terça-feira, 31 de março de 2009

Amigos universais.

Já restabelecido na vida, voltei às ruas para me encontrar com o amigo Sombra. Minha intenção era ajudá-lo a encontrar uma casinha, comprar-lhe roupas novas, até que se restabelecesse também.

Sombra foi mais que um amigo. Foi meu anjo da guarda. Por viver há mais tempo na mendicância, conhecia todos os perigos e orientava-me. Várias vezes vi a morte passar rente a mim e, apesar de eu querê-la, Sombra fingia que estava brigando comigo, e os marginais se afastavam. Fiquei com o olho roxo mais de uma vez.

-- É melhor um olho roxo com um soco desferido por mim do que ficar sem o olho ou a vida, se eles te pegassem.

Não conseguia encontrá-lo. Alguns conhecidos diziam que havia morrido de desgosto. Sim, isso era possível. Mas ele estava vivo, eu sabia, sentia.

Encontrei-o, finalmente, em um bairro perto de minha casa. Foi uma alegria. Insisti em que ele entrasse em meu carro e levei-o a meu apartamento. Tomou um banho quente, restaurador, vestiu roupas novas.

-- Sombra!! Você viu o clarão naquele dia?

-- Eu vi, professor! Vi sua filha de mãos dadas com meu filho. Ele tentou me convencer a ir embora também.

-- Poxa, Sombra!! Por que você não foi?

-- Para onde eu iria?

-- Inicialmente ao abrigo. De lá me telefonaria. Você tem até o endereço de minha casa.

-- Estou morrendo, amigo! – confessou-me, rindo e tossindo muito.

-- Já conversamos sobre o nosso sofrimento. Seu filho sofre também.

-- Sim, ele me disse. Em breve, estaremos juntos.

-- Você voltará a trabalhar e daí poderá morrer decentemente.

-- Existe esse tipo de morte, professor?

-- Você entendeu o que eu quis dizer. Você tem mais de cinquenta anos. Não trabalhará mais como Oficial de Justiça, mas é inteligente. Pode trabalhar ainda como revisor de textos em editoras.

-- André! Não há mais tempo nem para pagar as roupas novas que me emprestou.

Disse isso e tossiu. Uma golfada de sangue molhou a sua mão. Levei-o ao hospital. Após exames específicos, o médico confirmou o que ele já tinha me dito.

-- Seu amigo não tem mais tempo de vida. Não sou Deus para prever quando ele morrerá, mas pela minha experiência e o estado avançado da doença, poderá falecer em poucos dias. O senhor não notou diferença de timbre na voz dele?

-- Notei, doutor!

-- O câncer está generalizado.

Sombra morreu dois dias depois no hospital... antes de seu último suspiro, inclinou a cabeça.
Aproximei meu ouvido de sua boca.

-- Olhe quem veio me buscar!

Sorriu.

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