-- Puxa!! Não será cansativo a vocês? Entre o convento e o cemitério, pode demorar muito!
-- Queremos acompanhar nossos netos, ao menos vê-los de longe. Esperamos por isso há muito tempo. Ninguém conseguiu dormir de ontem para hoje.
-- Nem eu, Sr. João!
Abraçamo-nos emocionados. Depois de uma breve pausa, Sr. João pediu que todos entrassem em seus carros e seguissem ao convento.
No trajeto era só festa, buzinaço. Ao passar pelo Posto da Polícia Rodoviária, o carro, onde estavam o Sr. André e a Sra. Judite, foi parado por um policial. Como estava “puxando” a fila do comboio, todos pararam também. A estrada foi, imediatamente, bloqueada pelos policiais. Dois oficiais graduados, em seus uniformes de gala, atravessaram a pista na direção do carro do Sr. André, que já estava fora dele, sorrindo e acenando aos policiais. Entendi, então, que o Sr. André também era policial rodoviário.
Enquanto eles conversavam mais à frente, Sr. João foi até meu carro, falar comigo.
-- Está estranhando tudo isso, Sr. André?
-- O seu genro é policial rodoviário?
Estufou o peito e disse-me:
-- Sim! Somos uma família de policiais rodoviários. Os dois oficiais, que estão conversando com meu genro, guiarão, com suas motos, o comboio, a partir de agora e até o fim, lá no restaurante.
-- Sabe, Sr. João, quando eu entrei na sala do convento para conversar com eles, o seu genro disse que me conhecia de algum lugar. Eu respondi a ele que eu tive a mesma impressão.
-- Ele contou-nos isso. Mas de onde será que vocês se conhecem? Vai ver que ele já te multou e, no mínimo, você deve tê-lo xingado!! – disse, rindo muito.
-- Provavelmente tenha sido isso! – ri também.
Os policiais, com suas motos, posicionaram-se à frente do comboio e seguimos ao convento, provocando a curiosidade de todos que nos ultrapassavam pela pista da esquerda da rodovia.
Haviam preparado uma linda festa aos pequenos.
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sábado, 25 de abril de 2009
No Guarujá.
Cheguei à casa do Sr. André e de Sra. Judite e fui recebido como membro da família, não só pelo casal mas também por seus pais e irmãos.
A casa é térrea. Possui uma boa área de quintal, entre o portão e a agradabilíssima varanda. Entre a sala e a cozinha, há um extenso corredor. Neste, as entradas de cada quarto: o dos pais, o da Fefê e o do Marquinhos, devidamente nomeados na porta com plaquinhas de madeira e à espera deles, mobiliados e decorados pelas avós.
No fim do corredor, chega-se à copa e à cozinha. No fundo, há outro quintal, bem maior e com árvores típicas do litoral. Há também uma edícula, com três cômodos: banheiro, um escritório e uma “brinquedolândia”, chamado assim, carinhosamente, pelos futuros pais.
O almoço de confraternização, entre as famílias e eu, foi um deliciosa feijoada. Os futuros avós não conseguiam esconder a felicidade e estavam ansiosos por conhecerem as crianças. Pediam que eu contasse a eles como tinha sido o meu primeiro encontro com a Fefê e com o Marquinhos.
Saí de lá à noite, às 20h, e fui ao hotel na Praia Grande. Antes de me recolher ao quarto, passei no quiosque para cumprimentar o meu grande amigo Marmitão.
-- Tudo bem, santista?
-- Tudo ótimo, Marmitão! Estou chegando agora do Guarujá. Fui almoçar com os futuros pais da Fefê e do Marquinhos.
Marmitão levantou-se, visivelmente emocionado, com os olhos encharcados de lágrimas, e entrou no quiosque. De onde eu estava, ouvia claramente seus soluços e voz, embargada, agradecendo a Deus o destino dos meus pequenos. (*)
Havia casais e grupos de amigos em outras mesas que não entenderam o que se passava naquele momento; Marmitão, soluçando dentro do quiosque; eu, chorando, na mesa. Entenderam menos ainda, quando Marmitão saiu e veio me abraçar, prometendo a todos uma festa no sábado seguinte, com cinco engradados de cerveja, gratuitos.
-- Assim você irá à falência, Marmitão!
-- É minha promessa e a cumprirei.
Despedi-me, emocionado, de meu amigo e voltei ao hotel.
Na cama, eu não conseguia dormir. Ficava imaginando a reação de Marquinhos quando soubesse que seria adotado junto à irmã. De acordo com o casal, a adoção foi selada e confirmada, durante a semana. Pediram às irmãs que não contassem a Marquinhos. Ele saberia apenas no domingo, quando eu estivesse presente, e antes de irmos ao cemitério.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Cheguei à casa do Sr. André e de Sra. Judite e fui recebido como membro da família, não só pelo casal mas também por seus pais e irmãos.
A casa é térrea. Possui uma boa área de quintal, entre o portão e a agradabilíssima varanda. Entre a sala e a cozinha, há um extenso corredor. Neste, as entradas de cada quarto: o dos pais, o da Fefê e o do Marquinhos, devidamente nomeados na porta com plaquinhas de madeira e à espera deles, mobiliados e decorados pelas avós.
No fim do corredor, chega-se à copa e à cozinha. No fundo, há outro quintal, bem maior e com árvores típicas do litoral. Há também uma edícula, com três cômodos: banheiro, um escritório e uma “brinquedolândia”, chamado assim, carinhosamente, pelos futuros pais.
O almoço de confraternização, entre as famílias e eu, foi um deliciosa feijoada. Os futuros avós não conseguiam esconder a felicidade e estavam ansiosos por conhecerem as crianças. Pediam que eu contasse a eles como tinha sido o meu primeiro encontro com a Fefê e com o Marquinhos.
Saí de lá à noite, às 20h, e fui ao hotel na Praia Grande. Antes de me recolher ao quarto, passei no quiosque para cumprimentar o meu grande amigo Marmitão.
-- Tudo bem, santista?
-- Tudo ótimo, Marmitão! Estou chegando agora do Guarujá. Fui almoçar com os futuros pais da Fefê e do Marquinhos.
Marmitão levantou-se, visivelmente emocionado, com os olhos encharcados de lágrimas, e entrou no quiosque. De onde eu estava, ouvia claramente seus soluços e voz, embargada, agradecendo a Deus o destino dos meus pequenos. (*)
Havia casais e grupos de amigos em outras mesas que não entenderam o que se passava naquele momento; Marmitão, soluçando dentro do quiosque; eu, chorando, na mesa. Entenderam menos ainda, quando Marmitão saiu e veio me abraçar, prometendo a todos uma festa no sábado seguinte, com cinco engradados de cerveja, gratuitos.
-- Assim você irá à falência, Marmitão!
-- É minha promessa e a cumprirei.
Despedi-me, emocionado, de meu amigo e voltei ao hotel.
Na cama, eu não conseguia dormir. Ficava imaginando a reação de Marquinhos quando soubesse que seria adotado junto à irmã. De acordo com o casal, a adoção foi selada e confirmada, durante a semana. Pediram às irmãs que não contassem a Marquinhos. Ele saberia apenas no domingo, quando eu estivesse presente, e antes de irmos ao cemitério.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
sexta-feira, 24 de abril de 2009
ENTARDECEU -- uma composição belíssima!!! Confesso -- não entenda como vício de linguagem -- que não a ouvi com os ouvidos, mas com a alma. Belíssima!!!! BRAVO!!! E viajei...
... me vi em pleno Terraço Itália, admirando a cidade de São Paulo, cheia de luzes, fervilhando...
um céu raramente estrelado, com a Lua Cheia despontando no horizonte, firme, amarela, intensa...
... e, envolto a uma melodia serena, buscando sensações, misturando-as, ora com a audição e visão, ora com o paladar e olfato, ora com olfato, audição, visão, olfato... e... tato. Enfim, um sonho real... em um profundo paradoxo. Busquei a mulher em meus sentimentos e sonhos celestes... e a vi ali, em pleno Terraço, junto a mim, orgulhosa de seu irmão, apaixonada pela vida...
... me vi em pleno Terraço Itália, admirando a cidade de São Paulo, cheia de luzes, fervilhando...
um céu raramente estrelado, com a Lua Cheia despontando no horizonte, firme, amarela, intensa...
... e, envolto a uma melodia serena, buscando sensações, misturando-as, ora com a audição e visão, ora com o paladar e olfato, ora com olfato, audição, visão, olfato... e... tato. Enfim, um sonho real... em um profundo paradoxo. Busquei a mulher em meus sentimentos e sonhos celestes... e a vi ali, em pleno Terraço, junto a mim, orgulhosa de seu irmão, apaixonada pela vida...
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Amigos universais.
Clara, Clarinha, Clarita.
Dizem os sábios que nada acontece por acaso. Um simples encontro de desconhecidos, por exemplo, pode ser o início de uma amizade eterna. Entretanto, depende de muitos fatores que propiciem tal encontro, principalmente o destino.
Patiens, quia aeternum (Paciente, que será eterno). Não há como acelerar o presente para se chegar ao futuro. Tudo acontece de acordo com o tempo. Por que ser, então, ansioso? Paciência é o melhor chá.
Quando eu me casei, naquele distante sábado de 1984, Clarita morava em frente à igreja. Da janela de seu apartamento, assistia aos casamentos. Quem poderá dizer que ela não tenha assistido ao meu? Si parva licet componere magnis (expressão de Virgilio), “Se é permitido comparar as coisas pequenas às grandes”, por que não posso comparar a pequena distância entre a casa de Clarita e a igreja, com o distante tempo do primeiro “oi”?
Clarita, anjo-criança, alma-sábia, colo protetor de esperança, visão privilegiada de sentidos sinestésicos, coração de ternura, feições sinceras, delicados sentimentos etéreos. Vera incessu patuit dea, “Pelo andar, revela-se uma verdadeira deusa”. Esta expressão de Virgilio resume a elegância e a pureza de Clarita, comparada aqui como a deusa Vênus.
Clarita é uma mulher solidária. Ver uma criança sorrir é acreditar que pode haver esperança num futuro melhor. Por isso, luta contra a miséria, batalha em prol de uma educação de qualidade, é uma guerreira. Maxima debetur puero reverentia: máxima célebre de Juvenal, em que o poeta exprime quanto se deve ter cuidado em nada dizer ou fazer que possa ofender a inocência das crianças. “Deve-se à criança o máximo respeito”.
Ouvi-la é transportar-se para a natureza, ouvindo a corredeira de um regato, entre bambuzais, admirar os pássaros, principalmente o beija-flor, sua ave-símbolo, é deslumbrar-se com o brilho de seus olhos, à sombra de árvores, é buscar Deus na vida simples da roça.
Clarita apareceu em um momento de minha vida de que eu mais necessitava. As pessoas não sabem o quanto é importante ouvir uma palavra de apoio, de motivação, encorajadora. Ela apareceu exatamente nesse momento, modificando minha maneira de pensar e agir.
Clarita é minha querida amiga. É eterna e universal.
XXXXXXXXXXXXXXXX
Clara, Clarinha, Clarita.
Dizem os sábios que nada acontece por acaso. Um simples encontro de desconhecidos, por exemplo, pode ser o início de uma amizade eterna. Entretanto, depende de muitos fatores que propiciem tal encontro, principalmente o destino.
Patiens, quia aeternum (Paciente, que será eterno). Não há como acelerar o presente para se chegar ao futuro. Tudo acontece de acordo com o tempo. Por que ser, então, ansioso? Paciência é o melhor chá.
Quando eu me casei, naquele distante sábado de 1984, Clarita morava em frente à igreja. Da janela de seu apartamento, assistia aos casamentos. Quem poderá dizer que ela não tenha assistido ao meu? Si parva licet componere magnis (expressão de Virgilio), “Se é permitido comparar as coisas pequenas às grandes”, por que não posso comparar a pequena distância entre a casa de Clarita e a igreja, com o distante tempo do primeiro “oi”?
Clarita, anjo-criança, alma-sábia, colo protetor de esperança, visão privilegiada de sentidos sinestésicos, coração de ternura, feições sinceras, delicados sentimentos etéreos. Vera incessu patuit dea, “Pelo andar, revela-se uma verdadeira deusa”. Esta expressão de Virgilio resume a elegância e a pureza de Clarita, comparada aqui como a deusa Vênus.
Clarita é uma mulher solidária. Ver uma criança sorrir é acreditar que pode haver esperança num futuro melhor. Por isso, luta contra a miséria, batalha em prol de uma educação de qualidade, é uma guerreira. Maxima debetur puero reverentia: máxima célebre de Juvenal, em que o poeta exprime quanto se deve ter cuidado em nada dizer ou fazer que possa ofender a inocência das crianças. “Deve-se à criança o máximo respeito”.
Ouvi-la é transportar-se para a natureza, ouvindo a corredeira de um regato, entre bambuzais, admirar os pássaros, principalmente o beija-flor, sua ave-símbolo, é deslumbrar-se com o brilho de seus olhos, à sombra de árvores, é buscar Deus na vida simples da roça.
Clarita apareceu em um momento de minha vida de que eu mais necessitava. As pessoas não sabem o quanto é importante ouvir uma palavra de apoio, de motivação, encorajadora. Ela apareceu exatamente nesse momento, modificando minha maneira de pensar e agir.
Clarita é minha querida amiga. É eterna e universal.
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terça-feira, 21 de abril de 2009
Meu aniversário.
Logo cedo, fui ao cemitério. Ao parar o carro num semáforo da Av. Paulista, o carro ao lado buzinou. Desci o vidro, e uma pessoa-que-sei-lá-quem-é-e-que-nunca-vi-na-vida deu-me os "parabéns". Pensei que tivesse feito alguma barbeiragem lá atrás, e que o cara estava ironizando. Sorri sem graça, quase pedindo desculpas. Ao abrir o farol, ele gritou "feliz aniversário", e o carro arrancou.
Fiquei sem saber como ele tinha adivinhado. Mas segui em frente.
Sabe quando você caminha absorto em pensamentos? Eu estava assim, "desligado" de tudo e de todos, olhando as pessoas tristes, cabisbaixas, dirigindo-se aos túmulos de seus entes queridos.
Quando eu já estava seguindo pra fora do cemitério, ouvi outro "parabéns" e outro "feliz aniversário". Levantei a cabeça e continuei vendo apenas pessoas tristes.
Numa das alamedas, porém, uma mulher, que-eu-nunca-vi-na-vida-e-mais-loira me desejou "feliz aniversário". Embora tivesse ouvido a mesma coisa lá na Av. Paulista, senti um certo receio de perguntar a ela, ali em meio aos túmulos, como ela sabia que era meu aniversário. Agradeci a ela, e resolvi apertar os passos, quase correndo.
Entrei no carro, abri o vidro, e deixei uma gorjeta para o Flanelinha, que também me agradeceu, desejando "feliz aniversário". Foi mais ou menos assim o nosso diálogo:
-- Como você sabe que é meu aniversário?
-- Sô espríta. Sei de tudo. moço.
-- Deve ser algum amigo meu fazendo esta sacanagem comigo. Quanto ele te deu?? Se você me falar, darei uma boa gorjeta.
-- Moço! Sabe a mulher lá drento do açumitério???
-- A loira?
-- A própia. Foi minha isposa. Todo dia mi consulto com ela e com meu ermão: aquele rapaiz que te comprementou na av. Paulista.
Senti o coração acelerar, as pernas bambas. Fechei os olhos por segundos e retomei a prosa.
-- Amigo! Isso é ridículo. Maior besteira que já ouvi na minha vida. Você não tem mais nada que fazer? Vá se danar!!! Vocês três são os piores atores que já vi na vida. E sabe o que mais: fala pro meu amigo que estou mandando-o à puta que o pariu.
Saí de lá.
Percebi aí que meu domingo não seria fácil.
Dirigi-me ao colégio eleitoral.
Como sempre, graças a Deus, não tinha fila. Entrei, assinei, votei. Ao pegar o comprovante, me desejaram "feliz aniversário". Agradeci apenas, porque consta a data de meu nascimento. Nada estranho.
Quanto à festa foi uma surpresa atrás da outra até às 22h.
A respeito do acontecido pela manhã na Paulista e no cemitério, não comentei nada a ninguém. Também nada me falaram... deixarei o tempo passar, daqui a um mês perguntarei a eles quem eram aqueles três.
XXXXXXXXXXXXXXXXXX
Logo cedo, fui ao cemitério. Ao parar o carro num semáforo da Av. Paulista, o carro ao lado buzinou. Desci o vidro, e uma pessoa-que-sei-lá-quem-é-e-que-nunca-vi-na-vida deu-me os "parabéns". Pensei que tivesse feito alguma barbeiragem lá atrás, e que o cara estava ironizando. Sorri sem graça, quase pedindo desculpas. Ao abrir o farol, ele gritou "feliz aniversário", e o carro arrancou.
Fiquei sem saber como ele tinha adivinhado. Mas segui em frente.
Sabe quando você caminha absorto em pensamentos? Eu estava assim, "desligado" de tudo e de todos, olhando as pessoas tristes, cabisbaixas, dirigindo-se aos túmulos de seus entes queridos.
Quando eu já estava seguindo pra fora do cemitério, ouvi outro "parabéns" e outro "feliz aniversário". Levantei a cabeça e continuei vendo apenas pessoas tristes.
Numa das alamedas, porém, uma mulher, que-eu-nunca-vi-na-vida-e-mais-loira me desejou "feliz aniversário". Embora tivesse ouvido a mesma coisa lá na Av. Paulista, senti um certo receio de perguntar a ela, ali em meio aos túmulos, como ela sabia que era meu aniversário. Agradeci a ela, e resolvi apertar os passos, quase correndo.
Entrei no carro, abri o vidro, e deixei uma gorjeta para o Flanelinha, que também me agradeceu, desejando "feliz aniversário". Foi mais ou menos assim o nosso diálogo:
-- Como você sabe que é meu aniversário?
-- Sô espríta. Sei de tudo. moço.
-- Deve ser algum amigo meu fazendo esta sacanagem comigo. Quanto ele te deu?? Se você me falar, darei uma boa gorjeta.
-- Moço! Sabe a mulher lá drento do açumitério???
-- A loira?
-- A própia. Foi minha isposa. Todo dia mi consulto com ela e com meu ermão: aquele rapaiz que te comprementou na av. Paulista.
Senti o coração acelerar, as pernas bambas. Fechei os olhos por segundos e retomei a prosa.
-- Amigo! Isso é ridículo. Maior besteira que já ouvi na minha vida. Você não tem mais nada que fazer? Vá se danar!!! Vocês três são os piores atores que já vi na vida. E sabe o que mais: fala pro meu amigo que estou mandando-o à puta que o pariu.
Saí de lá.
Percebi aí que meu domingo não seria fácil.
Dirigi-me ao colégio eleitoral.
Como sempre, graças a Deus, não tinha fila. Entrei, assinei, votei. Ao pegar o comprovante, me desejaram "feliz aniversário". Agradeci apenas, porque consta a data de meu nascimento. Nada estranho.
Quanto à festa foi uma surpresa atrás da outra até às 22h.
A respeito do acontecido pela manhã na Paulista e no cemitério, não comentei nada a ninguém. Também nada me falaram... deixarei o tempo passar, daqui a um mês perguntarei a eles quem eram aqueles três.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009
Sr. André, Sra. Judite e Laís.
Na sexta-feira daquela gloriosa semana, momentos antes de eu viajar ao litoral, o telefone tocou.
-- Sr. André?
-- Sim, sou eu. Quem fala?
-- Sou a Judite, esposa do André, futuros pais da Fefê e do Marquinhos.
-- (*)... (decididamente eu sou um chorão!)
-- Meu marido, antes de sair para o trabalho, pediu-me que eu telefonasse para dar essa notícia ao senhor.
-- Muito obrigado, Sra. Judite!
-- Ele pediu-me também para convidar-te a um almoço amanhã, sábado, aqui em nossa casa no Guarujá. Anote o endereço, por favor!
Anotei, agradeci muito, desliguei e, claro, कोन्तिनुएइ chorando. Durante esta última ação, tocou novamente o telefone. Atendi:
-- Oi, André!
-- Oi!
-- Você está chorando, André?
-- Estou.
-- O que aconteceu, amor?
-- Estou muito feliz, La! – disse, ainda soluçando.
-- Esse choro não é de tristeza?
-- Não!
-- Posso saber o motivo?
-- Fefê e Marquinhos serão adotados pelo mesmo casal.
-- André!! Não estou entendendo nada, amor! Não era você que queria adotá-los?
-- Era, mas só conseguiria isso se eu me casasse, se eu tivesse uma mulher que os amasse do mesmo jeito que eu os amo.
-- Por minha culpa, você não conseguiu adotá-los, né André?
-- Não foi a sua culpa, Laís! Eu sabia desde o princípio que eu não conseguiria; o tempo era muito curto.
-- Eu me distanciei de você por medo. Fiquei amedrontada de ir ao Convento e ser castigada por Deus.
-- Deus só quis abrir mais um caminho a você, Laís! Entendo seu medo. Quem sabe um dia você não esteja melhor preparada, não é doidinha?
-- Queria passear com você hoje à noite.
-- Estou saindo para a praia agora. Amanhã, irei a um almoço na casa do casal que irá adotá-los.
-- Você irá sozinho?
-- Irei acompanhado, Laís!
-- Podemos sair a semana que vem? Talvez na terça-feira?
