Agosto, 1978. Meu primeiro emprego como professor.
Trinta alunos. Assim que entrei, todos se levantaram e se posicionaram ao lado de suas carteiras.
O respeito era uma prática comum. Foi assim comigo, quando eu era aluno.
Turma de 6ª série, horário noturno. Idades entre 14 e 22 anos. Eu também era novo. Lembro-me de meu nervosismo, por causa de minha timidez. Era visível minhas mãos tremendo, o que provocou risos dos alunos. Respirei fundo, aguardei alguns segundos, controlei-me.
-- Boa noite a todos!
-- Boa noite, professor!
-- Meu nome é André, tenho 21 anos, sou professor de inglês e português. A partir de hoje até o fim do ano, lecionarei inglês. A professora de vocês pediu afastamento, por estar enfrentando problemas de saúde. Espero que eu consiga atingir os meus e os seus objetivos.
Não tive problemas com a classe. Eles estavam mais preocupados em saber traduções de músicas. Em pouco tempo, conquistei a simpatia deles.
Odilon, 21 anos, amigo de fanfarras e de sala de aula, era agora meu aluno.
Trinta alunos. Assim que entrei, todos se levantaram e se posicionaram ao lado de suas carteiras.
O respeito era uma prática comum. Foi assim comigo, quando eu era aluno.
Turma de 6ª série, horário noturno. Idades entre 14 e 22 anos. Eu também era novo. Lembro-me de meu nervosismo, por causa de minha timidez. Era visível minhas mãos tremendo, o que provocou risos dos alunos. Respirei fundo, aguardei alguns segundos, controlei-me.
-- Boa noite a todos!
-- Boa noite, professor!
-- Meu nome é André, tenho 21 anos, sou professor de inglês e português. A partir de hoje até o fim do ano, lecionarei inglês. A professora de vocês pediu afastamento, por estar enfrentando problemas de saúde. Espero que eu consiga atingir os meus e os seus objetivos.
Não tive problemas com a classe. Eles estavam mais preocupados em saber traduções de músicas. Em pouco tempo, conquistei a simpatia deles.
Odilon, 21 anos, amigo de fanfarras e de sala de aula, era agora meu aluno.
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1969 a 1980. Zona sul de São Paulo.
Passei minha adolescência num bairro de classe média, estudando numa escola pública. Meu pai tinha um pequeno comércio no bairro e, tanto ele quanto minha mãe, trabalharam muito. Foi uma época difícil, ditadura militar.
Inúmeras vezes, vi meu pai sendo conduzido à delegacia de polícia, tal qual um marginal, por não permitir que agentes policiais consumissem gratuitamente produtos que ele colocara com tanto esforço em seu comércio.
Eu estudava próximo de minha casa. A escola não tinha quadra esportiva. Nas aulas de Educação Física, íamos às 7h da manhã, em um clube, que cedia a quadra à escola. Acordava às 6h, vestia meu uniforme: shorts branco, camiseta branca, meias brancas e tênis branco. Isso valia para qualquer época do ano: verão, inverno, primavera ou outono. Acompanhava meu pai até o comércio, ajudava-o a abrir as portas de aço, varria o salão e saía correndo para a aula de educação física. Chegava sempre atrasado, 5 ou dez minutos.
O professor era rigoroso. Não aceitava atrasos nem agasalhos. Portava uma corrente de ouro e quando me via chegar, ordenava aos demais que fizessem um corredor polonês para me recepcionar. Ao final do corredor, ele. Sentado num banquinho de madeira, girando a corrente, pegava-me pelo braço e, sem dó, castigava-me com “correntadas” em minhas pernas, braços e costas que chegavam a sangrar.
Entretanto, minha dor maior não eram as feridas. Era a vergonha de chegar em casa, com aqueles vergões enormes. Na verdade, eu sentia medo, porque sabia que eu poderia ser castigado em casa por meus pais que não admitiam falta de respeito com adulto ou professor algum.
Ao retornar para casa, fazia um trajeto maior, para não passar em frente ao mercadinho de meu pai. Entrava escondido em casa. Ficava à porta da cozinha, esperando uma distração de minha mãe, para entrar.
Quanto ódio eu sentia daquele professor!!! Nunca quis saber o porquê de eu chegar atrasado. As aulas eram somente na sexta-feira, graças a Deus. Era um homem alto, forte, ruim. Apenas uma vez por semana, mas eu tremia antecipadamente nos dias anteriores, porque sabia que passaria pelo corredor e pela corrente dele.
