quarta-feira, 15 de abril de 2009

Minha amiga – II

Laís desmaiou na poltrona e por lá ficou até se levantar para ir ao banheiro, duas horas depois. Como ainda estava embriagada, foi topando em todos os móveis até chegar ao toalete.

Eu estava cochilando no sofá e acordei com o barulho.

-- Minha calcinha ainda está molhada!! – gritou para o prédio inteiro ouvir.

Fui à porta do banheiro.

-- Você quer uma cueca emprestada?

-- Dobra bem dobradinha sua cueca e enfia naquele lugar do seu corpo.

-- Malcriada!! Não foi essa a educação que seu pai lhe deu.

Abriu a porta do banheiro e enfezada me empurrou.

-- Estou machucada, André!! Ofendida! Magoada! Muito triste com você.

-- Eu sei. Você tem razão.

-- Não, você não sabe. Só pensa em seus sentimentos, nunca se importou com os meus.

-- Somos adultos, Laís. Eu sempre te afirmei que somos apenas amigos. Nunca te escondi nada. Nunca te iludi com palavras de amor ou sentimentos falsos.

Laís desabou, chorando, no sofá. Um choro sentido, triste mesmo. Depois, sentou-se, encostou sua cabeça em meu ombro e adormeceu. Ajeitei-a, ali mesmo, e deixei-a descansando.

Ao amanhecer, Laís despertou sorrindo, como se nada tivesse acontecido durante a noite. Pediu-me que eu não fosse trabalhar, que passasse o dia com ela. Fiquei feliz com essa nova oportunidade.

Conversamos sobre as crianças durante o café da manhã. Saímos logo em seguida: ela queria ir ao cabeleireiro.

-- Quando chegarmos lá, eu quero que você se desculpe com o Aldoantônio.

-- Aldoantônio? Quem é esse?

-- É o Brian! Aldoantônio é o nome verdadeiro dele.

Não pude deixar de rir.

-- Chame-o de Brian, é o nome dele nas baladas.

-- Tá, mas só se ele te deixar bonita. Se ele fizer alguma besteira em seu rosto, eu acabo com ele.

-- (risos)

Quando entramos no salão, Brian tentou se esconder. Fui até ele.

-- Está melhor hoje, Brian?

Colocou as mãos na cintura.

-- O que você acha, seu brutamontes? – perguntou-me sem me olhar.

-- Deixe-me ver!! Hummm!! Não tem nenhuma marca em seu rosto, nem um ponto roxo em seus braços. A sua bunda está doendo?

Fez menção de colocar o dedo em riste e de falar em voz alta.

-- Se colocar esse dedinho magro no meu rosto, eu quebro, tá? E se der show aqui também, te darei outro chute na bunda. Estou aqui em paz. A Laís quer que eu te peça desculpas, mas não farei isso. Você não estava na casa de suas amiguinhas. Portanto, quem deve pedir desculpas é você. Vamos!! Estou esperando uma retratação sua.

-- Eu te pedir desculpas??? HaHaHaHa!! Nem mortinha, meu bem!

Saiu, rebolando pelo salão.

Laís saiu linda e fomos almoçar. Conversamos a tarde toda e começo da noite.

-- Você é um homem envolvente, André! Sabe que sou apaixonadíssima por você. Sabe, também, que meu pai ficaria feliz se nos casássemos. Tenho certeza, porém, que você também sabe que eu não seria uma boa mãe, que você não me prenderia em casa com as crianças.

Ela tinha razão. Laís não era mulher de ficar presa em casa. Adorava viajar, curtir a companhia de amigos, frequentar as festas da alta sociedade. Nunca passou por sua cabeça ter um filho. Nem dela nem dos outros.

-- Domingo eu irei com você ao Convento, André! O jeito que seus olhos brilham, quando fala das crianças, é de se admirar. Eu quero conhecê-los.

Levei-a para casa. O “seo” Rodrigo, quando me viu, abriu um largo sorriso de satisfação. Conversei um pouco com ele, e voltei a minha casa.

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O casamento.

Eu tinha me esquecido do casamento da filha do Marmitão. Fui à praia, levando apenas bermudas e camisetas e, para variar, sem reservar o hotel. Entretanto, como eu já conhecia as donas, sabia que na rua eu não dormiria,

Dito e feito. Ao chegar, fui para recepção e uma das donas me disse que não havia vaga, mas que à noite “vagaria” uma suíte. Pedi então que guardasse minha mochila (coisa de adolescente, não é?). E saí para dar uma volta na praia e, claro, ficar no quiosque em frente.

