O Convento – Final
“Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê.
Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei por quê.”
(Camões)
O Convento já fazia parte de minha vida, mas, decididamente, eu tinha que me afastar. Seria, então, a última vez que eu entraria lá, pelo menos por algum tempo. Procuraria uma creche qualquer, no futuro, e trabalharia como voluntário. Dessa forma, estaria junto às crianças, faria algo útil para elas.
Chegamos. Fui recebido pelo Marquinhos, que me levou ao jardim interno. Fefê recepcionou o casal, e ficaram no jardim externo.
Vinte minutos depois, uma freira nos convocou para irmos ao jardim externo.
-- Ué! Será que já levaram a Fefê, titio? Por que temos de ir ao jardim externo? É lá que estava a Fefê, titio!
-- Marquinhos...
-- Será que a Fefê já foi embora para sempre, titio?
Começou a chorar, triste. Peguei-o no colo.
-- Marquinhos! Olha pra mim!
Ele se agarrou ao meu pescoço, colocando sua cabecinha em meu ombro, chorando muito.
-- Marquinhos! Você não se lembra do que minha filha disse para mim?
Parou de chorar. Tirou a cabeça de meu ombro e olhou para mim, entre sorrisos e soluços. Sorri pra ele também. Confiante, pediu que eu o colocasse no chão. Deu-me a mão e fomos caminhando até o jardim externo. Ao chegarmos, apresentei-lhe ao casal, enquanto a Fefê tentava escalar meu colo.
Sra. Judite, carinhosamente, pegou-o e fê-lo sentar em sua perna. Coloquei a Fefê na perna do Sr. André, que olhando Marquinhos, fixamente, disse-lhe:
-- Filho! Vamos para casa!
Bem, eu não preciso expressar o que senti naquele momento, como também não preciso escrever o que estou sentindo neste momento. Você já me conhece.
-- Titio! Eu tenho papai e mamãe e uma irmãzinha.
-- Para sempre, Marquinhos!
-- O senhor vai nos visitar?
-- O titio André sempre irá em nossa casa. – respondeu-lhe o papai dele – Agora iremos ao cemitério para rezar e depositar flores para os seus pais.
Saímos os cinco. Os dois nos braços de seus pais.
-- Titio! Eu nunca me esquecerei do senhor.
-- Acho bom mesmo, Marquinhos, porque, se esquecer vai apanhar no bumbum.
Soltou uma deliciosa gargalhada.
“Livre como o sonho
Alegre como a luz
Desejo e fantasia
Em plena harmonia.
Eu sou o teu homem, sou teu pai, teu filho
Sou aquele que te tem amor
Sou teu par, o teu melhor amigo
Vou contigo seja aonde for
E onde estiver, estou.”
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