Quantas vezes, em pleno verão, um calor sufocante, eu ia brincar com meus amigos, usando calças compridas!!! Camisas que cobriam braços e costas!!!
Certa vez, não consegui passar despercebido por minha mãe. Ela ficou horrorizada, chegando inclusive a chorar. Perguntou-me quem tinha feito tamanha maldade. Chorei também, mas não respondi. Pegou-me carinhosamente pela mão e levou-me a meu pai.
-- Filho, quem fez isso com você?
Havia vergões sangrando, outros já cicatrizados, manchas roxas em meu corpo, orelhas sangrando, de tanto puxão rasgou a pele.
-- É por isso que você sempre usa calças e camisas longas para brincar com seus amigos?
-- Sim, pai.
-- Quem fez isso, filho?
Não respondi.
A semana se passou rapidamente e a sexta-feira chegou novamente. A mesma rotina de sempre: acordar às 6h, ajudar meu pai no mercadinho, chegar atrasado à aula de educação física.
Ao chegar, o corredor polonês já me esperava. Naquele tempo, os tênis mais se pareciam com botas, duras. Um chute bem dado significava mais uma ferida profunda em minhas pernas e em minha alma.
Suspirei triste. Afinal de contas, muitos que formavam aquele corredor eram meus amigos. Por que me batiam, se nada tinha feito a eles? Hoje, sei que eles tinham medo também. Se não batessem, seriam eles que entrariam no corredor e na corrente do professor.
Entrei cabisbaixo, protegendo a cabeça, como sempre, no corredor, e caminhei até o professor. Curiosamente, ninguém me chutou ou bateu em minhas costas, o que causou indignação do professor.
-- Bando de frouxos!!! Arrebentem com ele!!
Meus colegas e amigos se dispersaram, encostando-se às grades de proteção, todos quietos, enquanto o professor se dirigia a mim, balançando furiosamente sua corrente.
Antes de ele levantar a mão, meu pai e muitos outros pais apareceram à entrada da quadra.
-- Vai, professor!! Bata em meu filho! Nós queremos ver.
O professor, covarde, recuou.
-- Vai, seu filho da puta!! Bata em meu filho agora, na minha presença.
Meu pai era um homem de estatura média, gordinho, mas muito forte.
-- Vai, canalha!! Pega essa merda de corrente e marque mais o corpo dele!!
O professor foi encurralado no canto da quadra. Era ele e meu pai, apenas. Os outros adultos ficaram observando.
O ódio de meu pai era tanto que, mesmo depois de ter derrubado o professor, de ter-lhe quebrado o nariz e alguns dentes, despiu-o à frente de todos. Arrancou-lhe a corrente do pescoço, e bateu sem dó alguma no corpo daquele infeliz, que chorava feito criança.
As aulas das semanas seguintes foram dadas por outro professor, porque aquele tinha solicitado licença ao médico.
Agosto, 1978. Sala dos professores, intervalo de aulas.
-- Professor! Você é jovem. Não dê sequência à sua carreira. Ser professor hoje não vale mais a pena. O Estado nos paga mal.
Professora Maria José tentava me desanimar. Outrora, tinha sido minha professora, na mesma escola onde naquela época eu lecionava. Muitos professores que lá estavam eu já os conhecia. Foram os meus mestres.
-- Professor!! Não dê ouvidos a ela. Já está para se aposentar e está a cada dia mais ranzinza.
Ri, porque ela sempre foi ranzinza.
Olhei a sala dos professores. Do mesmo jeito de antes, os mesmos detalhes, os mesmos quadros. E meus mestres ali me encorajando.
O Diretor, Dr. José, foi nos fazer uma visita. Depois de cumprimentar a todos, pediu que eu o acompanhasse até a sua sala. O Dr. José sempre foi admirado por alunos, pais, funcionários e professores. Era baixo, gordo, calvo, inteligentíssimo, bondoso, amigo.
-- André!! No tempo em que você estudava aqui, a direção era outra. Permanecem na escola os secretários, professores e alguns alunos, seus amigos, da época.
-- Sim! O Odilon, meu amigo, está aqui ainda. Diz que gosta tanto daqui que, quando chega o fim do ano, não realiza as provas, porque deseja continuar no ano seguinte.
-- É isso mesmo, André. Além dele, existem as mocinhas. Muitas têm a sua idade; outras, um pouco mais jovens. Será natural que elas se interessem por você. Você, porém, é um professor e deve exigir respeito.
-- Eu sei disso, Dr. José. Quanto a isso não se preocupe.