-- Claro, Laís!! Segunda-feira, telefonarei a você para combinarmos.
-- Boa viagem, amor! Bom almoço! Tomara que sua companhia se afogue bebendo um copo d’água!
Praguejou e desligou. Ela não precisava saber que minhas companhias eram Deus e minha filha.
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Na sexta-feira daquela gloriosa semana, momentos antes de eu viajar ao litoral, o telefone tocou.
-- Sr. André?
-- Sim, sou eu. Quem fala?
-- Sou a Judite, esposa do André, futuros pais da Fefê e do Marquinhos.
-- (*)... (decididamente eu sou um chorão!)
-- Meu marido, antes de sair para o trabalho, pediu-me que eu telefonasse para dar essa notícia ao senhor.
-- Muito obrigado, Sra. Judite!
-- Ele pediu-me também para convidar-te a um almoço amanhã, sábado, aqui em nossa casa no Guarujá. Anote o endereço, por favor!
Anotei, agradeci muito, desliguei e, claro, कोन्तिनुएइ chorando. Durante esta última ação, tocou novamente o telefone. Atendi:
-- Oi, André!
-- Oi!
-- Você está chorando, André?
-- Estou.
-- O que aconteceu, amor?
-- Estou muito feliz, La! – disse, ainda soluçando.
-- Esse choro não é de tristeza?
-- Não!
-- Posso saber o motivo?
-- Fefê e Marquinhos serão adotados pelo mesmo casal.
-- André!! Não estou entendendo nada, amor! Não era você que queria adotá-los?
-- Era, mas só conseguiria isso se eu me casasse, se eu tivesse uma mulher que os amasse do mesmo jeito que eu os amo.
-- Por minha culpa, você não conseguiu adotá-los, né André?
-- Não foi a sua culpa, Laís! Eu sabia desde o princípio que eu não conseguiria; o tempo era muito curto.
-- Eu me distanciei de você por medo. Fiquei amedrontada de ir ao Convento e ser castigada por Deus.
-- Deus só quis abrir mais um caminho a você, Laís! Entendo seu medo. Quem sabe um dia você não esteja melhor preparada, não é doidinha?
-- Queria passear com você hoje à noite.
-- Estou saindo para a praia agora. Amanhã, irei a um almoço na casa do casal que irá adotá-los.
-- Você irá sozinho?
-- Irei acompanhado, Laís!
-- Podemos sair a semana que vem? Talvez na terça-feira?
-- Claro, Laís!! Segunda-feira, telefonarei a você para combinarmos.
-- Boa viagem, amor! Bom almoço! Tomara que sua companhia se afogue bebendo um copo d’água!
Praguejou e desligou. Ela não precisava saber que minhas companhias eram Deus e minha filha.
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domingo, 19 de abril de 2009
Histórias avulsas -- II
Adoro balões... de todos os tipos, mas sou fascinado mesmo pelos maiores. Aqueles que sobem com centenas de fogos de artifícios e bombas, e resolvem estourar bem em cima do prédio onde moro, às seis horas da manhã de domingo.
Nossa!!!!! Fico tão extasiado que me levanto às pressas, topando os joelhos e os pés em tudo que é móvel e parede... puxa!! é uma dor tão gostosa que você não faz idéia!
Depois de uma dezena de topadas, chego à janela, mas não consigo ver o formidável, porque está sobre o prédio. Aí corro para o banheiro. "Corro" é maneira de dizer, porque, na verdade, vou mancando até lá o mais rápido que posso.
Aí lavo o rosto, enxaguo bem os olhos, enxugo-os, e volto mancando às pressas para a janela... é nesse momento e somente nesse exato momento que vejo o terreno baldio e aquela cambada de filhos-da-puta que soltou o balão maravilhoso. Todo mundo olhando pra cima.
Tenho a impressão de que riem também. Da minha cara, é claro!
Já pensei em comprar um estilingue: ficaria preparado... acordaria às 5h, abriria a janela e quando o majestoso passasse em minha frente, encheria de pedra o maldito. Refleti! Poderia ser perigoso. Esqueci essa idéia.
Eu teria que arrumar uma forma de atingir a turma de idiotas. Pensei em comprar um rifle com luneta e mira. Antes disso, me matricularia numa escola de tiros. Minha idéia era acertar um tiro apenas na bunda de um deles. De qualquer um. Acertaria um na bunda num domingo, outra no outro domingo, e assim sucessivamente até não sobrar mais bunda naquele terreno.
E ainda iria ver a cena de perto com a maior cara de bunda!!
XXXXXXXXXXXXXXXXX
Adoro balões... de todos os tipos, mas sou fascinado mesmo pelos maiores. Aqueles que sobem com centenas de fogos de artifícios e bombas, e resolvem estourar bem em cima do prédio onde moro, às seis horas da manhã de domingo.
Nossa!!!!! Fico tão extasiado que me levanto às pressas, topando os joelhos e os pés em tudo que é móvel e parede... puxa!! é uma dor tão gostosa que você não faz idéia!
Depois de uma dezena de topadas, chego à janela, mas não consigo ver o formidável, porque está sobre o prédio. Aí corro para o banheiro. "Corro" é maneira de dizer, porque, na verdade, vou mancando até lá o mais rápido que posso.
Aí lavo o rosto, enxaguo bem os olhos, enxugo-os, e volto mancando às pressas para a janela... é nesse momento e somente nesse exato momento que vejo o terreno baldio e aquela cambada de filhos-da-puta que soltou o balão maravilhoso. Todo mundo olhando pra cima.
Tenho a impressão de que riem também. Da minha cara, é claro!
Já pensei em comprar um estilingue: ficaria preparado... acordaria às 5h, abriria a janela e quando o majestoso passasse em minha frente, encheria de pedra o maldito. Refleti! Poderia ser perigoso. Esqueci essa idéia.
Eu teria que arrumar uma forma de atingir a turma de idiotas. Pensei em comprar um rifle com luneta e mira. Antes disso, me matricularia numa escola de tiros. Minha idéia era acertar um tiro apenas na bunda de um deles. De qualquer um. Acertaria um na bunda num domingo, outra no outro domingo, e assim sucessivamente até não sobrar mais bunda naquele terreno.
E ainda iria ver a cena de perto com a maior cara de bunda!!
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sábado, 18 de abril de 2009
Amigos universais – happy hour – II
------- Deley ------
“Na Universidade eu morria de tesão por uma colega de classe. Sabia que ela tinha um namoradinho, mas sabia também que ela gostava de perfume de gasolina. Só saía com ela quem tinha carro.
Como eu já trabalhava e estava no final do curso, comprei um Opala, zero-bala, cheirinho de novo. Esperei ansioso a sexta-feira chegar e ir ao barzinho, onde eu a encontraria.
Chegado o dia, saí da Universidade e fui ao bar. Por sorte, tinha uma vaga bem na frente, onde ficavam as mesas. Estacionei. Assim que saí do carro, pude notá-la olhando para mim, de soslaio para que o namorado não percebesse.
Quando o corno foi ao banheiro, ela se abriu toda em sorrisos e se insinuou. Trocamos telefones, e eu voltei a minha mesa.
Nos encontramos no sábado à noite e fomos a um hotel.
Já estávamos na cama, nus, abraçados, quando pude perceber um vulto transparente, mexendo no mancebo, tentando pegar umas roupas. Broxei na hora.
-- Olha aquele cara!! Você está vendo ele?
-- Que cara, Deley? Não tem ninguém aqui no quarto com a gente..
-- É um espírito!! Vamos embora agora!! Não quero ficar mais aqui!! Rápido, se troque aí, que vou me mandar daqui.
Minha fama na Universidade se espalhou rápido. E não foi nada boa!!!”
------ Neneco ------
Neneco é um jovem corretor de 40 anos, mulherengo ao extremo. Basta ver saia pra sair correndo atrás, doido.
“Eu tinha 18 anos. Morava em Fortaleza. Minha mãe tinha um restaurante na praia, e todas as noites havia um show de forró. O lugar enchia de mulheres.
Em uma determinada noite, entrou uma princesa, uma verdadeira Angelina Jolie do sertão, alta, seios fartos, rosto oval, lábios carnudos, loira, pele tostadinha, um verdadeiro monumento. Nunca a tinha visto por lá, deduzi então tratar-se de uma turista, provavelmente sueca. Fui à sua mesa, como bom garçom, e entreguei-lhe o cardápio, acompanhado de uma piscadinha.
-- A sinhora é muito bunitona! – disse eu, babando.
A loira olhou para um dos seus acompanhantes, que imediatamente traduziu, em inglês, a frase que eu disse, e continuei:
-- A sinhora é cantora lá nos Tazunidos?
E o tradutor dizia a frase e ria.
-- I’m germany.
-- Ela está dizendo que é alemã.
-- Fala prela que to peixonado. – pedi ao tradutor, mas sempre com os olhos fixos nos lábios dela.
E o homem fazia a tradução e os dois riam muito. Pediram caipirinha de pinga e cervejas. Quando voltei para servi-los, postei-me bem ao lado da loira, que cochichou algo no ouvido do tradutor.
-- Ela deseja que você a ensine a dançar forró.
Peguei delicadamente a loira e conduzi-a ao salão lotado.
-- Vamu arrupiá daqui, gente boa!! Que agora só eu e a lora!
A sanfona cantou alto.
Os atrevidos de vez em quando resvalavam na bunda da loira, que morria de rir. A fim de aproveitar a situação, decidi dar uma passada, generosa, de mão na perseguida dela, pra ela ver com que estava lidando. Desci o braço, com a mão aberta pra dar aquela apalpada, e olhando pro rosto dela, disse:
-- Quero vê você ri agora, muié!!
E taquei a mão com força... e a minha mão encheu. Transtornado, comecei a berrar:
-- Esse bicho aqui é ómi!! Vô buscá minha pexera, baitola lazarento!!
A correria foi tanta, que no fim só encontramos a chuteira da Cinderela no meio do salão.
------- Deley ------
“Na Universidade eu morria de tesão por uma colega de classe. Sabia que ela tinha um namoradinho, mas sabia também que ela gostava de perfume de gasolina. Só saía com ela quem tinha carro.
Como eu já trabalhava e estava no final do curso, comprei um Opala, zero-bala, cheirinho de novo. Esperei ansioso a sexta-feira chegar e ir ao barzinho, onde eu a encontraria.
Chegado o dia, saí da Universidade e fui ao bar. Por sorte, tinha uma vaga bem na frente, onde ficavam as mesas. Estacionei. Assim que saí do carro, pude notá-la olhando para mim, de soslaio para que o namorado não percebesse.
Quando o corno foi ao banheiro, ela se abriu toda em sorrisos e se insinuou. Trocamos telefones, e eu voltei a minha mesa.
Nos encontramos no sábado à noite e fomos a um hotel.
Já estávamos na cama, nus, abraçados, quando pude perceber um vulto transparente, mexendo no mancebo, tentando pegar umas roupas. Broxei na hora.
-- Olha aquele cara!! Você está vendo ele?
-- Que cara, Deley? Não tem ninguém aqui no quarto com a gente..
-- É um espírito!! Vamos embora agora!! Não quero ficar mais aqui!! Rápido, se troque aí, que vou me mandar daqui.
Minha fama na Universidade se espalhou rápido. E não foi nada boa!!!”
------ Neneco ------
Neneco é um jovem corretor de 40 anos, mulherengo ao extremo. Basta ver saia pra sair correndo atrás, doido.
“Eu tinha 18 anos. Morava em Fortaleza. Minha mãe tinha um restaurante na praia, e todas as noites havia um show de forró. O lugar enchia de mulheres.
Em uma determinada noite, entrou uma princesa, uma verdadeira Angelina Jolie do sertão, alta, seios fartos, rosto oval, lábios carnudos, loira, pele tostadinha, um verdadeiro monumento. Nunca a tinha visto por lá, deduzi então tratar-se de uma turista, provavelmente sueca. Fui à sua mesa, como bom garçom, e entreguei-lhe o cardápio, acompanhado de uma piscadinha.
-- A sinhora é muito bunitona! – disse eu, babando.
A loira olhou para um dos seus acompanhantes, que imediatamente traduziu, em inglês, a frase que eu disse, e continuei:
-- A sinhora é cantora lá nos Tazunidos?
E o tradutor dizia a frase e ria.
-- I’m germany.
-- Ela está dizendo que é alemã.
-- Fala prela que to peixonado. – pedi ao tradutor, mas sempre com os olhos fixos nos lábios dela.
E o homem fazia a tradução e os dois riam muito. Pediram caipirinha de pinga e cervejas. Quando voltei para servi-los, postei-me bem ao lado da loira, que cochichou algo no ouvido do tradutor.
-- Ela deseja que você a ensine a dançar forró.
Peguei delicadamente a loira e conduzi-a ao salão lotado.
-- Vamu arrupiá daqui, gente boa!! Que agora só eu e a lora!
A sanfona cantou alto.
Os atrevidos de vez em quando resvalavam na bunda da loira, que morria de rir. A fim de aproveitar a situação, decidi dar uma passada, generosa, de mão na perseguida dela, pra ela ver com que estava lidando. Desci o braço, com a mão aberta pra dar aquela apalpada, e olhando pro rosto dela, disse:
-- Quero vê você ri agora, muié!!
E taquei a mão com força... e a minha mão encheu. Transtornado, comecei a berrar:
-- Esse bicho aqui é ómi!! Vô buscá minha pexera, baitola lazarento!!
A correria foi tanta, que no fim só encontramos a chuteira da Cinderela no meio do salão.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
O Convento --- III
“Há vida, querendo ser vivida”: essa era a frase que me sustentava e que me equilibrava, durante os maus momentos no hospital. Tenho-a como um ensinamento: a força, a motivação, a garra de saber que um dia eu estaria diante do mundo novamente.
Ao descer a Rodovia dos Imigrantes, essa frase voltou-me à cabeça. As crianças precisam de uma mamãe e de um papai, necessitam de uma família bem estruturada e, principalmente, teriam que permanecer juntas. É necessário sonhar o futuro, projetar e colocar em prática.
Entendi, nesse momento, que eu não seria o pai, mas seria o instrumento que faria com que eles fossem adotados juntos. Imediatamente, uma paz invadiu-me o coração, a alma.. Parei o carro no acostamento da rodovia, e chorei muito, com a cabeça apoiada nos braços e no volante do automóvel. Fiquei assim alguns minutos e não notei que uma viatura da polícia rodoviária parou atrás de meu veículo.
Quando ergui a cabeça, para colocar novamente o carro na rodovia, notei um policial do lado de fora. Abri o vidro, ele prestou continência a mim e perguntou:
-- O senhor está passando mal?
-- Não, policial! Eu estou bem. Só estava chorando um pouco.
Ao ouvir isso, ele sorriu e balançou afirmativamente a cabeça.
-- Em toda a minha experiência de estrada, é a primeira vez que me deparo com uma situação como essa. Sua dor não é física, naturalmente!
-- Não é, policial! Na verdade, chorei não devido à dor espiritual mas pela paz que me invadiu há pouco, como se tirasse um grande fardo de minhas costas. Estou bem, agora.
Novamente, o policial prestou-me continência.
-- O senhor está refletindo uma boa aura. Que o seu fim de semana seja glorioso!!
-- Bom fim de semana ao senhor também, policial!
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,
Eu não sou exemplo de vida para ninguém. Que cada um siga a sua, de acordo com o seu livre-arbítrio. Entretanto, aconteceram coisas em minha vida de difícil explicação ou até por coincidências.
Num fim de ano, em uma escola particular, o diretor pediu que todos os professores fossem fotografados juntos. A foto seria dada a cada formando do Ensino Médio.
Quando a foto foi revelada, muitos alunos vieram falar comigo.
-- Professor!! O senhor é iluminado mesmo! Orgulho-me de ter sido seu aluno.
Só entendi o que eles diziam, quando recebi do diretor a foto. No colégio, havia um jardim e foi lá que nos reunimos para a foto. Todos os 30 professores, abraçados no ombro, uns sentados, outros em pé. Eu estava em pé, o terceiro a ser contado da esquerda para a direita. E sobre minha cabeça, um raio solar.. o único que se desprendeu das nuvens naquele momento do clique.
Tenho essa foto guardada até hoje.
.....................................
Cheguei ao hotel e para a minha surpresa havia vaga. Fui ao quarto, tomei um banho, vesti bermuda e camiseta, e fui para o quiosque do Marmitão.
-- Meu grande e querido irmão, André!!! Tudo bem com você?? – saiu do quiosque, para me dar um abraço.
-- Tudo ótimo, meu irmão!!
-- Como andam as coisas lá no Convento?
-- Não os adotarei. Você tinha razão, Marmitão!
-- Eu sabia que isso aconteceria! Veja sempre pelo lado bom das coisas. Você voltou à praia para conhecer o Convento e adotar as crianças e, sem querer, ganhou uma família e mais amigos. E meus amigos, minha família e eu ganhamos um irmão. Você sempre será bem-vindo em minha residência e a meu quiosque, André!
-- Obrigado, Marmitão! Não vai me fazer chorar, né? Sabe, amigo, estou conformado já.
-- Quer falar sobre isso?
-- Quero, e provavelmente precisarei de sua ajuda também.
-- Espera!! Vou pegar uma geladinha pra você.
Marmitão conhece toda a Baixada Santista, o Convento e (também sei) algumas freiras.
-- Diga lá, meu irmão!
-- É o seguinte: um casal irá amanhã conhecer a Fefê.
-- E o Marquinhos também?
-- Não, Marmitão! Só a Fefê...
-- Ihhhhhhhhh!!!
-- Pois é!! Entendeu a minha preocupação, não é mesmo?
-- Perfeitamente, irmão! Não podemos deixar isso acontecer.
Marmitão coçou levemente a cabeça. Quando fazia isso, é por que estava preocupado.
-- Você ficará com o Marquinhos amanhã?
-- Ficarei, mas a hora em que o casal sair do Convento, eu os seguirei.
-- Para quê, irmão!! Você deseja atrapalhar a adoção da Fefê?
-- Eu desejo conversar com o casal, falar sobre o Marquinhos, sobre o amor que há entre os dois e que não deve ser separado.
-- E onde eu entro nessa?
-- Eu sei que o casal mora no Guarujá. Eu temo perdê-los de vista durante o trajeto. Não sei se eles irão pela Rodovia ou se irão por Santos, pela balsa. Eu gostaria de que você os seguisse. Eu te telefonaria, informando a saída deles do Convento. Você aguardaria na rodovia. Quando eu passar por você, buzinarei e seguiremos o casal, cada um em seu carro. Se eu perdê-los de vista, certamente você não os perderá, porque conhece tudo aqui na Baixada. Só quero que os siga até a casa deles, anote o nome da rua e o número. O resto é comigo.
-- Conheço tudo, mas não enxergo bem, André! Eu tenho uma idéia melhor. Conseguirei pra você o endereço e te informarei por telefone na segunda-feira. Está combinado assim, irmão?
-- Serei sempre grato a você, meu querido amigo!!
No domingo de manhã, fui ao Convento. Fui recepcionado pelo Marquinhos. Fefê estava sentadinha, no banquinho da praça, aguardando o casal. Quando me viu, me mandou muitos beijinhos com sua mãozinha.
-- Sr. André! Hoje o senhor ficará em outro jardim, brincando com o Marquinhos.
-- Eu não poderei ver nem por minutos a minha menina?
-- Infelizmente, hoje não. Não seria bom para ela nem para o casal que virá visitá-la.
Meu plano não daria certo. Ainda bem que Marmitão tinha seus métodos.
-- Titio! Hoje eu vou te contar a minha história. É muito triste, mas já tem um final feliz.
-- Todas as historinhas têm final feliz, Marquinhos.
Ele gesticulou seu dedinho, dizendo-me que não.
-- Você não quer brincar hoje?
-- Não, titio! Quero ficar sentado no banco, contando a historinha.
-- Você está triste que a Fefê não está com a gente aqui?
Abaixou a cabecinha e chorou. Depois, deitou-se em meu colo, com os olhos vermelhos fixos nos meus, limpou seu narizinho na minha calça e me disse:
-- Titio! A Fefê vai ganhar uma mamãe e um papai. Eu ficarei sozinho outra vez.
Tentando segurar o meu choro, disse-lhe:
-- Vocês serão adotados juntos pelo mesmo casal.
-- Como sabe disso, titio? Quem te contou? – perguntou-me, expressando um largo sorriso, e sentando-se em meu colo.
-- Ontem, quando eu descia a Serra do Mar, minha filha me contou.
-- Que legal!! Cadê ela, titio? Por que ela não veio com o senhor?
-- Ela é um anjinho, Marquinhos! Mas tenho certeza de que ela está aqui sorrindo pra você e protegendo a Fefê.
-- Ela morreu, titio?
-- Morreu.
-- Esta noite eu rezarei muito pra ela.
-- Isso, Marquinhos!
-- Titio! A polícia matou meu papai, minha mamãe e minhas irmãs.
Surpreendi-me.
-- Eu tinha dois aninhos, mas eu me lembro de tudo
-- Por que a polícia fez isso?
-- A polícia não gostava deles. Estou com muitas saudades de meu papai e de minha mamãe. Eles gostavam muito de mim.
Mesmo sem saber se era verdade ou não aquela história, se não era invenção da cabecinha dele, não pude segurar mais e chorei.
-- Não chora, titio! As irmãs me contaram que os policiais não foram culpados. Eu não tenho raiva deles.