Ao passar pelo quiosque, disse ao Marmitão que eu não iria ao casamento, porque esquecera o terno em São Paulo. Convidou-me então para a festa, que seria na casa dele, uma vez que lá, todos estariam de bermuda também.

Aceitei.

Aproveitei a tarde para então comprar um presente aos noivos, no comércio da cidade.

Comprei um aparelho de fondue. Voltei ao hotel e encontrei a outra dona. Pedi a ela que colocasse o presente sobre a mochila. E saí para a praia. O quiosque já estava fechado.

Caminhei pela areia, rezei um pouco olhando o mar, dei um mergulho, e voltei para o hotel, a fim de tomar aquele banho gostoso, e trocar a bermuda molhada.

No caminho, me lembrei de que só daria entrada à suíte à noite. Teria que permanecer com a bermuda molhada.

O jeito foi encontrar um quiosque aberto e ficar por lá até escurecer. Depois iria ao hotel, tomaria um banho e iria à festa com roupa trocada.

Caminhando pelo calçadão, encontrei o pai da noiva...

-- Ô Santista!! Que bom te encontrar!! Fui lá no hotel te procurar.

-- O que houve, Marmitão? -- perguntei, preocupado.

-- Como vão todos de casa à igreja, não vai sobrar ninguém para "pilotar" a churrasqueira. Quebra o galho pro seu amigo aqui! Os convidados vão chegar em casa, depois da igreja, famintos. Você sabe como é, né?

-- Claro, Marmitão!! É comigo mesmo!! Voltarei ao hotel para pegar meu carro.

-- Não!! Vamos pra minha casa e você já começa. Depois, quando a festa terminar, te levarei para o hotel.

E fui para a casa do Marmitão.

Duas horas depois, os convidados começaram a chegar. O churrasco era farto... carnes de todos os tipos... peixes, saladas, refrigerantes, barris de chope. E a churrasqueira ardendo...

Depois de uns whiskies e vários copos de chope, começaram a aparecer os entendidos em churrasco... aproveitei e os deixei lá, pilotando, e fui aproveitar a festa também.

Muitos ali eu já conhecia do quiosque. E tem sempre aqueles que inventam as "batidinhas" e vinham oferecê-las justamente a mim. Recusar, num momento desse, não tem perdão. Eu já tinha bebido caipirinha de vodka, de pinga, uns dois litros de chope, e já estava no mais alto grau de alegria. E dá-lhe batida, garganta abaixo!

Comecei a sentir sono. Decidi, então, sair à francesa. Voltaria a pé ao hotel, que não estava tão longe assim: umas 8 quadras, a partir da praia. Bastaria eu seguir a rua até a avenida da praia... depois, tudo ficaria mais fácil. Eram quase 3h da manhã.

Estar bêbado é triste.

Ao invés de eu seguir na rua em direção à praia, segui em direção ao morro. Só percebi quando cheguei à rodovia. Quanto mais eu caminhava, mais bêbado ficava. Retornei.

-- Pelo menos, agora eu acerto.

Ao passar pela casa do Marmitão, tinha um pessoal saindo e me viram.

-- Ô Santista!!! Vamos pra boate!

-- Eu vou pro hotel.

-- Não.. você vai com a gente.. é aqui perto.

-- Eu tô bêbado paca!!! Já devia estar no hotel.. e é pra lá que eu vou.

-- Tudo bem, Santista!! A gente se encontra na praia mais tarde.

-- Beleza!

E peguei a rua transversal.

Uma hora depois, nada de chegar ao hotel. Quase 5h da manhã. Aí vi uma senhora colocando o lixo pra fora da casa e decidi perguntar a ela onde era a praia.

Estar na Baixada Santista e perder a noção de localização é uma merda.

-- Bom dia! A senhora poderia me informar de que lado é a praia? -- perguntei com aquela voz pastosa de bebum.

-- O senhor não tem o que fazer, não? Cadê a safada de sua esposa?

-- Tô fugindo dela, dragão! -- perdi a calma.

-- Peraí vou chamar meu marido.

-- Vai rápido, senão eu durmo aqui mesmo na calçada.

Momentos depois...

-- O que o senhor deseja??

-- Eu só quero saber de que lado fica a praia. Eu estou perdido e, como o senhor pode perceber, completamente bêbado.


Ele riu e me confessou que já tinha passado por isso também.

-- Qualquer rua que o senhor vire à direita terminará na avenida da praia.

Cheguei ao hotel por volta das 6h da manhã e só não vi o sol nascer, porque começou a chover.