-- Outra coisa, meu jovem professor. Você se lembra do Professor Valdir, de Educação Física?
Como não haveria de me lembrar, se ainda em meu corpo havia cicatrizes?
-- Lembro-me dele sim, apontando a cicatriz em meu ombro.
-- André!! Você é um homem agora. Alto, forte, jovem. O professor Valdir ainda leciona nesta escola. Está um velho, alcoólatra, quase se aposentando.
-- Quais são os dias em que o encontrarei na sala dos professores?
-- Às quintas e sextas-feiras. Eu te peço que entre na sala e faça um cumprimento geral. Finja que não o vê. Eu sei que você guarda rancor dele, mas eu não gostaria de ter de te afastar por algum motivo. Ele é um professor concursado do Estado; você é um professor substituto.
-- Dr. José! Não sei qual será a minha reação ao reencontrá-lo. Procurarei manter-me afastado da sala, nestes dias. Ficarei no pátio, junto aos alunos.
-- Se quiser, venha à minha sala. Tomaremos café e conversaremos outros assuntos.
E assim foi. Às quintas-feiras, eu passava o intervalo na sala do Dr. José; às sextas-feiras, passava junto aos alunos no pátio, conversando, contando piadas, orientando, tirando dúvidas, cantando etc.
Em final de novembro, sexta-feira, no pátio, tocando violão e cantando MPB, o professor Valdir gritou a quem quisesse ouvir, apontando para mim:
-- Meu único objetivo é matar seu pai.
Alguns alunos me pediram calma. O inspetor que estava no pátio correu para chamar o diretor.
-- Eu farei com você, Valdir, o que meu pai não fez. – disse-lhe, já próximo a ele, quase encostando meu dedo em riste em seu rosto.
-- Não tenho medo nem de você nem de seu pai.
-- Não tem, não é? Tanto que chorou feito criança depois da surra que ele te deu. Você sempre foi um covarde. Deveria estar preso, pois é um marginal travestido de professor. Tornou-se um velho antes do tempo, bebum, anda aos trapos, sem dentes. Não devemos nunca ter dó de seres humanos, porque é um sentimento que não cabe a ninguém. Você, para mim, é um ninguém.
-- Eu devia ter te arrebentado naquela época.
-- Sempre há tempo para isso, Valdir. Vamos sair agora da escola. Venha!! Te convido para acertar as nossas pendências lá fora. Longe dos olhos de todos.
-- Eu não vou para lugar nenhum.
-- É claro que não vai. Você sempre foi covarde. Batia em criança, em jovens e, quiçá, em mulheres, mas morre de medo de encarar um homem. Arrebente-me agora. Temos a mesma altura, apesar de que você já está curvado agora. Você é uma figura triste, Valdir.
-- Fique aqui no pátio, se for homem de verdade. Tenho um presentinho para você lá na sala dos professores. Vou buscá-lo. Não saia daí.
Foi contido pelo diretor, pelos professores e por alunos. Seu armário foi arrombado pelo inspetor. Lá dentro estava o meu presente: um revólver 38.
Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam o bem.
Usei a sua corrente de ouro para amarrar-lhe as mãos, enquanto aguardávamos a chegada da polícia. Nunca mais o vi, depois disso.
Lecionei nessa escola por mais cinco anos. Consegui formar meu amigo Odilon.
1969 a 1980. Zona sul de São Paulo.
Passei minha adolescência num bairro de classe média, estudando numa escola pública. Meu pai tinha um pequeno comércio no bairro e, tanto ele quanto minha mãe, trabalharam muito. Foi uma época difícil, ditadura militar.
Inúmeras vezes, vi meu pai sendo conduzido à delegacia de polícia, tal qual um marginal, por não permitir que agentes policiais consumissem gratuitamente produtos que ele colocara com tanto esforço em seu comércio.
Eu estudava próximo de minha casa. A escola não tinha quadra esportiva. Nas aulas de Educação Física, íamos às 7h da manhã, em um clube, que cedia a quadra à escola. Acordava às 6h, vestia meu uniforme: shorts branco, camiseta branca, meias brancas e tênis branco. Isso valia para qualquer época do ano: verão, inverno, primavera ou outono. Acompanhava meu pai até o comércio, ajudava-o a abrir as portas de aço, varria o salão e saía correndo para a aula de educação física. Chegava sempre atrasado, 5 ou dez minutos.