Puta merda!! Que história!! Como pode uma criança se lembrar disso tudo? Talvez tenha vivenciado o assassinato dos pais! Possivelmente, tenha acontecido isso. Não seria eu que perguntaria isso a ele.
-- Há muita tristeza nessa vida, Marquinhos! Mas chegou o momento de sua felicidade ao lado de sua irmãzinha e desse casal maravilhoso.
-- Titio! No próximo domingo, o senhor me leva no cemitério para eu rezar?
-- Falarei com a irmã superiora. Se ela autorizar, te levarei sim, Marquinhos!
Um pouco antes do término da visita, fui convocado a comparecer à sala da madre.
-- Sr. André! A Fefê será adotada. Como ela falou muito a seu respeito, o casal quer conhecê-lo. Eles estão a sua espera na sala ao lado. Pode entrar.
Estava mais fácil do que tinha imaginado.
-- Irmã! Antes de eu entrar, gostaria de conversar um pouco com a senhora.
-- Que seja breve, Sr. André!
-- Marquinhos me contou que viu os pais serem assassinados, quando tinha dois anos de idade. Ele me pediu que o levasse, no próximo domingo, ao cemitério onde os pais estão enterrados, que ele gostaria de rezar junto ao túmulo.
-- Ele te contou a verdade, Sr. André! O próximo domingo o senhor está autorizado a levá-lo ao cemitério. A irmã Adelaide irá junto e te indicará o caminho. Agora, queira entrar, por favor!
Abriu-me a porta e lá estava o casal.
-- Boa tarde!! Sou André! – cumprimentei-os, sorrindo.
-- Boa tarde! Meu nome também é André! E minha esposa, Judite. A Fefê te ama, Sr. André! Nós desejaríamos que fosse o padrinho dela, que estivesse em seus momentos mais importantes, como aniversário, festas religiosas, dia das crianças, formaturas.
-- (*)
Enxuguei as lágrimas, agradeci-lhes o convite e continuei a conversa.
-- Senhor André e Senhora Judite! Vocês conhecem o Marquinhos?
-- A Fefê nos falou muito dele também. Disse-nos que é seu irmãozinho, apesar de a freira dizer que eles se conheceram aqui.
-- É verdade! Não sei se vocês, como católicos, acreditam em vidas passadas. Há uma ligação muito forte entre eles. É um amor sincero, fraternal, incomum nos dias de hoje. Uma separação, agora, poderia ser prejudicial aos dois, mais para o Marquinhos.
-- A nossa intenção, Sr. André, é conhecermos também o Marquinhos e, futuramente, adotá-lo.
-- Futuramente é tarde demais. Se têm que sair daqui, que saiam juntos. Foram separados no nascimento, não podem ser separados agora.
Os dois se entreolharam surpresos.
-- Olha!! Se eu pudesse adotá-los, já teria feito isso há algum tempo. O que me barrou foi o fato de eu não ser casado. Vocês têm mais filhos?
-- Não posso ter filhos! – respondeu-me Sra. Judite.
-- Infelizmente, não podemos adotar mais de um por enquanto. Minha esposa está desempregada, e mais de um filho complicaria nossa situação.
-- Se vocês adotarem o Marquinhos, eu os ajudarei financeiramente até a sua esposa conseguir um novo emprego. Depois disso, poderei ainda ajudar na educação deles, numa boa escola, livros, material e ônibus escolares, uniformes, etc.
-- Não seria justo, Sr. André!
-- É justíssimo! Não seria justo separar os dois. E ninguém precisa saber disso. É um acordo entre cavalheiros.
-- Precisamos pensar! Nos dê um tempo.
-- Claro!! Mas não tirem a Fefê daqui antes disso. Domingo que vem, levarei o Marquinhos ao cemitério para rezar junto ao túmulo dos pais biológicos. Seria gratificante que vocês fossem também e levassem a Fefê junto. Peçam uma autorização à madre. Ela não negará. Terão a oportunidade de se encantar com o carinho, a inteligência e a seriedade do menino.
-- Pediremos hoje a autorização. Parece que eu já te vi antes, Sr. André! O senhor mora em Santos?
-- Vocês não sabem a alegria e a felicidade que me proporcionaram. Muito obrigado!! Eu moro na capital. Eu também fiquei com essa impressão quando entrei na sala.
Despedi-me de Marquinhos, recebi um beijo e um abraço apertado da Fefê, e fui à casa do Marmitão, informar-lhe que tudo estava caminhando bem. E retornei, feliz, a São Paulo! Realmente, o final de semana tinha sido glorioso.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
“Há vida, querendo ser vivida”: essa era a frase que me sustentava e que me equilibrava, durante os maus momentos no hospital. Tenho-a como um ensinamento: a força, a motivação, a garra de saber que um dia eu estaria diante do mundo novamente.
Ao descer a Rodovia dos Imigrantes, essa frase voltou-me à cabeça. As crianças precisam de uma mamãe e de um papai, necessitam de uma família bem estruturada e, principalmente, teriam que permanecer juntas. É necessário sonhar o futuro, projetar e colocar em prática.
Entendi, nesse momento, que eu não seria o pai, mas seria o instrumento que faria com que eles fossem adotados juntos. Imediatamente, uma paz invadiu-me o coração, a alma.. Parei o carro no acostamento da rodovia, e chorei muito, com a cabeça apoiada nos braços e no volante do automóvel. Fiquei assim alguns minutos e não notei que uma viatura da polícia rodoviária parou atrás de meu veículo.
Quando ergui a cabeça, para colocar novamente o carro na rodovia, notei um policial do lado de fora. Abri o vidro, ele prestou continência a mim e perguntou:
-- O senhor está passando mal?
-- Não, policial! Eu estou bem. Só estava chorando um pouco.
Ao ouvir isso, ele sorriu e balançou afirmativamente a cabeça.
-- Em toda a minha experiência de estrada, é a primeira vez que me deparo com uma situação como essa. Sua dor não é física, naturalmente!
-- Não é, policial! Na verdade, chorei não devido à dor espiritual mas pela paz que me invadiu há pouco, como se tirasse um grande fardo de minhas costas. Estou bem, agora.
Novamente, o policial prestou-me continência.
-- O senhor está refletindo uma boa aura. Que o seu fim de semana seja glorioso!!
-- Bom fim de semana ao senhor também, policial!
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Eu não sou exemplo de vida para ninguém. Que cada um siga a sua, de acordo com o seu livre-arbítrio. Entretanto, aconteceram coisas em minha vida de difícil explicação ou até por coincidências.
Num fim de ano, em uma escola particular, o diretor pediu que todos os professores fossem fotografados juntos. A foto seria dada a cada formando do Ensino Médio.
Quando a foto foi revelada, muitos alunos vieram falar comigo.
-- Professor!! O senhor é iluminado mesmo! Orgulho-me de ter sido seu aluno.
Só entendi o que eles diziam, quando recebi do diretor a foto. No colégio, havia um jardim e foi lá que nos reunimos para a foto. Todos os 30 professores, abraçados no ombro, uns sentados, outros em pé. Eu estava em pé, o terceiro a ser contado da esquerda para a direita. E sobre minha cabeça, um raio solar.. o único que se desprendeu das nuvens naquele momento do clique.
Tenho essa foto guardada até hoje.
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Cheguei ao hotel e para a minha surpresa havia vaga. Fui ao quarto, tomei um banho, vesti bermuda e camiseta, e fui para o quiosque do Marmitão.
-- Meu grande e querido irmão, André!!! Tudo bem com você?? – saiu do quiosque, para me dar um abraço.
-- Tudo ótimo, meu irmão!!
-- Como andam as coisas lá no Convento?
-- Não os adotarei. Você tinha razão, Marmitão!
-- Eu sabia que isso aconteceria! Veja sempre pelo lado bom das coisas. Você voltou à praia para conhecer o Convento e adotar as crianças e, sem querer, ganhou uma família e mais amigos. E meus amigos, minha família e eu ganhamos um irmão. Você sempre será bem-vindo em minha residência e a meu quiosque, André!
-- Obrigado, Marmitão! Não vai me fazer chorar, né? Sabe, amigo, estou conformado já.
-- Quer falar sobre isso?
-- Quero, e provavelmente precisarei de sua ajuda também.
-- Espera!! Vou pegar uma geladinha pra você.
Marmitão conhece toda a Baixada Santista, o Convento e (também sei) algumas freiras.
-- Diga lá, meu irmão!
-- É o seguinte: um casal irá amanhã conhecer a Fefê.
-- E o Marquinhos também?
-- Não, Marmitão! Só a Fefê...
-- Ihhhhhhhhh!!!
-- Pois é!! Entendeu a minha preocupação, não é mesmo?
-- Perfeitamente, irmão! Não podemos deixar isso acontecer.
Marmitão coçou levemente a cabeça. Quando fazia isso, é por que estava preocupado.
-- Você ficará com o Marquinhos amanhã?
-- Ficarei, mas a hora em que o casal sair do Convento, eu os seguirei.
-- Para quê, irmão!! Você deseja atrapalhar a adoção da Fefê?
-- Eu desejo conversar com o casal, falar sobre o Marquinhos, sobre o amor que há entre os dois e que não deve ser separado.
-- E onde eu entro nessa?
-- Eu sei que o casal mora no Guarujá. Eu temo perdê-los de vista durante o trajeto. Não sei se eles irão pela Rodovia ou se irão por Santos, pela balsa. Eu gostaria de que você os seguisse. Eu te telefonaria, informando a saída deles do Convento. Você aguardaria na rodovia. Quando eu passar por você, buzinarei e seguiremos o casal, cada um em seu carro. Se eu perdê-los de vista, certamente você não os perderá, porque conhece tudo aqui na Baixada. Só quero que os siga até a casa deles, anote o nome da rua e o número. O resto é comigo.
-- Conheço tudo, mas não enxergo bem, André! Eu tenho uma idéia melhor. Conseguirei pra você o endereço e te informarei por telefone na segunda-feira. Está combinado assim, irmão?
-- Serei sempre grato a você, meu querido amigo!!
No domingo de manhã, fui ao Convento. Fui recepcionado pelo Marquinhos. Fefê estava sentadinha, no banquinho da praça, aguardando o casal. Quando me viu, me mandou muitos beijinhos com sua mãozinha.
-- Sr. André! Hoje o senhor ficará em outro jardim, brincando com o Marquinhos.
-- Eu não poderei ver nem por minutos a minha menina?
-- Infelizmente, hoje não. Não seria bom para ela nem para o casal que virá visitá-la.
Meu plano não daria certo. Ainda bem que Marmitão tinha seus métodos.
-- Titio! Hoje eu vou te contar a minha história. É muito triste, mas já tem um final feliz.
-- Todas as historinhas têm final feliz, Marquinhos.
Ele gesticulou seu dedinho, dizendo-me que não.
-- Você não quer brincar hoje?
-- Não, titio! Quero ficar sentado no banco, contando a historinha.
-- Você está triste que a Fefê não está com a gente aqui?
Abaixou a cabecinha e chorou. Depois, deitou-se em meu colo, com os olhos vermelhos fixos nos meus, limpou seu narizinho na minha calça e me disse:
-- Titio! A Fefê vai ganhar uma mamãe e um papai. Eu ficarei sozinho outra vez.
Tentando segurar o meu choro, disse-lhe:
-- Vocês serão adotados juntos pelo mesmo casal.
-- Como sabe disso, titio? Quem te contou? – perguntou-me, expressando um largo sorriso, e sentando-se em meu colo.
-- Ontem, quando eu descia a Serra do Mar, minha filha me contou.
-- Que legal!! Cadê ela, titio? Por que ela não veio com o senhor?
-- Ela é um anjinho, Marquinhos! Mas tenho certeza de que ela está aqui sorrindo pra você e protegendo a Fefê.
-- Ela morreu, titio?
-- Morreu.
-- Esta noite eu rezarei muito pra ela.
-- Isso, Marquinhos!
-- Titio! A polícia matou meu papai, minha mamãe e minhas irmãs.
Surpreendi-me.
-- Eu tinha dois aninhos, mas eu me lembro de tudo
-- Por que a polícia fez isso?
-- A polícia não gostava deles. Estou com muitas saudades de meu papai e de minha mamãe. Eles gostavam muito de mim.
Mesmo sem saber se era verdade ou não aquela história, se não era invenção da cabecinha dele, não pude segurar mais e chorei.
-- Não chora, titio! As irmãs me contaram que os policiais não foram culpados. Eu não tenho raiva deles.
Puta merda!! Que história!! Como pode uma criança se lembrar disso tudo? Talvez tenha vivenciado o assassinato dos pais! Possivelmente, tenha acontecido isso. Não seria eu que perguntaria isso a ele.
-- Há muita tristeza nessa vida, Marquinhos! Mas chegou o momento de sua felicidade ao lado de sua irmãzinha e desse casal maravilhoso.
-- Titio! No próximo domingo, o senhor me leva no cemitério para eu rezar?
-- Falarei com a irmã superiora. Se ela autorizar, te levarei sim, Marquinhos!
Um pouco antes do término da visita, fui convocado a comparecer à sala da madre.
-- Sr. André! A Fefê será adotada. Como ela falou muito a seu respeito, o casal quer conhecê-lo. Eles estão a sua espera na sala ao lado. Pode entrar.
Estava mais fácil do que tinha imaginado.
-- Irmã! Antes de eu entrar, gostaria de conversar um pouco com a senhora.
-- Que seja breve, Sr. André!
-- Marquinhos me contou que viu os pais serem assassinados, quando tinha dois anos de idade. Ele me pediu que o levasse, no próximo domingo, ao cemitério onde os pais estão enterrados, que ele gostaria de rezar junto ao túmulo.
-- Ele te contou a verdade, Sr. André! O próximo domingo o senhor está autorizado a levá-lo ao cemitério. A irmã Adelaide irá junto e te indicará o caminho. Agora, queira entrar, por favor!
Abriu-me a porta e lá estava o casal.
-- Boa tarde!! Sou André! – cumprimentei-os, sorrindo.
-- Boa tarde! Meu nome também é André! E minha esposa, Judite. A Fefê te ama, Sr. André! Nós desejaríamos que fosse o padrinho dela, que estivesse em seus momentos mais importantes, como aniversário, festas religiosas, dia das crianças, formaturas.
-- (*)
Enxuguei as lágrimas, agradeci-lhes o convite e continuei a conversa.
-- Senhor André e Senhora Judite! Vocês conhecem o Marquinhos?
-- A Fefê nos falou muito dele também. Disse-nos que é seu irmãozinho, apesar de a freira dizer que eles se conheceram aqui.
-- É verdade! Não sei se vocês, como católicos, acreditam em vidas passadas. Há uma ligação muito forte entre eles. É um amor sincero, fraternal, incomum nos dias de hoje. Uma separação, agora, poderia ser prejudicial aos dois, mais para o Marquinhos.
-- A nossa intenção, Sr. André, é conhecermos também o Marquinhos e, futuramente, adotá-lo.
-- Futuramente é tarde demais. Se têm que sair daqui, que saiam juntos. Foram separados no nascimento, não podem ser separados agora.
Os dois se entreolharam surpresos.
-- Olha!! Se eu pudesse adotá-los, já teria feito isso há algum tempo. O que me barrou foi o fato de eu não ser casado. Vocês têm mais filhos?
-- Não posso ter filhos! – respondeu-me Sra. Judite.
-- Infelizmente, não podemos adotar mais de um por enquanto. Minha esposa está desempregada, e mais de um filho complicaria nossa situação.
-- Se vocês adotarem o Marquinhos, eu os ajudarei financeiramente até a sua esposa conseguir um novo emprego. Depois disso, poderei ainda ajudar na educação deles, numa boa escola, livros, material e ônibus escolares, uniformes, etc.
-- Não seria justo, Sr. André!
-- É justíssimo! Não seria justo separar os dois. E ninguém precisa saber disso. É um acordo entre cavalheiros.
-- Precisamos pensar! Nos dê um tempo.
-- Claro!! Mas não tirem a Fefê daqui antes disso. Domingo que vem, levarei o Marquinhos ao cemitério para rezar junto ao túmulo dos pais biológicos. Seria gratificante que vocês fossem também e levassem a Fefê junto. Peçam uma autorização à madre. Ela não negará. Terão a oportunidade de se encantar com o carinho, a inteligência e a seriedade do menino.
-- Pediremos hoje a autorização. Parece que eu já te vi antes, Sr. André! O senhor mora em Santos?
-- Vocês não sabem a alegria e a felicidade que me proporcionaram. Muito obrigado!! Eu moro na capital. Eu também fiquei com essa impressão quando entrei na sala.
Despedi-me de Marquinhos, recebi um beijo e um abraço apertado da Fefê, e fui à casa do Marmitão, informar-lhe que tudo estava caminhando bem. E retornei, feliz, a São Paulo! Realmente, o final de semana tinha sido glorioso.
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quinta-feira, 16 de abril de 2009
Histórias avulsas – I
Arrependimento de mulher!!!
Tenho uma vizinha que me detesta.
Com a reforma de meu apartamento, ela me passou a me odiar... alega que eu sempre arrumo algo pra ter um pedreiro martelando na cabeça dela.
Quando éramos bons vizinhos, ela não se cansava de tocar a campainha pra me pedir favorzinhos estranhos: xícaras de açúcar, café e outros, que não valem à pena citá-los aqui. Nunca recusei nada a ela. O marido era o verdadeiro escravo, manso.
Uma vez ela entrou em meu apartamento sem bater à porta ou mesmo tocar a campainha (ela sabia que eu não trancava a porta). Por uma incrível sorte de meu destino, eu estava na cozinha preparando um café (imagine se eu estivesse no banho?). Saí da cozinha, passei pela sala (nem a notei no sofá... ) e fui para meu escritório, continuar meu trabalho.
Quando fui beber o café, prazerosamente, encostado em minha poltrona, ouvi uma voz do além me dizer "oi". O susto foi tão grande que a xícara bateu asa, e o café se esparramou em meu corpo.
Coitadinha! Ela se assustou mais que eu e correu até a suíte pra pegar uma toalha; depois, quis me examinar pra ver se eu havia me queimado. Demorou quase uma hora pra ela se acalmar...
... e fico aqui pensando como uma mulher tão doce, tão delicada pode se transformar nesta peste de vizinha que é hoje.
Segunda-feira, levei uma multa do síndico: barulho em meu apartamento (aos sábados à tarde e aos domingos não pode haver consertos, para o barulho não atrapalhar o descanso dos vizinhos). Tentei argumentar que o conserto não tinha sido em meu apartamento, mas nada adiantou. Ao receber a multa, a peste estava do lado dele, fulminando-me com os olhos. Ainda bem que não recebi a multa no domingo.. seria um péssimo presente de aniversário.
Você deve estar se perguntando como que minha vizinha, que tinha tanto carinho por mim, passou a ter ódio, não é mesmo?
Toda a vez que eu chegava em meu apartamento, fechava o janelão da sala. Muitas vezes, encontrei o gato dela descansando no vão de minha janela, do lado de fora. Como ele chegava lá, nunca descobri.
O fato é que, determinada noite, depois do happy hour com os amigos, cheguei ao apartamento e fechei o janelão: fazia muito frio naquela noite. E fui dormir.
Acordei no dia seguinte, com um estardalhaço na porta. Era a minha vizinha.
-- Você matou meu gato, seu animal-sem-coração!!
-- Eu não matei gato algum!!
-- Matou sim!! Foi encontrado morto no chão, perto da piscina, embaixo da janela de sua sala.
-- Nós moramos no 14º andar, minha senhora! Como pode ter certeza que ele despencou da minha janela?
-- Ele costumava vir aqui para descansar.
O marido dela estava ao lado e não ousava abrir a boca.
-- Zé!! Leva sua esposa daqui que já estou começando a ficar nervoso com essa história de gato!!
-- Eu não sairei daqui, Zé!!
-- E o que você pretende fazer?? – perguntei, ameaçador. – Não tenho culpa se o seu animal gostava de ficar do lado de fora de meu janelão. E onde estava você que não cuidou dele? Por que não colocou redes de proteção em sua casa, para evitar que ele saísse de lá?
Disse isso e fechei a porta no nariz dela.
Não me recordava de ter chegado em casa e ter visto o gato dela do lado de fora. Apenas fechei e fui dormir.
Ao sair de casa aquele dia, atordoado com muitas ameaças, encontrei-me na rua com o Danyboy.
-- O que aconteceu, André?
Contei-lhe a história do gato.
Danyboy é outro amigo meu. Um garoto de 46 anos de idade, mais moleque que os filhos dele. É arquiteto, um excelente profissional, porque ama o que faz. A ouvir a história, para me deixar mais relaxado, imaginou a cena.
-- Eu acho que aconteceu assim: você chegou ao apartamento, não viu o gato na hora... quando fechou o vidro, deve ter feito algum barulho que assustou o bichano, precipitando-se para o vazio. No dia seguinte o gato foi encontrado morto, mas uma das patinhas apontava para o seu apartamento, com o dedo do meio, duro, mandando você ir tomar no cu.
Não pude deixar de rir. Tivemos que sentar na calçada porque ríamos demais, imaginando a cena inventada por ele.
Até hoje quando nos encontramos no happy hour, lembramo-nos da cena e rimos.
XXXXXXXXXXXXXX
Minha amiga --- Final.
Precipitei-me em conversar com Laís. Se, naquela manhã, eu refletisse um pouco mais, analisaria os prós e os muitos contras, e veria que não daria certo. Agora, ela queria visitar as crianças no Convento.
