1984. Há vida, querendo ser vivida -- I
Eu tinha dois meses de casado.
Precisava pagar uma conta no Banco. Procurei uma agência que ficasse no trajeto entre o aeroporto e minha casa. Optei em fazer isso em meu horário de almoço.
Eu tinha um carro Gol, ano 1981, praticamente novo ainda. Nossa idéia, de minha esposa e eu, era vendê-lo, para que pudéssemos quitar as dívidas, contraídas antes do casamento.
Após sair do Banco, escolhi as vias de fácil acesso para chegar mais rápido em casa, dar um beijinho na esposa, almoçar e voltar ao trabalho.
Não havia o hábito de se usar cinto de segurança nem era lei usá-lo. Trafegava ora a 40km/h, ora a 50km/h. Eu estava na pista da esquerda, quando recebi sinal de farol de um caminhão, querendo passagem. Fui para a pista da direita, permitindo a ultrapassagem.
A 100m havia um semáforo, que indicava luz verde para nós. Quando o caminhão ultrapassou o semáforo, um Chevette cruzou a avenida. Eu não tive tempo de brecar, e a batida foi inevitável.
Bati violentamente a cabeça no pára-brisa do carro e desmaiei. Acordei não sei quanto tempo depois, preso às ferragens, com o sangue jorrando de minha cabeça. Procurei um pano sujo que eu trazia no carro, passei-o em meu rosto. Havia muita fumaça saindo do motor. Olhei em volta e vi muitas pessoas. Diziam que o carro pegaria fogo, que eu precisava sair de lá. O painel do carro prendia minhas pernas. Não consegui nem abrir a porta. E pedi desesperadamente por socorro.
Naquele ano, 1984, não havia Resgate do Corpo de Bombeiros em acidentes de trânsito. Contava-se, apenas, com a boa vontade das pessoas ou de motoristas de outros carros.
-- Socorro!! Pelo Amor de Deus, me tirem daqui!!
E as pessoas não se aproximavam, temendo uma explosão.
Eu sentia muita dor na perna e desmaiei novamente. Quando acordei, quatro pessoas estavam tentando me tirar de lá. Duas usaram um pé-de-cabra e levantaram o painel; os outros dois me puxaram para fora. Os quatro me colocaram num carro e me levaram ao hospital mais próximo.
Fui operado. Houve traumatismo craniano e fratura da rótula no joelho.
Acordei numa grande sala, lotada de macas, com lençóis cobrindo boa parte dos corpos que lá estavam. Ouvi a voz do meu pai, chorando.
-- Sim! É meu filho!
A seu lado, estava um amigo dele, que tentava confortar-lhe.
-- Venha, amigo! Vamos preencher os papéis.
-- Me deixe um pouco a sós com meu filho.
Meu pai chorava muito. A partir disso pude depreender o óbvio: eu estava morto.
Lembro-me de que meu pai aproximou-se de mim e me acariciou o rosto. Senti sua mão mexer em minha face, em meus olhos. Eu necessitava dizer a ele que não estava morto, que eu estava sentindo o seu carinho. Mas não deu tempo. A enfermeira pediu que ele fosse embora.
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