1980. Letras
Estudei numa Faculdade particular. Por ser o último ano do curso de Letras, o valor das mensalidades havia triplicado; além disso, eu não tinha conseguido notas que me aprovassem em Latim, no ano anterior. “Passei” de ano, mas carreguei duas dependências para o ano seguinte. E o pior: tinha que pagá-las também.
Estudava no período da noite, das 19h às 23h. Trabalhava na aviação comercial, das 6h às 12h, e lecionava das 13h às 17h30. Mesmo somando os dois salários, havia sempre uma conta em atraso, ora uma mensalidade da faculdade, ora a prestação do carro. Eu precisava de um rendimento extra.
Gilberto, um amigo da Cruzeiro do Sul, ao sair da empresa, passou a trabalhar como autônomo: entregava pães e leite nas residências, principalmente em prédios, das 3h às 5h. Sua iniciativa tornou-se tão bem remunerada, que comprou um forno industrial e assava os pãezinhos. Mas precisava de alguém para entregar as encomendas no mesmo horário. Interessei-me por essa nova oportunidade de trabalho e comecei no dia seguinte.
Havia, então, conseguido um dinheirinho extra, mas já não encontrava tempo suficiente para estudar, ler livros, realizar pesquisas. Não passeava mais aos finais de semana; ficava trancado em meu quarto, estudando, e preparando resumos que me auxiliassem durante a semana, em minutos de folga. Era extremamente difícil, porque meus amigos sempre estavam em casa tentando me convencer a sair.
Eu não trocaria todo meu esforço de trabalho e estudo por passeios noturnos. Teria muito tempo depois de concluir o curso na Faculdade.
Na escola em que lecionava, conheci uma professora jovem como eu e tivemos um relacionamento. Sabendo de minha dificuldade de estudo aos finais de semana, convidou-me a morar, apenas por esses dias, em uma casa, que tinha pertencido aos avós, ainda toda mobiliada, mas vazia. Aceitei, é claro.
Iríamos à casa de seus avós no dia seguinte, já que era feriado.
XXXXXXXXXX
1957 a 1975. A casa mal assombrada.
Nasci em um bairro próximo ao Parque do Ibirapuera, junto à família de meu pai, tios, avós, primos.
Minha mãe, portuguesa, veio nova ao Brasil. Conheceu meu pai, casaram-se, e um ano depois, nasci. Naquela época, meu pai era dono de um bar na mesma rua onde morávamos.
Como qualquer outro moleque, costumava brincar na rua, esconder-me nos terrenos baldios. E junto com a turminha, andávamos pela região. No final da rua, existia um córrego e, 50 metros antes, um sobrado enorme, que me assustava demais. Íamos até o matagal do córrego para apanhar mamonas, que serviam para as nossas brincadeiras de estilingue.
Toda vez que descíamos a rua, eu via numa das janelas da casa, fechada por vidro, um rosto de mulher, e sempre com feições diferentes. Dizem que cada um enxerga o que quer ver. Meus primos enxergavam um vaso. Às vezes, eu a via sorrindo, o que me deixava com bons sentimentos; mas a maioria das vezes eu a via descabelada, com olhos esbugalhados, como se estivesse com muita raiva, muito ódio... e isso me assustava.
Os adultos diziam que o sobradão era mal assombrado, que viviam espíritos, antigos donos que morreram e, não conseguindo desvencilhar-se de seus bens materiais, permaneceram na casa. Havia muitas histórias que meu pai e meus tios contavam, quando sentávamos diante de uma fogueira, no terreno baldio em frente de casa. Nem preciso dizer o medo que eu sentia, não é mesmo? Para conseguir dormir nas noites, seguidas das histórias, eu rezava um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, pedindo a Deus que iluminasse aquela mulher que eu via à janela.
O fato é que, toda vez que passava por lá, tentava abaixar a cabeça, mas a curiosidade me fazia erguer os olhos. E lá estava ela, arreganhando os dentes pra mim.
O bairro todo, décadas antes, era uma grande fazenda. Suíços, alemães e ingleses saíam de suas mansões, em bairros distantes, e iam caçar na fazenda. Talvez seja devido a isso, que muitos fixaram residência no bairro. Ainda hoje há muitas mansões, algumas com suas famílias ricas, outras, em decadência.
O sobradão “assombrado” devia ser dessa época, mas humilde em relação às casas dos estrangeiros. Penso até que, por estar próximo ao córrego, que dividia a fazenda, poderia ser um ponto de descanso para eles. Sei lá.
XXXXXXXXXX
Assinar:
Comentários (Atom)