O que pensariam as crianças quando me vissem chegar ao Convento com uma mulher a meu lado? Pensariam o óbvio: era a minha esposa, a futura mamãe deles.
Decididamente, a Laís não poderia ir comigo ao Convento.
-- Alô!! Ritinha, posso falar com a Laís?
Ritinha é a governanta da casa do “seo” Rodrigo.
-- Sim, Sr. André! Vou chamá-la!
-- Obrigado, Ritinha!!
-- Não há de quê!!
Eu não poderia adiantar-lhe nada pelo telefone. Considerando os últimos acontecimentos, ela poderia ficar mais triste ainda.
-- Oi, André!!
-- Oi, Laís!! Você está bem?
-- Estou ótima! À noite, irei a uma festa nos Jardins. Amaria se você fosse comigo.
Eu detesto esse tipo de festa a que ela vai.
-- Está bem, Laís! A que horas eu passo em sua casa?
-- À 1h da manhã. Não quero ser a primeira a chegar.
-- Então, até daqui a pouco! Beijos, La!
-- Beijos, meu amor!
Só me faltava essa!! Acompanhante da Laís nessas festinhas de gente que não sabe como gastar decentemente seu dinheiro. Da última vez, era o casamento de dois Poodles: a cadelinha Bovary e o cão Roger.
Não sou contra a esse tipo de atitude, mas que convidem as pessoas certas. Eu fui a pessoa errada a ser convidada. Se a alta sociedade não se importa com os problemas do mundo, é problema deles. Mas não posso compartilhar momentos com pessoas excêntricas, esdrúxulas. Pessoas que preferem doar seu dinheiro à Instituição Bichinhos de Madame a doar cestas básicas a quem realmente necessita.
-- Alô! Ritinha!! Esqueci-me de perguntar algo a Laís! O celular dela só dá ocupado.
-- Um momentinho, Sr. André!
Eu precisava saber que tipo de festinha era.
-- Oi, amor!!
-- La! Essa festa a que iremos é aniversário de quem?
-- Não é aniversário.
-- É casamento de cachorro?
-- (risos) Não, André! Se fosse, eu não te convidaria. Eu sei que você não gosta.
-- Não é aniversário, não é festa de casamento, o que é então?
-- É uma festa-surpresa para um casal que está chegando hoje à noite da Europa.
-- É aquele casal de Poodles?
-- (risos) São amigos nossos, André! (risos)
-- Até mais tarde, então!
-- Até!
Talvez não fosse uma festa hipócrita. Procurei não mais pensar no assunto.
A noite chegou, passei na casa de Laís e fomos à festa. Durante o trajeto, o celular de Laís tocou. Conversou durante alguns minutos e desligou.
-- Não houve festa alguma! O casal chegará apenas no domingo e será oferecido um almoço a eles. – disse-me, chateada.
-- Por que está triste, Laís?
-- Não estou triste. Eu queria muito encontrá-los.
-- E você irá. O almoço não será no domingo?
-- Sim, mas irei com você ao Convento.
-- Eu não me incomodo se você for ao almoço. Além desse domingo, terei os dois restantes do mês. Você poderá ir comigo no último? O que acha?
-- Você não ficará magoado, André?
-- Não! O importante é que você entenda que não quero o mal às crianças e muito menos a você. Quando você for comigo, entrará sozinha como se fosse uma visitante. Eu entrarei sozinho também.
-- Por que isso, André?
-- Se entrarmos juntos, as crianças pensarão que você é minha esposa e ficarão ansiosas para serem adotadas por nós. Não podemos iludi-las, não concorda?
-- É verdade! Eu não tinha pensado desta maneira. Acho melhor eu nem ir, então.
-- Eu gostaria de que você fosse conhecer o outro lado da vida: pessoas que gostariam de viver e crescer com os pais, de ter um minuto de atenção e carinho, de levar uma bronca por uma arte qualquer, de ser educada numa escola com crianças diferentes...
-- Iremos no último domingo, André! Quero que você veja, mesmo de longe, que eu tenho essa capacidade de amar o próximo.
-- Você é maluquinha, mas é uma pessoa maravilhosa.
-- Ué! Pra onde você está indo?
-- Já que estamos juntos, vamos aproveitar o momento.
-- Hummmmmmmmmmm... que saudades!!
No sábado à tarde, deixei-a em sua casa.
Nas semanas seguintes, houve muito trabalho. Conversava, por telefone, com Laís, nos primeiros dias. Depois, a conversa foi rareando. Na última semana do mês, pedi a ela que me confirmasse a hora para eu passar na casa dela no domingo. Prometeu-me telefonar no sábado.
Telefonou um mês depois.
Foi bom assim. Pelo menos, ela não saiu ferida, magoada.
Arrependimento de mulher!!!
Tenho uma vizinha que me detesta.
Com a reforma de meu apartamento, ela me passou a me odiar... alega que eu sempre arrumo algo pra ter um pedreiro martelando na cabeça dela.
Quando éramos bons vizinhos, ela não se cansava de tocar a campainha pra me pedir favorzinhos estranhos: xícaras de açúcar, café e outros, que não valem à pena citá-los aqui. Nunca recusei nada a ela. O marido era o verdadeiro escravo, manso.
Uma vez ela entrou em meu apartamento sem bater à porta ou mesmo tocar a campainha (ela sabia que eu não trancava a porta). Por uma incrível sorte de meu destino, eu estava na cozinha preparando um café (imagine se eu estivesse no banho?). Saí da cozinha, passei pela sala (nem a notei no sofá... ) e fui para meu escritório, continuar meu trabalho.
Quando fui beber o café, prazerosamente, encostado em minha poltrona, ouvi uma voz do além me dizer "oi". O susto foi tão grande que a xícara bateu asa, e o café se esparramou em meu corpo.
Coitadinha! Ela se assustou mais que eu e correu até a suíte pra pegar uma toalha; depois, quis me examinar pra ver se eu havia me queimado. Demorou quase uma hora pra ela se acalmar...
... e fico aqui pensando como uma mulher tão doce, tão delicada pode se transformar nesta peste de vizinha que é hoje.
Segunda-feira, levei uma multa do síndico: barulho em meu apartamento (aos sábados à tarde e aos domingos não pode haver consertos, para o barulho não atrapalhar o descanso dos vizinhos). Tentei argumentar que o conserto não tinha sido em meu apartamento, mas nada adiantou. Ao receber a multa, a peste estava do lado dele, fulminando-me com os olhos. Ainda bem que não recebi a multa no domingo.. seria um péssimo presente de aniversário.
Você deve estar se perguntando como que minha vizinha, que tinha tanto carinho por mim, passou a ter ódio, não é mesmo?
Toda a vez que eu chegava em meu apartamento, fechava o janelão da sala. Muitas vezes, encontrei o gato dela descansando no vão de minha janela, do lado de fora. Como ele chegava lá, nunca descobri.
O fato é que, determinada noite, depois do happy hour com os amigos, cheguei ao apartamento e fechei o janelão: fazia muito frio naquela noite. E fui dormir.
Acordei no dia seguinte, com um estardalhaço na porta. Era a minha vizinha.
-- Você matou meu gato, seu animal-sem-coração!!
-- Eu não matei gato algum!!
-- Matou sim!! Foi encontrado morto no chão, perto da piscina, embaixo da janela de sua sala.
-- Nós moramos no 14º andar, minha senhora! Como pode ter certeza que ele despencou da minha janela?
-- Ele costumava vir aqui para descansar.
O marido dela estava ao lado e não ousava abrir a boca.
-- Zé!! Leva sua esposa daqui que já estou começando a ficar nervoso com essa história de gato!!
-- Eu não sairei daqui, Zé!!
-- E o que você pretende fazer?? – perguntei, ameaçador. – Não tenho culpa se o seu animal gostava de ficar do lado de fora de meu janelão. E onde estava você que não cuidou dele? Por que não colocou redes de proteção em sua casa, para evitar que ele saísse de lá?
Disse isso e fechei a porta no nariz dela.
Não me recordava de ter chegado em casa e ter visto o gato dela do lado de fora. Apenas fechei e fui dormir.
Ao sair de casa aquele dia, atordoado com muitas ameaças, encontrei-me na rua com o Danyboy.
-- O que aconteceu, André?
Contei-lhe a história do gato.
Danyboy é outro amigo meu. Um garoto de 46 anos de idade, mais moleque que os filhos dele. É arquiteto, um excelente profissional, porque ama o que faz. A ouvir a história, para me deixar mais relaxado, imaginou a cena.
-- Eu acho que aconteceu assim: você chegou ao apartamento, não viu o gato na hora... quando fechou o vidro, deve ter feito algum barulho que assustou o bichano, precipitando-se para o vazio. No dia seguinte o gato foi encontrado morto, mas uma das patinhas apontava para o seu apartamento, com o dedo do meio, duro, mandando você ir tomar no cu.
Não pude deixar de rir. Tivemos que sentar na calçada porque ríamos demais, imaginando a cena inventada por ele.
Até hoje quando nos encontramos no happy hour, lembramo-nos da cena e rimos.
XXXXXXXXXXXXXX
Minha amiga --- Final.
Precipitei-me em conversar com Laís. Se, naquela manhã, eu refletisse um pouco mais, analisaria os prós e os muitos contras, e veria que não daria certo. Agora, ela queria visitar as crianças no Convento.
O que pensariam as crianças quando me vissem chegar ao Convento com uma mulher a meu lado? Pensariam o óbvio: era a minha esposa, a futura mamãe deles.
Decididamente, a Laís não poderia ir comigo ao Convento.
-- Alô!! Ritinha, posso falar com a Laís?
Ritinha é a governanta da casa do “seo” Rodrigo.
-- Sim, Sr. André! Vou chamá-la!
-- Obrigado, Ritinha!!
-- Não há de quê!!
Eu não poderia adiantar-lhe nada pelo telefone. Considerando os últimos acontecimentos, ela poderia ficar mais triste ainda.
-- Oi, André!!
-- Oi, Laís!! Você está bem?
-- Estou ótima! À noite, irei a uma festa nos Jardins. Amaria se você fosse comigo.
Eu detesto esse tipo de festa a que ela vai.
-- Está bem, Laís! A que horas eu passo em sua casa?
-- À 1h da manhã. Não quero ser a primeira a chegar.
-- Então, até daqui a pouco! Beijos, La!
-- Beijos, meu amor!
Só me faltava essa!! Acompanhante da Laís nessas festinhas de gente que não sabe como gastar decentemente seu dinheiro. Da última vez, era o casamento de dois Poodles: a cadelinha Bovary e o cão Roger.
Não sou contra a esse tipo de atitude, mas que convidem as pessoas certas. Eu fui a pessoa errada a ser convidada. Se a alta sociedade não se importa com os problemas do mundo, é problema deles. Mas não posso compartilhar momentos com pessoas excêntricas, esdrúxulas. Pessoas que preferem doar seu dinheiro à Instituição Bichinhos de Madame a doar cestas básicas a quem realmente necessita.
-- Alô! Ritinha!! Esqueci-me de perguntar algo a Laís! O celular dela só dá ocupado.
-- Um momentinho, Sr. André!
Eu precisava saber que tipo de festinha era.
-- Oi, amor!!
-- La! Essa festa a que iremos é aniversário de quem?
-- Não é aniversário.
-- É casamento de cachorro?
-- (risos) Não, André! Se fosse, eu não te convidaria. Eu sei que você não gosta.
-- Não é aniversário, não é festa de casamento, o que é então?
-- É uma festa-surpresa para um casal que está chegando hoje à noite da Europa.
-- É aquele casal de Poodles?
-- (risos) São amigos nossos, André! (risos)
-- Até mais tarde, então!
-- Até!
Talvez não fosse uma festa hipócrita. Procurei não mais pensar no assunto.
A noite chegou, passei na casa de Laís e fomos à festa. Durante o trajeto, o celular de Laís tocou. Conversou durante alguns minutos e desligou.
-- Não houve festa alguma! O casal chegará apenas no domingo e será oferecido um almoço a eles. – disse-me, chateada.
-- Por que está triste, Laís?
-- Não estou triste. Eu queria muito encontrá-los.
-- E você irá. O almoço não será no domingo?
-- Sim, mas irei com você ao Convento.
-- Eu não me incomodo se você for ao almoço. Além desse domingo, terei os dois restantes do mês. Você poderá ir comigo no último? O que acha?
-- Você não ficará magoado, André?
-- Não! O importante é que você entenda que não quero o mal às crianças e muito menos a você. Quando você for comigo, entrará sozinha como se fosse uma visitante. Eu entrarei sozinho também.
-- Por que isso, André?
-- Se entrarmos juntos, as crianças pensarão que você é minha esposa e ficarão ansiosas para serem adotadas por nós. Não podemos iludi-las, não concorda?
-- É verdade! Eu não tinha pensado desta maneira. Acho melhor eu nem ir, então.
-- Eu gostaria de que você fosse conhecer o outro lado da vida: pessoas que gostariam de viver e crescer com os pais, de ter um minuto de atenção e carinho, de levar uma bronca por uma arte qualquer, de ser educada numa escola com crianças diferentes...
-- Iremos no último domingo, André! Quero que você veja, mesmo de longe, que eu tenho essa capacidade de amar o próximo.
-- Você é maluquinha, mas é uma pessoa maravilhosa.
-- Ué! Pra onde você está indo?
-- Já que estamos juntos, vamos aproveitar o momento.
-- Hummmmmmmmmmm... que saudades!!
No sábado à tarde, deixei-a em sua casa.
Nas semanas seguintes, houve muito trabalho. Conversava, por telefone, com Laís, nos primeiros dias. Depois, a conversa foi rareando. Na última semana do mês, pedi a ela que me confirmasse a hora para eu passar na casa dela no domingo. Prometeu-me telefonar no sábado.
Telefonou um mês depois.
Foi bom assim. Pelo menos, ela não saiu ferida, magoada.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Minha amiga – II
Laís desmaiou na poltrona e por lá ficou até se levantar para ir ao banheiro, duas horas depois. Como ainda estava embriagada, foi topando em todos os móveis até chegar ao toalete.
Eu estava cochilando no sofá e acordei com o barulho.
-- Minha calcinha ainda está molhada!! – gritou para o prédio inteiro ouvir.
Fui à porta do banheiro.
-- Você quer uma cueca emprestada?
-- Dobra bem dobradinha sua cueca e enfia naquele lugar do seu corpo.
-- Malcriada!! Não foi essa a educação que seu pai lhe deu.
Abriu a porta do banheiro e enfezada me empurrou.
-- Estou machucada, André!! Ofendida! Magoada! Muito triste com você.
-- Eu sei. Você tem razão.
-- Não, você não sabe. Só pensa em seus sentimentos, nunca se importou com os meus.
-- Somos adultos, Laís. Eu sempre te afirmei que somos apenas amigos. Nunca te escondi nada. Nunca te iludi com palavras de amor ou sentimentos falsos.
Laís desabou, chorando, no sofá. Um choro sentido, triste mesmo. Depois, sentou-se, encostou sua cabeça em meu ombro e adormeceu. Ajeitei-a, ali mesmo, e deixei-a descansando.
Ao amanhecer, Laís despertou sorrindo, como se nada tivesse acontecido durante a noite. Pediu-me que eu não fosse trabalhar, que passasse o dia com ela. Fiquei feliz com essa nova oportunidade.
Conversamos sobre as crianças durante o café da manhã. Saímos logo em seguida: ela queria ir ao cabeleireiro.
-- Quando chegarmos lá, eu quero que você se desculpe com o Aldoantônio.
-- Aldoantônio? Quem é esse?
-- É o Brian! Aldoantônio é o nome verdadeiro dele.
Não pude deixar de rir.
-- Chame-o de Brian, é o nome dele nas baladas.
-- Tá, mas só se ele te deixar bonita. Se ele fizer alguma besteira em seu rosto, eu acabo com ele.
-- (risos)
Quando entramos no salão, Brian tentou se esconder. Fui até ele.
-- Está melhor hoje, Brian?
Colocou as mãos na cintura.
-- O que você acha, seu brutamontes? – perguntou-me sem me olhar.
-- Deixe-me ver!! Hummm!! Não tem nenhuma marca em seu rosto, nem um ponto roxo em seus braços. A sua bunda está doendo?
Fez menção de colocar o dedo em riste e de falar em voz alta.
-- Se colocar esse dedinho magro no meu rosto, eu quebro, tá? E se der show aqui também, te darei outro chute na bunda. Estou aqui em paz. A Laís quer que eu te peça desculpas, mas não farei isso. Você não estava na casa de suas amiguinhas. Portanto, quem deve pedir desculpas é você. Vamos!! Estou esperando uma retratação sua.
-- Eu te pedir desculpas??? HaHaHaHa!! Nem mortinha, meu bem!
Saiu, rebolando pelo salão.
Laís saiu linda e fomos almoçar. Conversamos a tarde toda e começo da noite.
-- Você é um homem envolvente, André! Sabe que sou apaixonadíssima por você. Sabe, também, que meu pai ficaria feliz se nos casássemos. Tenho certeza, porém, que você também sabe que eu não seria uma boa mãe, que você não me prenderia em casa com as crianças.
Ela tinha razão. Laís não era mulher de ficar presa em casa. Adorava viajar, curtir a companhia de amigos, frequentar as festas da alta sociedade. Nunca passou por sua cabeça ter um filho. Nem dela nem dos outros.
-- Domingo eu irei com você ao Convento, André! O jeito que seus olhos brilham, quando fala das crianças, é de se admirar. Eu quero conhecê-los.
Levei-a para casa. O “seo” Rodrigo, quando me viu, abriu um largo sorriso de satisfação. Conversei um pouco com ele, e voltei a minha casa.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
O casamento.
Eu tinha me esquecido do casamento da filha do Marmitão. Fui à praia, levando apenas bermudas e camisetas e, para variar, sem reservar o hotel. Entretanto, como eu já conhecia as donas, sabia que na rua eu não dormiria,
Dito e feito. Ao chegar, fui para recepção e uma das donas me disse que não havia vaga, mas que à noite “vagaria” uma suíte. Pedi então que guardasse minha mochila (coisa de adolescente, não é?). E saí para dar uma volta na praia e, claro, ficar no quiosque em frente.
Ao passar pelo quiosque, disse ao Marmitão que eu não iria ao casamento, porque esquecera o terno em São Paulo. Convidou-me então para a festa, que seria na casa dele, uma vez que lá, todos estariam de bermuda também.
Aceitei.
Aproveitei a tarde para então comprar um presente aos noivos, no comércio da cidade.
Comprei um aparelho de fondue. Voltei ao hotel e encontrei a outra dona. Pedi a ela que colocasse o presente sobre a mochila. E saí para a praia. O quiosque já estava fechado.
Caminhei pela areia, rezei um pouco olhando o mar, dei um mergulho, e voltei para o hotel, a fim de tomar aquele banho gostoso, e trocar a bermuda molhada.
No caminho, me lembrei de que só daria entrada à suíte à noite. Teria que permanecer com a bermuda molhada.
O jeito foi encontrar um quiosque aberto e ficar por lá até escurecer. Depois iria ao hotel, tomaria um banho e iria à festa com roupa trocada.
Caminhando pelo calçadão, encontrei o pai da noiva...
-- Ô Santista!! Que bom te encontrar!! Fui lá no hotel te procurar.
-- O que houve, Marmitão? -- perguntei, preocupado.
-- Como vão todos de casa à igreja, não vai sobrar ninguém para "pilotar" a churrasqueira. Quebra o galho pro seu amigo aqui! Os convidados vão chegar em casa, depois da igreja, famintos. Você sabe como é, né?
-- Claro, Marmitão!! É comigo mesmo!! Voltarei ao hotel para pegar meu carro.
-- Não!! Vamos pra minha casa e você já começa. Depois, quando a festa terminar, te levarei para o hotel.
E fui para a casa do Marmitão.
Duas horas depois, os convidados começaram a chegar. O churrasco era farto... carnes de todos os tipos... peixes, saladas, refrigerantes, barris de chope. E a churrasqueira ardendo...
Depois de uns whiskies e vários copos de chope, começaram a aparecer os entendidos em churrasco... aproveitei e os deixei lá, pilotando, e fui aproveitar a festa também.
Muitos ali eu já conhecia do quiosque. E tem sempre aqueles que inventam as "batidinhas" e vinham oferecê-las justamente a mim. Recusar, num momento desse, não tem perdão. Eu já tinha bebido caipirinha de vodka, de pinga, uns dois litros de chope, e já estava no mais alto grau de alegria. E dá-lhe batida, garganta abaixo!
Comecei a sentir sono. Decidi, então, sair à francesa. Voltaria a pé ao hotel, que não estava tão longe assim: umas 8 quadras, a partir da praia. Bastaria eu seguir a rua até a avenida da praia... depois, tudo ficaria mais fácil. Eram quase 3h da manhã.
Estar bêbado é triste.
Ao invés de eu seguir na rua em direção à praia, segui em direção ao morro. Só percebi quando cheguei à rodovia. Quanto mais eu caminhava, mais bêbado ficava. Retornei.
-- Pelo menos, agora eu acerto.
Ao passar pela casa do Marmitão, tinha um pessoal saindo e me viram.
-- Ô Santista!!! Vamos pra boate!
-- Eu vou pro hotel.
-- Não.. você vai com a gente.. é aqui perto.
-- Eu tô bêbado paca!!! Já devia estar no hotel.. e é pra lá que eu vou.
