Amigos universais.
Já restabelecido na vida, voltei às ruas para me encontrar com o amigo Sombra. Minha intenção era ajudá-lo a encontrar uma casinha, comprar-lhe roupas novas, até que se restabelecesse também.
Sombra foi mais que um amigo. Foi meu anjo da guarda. Por viver há mais tempo na mendicância, conhecia todos os perigos e orientava-me. Várias vezes vi a morte passar rente a mim e, apesar de eu querê-la, Sombra fingia que estava brigando comigo, e os marginais se afastavam. Fiquei com o olho roxo mais de uma vez.
-- É melhor um olho roxo com um soco desferido por mim do que ficar sem o olho ou a vida, se eles te pegassem.
Não conseguia encontrá-lo. Alguns conhecidos diziam que havia morrido de desgosto. Sim, isso era possível. Mas ele estava vivo, eu sabia, sentia.
Encontrei-o, finalmente, em um bairro perto de minha casa. Foi uma alegria. Insisti em que ele entrasse em meu carro e levei-o a meu apartamento. Tomou um banho quente, restaurador, vestiu roupas novas.
-- Sombra!! Você viu o clarão naquele dia?
-- Eu vi, professor! Vi sua filha de mãos dadas com meu filho. Ele tentou me convencer a ir embora também.
-- Poxa, Sombra!! Por que você não foi?
-- Para onde eu iria?
-- Inicialmente ao abrigo. De lá me telefonaria. Você tem até o endereço de minha casa.
-- Estou morrendo, amigo! – confessou-me, rindo e tossindo muito.
-- Já conversamos sobre o nosso sofrimento. Seu filho sofre também.
-- Sim, ele me disse. Em breve, estaremos juntos.
-- Você voltará a trabalhar e daí poderá morrer decentemente.
-- Existe esse tipo de morte, professor?
-- Você entendeu o que eu quis dizer. Você tem mais de cinquenta anos. Não trabalhará mais como Oficial de Justiça, mas é inteligente. Pode trabalhar ainda como revisor de textos em editoras.
-- André! Não há mais tempo nem para pagar as roupas novas que me emprestou.
Disse isso e tossiu. Uma golfada de sangue molhou a sua mão. Levei-o ao hospital. Após exames específicos, o médico confirmou o que ele já tinha me dito.
-- Seu amigo não tem mais tempo de vida. Não sou Deus para prever quando ele morrerá, mas pela minha experiência e o estado avançado da doença, poderá falecer em poucos dias. O senhor não notou diferença de timbre na voz dele?
-- Notei, doutor!
-- O câncer está generalizado.
Sombra morreu dois dias depois no hospital... antes de seu último suspiro, inclinou a cabeça.
Aproximei meu ouvido de sua boca.
-- Olhe quem veio me buscar!
Sorriu.
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