sexta-feira, 10 de abril de 2009

A carta.

“Amada esposa e queridos filhos,

Minha saúde é precária.
Estou há muito tempo neste hospital e creio que minha próxima morada será o cemitério.
Em nenhum momento perdi a esperança de tornar a revê-los. Sei que ainda é possível, desde que vocês venham visitar-me. Não temam e não se impressionem com o estado em que me encontro.
Já não tenho mais um fio de cabelo. São tantas operações e tantas cicatrizes que não há lugar para qualquer fio crescer. Às vezes, me sinto uma cobaia nas mãos de cientistas. Tenho muito dó dos ratinhos que são usados em experiências. Hoje me sinto um desses ratinhos.
Meu amado amigo, André, compreende o que estou passando aqui e quanta saudade sinto de vocês. Ofereça-lhe um café, e ele relatará todos os momentos que vivemos juntos neste hospício.
Tenho muito medo de morrer, sem ao menos revê-los.
Amo vocês, amo com toda força de meu coração. Para todo o sempre levarei a imagem do rosto de vocês, sorrindo nos muitos momentos de felicidade que passamos juntos.
Saudades, saudades, saudades!!”


Jackie tinha visto Dom Pedro me ditar a carta, mas não disse nada. Notei que ela estava emocionada.

-- Você está chorando, Jackie!
-- Sou humana como vocês. Não notou ainda?
-- Eu levarei essa carta à família dele.
-- Não existe família, André!
-- Claro que existe. Eles não vêm visitá-lo há muito tempo.
-- André!! Andando pelos corredores aqui do quinto andar, você nunca reparou em policiais que ficam em pé, à porta de determinados quartos?
-- Sim, várias vezes. E são até simpáticos. Já conversei com muitos deles. E também já sei que aqui há criminosos se recuperando de alguma operação, para depois serem presos.
-- Ué! Quem te contou isso?
-- Eu não nasci ontem, Jackie!
-- O Sr. Fabrício matou a família toda: esposa, filhos e pais. Em nenhum momento, em que ele estava te ditando a carta, estava lúcido.
-- Você está me dizendo que o Sr. Fabrício é o meu amigo Dom Pedro?
-- Dom Pedro?
-- Sim, ele me disse que mora no Ipiranga, na Rua Leais Paulistanos.
-- Os pais dele moravam lá. Foi naquela casa que foram assassinados por ele. Ele morava com a família na zona leste.
-- Acha que ele está arrependido do que fez, Jackie?
-- Só se arrepende aquele que está em seu perfeito juízo, André! Ele não se lembra do que fez, não se lembra de que tinha uma família. Quando há visitas aos outros pacientes, ele sempre chora porque espera que alguém o visite. O que nunca acontece.

Quanta tristeza!!!! Conheci um homem que assassinou sua família e que não tem nem ideia do que fez. Suas palavras foram comoventes, chorei em muitos momentos. Quase senti raiva de sua esposa por não tê-lo visitado e nem deixar que seus filhos fossem vê-lo.

Certamente, o quinto andar do hospital era o quinto dos infernos. Sobrevivi, graças a Jackie que sempre foi o meu anjinho da guarda.

Assim que voltei à rotina, pedi ao padre que rezasse uma missa pela alma sofrida do Sr. Fabrício.

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