-- Tudo bem, Santista!! A gente se encontra na praia mais tarde.
-- Beleza!
E peguei a rua transversal.
Uma hora depois, nada de chegar ao hotel. Quase 5h da manhã. Aí vi uma senhora colocando o lixo pra fora da casa e decidi perguntar a ela onde era a praia.
Estar na Baixada Santista e perder a noção de localização é uma merda.
-- Bom dia! A senhora poderia me informar de que lado é a praia? -- perguntei com aquela voz pastosa de bebum.
-- O senhor não tem o que fazer, não? Cadê a safada de sua esposa?
-- Tô fugindo dela, dragão! -- perdi a calma.
-- Peraí vou chamar meu marido.
-- Vai rápido, senão eu durmo aqui mesmo na calçada.
Momentos depois...
-- O que o senhor deseja??
-- Eu só quero saber de que lado fica a praia. Eu estou perdido e, como o senhor pode perceber, completamente bêbado.
Ele riu e me confessou que já tinha passado por isso também.
-- Qualquer rua que o senhor vire à direita terminará na avenida da praia.
Cheguei ao hotel por volta das 6h da manhã e só não vi o sol nascer, porque começou a chover.
Laís desmaiou na poltrona e por lá ficou até se levantar para ir ao banheiro, duas horas depois. Como ainda estava embriagada, foi topando em todos os móveis até chegar ao toalete.
Eu estava cochilando no sofá e acordei com o barulho.
-- Minha calcinha ainda está molhada!! – gritou para o prédio inteiro ouvir.
Fui à porta do banheiro.
-- Você quer uma cueca emprestada?
-- Dobra bem dobradinha sua cueca e enfia naquele lugar do seu corpo.
-- Malcriada!! Não foi essa a educação que seu pai lhe deu.
Abriu a porta do banheiro e enfezada me empurrou.
-- Estou machucada, André!! Ofendida! Magoada! Muito triste com você.
-- Eu sei. Você tem razão.
-- Não, você não sabe. Só pensa em seus sentimentos, nunca se importou com os meus.
-- Somos adultos, Laís. Eu sempre te afirmei que somos apenas amigos. Nunca te escondi nada. Nunca te iludi com palavras de amor ou sentimentos falsos.
Laís desabou, chorando, no sofá. Um choro sentido, triste mesmo. Depois, sentou-se, encostou sua cabeça em meu ombro e adormeceu. Ajeitei-a, ali mesmo, e deixei-a descansando.
Ao amanhecer, Laís despertou sorrindo, como se nada tivesse acontecido durante a noite. Pediu-me que eu não fosse trabalhar, que passasse o dia com ela. Fiquei feliz com essa nova oportunidade.
Conversamos sobre as crianças durante o café da manhã. Saímos logo em seguida: ela queria ir ao cabeleireiro.
-- Quando chegarmos lá, eu quero que você se desculpe com o Aldoantônio.
-- Aldoantônio? Quem é esse?
-- É o Brian! Aldoantônio é o nome verdadeiro dele.
Não pude deixar de rir.
-- Chame-o de Brian, é o nome dele nas baladas.
-- Tá, mas só se ele te deixar bonita. Se ele fizer alguma besteira em seu rosto, eu acabo com ele.
-- (risos)
Quando entramos no salão, Brian tentou se esconder. Fui até ele.
-- Está melhor hoje, Brian?
Colocou as mãos na cintura.
-- O que você acha, seu brutamontes? – perguntou-me sem me olhar.
-- Deixe-me ver!! Hummm!! Não tem nenhuma marca em seu rosto, nem um ponto roxo em seus braços. A sua bunda está doendo?
Fez menção de colocar o dedo em riste e de falar em voz alta.
-- Se colocar esse dedinho magro no meu rosto, eu quebro, tá? E se der show aqui também, te darei outro chute na bunda. Estou aqui em paz. A Laís quer que eu te peça desculpas, mas não farei isso. Você não estava na casa de suas amiguinhas. Portanto, quem deve pedir desculpas é você. Vamos!! Estou esperando uma retratação sua.
-- Eu te pedir desculpas??? HaHaHaHa!! Nem mortinha, meu bem!
Saiu, rebolando pelo salão.
Laís saiu linda e fomos almoçar. Conversamos a tarde toda e começo da noite.
-- Você é um homem envolvente, André! Sabe que sou apaixonadíssima por você. Sabe, também, que meu pai ficaria feliz se nos casássemos. Tenho certeza, porém, que você também sabe que eu não seria uma boa mãe, que você não me prenderia em casa com as crianças.
Ela tinha razão. Laís não era mulher de ficar presa em casa. Adorava viajar, curtir a companhia de amigos, frequentar as festas da alta sociedade. Nunca passou por sua cabeça ter um filho. Nem dela nem dos outros.
-- Domingo eu irei com você ao Convento, André! O jeito que seus olhos brilham, quando fala das crianças, é de se admirar. Eu quero conhecê-los.
Levei-a para casa. O “seo” Rodrigo, quando me viu, abriu um largo sorriso de satisfação. Conversei um pouco com ele, e voltei a minha casa.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
O casamento.
Eu tinha me esquecido do casamento da filha do Marmitão. Fui à praia, levando apenas bermudas e camisetas e, para variar, sem reservar o hotel. Entretanto, como eu já conhecia as donas, sabia que na rua eu não dormiria,
Dito e feito. Ao chegar, fui para recepção e uma das donas me disse que não havia vaga, mas que à noite “vagaria” uma suíte. Pedi então que guardasse minha mochila (coisa de adolescente, não é?). E saí para dar uma volta na praia e, claro, ficar no quiosque em frente.
Ao passar pelo quiosque, disse ao Marmitão que eu não iria ao casamento, porque esquecera o terno em São Paulo. Convidou-me então para a festa, que seria na casa dele, uma vez que lá, todos estariam de bermuda também.
Aceitei.
Aproveitei a tarde para então comprar um presente aos noivos, no comércio da cidade.
Comprei um aparelho de fondue. Voltei ao hotel e encontrei a outra dona. Pedi a ela que colocasse o presente sobre a mochila. E saí para a praia. O quiosque já estava fechado.
Caminhei pela areia, rezei um pouco olhando o mar, dei um mergulho, e voltei para o hotel, a fim de tomar aquele banho gostoso, e trocar a bermuda molhada.
No caminho, me lembrei de que só daria entrada à suíte à noite. Teria que permanecer com a bermuda molhada.
O jeito foi encontrar um quiosque aberto e ficar por lá até escurecer. Depois iria ao hotel, tomaria um banho e iria à festa com roupa trocada.
Caminhando pelo calçadão, encontrei o pai da noiva...
-- Ô Santista!! Que bom te encontrar!! Fui lá no hotel te procurar.
-- O que houve, Marmitão? -- perguntei, preocupado.
-- Como vão todos de casa à igreja, não vai sobrar ninguém para "pilotar" a churrasqueira. Quebra o galho pro seu amigo aqui! Os convidados vão chegar em casa, depois da igreja, famintos. Você sabe como é, né?
-- Claro, Marmitão!! É comigo mesmo!! Voltarei ao hotel para pegar meu carro.
-- Não!! Vamos pra minha casa e você já começa. Depois, quando a festa terminar, te levarei para o hotel.
E fui para a casa do Marmitão.
Duas horas depois, os convidados começaram a chegar. O churrasco era farto... carnes de todos os tipos... peixes, saladas, refrigerantes, barris de chope. E a churrasqueira ardendo...
Depois de uns whiskies e vários copos de chope, começaram a aparecer os entendidos em churrasco... aproveitei e os deixei lá, pilotando, e fui aproveitar a festa também.
Muitos ali eu já conhecia do quiosque. E tem sempre aqueles que inventam as "batidinhas" e vinham oferecê-las justamente a mim. Recusar, num momento desse, não tem perdão. Eu já tinha bebido caipirinha de vodka, de pinga, uns dois litros de chope, e já estava no mais alto grau de alegria. E dá-lhe batida, garganta abaixo!
Comecei a sentir sono. Decidi, então, sair à francesa. Voltaria a pé ao hotel, que não estava tão longe assim: umas 8 quadras, a partir da praia. Bastaria eu seguir a rua até a avenida da praia... depois, tudo ficaria mais fácil. Eram quase 3h da manhã.
Estar bêbado é triste.
Ao invés de eu seguir na rua em direção à praia, segui em direção ao morro. Só percebi quando cheguei à rodovia. Quanto mais eu caminhava, mais bêbado ficava. Retornei.
-- Pelo menos, agora eu acerto.
Ao passar pela casa do Marmitão, tinha um pessoal saindo e me viram.
-- Ô Santista!!! Vamos pra boate!
-- Eu vou pro hotel.
-- Não.. você vai com a gente.. é aqui perto.
-- Eu tô bêbado paca!!! Já devia estar no hotel.. e é pra lá que eu vou.
-- Tudo bem, Santista!! A gente se encontra na praia mais tarde.
-- Beleza!
E peguei a rua transversal.
Uma hora depois, nada de chegar ao hotel. Quase 5h da manhã. Aí vi uma senhora colocando o lixo pra fora da casa e decidi perguntar a ela onde era a praia.
Estar na Baixada Santista e perder a noção de localização é uma merda.
-- Bom dia! A senhora poderia me informar de que lado é a praia? -- perguntei com aquela voz pastosa de bebum.
-- O senhor não tem o que fazer, não? Cadê a safada de sua esposa?
-- Tô fugindo dela, dragão! -- perdi a calma.
-- Peraí vou chamar meu marido.
-- Vai rápido, senão eu durmo aqui mesmo na calçada.
Momentos depois...
-- O que o senhor deseja??
-- Eu só quero saber de que lado fica a praia. Eu estou perdido e, como o senhor pode perceber, completamente bêbado.
Ele riu e me confessou que já tinha passado por isso também.
-- Qualquer rua que o senhor vire à direita terminará na avenida da praia.
Cheguei ao hotel por volta das 6h da manhã e só não vi o sol nascer, porque começou a chover.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Amigos universais – happy hour.
O happy hour não é apenas um momento de distração, de esquecimento dos problemas diários. Às vezes, nosso trabalho se apresenta tão intenso, que é impossível nos afastarmos dele, mesmo em momentos de descontração. Portanto, é comum que um ou outro esteja com a cara fechada, com a testa franzida. Seu relaxamento poderá (ou não) ocorrer durante o pouco tempo एम्que ficamos reunidos.
Certa noite, cheguei atrasado à “reunião”. Assim que me sentei à mesa, percebi que estavam todos rindo. Na certa, iriam me perguntar algo que os fizesse rir mais ainda. Já fiquei preparado!!!
-- André!! A pauta de hoje é Você já broxou alguma vez em sua vida? – perguntou-me o Nardinho.
Como eu já disse antes, Nardinho é sócio do Tatá. Os dois se conhecem desde a adolescência e já fizeram de tudo nessa vida. São dois ótimos empresários.
-- Você já broxou alguma vez em sua vida, André?
A idade nos permite responder determinadas perguntas-tabus com naturalidade.
-- Já perdi a conta.
Gargalhadas na lanchonete inteira. Todos riram. Até mesmo àqueles que não são da turma.
A partir daí, cada um foi contando a história mais incomum, a partir do tema acima, que mais marcou na vida, e, por serem meus amigos, faço questão de relatá-las nesta trama, não por que são necessárias à continuidade do enredo, mas eles fazem parte de minha vida, são meus queridos amigos; enfim, a eles homenageio com o título de meu blog.
Abaixo, a autoria de cada um, devidamente autorizada.
----- Nardinho -----
“Eu tinha bebido muito. Resolvi sair da festa e voltar a minha casa. Ao cruzar o semáforo de uma importante avenida de São Paulo, conhecido ponto de prostituição, decidi parar o carro, contratar uma garota e levá-la pra minha casa. Afinal, eu era solteiro, morava sozinho, não tinha de dar satisfações a ninguém.
Já em casa, abri um litro de whiskie e ficamos nos acariciando. A hora que o whiskie se misturou com os vários líquidos que corriam por minhas veias, senti o corpo fraquejar e dormi.
No dia seguinte, de manhã, não estavam a garota nem as lâmpadas do quarto nem o assento da privada nem o chuveiro nem minha carteira. Só encontrei a chave do carro. Provavelmente, ela não sabia dirigir, senão tinha levado também”.
-- Nardinho!! Tem certeza que você não contratou um travesti, pensando ser uma mulher?
-- Era uma garota!!
-- Como pode uma garota roubar o chuveiro, sem desligar a energia elétrica? Você, bêbado, deve ter contratado um travesti eletricista. – afirmou Tatá.
------ Tatá -----
“Assim que eu me divorciei, resolvi “bebemorar” com uma amiga. Ela vivia me dizendo que, se eu saísse com ela, eu nunca mais me esqueceria da noite que passaríamos juntos.
Telefonei a ela e marcamos um encontro em um estacionamento, no centro de São Paulo. Eu deixaria meu carro lá, e iríamos, no carro dela, a um hotel.
E assim foi.
No hotel, disse-me que ia tomar um banho e vestir-se para a grande noite. Fiquei assistindo a um filme pornô, enquanto ela se preparava dentro do banheiro.
Fiquei imaginando como aquela mulher sairia do banheiro, toda fresquinha, toda cheirosinha...
-- Tatá, faz um favor pra mim, querido?
-- Claro, minha flor!!
-- Pegue meus chinelos que estão embaixo da cama!
A hora em que me virei na cama para apanhar os tais chinelos, levei uma chicotada nas costas. Assustado, fui ao chão e a vi, vestida de mulher-gato, com um enorme chicote nas mãos, que zunia no ar e explodia no chão, ordenando-me para voltar à cama.
-- Ô Maria, por favor, larga isso!!
E o chicote zuniu no ar e veio explodir em minhas pernas.
Empurrei a cama, prensando-a na parede, peguei meus sapatos, minha calça, abri a porta e saí correndo pelo corredor do hotel. Vesti-me no hall, sob o olhar assustado do recepcionista.
-- Esqueci a minha camisa lá no quarto.
-- O que houve?
-- Aquela maluca me acertou duas vezes com o chicote... vai até lá e pegue minha camisa.
-- Eu não irei. É capaz de ela me acertar também. Esconda-se na cozinha. Quando ela sair, eu direi que o senhor pagou a conta e foi embora.
Eu nunca mais vi a Maria. Graças a Deus!!
XXXXXXXXXXXXX
O happy hour não é apenas um momento de distração, de esquecimento dos problemas diários. Às vezes, nosso trabalho se apresenta tão intenso, que é impossível nos afastarmos dele, mesmo em momentos de descontração. Portanto, é comum que um ou outro esteja com a cara fechada, com a testa franzida. Seu relaxamento poderá (ou não) ocorrer durante o pouco tempo एम्que ficamos reunidos.
Certa noite, cheguei atrasado à “reunião”. Assim que me sentei à mesa, percebi que estavam todos rindo. Na certa, iriam me perguntar algo que os fizesse rir mais ainda. Já fiquei preparado!!!
-- André!! A pauta de hoje é Você já broxou alguma vez em sua vida? – perguntou-me o Nardinho.
Como eu já disse antes, Nardinho é sócio do Tatá. Os dois se conhecem desde a adolescência e já fizeram de tudo nessa vida. São dois ótimos empresários.
-- Você já broxou alguma vez em sua vida, André?
A idade nos permite responder determinadas perguntas-tabus com naturalidade.
-- Já perdi a conta.
Gargalhadas na lanchonete inteira. Todos riram. Até mesmo àqueles que não são da turma.
A partir daí, cada um foi contando a história mais incomum, a partir do tema acima, que mais marcou na vida, e, por serem meus amigos, faço questão de relatá-las nesta trama, não por que são necessárias à continuidade do enredo, mas eles fazem parte de minha vida, são meus queridos amigos; enfim, a eles homenageio com o título de meu blog.
Abaixo, a autoria de cada um, devidamente autorizada.
----- Nardinho -----
“Eu tinha bebido muito. Resolvi sair da festa e voltar a minha casa. Ao cruzar o semáforo de uma importante avenida de São Paulo, conhecido ponto de prostituição, decidi parar o carro, contratar uma garota e levá-la pra minha casa. Afinal, eu era solteiro, morava sozinho, não tinha de dar satisfações a ninguém.
Já em casa, abri um litro de whiskie e ficamos nos acariciando. A hora que o whiskie se misturou com os vários líquidos que corriam por minhas veias, senti o corpo fraquejar e dormi.
No dia seguinte, de manhã, não estavam a garota nem as lâmpadas do quarto nem o assento da privada nem o chuveiro nem minha carteira. Só encontrei a chave do carro. Provavelmente, ela não sabia dirigir, senão tinha levado também”.
-- Nardinho!! Tem certeza que você não contratou um travesti, pensando ser uma mulher?
-- Era uma garota!!
-- Como pode uma garota roubar o chuveiro, sem desligar a energia elétrica? Você, bêbado, deve ter contratado um travesti eletricista. – afirmou Tatá.
------ Tatá -----
“Assim que eu me divorciei, resolvi “bebemorar” com uma amiga. Ela vivia me dizendo que, se eu saísse com ela, eu nunca mais me esqueceria da noite que passaríamos juntos.
Telefonei a ela e marcamos um encontro em um estacionamento, no centro de São Paulo. Eu deixaria meu carro lá, e iríamos, no carro dela, a um hotel.
E assim foi.
No hotel, disse-me que ia tomar um banho e vestir-se para a grande noite. Fiquei assistindo a um filme pornô, enquanto ela se preparava dentro do banheiro.
Fiquei imaginando como aquela mulher sairia do banheiro, toda fresquinha, toda cheirosinha...
-- Tatá, faz um favor pra mim, querido?
-- Claro, minha flor!!
-- Pegue meus chinelos que estão embaixo da cama!
A hora em que me virei na cama para apanhar os tais chinelos, levei uma chicotada nas costas. Assustado, fui ao chão e a vi, vestida de mulher-gato, com um enorme chicote nas mãos, que zunia no ar e explodia no chão, ordenando-me para voltar à cama.
-- Ô Maria, por favor, larga isso!!
E o chicote zuniu no ar e veio explodir em minhas pernas.
Empurrei a cama, prensando-a na parede, peguei meus sapatos, minha calça, abri a porta e saí correndo pelo corredor do hotel. Vesti-me no hall, sob o olhar assustado do recepcionista.
-- Esqueci a minha camisa lá no quarto.
-- O que houve?
-- Aquela maluca me acertou duas vezes com o chicote... vai até lá e pegue minha camisa.
-- Eu não irei. É capaz de ela me acertar também. Esconda-se na cozinha. Quando ela sair, eu direi que o senhor pagou a conta e foi embora.
Eu nunca mais vi a Maria. Graças a Deus!!
XXXXXXXXXXXXX
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Pescaria em alto-mar
Saímos às 4h de um pier em São Vicente. Era a minha primeira pescaria em mar aberto. E a de meu concunhado, Miltom, também.
Achava que, em minha vida anterior, eu tinha sido um marinheiro, tal a minha paixão por mar e rios.
Miltom nunca havia navegado e estava com medo de passar mal. Para acalmá-lo, disse-lhe que, se começasse a ter enjôos, que olhasse para o céu ou para as pessoas do barco, menos para o mar.
A lancha era pequena, o motor a diesel. Havia uma cama, na parte de baixo, abaixo do nível da água do mar. Um lugar apertadíssimo.
TU TU TU TU -- fumaceira - TU TU TU TU TU TU (esse era ritmo do motor a diesel que, vez em quando, parava, soltava muita fumaça, e depois continuava com o TU TU TU)
Enquanto navegávamos em direção ao atol, estava tudo bem. O vento batia em nossos rostos, a manhã estava quente e agradável, os prédios do litoral já sumiam no horizonte. Três horas depois, chegamos. No meio do nada, muita água, céu azul e um sol escaldante.
O capitão lançou a âncora e, pelo tamanho, achei que o barco afundaria junto. Pensei que, uma vez apoitado, parado, o capitão desligaria o motor. Mas não. Tinha que permanecer ligado, para não corrermos o risco de não funcionar depois.
Você sabe que, uma vez parada, a lancha fica à mercê das ondas. Como estava apoitada, com a âncora ao fundo, o barco subia e descia, de acordo com as ondas; virava para direita e para a esquerda, de acordo com a correnteza.
Subia, descia, direita e esquerda, subia, descia, esquerda, direita.
Olhei para o Miltom. Estava todo feliz, colocando isca no anzol.
Subia, descia, direita, esquerda, descia, subia, esquerda, direita, TU TU TU, um cheiro desgraçado de diesel queimado, Miltom pescando, eu vomitando.
Resolvi deitar um pouco na proa. Olhei no relógio: quase 8h. O sol já estava matando. Precisava ir para um lugar coberto, senão assaria ali. Sentei-me. Olhei em volta. O único lugar coberto era do capitão.
Sucia, debia, diquerda, esquereita, debia, sucia, esquereita, diquerda, UT UT UT, diesel queimado em minhas narinas, Miltom comendo um sanduíche de mortadela, eu vomitando, todo mundo rindo da minha cara.
Olhei no relógio: 08h05. O tempo não passava. O retorno estava marcado para as 17h. Eu não suportaria, certamente.
Rolei da proa e fui engatinhando até a parte de baixo.. fui pra cama. Que cheiro horrível lá embaixo... de peixe podre, de mortadela, de diesel queimado. Voltei à proa.