O professor era rigoroso. Não aceitava atrasos nem agasalhos. Portava uma corrente de ouro e quando me via chegar, ordenava aos demais que fizessem um corredor polonês para me recepcionar. Ao final do corredor, ele. Sentado num banquinho de madeira, girando a corrente, pegava-me pelo braço e, sem dó, castigava-me com “correntadas” em minhas pernas, braços e costas que chegavam a sangrar.
Entretanto, minha dor maior não eram as feridas. Era a vergonha de chegar em casa, com aqueles vergões enormes. Na verdade, eu sentia medo, porque sabia que eu poderia ser castigado em casa por meus pais que não admitiam falta de respeito com adulto ou professor algum.
Ao retornar para casa, fazia um trajeto maior, para não passar em frente ao mercadinho de meu pai. Entrava escondido em casa. Ficava à porta da cozinha, esperando uma distração de minha mãe, para entrar.
Quanto ódio eu sentia daquele professor!!! Nunca quis saber o porquê de eu chegar atrasado. As aulas eram somente na sexta-feira, graças a Deus. Era um homem alto, forte, ruim. Apenas uma vez por semana, mas eu tremia antecipadamente nos dias anteriores, porque sabia que passaria pelo corredor e pela corrente dele.
Quantas vezes, em pleno verão, um calor sufocante, eu ia brincar com meus amigos, usando calças compridas!!! Camisas que cobriam braços e costas!!!
Certa vez, não consegui passar despercebido por minha mãe. Ela ficou horrorizada, chegando inclusive a chorar. Perguntou-me quem tinha feito tamanha maldade. Chorei também, mas não respondi. Pegou-me carinhosamente pela mão e levou-me a meu pai.
-- Filho, quem fez isso com você?
Havia vergões sangrando, outros já cicatrizados, manchas roxas em meu corpo, orelhas sangrando, de tanto puxão rasgou a pele.
-- É por isso que você sempre usa calças e camisas longas para brincar com seus amigos?
-- Sim, pai.
-- Quem fez isso, filho?
Não respondi.
A semana se passou rapidamente e a sexta-feira chegou novamente. A mesma rotina de sempre: acordar às 6h, ajudar meu pai no mercadinho, chegar atrasado à aula de educação física.
Ao chegar, o corredor polonês já me esperava. Naquele tempo, os tênis mais se pareciam com botas, duras. Um chute bem dado significava mais uma ferida profunda em minhas pernas e em minha alma.
Suspirei triste. Afinal de contas, muitos que formavam aquele corredor eram meus amigos. Por que me batiam, se nada tinha feito a eles? Hoje, sei que eles tinham medo também. Se não batessem, seriam eles que entrariam no corredor e na corrente do professor.
Entrei cabisbaixo, protegendo a cabeça, como sempre, no corredor, e caminhei até o professor. Curiosamente, ninguém me chutou ou bateu em minhas costas, o que causou indignação do professor.
-- Bando de frouxos!!! Arrebentem com ele!!
Meus colegas e amigos se dispersaram, encostando-se às grades de proteção, todos quietos, enquanto o professor se dirigia a mim, balançando furiosamente sua corrente.
Antes de ele levantar a mão, meu pai e muitos outros pais apareceram à entrada da quadra.
-- Vai, professor!! Bata em meu filho! Nós queremos ver.
O professor, covarde, recuou.
-- Vai, seu filho da puta!! Bata em meu filho agora, na minha presença.
Meu pai era um homem de estatura média, gordinho, mas muito forte.
-- Vai, canalha!! Pega essa merda de corrente e marque mais o corpo dele!!
O professor foi encurralado no canto da quadra. Era ele e meu pai, apenas. Os outros adultos ficaram observando.
O ódio de meu pai era tanto que, mesmo depois de ter derrubado o professor, de ter-lhe quebrado o nariz e alguns dentes, despiu-o à frente de todos. Arrancou-lhe a corrente do pescoço, e bateu sem dó alguma no corpo daquele infeliz, que chorava feito criança.
As aulas das semanas seguintes foram dadas por outro professor, porque aquele tinha solicitado licença ao médico.
Agosto, 1978. Sala dos professores, intervalo de aulas.
-- Professor! Você é jovem. Não dê sequência à sua carreira. Ser professor hoje não vale mais a pena. O Estado nos paga mal.
Professora Maria José tentava me desanimar. Outrora, tinha sido minha professora, na mesma escola onde naquela época eu lecionava. Muitos professores que lá estavam eu já os conhecia. Foram os meus mestres.
-- Professor!! Não dê ouvidos a ela. Já está para se aposentar e está a cada dia mais ranzinza.
