sexta-feira, 1 de maio de 2009

Do restaurante à paz de espírito

Ao sair do restaurante, decidi não voltar a São Paulo. Resolvi ficar no hotel, em Praia Grande, por alguns dias.

A noite estava estrelada, a rodovia estava tranquila. Sentia muita paz, uma felicidade misturada à saudade, mas lembranças boas por saber que as crianças já tinham uma família, sensação de equilíbrio entre razão e sentimentos. Liguei o rádio e, por incrível que pareça, estava se iniciando a música All I ask of you, de Weber Andrew, Chris Harl e Richard Herry Zachar, interpretada por Sarah Brightman e Steve Barton.

E segui o trajeto, cantando a versão de Nelson Motta, Tudo que se quer.

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Acordei às 8h, segunda-feira, e fui agradecer a Deus, com os pés na água, braços erguidos...

...e viajei, como se alçasse vôo. Atravessei o oceano e aterrissei à margem do Rio Douro, em Portugal. Ali me vi criança, fascinado pela beleza e pelo ar puro da região. Olhei morro acima e vi a Quinta de meus avós maternos, com a grande casa no meio, entre videiras, cerejeiras e outras árvores frutíferas...

...alcei vôo novamente e pousei dentro da adega de meu avô, com seus enormes barris de vinho. Fiquei escondido atrás de uma coluna, enquanto meu avô me chamava, e eu, criança, conversava com ele.

-- Andrezinho! Senta nesse banquinho de madeira, em minha frente.

Meu avô era um homem forte e alto. Mãos ásperas, pele enrugada pelo sol, trabalhador da terra. Andrezinho caminhou até ele e sentou-se.

-- Tu já tomaste vinho alguma vez em tua vida?

-- Não, vovô! Sou muito pequeno ainda.

-- Tens vontade?

-- Tenho, vovô!

Na adega, onde se apuravam o vinho, deixando-o envelhecer, havia também um cômodo, onde a família defumava as carnes e os peixes.

-- Toma cá esta fatia de pernil e esta pequena taça de vinho. Come-o e aprecia o líquido em pequenos goles.

Foi a primeira vez que comi uma carne defumada e bebi vinho. Eu tinha cinco anos. Lembro-me até hoje do odor da adega, do cheiro gostoso do defumador, um fogão à lenha. Vi-me, minutos depois, levantando-me do banquinho e caindo de tonturas. Meu avô pegou-me no colo e levou-me, rindo muito, para a casa principal. Saí detrás da coluna, rindo um riso saudoso, e acompanhei seus passos.

Quando minha avó e minha mãe viram-me desacordado nos braços de meu avô, não se contiveram:

-- Pai, o que fizeste a ele? O menino está cheirando a álcool!!

-- Dei ao meu pequeno um cálice de vinho. Está na hora de ele se tornar um homem.

-- Velho rabugento e sem juízo!! Sai daqui antes que eu te meta este rolo na tua cabeça! – disse minha avó, ameaçando-o com um rolo de macarrão.

Eu, adulto, estava sentado na cadeira, rindo muito. De repente, senti-me flutuar, e uma forte brisa carregou-me por sobre o Douro, sobre o oceano, fazendo-me aterrissar, suavemente, nas areias de Praia Grande, São Paulo, Brasil...
...agradeci mais uma vez a Deus e voltei ao hotel para tomar o café da manhã.