A essa altura eu já era a pessoa mais importante do barco. Toda vez que iria vomitar, me chamavam pra "cevar" onde estavam pescando. Cambada de fdp. Eu tentava olhar para o céu, mas já não sabia o que era céu e o que era mar.
Improvisei, a muito custo, uma cobertura. Quando me sentia bem, ora sentava ora levantava.
Sude, ciabia, dies, querda-quereita, desu, biacia, quererda-quereita, TOIM TOIM TOIM, cheiro gostoso de diesel queimado, Milton chupando laranja, eu acabado.
Por volta das 10h, a pescaria tornou-se fraca... os peixes não estavam mais a fim de comer as iscas. Graças a Deus!! Decidiram voltar. Já tinham pescado muito.
Nunca fiquei tão feliz em minha vida, quando pisei na areia. Fiquei mareado por dois longos dias.
É claro que em minha vida anterior nunca fui मरिन्हेइरो
Saímos às 4h de um pier em São Vicente. Era a minha primeira pescaria em mar aberto. E a de meu concunhado, Miltom, também.
Achava que, em minha vida anterior, eu tinha sido um marinheiro, tal a minha paixão por mar e rios.
Miltom nunca havia navegado e estava com medo de passar mal. Para acalmá-lo, disse-lhe que, se começasse a ter enjôos, que olhasse para o céu ou para as pessoas do barco, menos para o mar.
A lancha era pequena, o motor a diesel. Havia uma cama, na parte de baixo, abaixo do nível da água do mar. Um lugar apertadíssimo.
TU TU TU TU -- fumaceira - TU TU TU TU TU TU (esse era ritmo do motor a diesel que, vez em quando, parava, soltava muita fumaça, e depois continuava com o TU TU TU)
Enquanto navegávamos em direção ao atol, estava tudo bem. O vento batia em nossos rostos, a manhã estava quente e agradável, os prédios do litoral já sumiam no horizonte. Três horas depois, chegamos. No meio do nada, muita água, céu azul e um sol escaldante.
O capitão lançou a âncora e, pelo tamanho, achei que o barco afundaria junto. Pensei que, uma vez apoitado, parado, o capitão desligaria o motor. Mas não. Tinha que permanecer ligado, para não corrermos o risco de não funcionar depois.
Você sabe que, uma vez parada, a lancha fica à mercê das ondas. Como estava apoitada, com a âncora ao fundo, o barco subia e descia, de acordo com as ondas; virava para direita e para a esquerda, de acordo com a correnteza.
Subia, descia, direita e esquerda, subia, descia, esquerda, direita.
Olhei para o Miltom. Estava todo feliz, colocando isca no anzol.
Subia, descia, direita, esquerda, descia, subia, esquerda, direita, TU TU TU, um cheiro desgraçado de diesel queimado, Miltom pescando, eu vomitando.
Resolvi deitar um pouco na proa. Olhei no relógio: quase 8h. O sol já estava matando. Precisava ir para um lugar coberto, senão assaria ali. Sentei-me. Olhei em volta. O único lugar coberto era do capitão.
Sucia, debia, diquerda, esquereita, debia, sucia, esquereita, diquerda, UT UT UT, diesel queimado em minhas narinas, Miltom comendo um sanduíche de mortadela, eu vomitando, todo mundo rindo da minha cara.
Olhei no relógio: 08h05. O tempo não passava. O retorno estava marcado para as 17h. Eu não suportaria, certamente.
Rolei da proa e fui engatinhando até a parte de baixo.. fui pra cama. Que cheiro horrível lá embaixo... de peixe podre, de mortadela, de diesel queimado. Voltei à proa.
A essa altura eu já era a pessoa mais importante do barco. Toda vez que iria vomitar, me chamavam pra "cevar" onde estavam pescando. Cambada de fdp. Eu tentava olhar para o céu, mas já não sabia o que era céu e o que era mar.
Improvisei, a muito custo, uma cobertura. Quando me sentia bem, ora sentava ora levantava.
Sude, ciabia, dies, querda-quereita, desu, biacia, quererda-quereita, TOIM TOIM TOIM, cheiro gostoso de diesel queimado, Milton chupando laranja, eu acabado.
Por volta das 10h, a pescaria tornou-se fraca... os peixes não estavam mais a fim de comer as iscas. Graças a Deus!! Decidiram voltar. Já tinham pescado muito.
Nunca fiquei tão feliz em minha vida, quando pisei na areia. Fiquei mareado por dois longos dias.
É claro que em minha vida anterior nunca fui मरिन्हेइरो
domingo, 12 de abril de 2009
Minha amiga.
Na noite de domingo para segunda, sonhei com minha filha. Ela sabia que eu estava triste. Eu procurei confortá-la dizendo que nada mais me faria voltar às ruas. Por sua vez, ela pediu-me calma, muita paz de espírito, a fim de que eu conseguisse refletir sobre toda situação que envolvia a adoção das crianças. Prometeu-me que estaria a meu lado sempre, que ficaria imensamente feliz se a Fefê e o Marquinhos fossem meus filhos. Ao final da conversa, beijou-me o rosto e eu acordei.
Fiquei na cama alguns minutos, refletindo sobre a situação. Lembrei-me daquela amiga que sempre disse ser apaixonada por mim. Pronto! Ela poderia ser a solução, mesmo sabendo que eu não a amava. Resolvi telefonar para ela.
-- Bom dia, Laís! Tudo bem?
-- Oiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Estou ótima! E você, André?
-- Estou bem! Faz tempo que a gente não se encontra. Você se casou, Laís? – perguntei-lhe, brincando (na verdade, não foi bem uma brincadeira).
-- (risos) Ainda não...
-- Como assim “ainda não”?
-- Estou namorando há 2 meses.
Putz!! Que azar!!
-- Mas você o ama?
-- Eu gosto dele. É muito carinhoso, sempre preocupado comigo. Ganho flores dele, quase todos os dias.
-- Gostar não é amar. Pelo visto, esse cara te ama!!
-- Ué!! O que está havendo, André? Está com ciúmes de mim ou virou conselheiro amoroso?
-- Mudando de assunto, Laís... eu preciso conversar com você.
-- Poderíamos, nós três, jantar qualquer noite dessa semana. Aí vocês se conheceriam.
-- Eu preciso conversar com você, a sós. Não estou interessado em seu namorado!
-- (gargalhada)
-- Podemos jantar então na quinta?
-- Não poderei. Na quinta, eu e meu namorado iremos ao cinema.
-- Na sexta?
-- Também não. Iremos ao teatro.
-- Quando então, Laís?
-- Sei lá!! Qualquer noite dessas!! Me ligue na segunda.
-- Já sei o que farei. Na quinta à noite, irei à casa de seu pai. Você estará com o seu namoradinho no cinema. Faz tempo que eu não converso com o “seu” Rodrigo. Ele também ficará contente em me ver.
-- E o que vai conversar com ele?
-- Muitos assuntos.
-- Aos domingos, eu fico com o Brian até às 11h da manhã. Se você quiser, poderemos almoçar juntos.
-- Domingo? Não! Eu tenho compromisso.
-- Hummmmmmmmm!! Está namorando?
-- Não estou.
-- Eu posso cancelar o cinema da quinta, se você quiser.
-- Não! Vá ao cinema com o Brian! Ficarei bem com o seu pai. Ele sabe de seu namoro com o coreano?
-- O Brian não é coreano! E o meu pai sabe sim e até gosta dele.
-- O seu pai gosta dele? Duvido! O seu pai gosta de mim.
-- Puta que pariu!! Você é muito convencido, André!
-- Está bem, Laís! Qualquer dia a gente se fala. Felicidades em seu namoro com o chinês. Beijos!
-- O Brian não é chinês.
Desliguei o telefone. Alguma coisa me dizia que ela estava mentindo para mim. Se eu forçasse mais um pouco, ela me contaria a verdade. Mas eu não quis deixá-la chateada.
Na terça-feira, ela me telefonou à noite, dizendo que estava indo ao meu apartamento com o namorado. Fiquei decepcionado. Então ela falava a verdade!! Estava tendo um namoro sério.
Desliguei a televisão, liguei o som e inseri um CD de músicas românticas, e aguardei os pombinhos.
Chegaram vinte minutos depois.
-- Oi, André!! – cumprimentou-me com um abraço e um beijo no rosto.
-- Oi, Laís!! Linda, como sempre!
Brian vinha logo atrás dela, escondido. Laís é uma mulher alta, ruiva, olhos verdes... verdadeiramente um tela rara, belíssima। Brian é um sujeito franzino, esquálido, baixinho. E feio pra cacete!!
-- Este é o Brian, André!!
-- Olá, Brian!! Seja bem-vindo em minha casa! – estiquei-lhe a mão para cumprimentá-lo. Ele veio a mim e me abraçou. Sua cabeça não chegou nem no meu peito.
Vocês podem estar imaginando que estou a exagerar na descrição física de Brian. O único exagero de minha parte foi não entender o que Laís viu de bom naquele sujeitinho.
O abraço dele foi mais apertado que o de Laís, a ponto de eu afastar meu quadril, para não sentir nada em meu joelho.
-- Esse CD que está tocando é aquele que eu adoro, André?
-- Sim.
Olhou-me, mordendo os lábios, como estivesse se lembrando de alguns momentos nossos. Tratei de disfarçar, e conversar com o Brian.
-- Você é um homem de sorte. Tem uma linda mulher e uma boa companhia a seu lado.
-- Ambos nos completamos.
-- Isso é bom! O sr. Rodrigo deve estar feliz com a união de vocês.
-- Quem é o sr. Rodrigo? – perguntou-me.
Olhei sério para a Laís. Ela havia mentido para mim.
-- Brian! O sr. Rodrigo é o meu pai. Não se lembra dele?
O rapaz ficou vermelho na hora.
-- Realmente eu tinha me esquecido dele. A pergunta do André me causou surpresa.
Laís levantou-se, foi ao bar e preparou drinques para nós.
-- Desculpe-me, Brian!! Não foi minha intenção. Laís tinha me dito que o sr. Rodrigo gostou muito de você. Por isso, perguntei.
Antes de falar, Brian ajeitou-se na poltrona. Confesso que, naquela hora, deu-me a impressão de ele ter desmunhecado. Foi tão delicado ao se ajeitar, que cheguei a pensar que ele era homossexual.
-- Quem deve pedir desculpas sou eu. Ando meio desligado do mundo, com o pensamento em outros lugares. Sou tímido também. Talvez bebendo um pouco, eu consiga me soltar um pouco mais.
-- Olha, Brian!! Fique à vontade aqui. O que tiver de falar, fale. Sou apenas um amigo de sua futura esposa.
Laís veio com os drinques.
-- Obrigado, amor! Você parece à vontade no apartamento do André. Conhece todos os cômodos?
-- Por que você não faz a pergunta direta, Brian?
-- Eu só perguntei se você conhece todos os cômodos. Não precisa ficar nervosa, amor!
-- Sim, eu conheço o QUARTO dele. Não me perco lá nem no escuro. É isso que você queria ouvir, Brian?
-- Gente!! Estou aqui, tá? Deixe pra lá essas cenas de ciúmes, Brian!! Quando aconteceu você não era nem nascido ainda.
Não pude deixar de dar uma cutucada também. Mas o baixinho ficou bravo.
-- Não liga não, Brian!! Foi só força de expressão!! Vamos tomar nossos drinques e conversar sobre outros assuntos.
-- Isso mesmo, Brian! Não viemos aqui para brigarmos – disse isso, deslizando a mão na perna dele.
Depois de mais quatro copos de whiskie, Brian estava mais relaxado e começou a se insinuar para mim.
-- Dezinho, você mostra o seu quarto para mim? – perguntou-me num tom mais delicado que o da própria Laís.
-- Laís, seu namorado é homossexual.
-- Eu sei, André!
-- Ô garoto!! Você está em minha casa, foi bem recebido aqui, mas para por aí. Entendeu bem?
-- O que você tem contra os homossexuais, Dezinho?
-- Eu não tenho nada contra e muito menos a favor. Você chegou como homem aqui, como namorado de minha amiga, essa doida que está a seu lado. Eu não permito que você se insinue, tampouco que me chame de Dezinho ou outro apelido qualquer.
-- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Só quero conhecer a sua cama...
Levantei-me da poltrona. Jogar o esquálido homossexual pela janela passou por minha cabeça. Entretanto, ele não era o culpado. Deve ser cabeleireiro da Laís, que o contratou para ser o seu namorado por essa noite, com o único objetivo de me provocar.
-- Gostaria de que vocês dois fossem embora.
-- Ainnnnnn!! Que mal educado!! Não sairei daqui antes de conhecer a sua cama.
-- Ahh!! Sairá sim, bichona!! – já disse isso, pegando-o pela nuca e levando-o até a porta.
-- André, não faça isso, por favor!! Ele está bêbado!!
Abri a porta, empurrei-o para fora, chutando-lhe, com vontade, a bunda. Fechei imediatamente a porta e interfonei ao zelador, pedindo que retirasse o vagabundo do prédio.
-- Eu também vou embora, seu grosso!!
-- Não!! Ficará aqui, que quero conversar com você. Ele se vira.
-- Você nunca quis o meu amor e agora está me afastando de meus amigos. – disse, choramingando.
-- Laís! Sente-se um pouco, por favor! Preciso realmente conversar com você.
-- Quero outro whiskie!
-- Não agora! Daqui a pouco, está bem?
Nem me ouviu. Foi ao bar e preparou uma dose dupla, sem gelo. E voltou com a cara amarrada para o sofá.
-- O que você quer, André? Fala logo, que eu quero sair daqui.
-- Há alguns meses eu conheci duas crianças órfãs. Visito-as todos os domingos, no Convento onde moram...
-- Foi por isso que me disse que não poderia almoçar comigo no domingo?
-- Sim, foi por isso.
-- Está apaixonado pelas crianças, André?
-- Completamente! Posso continuar?
Laís descansou o copo na mesa central, enxugou as lágrimas, se recompôs, e sentou-se a minha frente, sorrindo um sorriso muito doce.
-- Continue, querido!
-- Eu vou direto ao ponto, Laís!
-- Sim, seja objetivo!
-- Para adotá-los, o Convento exige que eu me case...
Laís desatou a rir e não parava mais. Olhava para mim e gargalhava. Levantou-se novamente, foi ao banheiro, sempre gargalhando, fechou a porta, e permaneceu lá dentro. Saiu vinte minutos depois, dizendo que havia feito xixi na calcinha. Emprestei-lhe uma bermuda.
-- Posso continuar, Laís?
-- Você só pode estar brincando comigo.
-- Não estou brincando.
-- Considerando que você não esteja brincando, me responda: com quem você pretende se casar?
-- É essa pergunta que me faço todos os dias. Eu não sei a resposta, Laís! Estou aqui pedindo que você me ajude.
-- Passou por sua cabeça se casar comigo?
-- Sim.
-- Você se casaria comigo apenas para adotar as crianças?
-- Laís, eu não quero que você se ofenda com isso.
Levantei-me atordoado. Na minha obsessão de adotar as crianças, não tinha refletido que eu poderia causar tristeza à Laís. Fiquei envergonhado dessa minha atitude.
-- André!! Te fiz uma pergunta: você se casaria comigo apenas para adotar as crianças?
-- Sim, Laís! Eu me casaria sim.
Laís desmaiou na पोल्त्रोना
Na noite de domingo para segunda, sonhei com minha filha. Ela sabia que eu estava triste. Eu procurei confortá-la dizendo que nada mais me faria voltar às ruas. Por sua vez, ela pediu-me calma, muita paz de espírito, a fim de que eu conseguisse refletir sobre toda situação que envolvia a adoção das crianças. Prometeu-me que estaria a meu lado sempre, que ficaria imensamente feliz se a Fefê e o Marquinhos fossem meus filhos. Ao final da conversa, beijou-me o rosto e eu acordei.
Fiquei na cama alguns minutos, refletindo sobre a situação. Lembrei-me daquela amiga que sempre disse ser apaixonada por mim. Pronto! Ela poderia ser a solução, mesmo sabendo que eu não a amava. Resolvi telefonar para ela.
-- Bom dia, Laís! Tudo bem?
-- Oiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Estou ótima! E você, André?
-- Estou bem! Faz tempo que a gente não se encontra. Você se casou, Laís? – perguntei-lhe, brincando (na verdade, não foi bem uma brincadeira).
-- (risos) Ainda não...
-- Como assim “ainda não”?
-- Estou namorando há 2 meses.
Putz!! Que azar!!
-- Mas você o ama?
-- Eu gosto dele. É muito carinhoso, sempre preocupado comigo. Ganho flores dele, quase todos os dias.
-- Gostar não é amar. Pelo visto, esse cara te ama!!
-- Ué!! O que está havendo, André? Está com ciúmes de mim ou virou conselheiro amoroso?
-- Mudando de assunto, Laís... eu preciso conversar com você.
-- Poderíamos, nós três, jantar qualquer noite dessa semana. Aí vocês se conheceriam.
-- Eu preciso conversar com você, a sós. Não estou interessado em seu namorado!
-- (gargalhada)
-- Podemos jantar então na quinta?
-- Não poderei. Na quinta, eu e meu namorado iremos ao cinema.
-- Na sexta?
-- Também não. Iremos ao teatro.
-- Quando então, Laís?
-- Sei lá!! Qualquer noite dessas!! Me ligue na segunda.
-- Já sei o que farei. Na quinta à noite, irei à casa de seu pai. Você estará com o seu namoradinho no cinema. Faz tempo que eu não converso com o “seu” Rodrigo. Ele também ficará contente em me ver.
-- E o que vai conversar com ele?
-- Muitos assuntos.
-- Aos domingos, eu fico com o Brian até às 11h da manhã. Se você quiser, poderemos almoçar juntos.
-- Domingo? Não! Eu tenho compromisso.
-- Hummmmmmmmm!! Está namorando?
-- Não estou.
-- Eu posso cancelar o cinema da quinta, se você quiser.
-- Não! Vá ao cinema com o Brian! Ficarei bem com o seu pai. Ele sabe de seu namoro com o coreano?
-- O Brian não é coreano! E o meu pai sabe sim e até gosta dele.
-- O seu pai gosta dele? Duvido! O seu pai gosta de mim.
-- Puta que pariu!! Você é muito convencido, André!
-- Está bem, Laís! Qualquer dia a gente se fala. Felicidades em seu namoro com o chinês. Beijos!
-- O Brian não é chinês.
Desliguei o telefone. Alguma coisa me dizia que ela estava mentindo para mim. Se eu forçasse mais um pouco, ela me contaria a verdade. Mas eu não quis deixá-la chateada.
Na terça-feira, ela me telefonou à noite, dizendo que estava indo ao meu apartamento com o namorado. Fiquei decepcionado. Então ela falava a verdade!! Estava tendo um namoro sério.
Desliguei a televisão, liguei o som e inseri um CD de músicas românticas, e aguardei os pombinhos.
Chegaram vinte minutos depois.
-- Oi, André!! – cumprimentou-me com um abraço e um beijo no rosto.
-- Oi, Laís!! Linda, como sempre!
Brian vinha logo atrás dela, escondido. Laís é uma mulher alta, ruiva, olhos verdes... verdadeiramente um tela rara, belíssima। Brian é um sujeito franzino, esquálido, baixinho. E feio pra cacete!!
-- Este é o Brian, André!!
-- Olá, Brian!! Seja bem-vindo em minha casa! – estiquei-lhe a mão para cumprimentá-lo. Ele veio a mim e me abraçou. Sua cabeça não chegou nem no meu peito.
Vocês podem estar imaginando que estou a exagerar na descrição física de Brian. O único exagero de minha parte foi não entender o que Laís viu de bom naquele sujeitinho.
O abraço dele foi mais apertado que o de Laís, a ponto de eu afastar meu quadril, para não sentir nada em meu joelho.
-- Esse CD que está tocando é aquele que eu adoro, André?
-- Sim.
Olhou-me, mordendo os lábios, como estivesse se lembrando de alguns momentos nossos. Tratei de disfarçar, e conversar com o Brian.
-- Você é um homem de sorte. Tem uma linda mulher e uma boa companhia a seu lado.
-- Ambos nos completamos.
-- Isso é bom! O sr. Rodrigo deve estar feliz com a união de vocês.
-- Quem é o sr. Rodrigo? – perguntou-me.
Olhei sério para a Laís. Ela havia mentido para mim.
-- Brian! O sr. Rodrigo é o meu pai. Não se lembra dele?
O rapaz ficou vermelho na hora.
-- Realmente eu tinha me esquecido dele. A pergunta do André me causou surpresa.
Laís levantou-se, foi ao bar e preparou drinques para nós.
-- Desculpe-me, Brian!! Não foi minha intenção. Laís tinha me dito que o sr. Rodrigo gostou muito de você. Por isso, perguntei.
Antes de falar, Brian ajeitou-se na poltrona. Confesso que, naquela hora, deu-me a impressão de ele ter desmunhecado. Foi tão delicado ao se ajeitar, que cheguei a pensar que ele era homossexual.
-- Quem deve pedir desculpas sou eu. Ando meio desligado do mundo, com o pensamento em outros lugares. Sou tímido também. Talvez bebendo um pouco, eu consiga me soltar um pouco mais.
-- Olha, Brian!! Fique à vontade aqui. O que tiver de falar, fale. Sou apenas um amigo de sua futura esposa.
Laís veio com os drinques.
-- Obrigado, amor! Você parece à vontade no apartamento do André. Conhece todos os cômodos?
