1966. Pescaria.
Meu pai e seus amigos costumavam ir pescar em uma ilha no litoral sul de São Paulo. Neste ano, decidiram levar seus filhos também.
Iríamos de trem. Era uma viagem demorada. Na serra, o trem necessitava de uma máquina-reboque para subir em determinados trechos. E isso levava horas. Uma viagem de trem, da Estação Socorro na capital até o litoral, demorava entre seis a oito horas, dependendo da lotação em seus vagões.
Por outro lado, a viagem era maravilhosa. Em minha visão infantil, que até hoje trago em minha memória, misturada com o cheiro verde, puro de nossa mata atlântica, a paisagem vista do alto da serra, o mar imenso marazul contrastando com o verdevivo verde enchiam-me de paz, alegria e orgulho de estar ali com meu pai.
Chegamos à casa de praia.
-- Filho! Pegue a enxada e limpe a área da frente da casa. Depois, cave um pequeno buraco.
-- Sim, pai!
-- Quando você terminar, procure gravetos secos, e junte-os próximo ao buraco.
Fiquei feliz por estar ajudando a todos. Eu sabia exatamente o que meu pai pretendia fazer naquela área que seria limpa por mim. Era um costume de nossa família, parentes e amigos: depositar-se-iam batatas doces no buraco; depois, fechava-se o buraco com a própria terra ou areia de lá tirada. A fogueira arderia sobre o buraco, assando naturalmente as batatas, que seriam o nosso café da manhã.
E assim foi. Acordamos às 5h, e comemos as batatas com café e leite. E saímos para a pescaria.
Era uma manhã quente de verão, lua cheia, hora da vazante da maré. O canal a ser atravessado para se alcançar a ilha, estava baixo, com pouca água. Um adulto atravessava-o sem maiores problemas, com a água pela cintura. As crianças, inclusive eu, atravessamo-lo a nado. E foi uma diversão.
Na ilha, enquanto os adultos subiam as pedras para acharem o melhor lugar da pescaria, nós ficamos na areia, brincando no canal.
Horas mais tarde, meu pai e seus amigos desceram e fizemos um bom piquenique, que deu sono em todo mundo. Eu estava fascinado e não conseguia dormir... queria brincar no canal.
Na inocência de criança, eu não sabia o que era maré baixa, maré alta. Eu pensei que aquele era o nível constante de água do canal. Até então, eu nadava de um ponto a outro, sem interferência de correnteza, que não havia na maré baixa.
Não conseguia dormir. Decidi brincar sozinho no canal. Todos dormiam.
Assim que mergulhei, senti a água me levando. Com esforço consegui chegar a outra margem, mas bem distante de onde eu havia pulado. Eu tremia muito de medo. Eu poderia correr até o ponto mais próximo de todos e de lá gritar por ajuda. Descartei esse pensamento. Eu, certamente, levaria uma surra de meu pai, por não tê-lo obedecido.
Sentei-me e procurei me acalmar. De lá, via a água do mar furiosamente entrar no canal. Fui para o ponto mais próximo de onde estavam todos. A ideia era mergulhar ali e, se eu fosse levado, não ficaria muito distante deles, e voltaria com as pernas tremendo e trataria de dormir.
Entrei com medo na água. Fui caminhando até não encontrar mais o fundo. Desesperado, comecei a nadar, batendo os braços e as pernas... e cada vez mais sendo levado para longe. Gritei muito. Afundei, retornei para fora, gritei, engoli muita água... cansado, afundei de vez...
... vi meu corpo depositado no fundo do canal, inerte. Eu estava a uma pequena distância dele, embaixo d’água. Vi Jesus Cristo esticando a mão para o meu corpo e sorrindo para mim. Eu estava vendo tudo embaixo d’água, senti muita paz. Vi quando Jesus Cristo pegou meu corpo e tirou-o de lá.
Acordei cinco dias depois na cama de um hospital da Baixada Santista.
XXXXXXXXXXXXXXX
Assinar:
Comentários (Atom)