Ri, porque ela sempre foi ranzinza.
Olhei a sala dos professores. Do mesmo jeito de antes, os mesmos detalhes, os mesmos quadros. E meus mestres ali me encorajando.
O Diretor, Dr. José, foi nos fazer uma visita. Depois de cumprimentar a todos, pediu que eu o acompanhasse até a sua sala. O Dr. José sempre foi admirado por alunos, pais, funcionários e professores. Era baixo, gordo, calvo, inteligentíssimo, bondoso, amigo.
-- André!! No tempo em que você estudava aqui, a direção era outra. Permanecem na escola os secretários, professores e alguns alunos, seus amigos, da época.
-- Sim! O Odilon, meu amigo, está aqui ainda. Diz que gosta tanto daqui que, quando chega o fim do ano, não realiza as provas, porque deseja continuar no ano seguinte.
-- É isso mesmo, André. Além dele, existem as mocinhas. Muitas têm a sua idade; outras, um pouco mais jovens. Será natural que elas se interessem por você. Você, porém, é um professor e deve exigir respeito.
-- Eu sei disso, Dr. José. Quanto a isso não se preocupe.
-- Outra coisa, meu jovem professor. Você se lembra do Professor Valdir, de Educação Física?
Como não haveria de me lembrar, se ainda em meu corpo havia cicatrizes?
-- Lembro-me dele sim, apontando a cicatriz em meu ombro.
-- André!! Você é um homem agora. Alto, forte, jovem. O professor Valdir ainda leciona nesta escola. Está um velho, alcoólatra, quase se aposentando.
-- Quais são os dias em que o encontrarei na sala dos professores?
-- Às quintas e sextas-feiras. Eu te peço que entre na sala e faça um cumprimento geral. Finja que não o vê. Eu sei que você guarda rancor dele, mas eu não gostaria de ter de te afastar por algum motivo. Ele é um professor concursado do Estado; você é um professor substituto.
-- Dr. José! Não sei qual será a minha reação ao reencontrá-lo. Procurarei manter-me afastado da sala, nestes dias. Ficarei no pátio, junto aos alunos.
-- Se quiser, venha à minha sala. Tomaremos café e conversaremos outros assuntos.
E assim foi. Às quintas-feiras, eu passava o intervalo na sala do Dr. José; às sextas-feiras, passava junto aos alunos no pátio, conversando, contando piadas, orientando, tirando dúvidas, cantando etc.
Em final de novembro, sexta-feira, no pátio, tocando violão e cantando MPB, o professor Valdir gritou a quem quisesse ouvir, apontando para mim:
-- Meu único objetivo é matar seu pai.
Alguns alunos me pediram calma. O inspetor que estava no pátio correu para chamar o diretor.
-- Eu farei com você, Valdir, o que meu pai não fez. – disse-lhe, já próximo a ele, quase encostando meu dedo em riste em seu rosto.
-- Não tenho medo nem de você nem de seu pai.
-- Não tem, não é? Tanto que chorou feito criança depois da surra que ele te deu. Você sempre foi um covarde. Deveria estar preso, pois é um marginal travestido de professor. Tornou-se um velho antes do tempo, bebum, anda aos trapos, sem dentes. Não devemos nunca ter dó de seres humanos, porque é um sentimento que não cabe a ninguém. Você, para mim, é um ninguém.
-- Eu devia ter te arrebentado naquela época.
-- Sempre há tempo para isso, Valdir. Vamos sair agora da escola. Venha!! Te convido para acertar as nossas pendências lá fora. Longe dos olhos de todos.
-- Eu não vou para lugar nenhum.
-- É claro que não vai. Você sempre foi covarde. Batia em criança, em jovens e, quiçá, em mulheres, mas morre de medo de encarar um homem. Arrebente-me agora. Temos a mesma altura, apesar de que você já está curvado agora. Você é uma figura triste, Valdir.
-- Fique aqui no pátio, se for homem de verdade. Tenho um presentinho para você lá na sala dos professores. Vou buscá-lo. Não saia daí.
Foi contido pelo diretor, pelos professores e por alunos. Seu armário foi arrombado pelo inspetor. Lá dentro estava o meu presente: um revólver 38.
Um revólver. Símbolo da extrema covardia de pessoas que não visam o bem.
Usei a sua corrente de ouro para amarrar-lhe as mãos, enquanto aguardávamos a chegada da polícia. Nunca mais o vi, depois disso.
Lecionei nessa escola por mais cinco anos. Consegui formar meu amigo Odilon.
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