-- Por que você não faz a pergunta direta, Brian?
-- Eu só perguntei se você conhece todos os cômodos. Não precisa ficar nervosa, amor!
-- Sim, eu conheço o QUARTO dele. Não me perco lá nem no escuro. É isso que você queria ouvir, Brian?
-- Gente!! Estou aqui, tá? Deixe pra lá essas cenas de ciúmes, Brian!! Quando aconteceu você não era nem nascido ainda.
Não pude deixar de dar uma cutucada também. Mas o baixinho ficou bravo.
-- Não liga não, Brian!! Foi só força de expressão!! Vamos tomar nossos drinques e conversar sobre outros assuntos.
-- Isso mesmo, Brian! Não viemos aqui para brigarmos – disse isso, deslizando a mão na perna dele.
Depois de mais quatro copos de whiskie, Brian estava mais relaxado e começou a se insinuar para mim.
-- Dezinho, você mostra o seu quarto para mim? – perguntou-me num tom mais delicado que o da própria Laís.
-- Laís, seu namorado é homossexual.
-- Eu sei, André!
-- Ô garoto!! Você está em minha casa, foi bem recebido aqui, mas para por aí. Entendeu bem?
-- O que você tem contra os homossexuais, Dezinho?
-- Eu não tenho nada contra e muito menos a favor. Você chegou como homem aqui, como namorado de minha amiga, essa doida que está a seu lado. Eu não permito que você se insinue, tampouco que me chame de Dezinho ou outro apelido qualquer.
-- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Só quero conhecer a sua cama...
Levantei-me da poltrona. Jogar o esquálido homossexual pela janela passou por minha cabeça. Entretanto, ele não era o culpado. Deve ser cabeleireiro da Laís, que o contratou para ser o seu namorado por essa noite, com o único objetivo de me provocar.
-- Gostaria de que vocês dois fossem embora.
-- Ainnnnnn!! Que mal educado!! Não sairei daqui antes de conhecer a sua cama.
-- Ahh!! Sairá sim, bichona!! – já disse isso, pegando-o pela nuca e levando-o até a porta.
-- André, não faça isso, por favor!! Ele está bêbado!!
Abri a porta, empurrei-o para fora, chutando-lhe, com vontade, a bunda. Fechei imediatamente a porta e interfonei ao zelador, pedindo que retirasse o vagabundo do prédio.
-- Eu também vou embora, seu grosso!!
-- Não!! Ficará aqui, que quero conversar com você. Ele se vira.
-- Você nunca quis o meu amor e agora está me afastando de meus amigos. – disse, choramingando.
-- Laís! Sente-se um pouco, por favor! Preciso realmente conversar com você.
-- Quero outro whiskie!
-- Não agora! Daqui a pouco, está bem?
Nem me ouviu. Foi ao bar e preparou uma dose dupla, sem gelo. E voltou com a cara amarrada para o sofá.
-- O que você quer, André? Fala logo, que eu quero sair daqui.
-- Há alguns meses eu conheci duas crianças órfãs. Visito-as todos os domingos, no Convento onde moram...
-- Foi por isso que me disse que não poderia almoçar comigo no domingo?
-- Sim, foi por isso.
-- Está apaixonado pelas crianças, André?
-- Completamente! Posso continuar?
Laís descansou o copo na mesa central, enxugou as lágrimas, se recompôs, e sentou-se a minha frente, sorrindo um sorriso muito doce.
-- Continue, querido!
-- Eu vou direto ao ponto, Laís!
-- Sim, seja objetivo!
-- Para adotá-los, o Convento exige que eu me case...
Laís desatou a rir e não parava mais. Olhava para mim e gargalhava. Levantou-se novamente, foi ao banheiro, sempre gargalhando, fechou a porta, e permaneceu lá dentro. Saiu vinte minutos depois, dizendo que havia feito xixi na calcinha. Emprestei-lhe uma bermuda.
-- Posso continuar, Laís?
-- Você só pode estar brincando comigo.
-- Não estou brincando.
-- Considerando que você não esteja brincando, me responda: com quem você pretende se casar?
-- É essa pergunta que me faço todos os dias. Eu não sei a resposta, Laís! Estou aqui pedindo que você me ajude.
-- Passou por sua cabeça se casar comigo?
-- Sim.
-- Você se casaria comigo apenas para adotar as crianças?
-- Laís, eu não quero que você se ofenda com isso.
Levantei-me atordoado. Na minha obsessão de adotar as crianças, não tinha refletido que eu poderia causar tristeza à Laís. Fiquei envergonhado dessa minha atitude.
-- André!! Te fiz uma pergunta: você se casaria comigo apenas para adotar as crianças?
-- Sim, Laís! Eu me casaria sim.
Laís desmaiou na पोल्त्रोना
sábado, 11 de abril de 2009
O Convento – II
É óbvio que fui reprovado. Se eu quisesse adotá-los, teria que me casar novamente.
-- A presença da mãe é imprescindível! É ela que conduzirá as crianças a uma boa educação. O pai geralmente fica o dia todo fora de casa, trabalhando. Só verá as crianças à noite e muitas vezes quando elas já estiverem dormindo.
-- Há casos de adoção entre casais homossexuais; há casos que a criança não é adotada imediatamente aqui no Brasil: é comprada; há casos de adoção por parte do homem ou da mulher solteiros.
-- Nós sabemos de todas essas modalidades nada convencionais de adoção. Aqui, agimos de forma diferente, por acreditarmos sempre no bem-estar da criança. O senhor não pretende se casar?
-- A senhora acha normal que eu saia daqui e convide a primeira, que eu encontrar na rua, a ser minha esposa?
-- Está sendo grosseiro, senhor André!
-- É apenas uma verdade, irmã! O convento me dá um prazo de noventa dias, para que eu regularize a minha situação. Nesse espaço de tempo, tenho de conhecer uma mulher, confiar-lhe toda a minha vida, apaixonar-me por ela e pedi-la em casamento.
-- Se quiser adotar as crianças, é assim que deverá ser.
-- Pensei que seguissem a doutrina católica...
-- Nós a seguimos.
-- Não parece! O Amor é o primeiro ensinamento de Deus; o convento pede para casar-me dentro de noventa dias. Entre o ensinamento de Deus e os preceitos do convento há uma falha.
Não me respondeu.
-- Eu entendo perfeitamente que a criança seria melhor educada com a mãe presente. Ao adotar as crianças, é claro que eu me casaria novamente, mas é um processo demorado e eu teria também de encontrar uma mulher disposta a criá-los. Em noventa dias, eu não conseguirei.
-- O senhor pode demorar-se o quanto desejar. Encontre a mulher perfeita, que te ame, que ame as crianças.
-- Em um ou dois anos, isso é possível. Mas quem me garante que a Fefê e o Marquinhos não serão adotados, no decorrer desse período, por outra pessoa?
-- Há outras crianças que gostariam de ser adotadas.
-- Acho que a senhora não entendeu. Eu desejo a Fefê e o Marquinhos.
Agradeci-lhe, levantei-me e dirigi-me ao pátio.
Durante cinco domingos, foi assim: encontrava-me com eles, brincávamos, conversávamos, cantávamos, e depois de três horas eu ia embora.
No sexto, sétimo e oitavo domingos, autorizaram-me a passear com eles na praia, sempre acompanhados por uma freira. Nesses dias, saíamos de manhã e voltávamos ao convento às 16h.
No oitavo domingo, Marquinhos sussurrou em meu ouvido que queria conversar comigo a sós.
-- Titio! Eu te amo. A Fefê também te ama muito.
-- Eu também amo vocês.
-- Nós queremos morar com o senhor e com a titia.
Engoli seco!
-- Em breve vocês conhecerão a titia, está bem assim?
Abriu um largo sorriso e voltamos ao lugar onde estavam a Fefê e a freira.
-- Senhor André!
-- Sim, irmã!
-- No próximo domingo virá um casal conhecer a Fefê. O senhor fará a visita somente ao Marquinhos.
A Fefê seria certamente adotada e separada de seu melhor amigo.
Não!! Isso não podia acontecer!!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
É óbvio que fui reprovado. Se eu quisesse adotá-los, teria que me casar novamente.
-- A presença da mãe é imprescindível! É ela que conduzirá as crianças a uma boa educação. O pai geralmente fica o dia todo fora de casa, trabalhando. Só verá as crianças à noite e muitas vezes quando elas já estiverem dormindo.
-- Há casos de adoção entre casais homossexuais; há casos que a criança não é adotada imediatamente aqui no Brasil: é comprada; há casos de adoção por parte do homem ou da mulher solteiros.
-- Nós sabemos de todas essas modalidades nada convencionais de adoção. Aqui, agimos de forma diferente, por acreditarmos sempre no bem-estar da criança. O senhor não pretende se casar?
-- A senhora acha normal que eu saia daqui e convide a primeira, que eu encontrar na rua, a ser minha esposa?
-- Está sendo grosseiro, senhor André!
-- É apenas uma verdade, irmã! O convento me dá um prazo de noventa dias, para que eu regularize a minha situação. Nesse espaço de tempo, tenho de conhecer uma mulher, confiar-lhe toda a minha vida, apaixonar-me por ela e pedi-la em casamento.
-- Se quiser adotar as crianças, é assim que deverá ser.
-- Pensei que seguissem a doutrina católica...
-- Nós a seguimos.
-- Não parece! O Amor é o primeiro ensinamento de Deus; o convento pede para casar-me dentro de noventa dias. Entre o ensinamento de Deus e os preceitos do convento há uma falha.
Não me respondeu.
-- Eu entendo perfeitamente que a criança seria melhor educada com a mãe presente. Ao adotar as crianças, é claro que eu me casaria novamente, mas é um processo demorado e eu teria também de encontrar uma mulher disposta a criá-los. Em noventa dias, eu não conseguirei.
-- O senhor pode demorar-se o quanto desejar. Encontre a mulher perfeita, que te ame, que ame as crianças.
-- Em um ou dois anos, isso é possível. Mas quem me garante que a Fefê e o Marquinhos não serão adotados, no decorrer desse período, por outra pessoa?
-- Há outras crianças que gostariam de ser adotadas.
-- Acho que a senhora não entendeu. Eu desejo a Fefê e o Marquinhos.
Agradeci-lhe, levantei-me e dirigi-me ao pátio.
Durante cinco domingos, foi assim: encontrava-me com eles, brincávamos, conversávamos, cantávamos, e depois de três horas eu ia embora.
No sexto, sétimo e oitavo domingos, autorizaram-me a passear com eles na praia, sempre acompanhados por uma freira. Nesses dias, saíamos de manhã e voltávamos ao convento às 16h.
No oitavo domingo, Marquinhos sussurrou em meu ouvido que queria conversar comigo a sós.
-- Titio! Eu te amo. A Fefê também te ama muito.
-- Eu também amo vocês.
-- Nós queremos morar com o senhor e com a titia.
Engoli seco!
-- Em breve vocês conhecerão a titia, está bem assim?
Abriu um largo sorriso e voltamos ao lugar onde estavam a Fefê e a freira.
-- Senhor André!
-- Sim, irmã!
-- No próximo domingo virá um casal conhecer a Fefê. O senhor fará a visita somente ao Marquinhos.
A Fefê seria certamente adotada e separada de seu melhor amigo.
Não!! Isso não podia acontecer!!
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sexta-feira, 10 de abril de 2009
A carta.
“Amada esposa e queridos filhos,
Minha saúde é precária.
Estou há muito tempo neste hospital e creio que minha próxima morada será o cemitério.
Em nenhum momento perdi a esperança de tornar a revê-los. Sei que ainda é possível, desde que vocês venham visitar-me. Não temam e não se impressionem com o estado em que me encontro.
Já não tenho mais um fio de cabelo. São tantas operações e tantas cicatrizes que não há lugar para qualquer fio crescer. Às vezes, me sinto uma cobaia nas mãos de cientistas. Tenho muito dó dos ratinhos que são usados em experiências. Hoje me sinto um desses ratinhos.
Meu amado amigo, André, compreende o que estou passando aqui e quanta saudade sinto de vocês. Ofereça-lhe um café, e ele relatará todos os momentos que vivemos juntos neste hospício.
Tenho muito medo de morrer, sem ao menos revê-los.
Amo vocês, amo com toda força de meu coração. Para todo o sempre levarei a imagem do rosto de vocês, sorrindo nos muitos momentos de felicidade que passamos juntos.
Saudades, saudades, saudades!!”
Jackie tinha visto Dom Pedro me ditar a carta, mas não disse nada. Notei que ela estava emocionada.
-- Você está chorando, Jackie!
-- Sou humana como vocês. Não notou ainda?
-- Eu levarei essa carta à família dele.
-- Não existe família, André!
-- Claro que existe. Eles não vêm visitá-lo há muito tempo.
-- André!! Andando pelos corredores aqui do quinto andar, você nunca reparou em policiais que ficam em pé, à porta de determinados quartos?
-- Sim, várias vezes. E são até simpáticos. Já conversei com muitos deles. E também já sei que aqui há criminosos se recuperando de alguma operação, para depois serem presos.
-- Ué! Quem te contou isso?
-- Eu não nasci ontem, Jackie!
-- O Sr. Fabrício matou a família toda: esposa, filhos e pais. Em nenhum momento, em que ele estava te ditando a carta, estava lúcido.
-- Você está me dizendo que o Sr. Fabrício é o meu amigo Dom Pedro?
-- Dom Pedro?
-- Sim, ele me disse que mora no Ipiranga, na Rua Leais Paulistanos.
-- Os pais dele moravam lá. Foi naquela casa que foram assassinados por ele. Ele morava com a família na zona leste.
-- Acha que ele está arrependido do que fez, Jackie?
-- Só se arrepende aquele que está em seu perfeito juízo, André! Ele não se lembra do que fez, não se lembra de que tinha uma família. Quando há visitas aos outros pacientes, ele sempre chora porque espera que alguém o visite. O que nunca acontece.
Quanta tristeza!!!! Conheci um homem que assassinou sua família e que não tem nem ideia do que fez. Suas palavras foram comoventes, chorei em muitos momentos. Quase senti raiva de sua esposa por não tê-lo visitado e nem deixar que seus filhos fossem vê-lo.
Certamente, o quinto andar do hospital era o quinto dos infernos. Sobrevivi, graças a Jackie que sempre foi o meu anjinho da guarda.
Assim que voltei à rotina, pedi ao padre que rezasse uma missa pela alma sofrida do Sr. Fabrício.
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“Amada esposa e queridos filhos,
Minha saúde é precária.
Estou há muito tempo neste hospital e creio que minha próxima morada será o cemitério.
Em nenhum momento perdi a esperança de tornar a revê-los. Sei que ainda é possível, desde que vocês venham visitar-me. Não temam e não se impressionem com o estado em que me encontro.
Já não tenho mais um fio de cabelo. São tantas operações e tantas cicatrizes que não há lugar para qualquer fio crescer. Às vezes, me sinto uma cobaia nas mãos de cientistas. Tenho muito dó dos ratinhos que são usados em experiências. Hoje me sinto um desses ratinhos.
Meu amado amigo, André, compreende o que estou passando aqui e quanta saudade sinto de vocês. Ofereça-lhe um café, e ele relatará todos os momentos que vivemos juntos neste hospício.
Tenho muito medo de morrer, sem ao menos revê-los.
Amo vocês, amo com toda força de meu coração. Para todo o sempre levarei a imagem do rosto de vocês, sorrindo nos muitos momentos de felicidade que passamos juntos.
Saudades, saudades, saudades!!”
Jackie tinha visto Dom Pedro me ditar a carta, mas não disse nada. Notei que ela estava emocionada.
-- Você está chorando, Jackie!
-- Sou humana como vocês. Não notou ainda?
-- Eu levarei essa carta à família dele.
-- Não existe família, André!
-- Claro que existe. Eles não vêm visitá-lo há muito tempo.
-- André!! Andando pelos corredores aqui do quinto andar, você nunca reparou em policiais que ficam em pé, à porta de determinados quartos?
-- Sim, várias vezes. E são até simpáticos. Já conversei com muitos deles. E também já sei que aqui há criminosos se recuperando de alguma operação, para depois serem presos.
-- Ué! Quem te contou isso?
-- Eu não nasci ontem, Jackie!
-- O Sr. Fabrício matou a família toda: esposa, filhos e pais. Em nenhum momento, em que ele estava te ditando a carta, estava lúcido.
-- Você está me dizendo que o Sr. Fabrício é o meu amigo Dom Pedro?
-- Dom Pedro?
-- Sim, ele me disse que mora no Ipiranga, na Rua Leais Paulistanos.
-- Os pais dele moravam lá. Foi naquela casa que foram assassinados por ele. Ele morava com a família na zona leste.
-- Acha que ele está arrependido do que fez, Jackie?
-- Só se arrepende aquele que está em seu perfeito juízo, André! Ele não se lembra do que fez, não se lembra de que tinha uma família. Quando há visitas aos outros pacientes, ele sempre chora porque espera que alguém o visite. O que nunca acontece.
Quanta tristeza!!!! Conheci um homem que assassinou sua família e que não tem nem ideia do que fez. Suas palavras foram comoventes, chorei em muitos momentos. Quase senti raiva de sua esposa por não tê-lo visitado e nem deixar que seus filhos fossem vê-lo.
Certamente, o quinto andar do hospital era o quinto dos infernos. Sobrevivi, graças a Jackie que sempre foi o meu anjinho da guarda.
Assim que voltei à rotina, pedi ao padre que rezasse uma missa pela alma sofrida do Sr. Fabrício.
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quinta-feira, 9 de abril de 2009
Amigos universais.
Deley é um amigo raro. É daqueles que te apoiam em tudo, porque também deseja que seja apoiado em tudo.
É um Técnico de Informática... diferente de todos que eu já vi: é honesto. Se seu computador apresentar um problema sério, ele te apresentará um relatório de todos os problemas encontrados e todas as peças que deverão ser trocadas. Não existe aquilo de oito ou oitenta.
Afora sua vida profissional, é um amigo como poucos.
Às vezes, cercamo-nos de pessoas que, mesmo sabendo de nossas falhas, insistem em culpar o próximo. Talvez queiramos ouvir naquele momento toda a falsidade existente no mundo, porque sabemos que os errados nada mais são que nós mesmos.
Deley não é assim. Ele cutuca (ou catuca) a ferida com tal simplicidade, que nos faz ver o quanto estamos errados. Amigo verdadeiro é assim que age: fala a verdade, mesmo sabendo que isso pode nos entristecer. E não é só ele. Luciano Pimenta, Tatá, Nardinho, Mário... todos eles.
Deley é espírita. Já trabalhou voluntariamente no Centro Espírita de São Paulo como Médium.
Quando aconteceu, na década de 90, aquela fatalidade com o grupo Mamonas Assassinas, entristeceu-se como entristeceram milhões de brasileiros e milhares de estrangeiros. Só não esperava que fosse o canal entre a vida presente e a morte recente.
Recebeu no Centro o espírito do líder do grupo, Dinho, o vocalista. Embora tivesse a imagem como fã do grupo, deparou-se com a imagem de uma vítima fatal num acidente aéreo: sangrando, desfigurado, implorando por ajuda espiritual. Depois de Dinho, foram outros do grupo.
Foi um choque, mas mesmo assim procurou ajuda de outros médiuns experientes. E, aos poucos, conseguiu assimilar sua missão na Terra.
Atualmente, Deley não está mais no Centro Espírita. Está com pessoas comuns, como família, parentes, amigos e colegas. O importante é que ele esteja como esperamos que ele seja: sempre do mesmo jeito.
Se os amigos Luciano Pimenta e Tatá nascessem mulheres, certamente estariam brigando pelo Deley. O que eu diria então sobre mim, já que tenho admiração por ele? Eu diria o que diz a realidade: Deley sempre nos presta amizade; é indiferente, não há um amigo em comum. Todos são importantes para ele.
É um orgulho, uma honra mesmo, tê-lo como amigo.
xxxxxxxxxxxxxxxxxx
No Convento.
Assim que cheguei, fui recepcionado pelos dois, Fefê e Marquinhos. Estavam radiantes. Quanta, quanta, quanta emoção senti!!!!! Abaixei-me, e trouxe os dois, em cada braço, em um único abraço, apertado de saudades.
-- Está chorando, titio?
-- Não, Marquinhos!! É suor, está muito quente.
-- Tá chorando sim, titio!
-- Puque tá choiando?
-- Acho que é de saudades de vocês.
Coloquei-os no chão, e os dois, tão felizes como eu estava também, pegaram-me as mãos e levaram-me à recepção do Convento.
-- Bom dia!
-- Bom dia, irmã!
-- Antes de o senhor passar o dia com as crianças, deverá preencher um cadastro e um questionário. Se aprovado, o senhor poderá, inclusive, passear com eles na nossa cidade, mas acompanhados de uma Irmã. Futuramente, se preferir, e se for de nossa total confiança, as crianças poderão passar o fim de semana em sua casa, também devidamente acompanhados.
-- Entendi, irmã!
Fiquei preocupado, porque me lembrei das palavras do Marmitão. Enquanto a Irmã falava, eu olhava as cinquenta questões. Várias referiam-se à minha esposa, que eu não tinha mais. Compreendi que, realmente, as normas deviam ser rigorosas; afinal, eu era um estranho, e a Instituição zelava por suas crianças.
-- Enquanto o senhor preenche o questionário, as crianças ficarão no pátio. Ao terminar, entregue-me e volte à sua cadeira. A aprovação ou não dependerá de nossas superioras, e isso não demorará mais de trinta minutos. Se aprovado, o senhor conhecerá parte de nossa Casa; se reprovado, ficará com as crianças por apenas três horas, todos os domingos, até que regularize a sua situação, se for a sua intenção adotá-los. Se isso não ocorrer até o fim dos próximos 90 dias, o senhor não será mais bem-vindo em nossa Casa. Deve entender que as crianças não podem se apegar ao seu amor, para que não sofram.
-- Sim, irmã! Entendo perfeitamente.
-- Deixe que Deus use sua mão e seu coração para escrever as respostas. Seja verdadeiro sempre! Sente-se agora e comece.
Sentei-me. Deu-me desespero ao ler cada questão. Respirei fundo, rezei um Pai-Nosso e comecei o questionário.
01- Há quantos anos é casado?
Resposta: Não sou casado.
02- Os cônjuges pertencem a que religião?
Resposta: Eu sou católico.
03- Com que regularidade os cônjuges frequentam a igreja ou cultos?
Resposta: Aos domingos.
Mentira. Comecei mal. Sou católico, porque nasci católico. Raramente vou à missa aos domingos. Já disse que, quando preciso falar com Deus, vou à praia. Vejo Deus na Natureza.
04- Quantos filhos o casal tem?
Resposta: Nenhum.
Deixei muitas questões sem respostas.Tem uma expressão no futebol que diz assim: “Perdido por um, perdido por mil... vamos ao ataque!”
Depois de mais uma mentira, tentei o “tudo ou nada”.
50- Teça um breve comentário sobre a frase “A adoção é um ato de amor”.
Resposta: A doação é um ato de amor. Doar-se espiritualmente à determinada causa, a específicas pessoas; doar alimentos e roupas a quem necessita; doar uma palavra de amor e de motivação àqueles que sofrem. Na adoção já há amor: é um estado de espírito, não é uma ação, não é um ato. Na adoção, cabe a doação. A Instituição não pode avaliar uma pessoa por meio de questionários.
Entreguei à freira e fiquei aguardando a expulsão.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Deley é um amigo raro. É daqueles que te apoiam em tudo, porque também deseja que seja apoiado em tudo.
É um Técnico de Informática... diferente de todos que eu já vi: é honesto. Se seu computador apresentar um problema sério, ele te apresentará um relatório de todos os problemas encontrados e todas as peças que deverão ser trocadas. Não existe aquilo de oito ou oitenta.
Afora sua vida profissional, é um amigo como poucos.
Às vezes, cercamo-nos de pessoas que, mesmo sabendo de nossas falhas, insistem em culpar o próximo. Talvez queiramos ouvir naquele momento toda a falsidade existente no mundo, porque sabemos que os errados nada mais são que nós mesmos.
Deley não é assim. Ele cutuca (ou catuca) a ferida com tal simplicidade, que nos faz ver o quanto estamos errados. Amigo verdadeiro é assim que age: fala a verdade, mesmo sabendo que isso pode nos entristecer. E não é só ele. Luciano Pimenta, Tatá, Nardinho, Mário... todos eles.
Deley é espírita. Já trabalhou voluntariamente no Centro Espírita de São Paulo como Médium.
Quando aconteceu, na década de 90, aquela fatalidade com o grupo Mamonas Assassinas, entristeceu-se como entristeceram milhões de brasileiros e milhares de estrangeiros. Só não esperava que fosse o canal entre a vida presente e a morte recente.
Recebeu no Centro o espírito do líder do grupo, Dinho, o vocalista. Embora tivesse a imagem como fã do grupo, deparou-se com a imagem de uma vítima fatal num acidente aéreo: sangrando, desfigurado, implorando por ajuda espiritual. Depois de Dinho, foram outros do grupo.
Foi um choque, mas mesmo assim procurou ajuda de outros médiuns experientes. E, aos poucos, conseguiu assimilar sua missão na Terra.
Atualmente, Deley não está mais no Centro Espírita. Está com pessoas comuns, como família, parentes, amigos e colegas. O importante é que ele esteja como esperamos que ele seja: sempre do mesmo jeito.
Se os amigos Luciano Pimenta e Tatá nascessem mulheres, certamente estariam brigando pelo Deley. O que eu diria então sobre mim, já que tenho admiração por ele? Eu diria o que diz a realidade: Deley sempre nos presta amizade; é indiferente, não há um amigo em comum. Todos são importantes para ele.
É um orgulho, uma honra mesmo, tê-lo como amigo.
xxxxxxxxxxxxxxxxxx
No Convento.
Assim que cheguei, fui recepcionado pelos dois, Fefê e Marquinhos. Estavam radiantes. Quanta, quanta, quanta emoção senti!!!!! Abaixei-me, e trouxe os dois, em cada braço, em um único abraço, apertado de saudades.
-- Está chorando, titio?
-- Não, Marquinhos!! É suor, está muito quente.
-- Tá chorando sim, titio!
-- Puque tá choiando?
-- Acho que é de saudades de vocês.
Coloquei-os no chão, e os dois, tão felizes como eu estava também, pegaram-me as mãos e levaram-me à recepção do Convento.
-- Bom dia!
-- Bom dia, irmã!
-- Antes de o senhor passar o dia com as crianças, deverá preencher um cadastro e um questionário. Se aprovado, o senhor poderá, inclusive, passear com eles na nossa cidade, mas acompanhados de uma Irmã. Futuramente, se preferir, e se for de nossa total confiança, as crianças poderão passar o fim de semana em sua casa, também devidamente acompanhados.
-- Entendi, irmã!
Fiquei preocupado, porque me lembrei das palavras do Marmitão. Enquanto a Irmã falava, eu olhava as cinquenta questões. Várias referiam-se à minha esposa, que eu não tinha mais. Compreendi que, realmente, as normas deviam ser rigorosas; afinal, eu era um estranho, e a Instituição zelava por suas crianças.
-- Enquanto o senhor preenche o questionário, as crianças ficarão no pátio. Ao terminar, entregue-me e volte à sua cadeira. A aprovação ou não dependerá de nossas superioras, e isso não demorará mais de trinta minutos. Se aprovado, o senhor conhecerá parte de nossa Casa; se reprovado, ficará com as crianças por apenas três horas, todos os domingos, até que regularize a sua situação, se for a sua intenção adotá-los. Se isso não ocorrer até o fim dos próximos 90 dias, o senhor não será mais bem-vindo em nossa Casa. Deve entender que as crianças não podem se apegar ao seu amor, para que não sofram.
-- Sim, irmã! Entendo perfeitamente.
-- Deixe que Deus use sua mão e seu coração para escrever as respostas. Seja verdadeiro sempre! Sente-se agora e comece.
Sentei-me. Deu-me desespero ao ler cada questão. Respirei fundo, rezei um Pai-Nosso e comecei o questionário.
01- Há quantos anos é casado?
Resposta: Não sou casado.
02- Os cônjuges pertencem a que religião?
Resposta: Eu sou católico.
03- Com que regularidade os cônjuges frequentam a igreja ou cultos?
Resposta: Aos domingos.
Mentira. Comecei mal. Sou católico, porque nasci católico. Raramente vou à missa aos domingos. Já disse que, quando preciso falar com Deus, vou à praia. Vejo Deus na Natureza.
04- Quantos filhos o casal tem?
Resposta: Nenhum.
Deixei muitas questões sem respostas.Tem uma expressão no futebol que diz assim: “Perdido por um, perdido por mil... vamos ao ataque!”
Depois de mais uma mentira, tentei o “tudo ou nada”.
50- Teça um breve comentário sobre a frase “A adoção é um ato de amor”.
Resposta: A doação é um ato de amor. Doar-se espiritualmente à determinada causa, a específicas pessoas; doar alimentos e roupas a quem necessita; doar uma palavra de amor e de motivação àqueles que sofrem. Na adoção já há amor: é um estado de espírito, não é uma ação, não é um ato. Na adoção, cabe a doação. A Instituição não pode avaliar uma pessoa por meio de questionários.
Entreguei à freira e fiquei aguardando a expulsão.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009
Há vidas, querendo ser vividas – Final
Acordei com Jackie a meu lado, acariciando-me o braço, com um sorriso doce nos lábios. Assim que abri os olhos, mudou a sua expressão facial.
-- Bom dia, Jackie!
-- Tome o seu café com leite. Daqui a pouco voltarei com sua bezetacil.
-- A que horas poderei sair daqui para caminhar no corredor.
-- O médico cancelou a autorização. Você ainda não está bem, segundo ele.
Ninguém sabe o ódio que eu senti daquele filho da puta. Na certa, não gostou de minha pergunta quando aqui esteve no dia anterior. Mas minha pergunta foi justa: “quem, em sã consciência, engessaria a perna de um defunto?”
-- Está bem, Jackie!
-- Não fique triste, André!! Nós, enfermeiras, não concordamos com a decisão dele. É uma pessoa arrogante, mas é um ótimo médico.
-- Não estou triste.
-- Daqui a pouco voltarei com a injeção.
Dias e dias naquela cama, com uma sonda no canal do pênis, porque, deitado, não conseguia urinar naquele pinico hospitalar. Mais de cem horas, tomando injeção de bezetacil nos braços, que ficaram roxos.
Dois dias depois, o arrogante apareceu em minha frente.
-- Acabei de receber o relatório de seu psiquiatra. Você recebeu alta da parte dele.
Não falei nada, permaneci quieto, olhando-o fixamente, esperando-o se aproximar da cama. Eu sabia que uma atitude violenta de minha parte, complicaria minha situação, mas eu só queria dar um soco na cara daquele filho da puta. Se fosse realmente um bom médico, no meu entender, não agiria da forma que vinha agindo comigo; assumiria o seu erro já que, segundo a enfermeira, era um ótimo médico. Profissional de merda.
-- Não gostei do tom de sua pergunta da última vez em que aqui estive.
-- Você devia ser humorista e não médico. E de humor negro.
-- Está nervoso, bocudo? Ou preocupado?
-- De forma alguma, necrófilo!! Quem deve estar preocupado é você, açougueiro!
-- E por que eu estaria preocupado, babaca?
-- Porque sabe que é incompetente e inseguro.
Aproximou-se de meu ouvido para sussurrar alguma ameaça. Foi o meu momento. Agarrei-lhe a gravata e puxei com a força de meu ódio, não de meus braços que estavam debilitados. Enquanto tentava sufocá-lo, como uma corda no pescoço, ele tentava com sua mãos livrarem-se das minhas, que tentavam trazer sua cabeça perto de mim.
Eu fui arrancado da cama, tudo o que tinha em volta foi para o chão, inclusive eu e ele. Eu caí de lado. Ele caiu ajoelhado, quase sufocado, quase roxo. Minhas mãos seguravam ainda a gravata do corno.
Jackie e outros enfermeiros entraram no quarto. Tentaram em vão desvencilhar minhas mãos da gravata dele, até que um enfermeiro, com uma tesoura, conseguiu salvar o carniceiro.
Isso me custou mais um mês de internação, assistido por outros médicos e por outros psiquiatras. Aquele doutorzinho de merda ou saiu do hospital ou saíram com ele.
Eu vivi o quinto de andar daquele hospital. Três dias depois da tentativa de assassinato, fui autorizado a caminhar pelo corredor. O primeiro quarto que fui visitar foi o 12.
Fiquei extremamente chocado. Havia quatro pessoas internadas. Todos com várias cicatrizes no couro cabeludo. Um deles girava a manivela da cama, que a fazia inclinar... a cada volta de manivela era um rangido: nhec, nhec, nhec, nhec, nhec. Era esse o rangido a que me referi em outro texto.
-- O senhor ainda não conseguiu arrumar essa cama? – perguntei-lhe, sorrindo.
Levantou-se, enxugou o suor em seu rosto, olhou para mim, sorrindo também.
-- O amigo acredita que é a única cama que está me dando mais trabalho neste hospital?
-- O senhor terá muito trabalho ainda. Depois de consertar a manivela, há outras em vários quartos necessitando de seu conserto.
-- Eu sei disso. O patrão me disse ontem que há muito trabalho aqui. Me disse também que só sairei do hospital quando terminar o conserto de todas as camas. Espero terminar o mais rápido possível. Minha senhora e meus filhos já estão com muita saudade de mim.
-- Aonde o senhor mora?
-- O amigo conhece o bairro do Ipiranga? – perguntou-me, fazendo o famoso gesto de D. Pedro, erguendo o braço direito. Só faltou gritar “Independência ou Morte”.
-- Conheço muito bem.
-- Moro na Rua Leais Paulistanos. Ficaria grato se fosse algum dia visitar-nos.
-- Irei, amigo, certamente irei.
Abatido, sentou-se na cadeira.
-- Eu nunca mais sairei daqui. O amigo não imagina a saudade que tenho dos meus filhos e de minha querida esposa!! Faz muito tempo que não os vejo. Faz muito tempo que não ouço o sabiá cantando, o vento batendo em meu rosto. Daqui para o cemitério, é o meu destino. (*)
-- (*)
Depois de uma demorada pausa, ele me pediu um favor, quase sussurrando.
-- Se o amigo sair daqui, ou seja, se receber alta, poderia levar uma carta à minha família?
-- Eu prometo ao senhor que farei isso.
-- Eu não posso escrever, minhas mãos tremem muito. Gostaria de que o senhor redigisse a carta, que ditarei.
-- Faremos isso. Conseguirei o papel de carta e a caneta.
Levantou-se da cadeira, num ímpeto.
-- Preciso trabalhar agora. O amigo queira se retirar.
Duas vezes por semana eu recebia a visita de meus pais, de minha esposa e de meus amigos.
-- Eu preciso de caneta e de um caderno.
-- Para quê?
-- Para registrar tudo o que passo aqui dentro, como um diário.
E assim foi feito. Por todos os quartos que eu passava, registrava a vida. Demorava-me mais no quarto de Dom Pedro. Em seu pouco momento de lucidez, ele ditava-me a carta.
Eu vivi realmente o quinto andar daquele hospital. Certo dia, o médico entrou em meu quarto e me disse que eu seria transferido para o terceiro andar, onde ficaria em um quarto particular.
-- O senhor acha que estou bem, doutor?
-- Sim, André! Você está muito bem.
-- Por que, então, o senhor quer que eu vá ao terceiro andar?
-- Porque é assim que funciona o Hospital.
-- Então não é uma decisão sua?
-- A decisão é minha!
-- Não é, doutor! É uma decisão do hospital.
-- É minha, André! Que saco!!
-- Se fosse do senhor, me daria alta. O senhor sabe que estou bem, que não represento uma ameaça à sociedade, a não ser se aquele filho da puta do Carniceiro aparecer em minha frente.
Levantou-se, rindo muito, e saiu.
No dia seguinte, eu já estava em minha casa.
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Acordei com Jackie a meu lado, acariciando-me o braço, com um sorriso doce nos lábios. Assim que abri os olhos, mudou a sua expressão facial.
-- Bom dia, Jackie!
-- Tome o seu café com leite. Daqui a pouco voltarei com sua bezetacil.
-- A que horas poderei sair daqui para caminhar no corredor.
-- O médico cancelou a autorização. Você ainda não está bem, segundo ele.
Ninguém sabe o ódio que eu senti daquele filho da puta. Na certa, não gostou de minha pergunta quando aqui esteve no dia anterior. Mas minha pergunta foi justa: “quem, em sã consciência, engessaria a perna de um defunto?”
-- Está bem, Jackie!
-- Não fique triste, André!! Nós, enfermeiras, não concordamos com a decisão dele. É uma pessoa arrogante, mas é um ótimo médico.
-- Não estou triste.
-- Daqui a pouco voltarei com a injeção.
Dias e dias naquela cama, com uma sonda no canal do pênis, porque, deitado, não conseguia urinar naquele pinico hospitalar. Mais de cem horas, tomando injeção de bezetacil nos braços, que ficaram roxos.
Dois dias depois, o arrogante apareceu em minha frente.
-- Acabei de receber o relatório de seu psiquiatra. Você recebeu alta da parte dele.
Não falei nada, permaneci quieto, olhando-o fixamente, esperando-o se aproximar da cama. Eu sabia que uma atitude violenta de minha parte, complicaria minha situação, mas eu só queria dar um soco na cara daquele filho da puta. Se fosse realmente um bom médico, no meu entender, não agiria da forma que vinha agindo comigo; assumiria o seu erro já que, segundo a enfermeira, era um ótimo médico. Profissional de merda.
-- Não gostei do tom de sua pergunta da última vez em que aqui estive.
-- Você devia ser humorista e não médico. E de humor negro.
-- Está nervoso, bocudo? Ou preocupado?
-- De forma alguma, necrófilo!! Quem deve estar preocupado é você, açougueiro!
-- E por que eu estaria preocupado, babaca?
-- Porque sabe que é incompetente e inseguro.
Aproximou-se de meu ouvido para sussurrar alguma ameaça. Foi o meu momento. Agarrei-lhe a gravata e puxei com a força de meu ódio, não de meus braços que estavam debilitados. Enquanto tentava sufocá-lo, como uma corda no pescoço, ele tentava com sua mãos livrarem-se das minhas, que tentavam trazer sua cabeça perto de mim.
Eu fui arrancado da cama, tudo o que tinha em volta foi para o chão, inclusive eu e ele. Eu caí de lado. Ele caiu ajoelhado, quase sufocado, quase roxo. Minhas mãos seguravam ainda a gravata do corno.
Jackie e outros enfermeiros entraram no quarto. Tentaram em vão desvencilhar minhas mãos da gravata dele, até que um enfermeiro, com uma tesoura, conseguiu salvar o carniceiro.
Isso me custou mais um mês de internação, assistido por outros médicos e por outros psiquiatras. Aquele doutorzinho de merda ou saiu do hospital ou saíram com ele.
Eu vivi o quinto de andar daquele hospital. Três dias depois da tentativa de assassinato, fui autorizado a caminhar pelo corredor. O primeiro quarto que fui visitar foi o 12.
Fiquei extremamente chocado. Havia quatro pessoas internadas. Todos com várias cicatrizes no couro cabeludo. Um deles girava a manivela da cama, que a fazia inclinar... a cada volta de manivela era um rangido: nhec, nhec, nhec, nhec, nhec. Era esse o rangido a que me referi em outro texto.
-- O senhor ainda não conseguiu arrumar essa cama? – perguntei-lhe, sorrindo.
Levantou-se, enxugou o suor em seu rosto, olhou para mim, sorrindo também.
-- O amigo acredita que é a única cama que está me dando mais trabalho neste hospital?
-- O senhor terá muito trabalho ainda. Depois de consertar a manivela, há outras em vários quartos necessitando de seu conserto.
-- Eu sei disso. O patrão me disse ontem que há muito trabalho aqui. Me disse também que só sairei do hospital quando terminar o conserto de todas as camas. Espero terminar o mais rápido possível. Minha senhora e meus filhos já estão com muita saudade de mim.
-- Aonde o senhor mora?
-- O amigo conhece o bairro do Ipiranga? – perguntou-me, fazendo o famoso gesto de D. Pedro, erguendo o braço direito. Só faltou gritar “Independência ou Morte”.
-- Conheço muito bem.
-- Moro na Rua Leais Paulistanos. Ficaria grato se fosse algum dia visitar-nos.
-- Irei, amigo, certamente irei.
Abatido, sentou-se na cadeira.
-- Eu nunca mais sairei daqui. O amigo não imagina a saudade que tenho dos meus filhos e de minha querida esposa!! Faz muito tempo que não os vejo. Faz muito tempo que não ouço o sabiá cantando, o vento batendo em meu rosto. Daqui para o cemitério, é o meu destino. (*)
-- (*)
Depois de uma demorada pausa, ele me pediu um favor, quase sussurrando.
-- Se o amigo sair daqui, ou seja, se receber alta, poderia levar uma carta à minha família?
-- Eu prometo ao senhor que farei isso.
-- Eu não posso escrever, minhas mãos tremem muito. Gostaria de que o senhor redigisse a carta, que ditarei.
-- Faremos isso. Conseguirei o papel de carta e a caneta.
Levantou-se da cadeira, num ímpeto.
-- Preciso trabalhar agora. O amigo queira se retirar.
Duas vezes por semana eu recebia a visita de meus pais, de minha esposa e de meus amigos.
-- Eu preciso de caneta e de um caderno.
-- Para quê?
-- Para registrar tudo o que passo aqui dentro, como um diário.
E assim foi feito. Por todos os quartos que eu passava, registrava a vida. Demorava-me mais no quarto de Dom Pedro. Em seu pouco momento de lucidez, ele ditava-me a carta.
Eu vivi realmente o quinto andar daquele hospital. Certo dia, o médico entrou em meu quarto e me disse que eu seria transferido para o terceiro andar, onde ficaria em um quarto particular.
-- O senhor acha que estou bem, doutor?
-- Sim, André! Você está muito bem.
-- Por que, então, o senhor quer que eu vá ao terceiro andar?
-- Porque é assim que funciona o Hospital.
-- Então não é uma decisão sua?
-- A decisão é minha!
-- Não é, doutor! É uma decisão do hospital.
-- É minha, André! Que saco!!
-- Se fosse do senhor, me daria alta. O senhor sabe que estou bem, que não represento uma ameaça à sociedade, a não ser se aquele filho da puta do Carniceiro aparecer em minha frente.
Levantou-se, rindo muito, e saiu.
No dia seguinte, eu já estava em minha casa.
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