Vidas passadas -- I
Alguns anos depois que me divorciei, namorei uma mulher que falava muito durante a noite. Pode até parecer engraçado isso, mas, confesso, na primeira vez que isso aconteceu, fiquei muito impressionado.
Com um acentuado sotaque português, falava sobre si própria, sobre os “nossos” filhos e sobre mim.
-- Tua mãe matou-me.
Acordado, impressionado e assustado, aproximei-me de seu ouvido e, sussurrando, iniciei um diálogo com ela.
-- Por que ela te assassinou?
-- Porque eu era uma rapariga.
-- Só por que tu nasceste no campo? Isso não é motivo.
-- Tu pertences à casta aristocrática. Ela não me aceita como tua esposa. Os tiranos dela já haviam ameaçado minha família, caso eu ficasse contigo.
-- Como tu foste assassinada?
-- Com tiros de rifles.
Dormiu. Quem não conseguiu dormir mais fui eu.
Ao acordar, pela manhã, perguntei-lhe com o que havia sonhado, porque estava muito agitada. Ela respondeu-me de que não se lembrava.
Procurei ajuda de profissionais.
-- Sua namorada teve uma regressão, Sr. André! Traga-a aqui em meu consultório. Farei a regressão com ela e um tratamento para que possa ter noites tranquilas de sono.
Telefonei a ela e marcamos um encontro num restaurante.
-- Você parece preocupado, André!
-- Lourdes, estou preocupado com você. Como é o seu dia, depois que acorda de sonos agitados?
-- Você está se referindo àquela noite?
-- Sim! Sente cansaço durante o dia?
-- Eu sinto muita dor de cabeça.
-- Pois bem, Lourdes! Naquela noite, você regrediu no tempo, talvez ao século XVII ou XVIII, e mantivemos um diálogo. Você falava um português acentuadíssimo, comum em Trás-os-Montes.
-- (risos)
-- Isso é sério, Lourdes! Há quanto tempo você sente essas dores de cabeça?
-- Desde criança eu sinto, mas ultimamente tem piorado.
-- Esse “ultimamente” significa desde que estamos juntos?
-- Sim, André!
-- Deseja acabar com essas dores ou, ao menos, amenizá-las?
-- Claro! É tudo o que mais quero.
-- Conversei com um profissional, um médico, estudioso nesse assunto de regressão. Ele pediu-me que a levasse no consultório dele.
-- Tenho muito medo disso. Se eu regredir e não voltar?
-- Você está aqui, não está? Regrediu naquela noite e voltou, sozinha, isto é, sem ajuda de ninguém. Não há o que temer. Estarei a seu lado.
-- Quando será a consulta?
-- Daqui a pouco. Como é um médico conceituado, foi difícil marcar a consulta.
-- Então, vamos.
Chegamos 40 minutos antes do horário marcado. Diferentemente de outros, o consultório do Dr. Keyson transmite paz. A sala de espera, por exemplo, é embaixo de uma videira. A sala de relaxamento é no centro de um jardim, com muitas flores e um gramado bem cuidado. A sala de regressão, local de trabalho do médico, é rodeada de um grande viveiro, com diferentes espécies de pássaros.
Ao entrar na sala, parece que o paciente está no meio de uma floresta, tal é o canto dos pássaros. Entretanto, quando se começa o tratamento, os pássaros diminuem o ritmo dos cantos e ouvem-se, apenas, piados isolados e em tom baixo.
Em minha opinião, Dr. Keyson não nasceu na Terra. Veio para cá em missão de paz e ajuda. Como diria meu pai, “é um médico das antigas”, porque atende e ajuda pessoas pobres, ricas, humildes e é presenteado, como forma de pagamento, com valores da terra: verduras, frutos, galinhas, aves. Os mais abastados, geralmente mais desconfiados, pagam a consulta em dinheiro.
Exatamente no horário marcado, fomos chamados pela voz doce da enfermeira.
XXXXXXXXXX
Alguns anos depois que me divorciei, namorei uma mulher que falava muito durante a noite. Pode até parecer engraçado isso, mas, confesso, na primeira vez que isso aconteceu, fiquei muito impressionado.
Com um acentuado sotaque português, falava sobre si própria, sobre os “nossos” filhos e sobre mim.
-- Tua mãe matou-me.
Acordado, impressionado e assustado, aproximei-me de seu ouvido e, sussurrando, iniciei um diálogo com ela.
-- Por que ela te assassinou?
-- Porque eu era uma rapariga.
-- Só por que tu nasceste no campo? Isso não é motivo.
-- Tu pertences à casta aristocrática. Ela não me aceita como tua esposa. Os tiranos dela já haviam ameaçado minha família, caso eu ficasse contigo.
-- Como tu foste assassinada?
-- Com tiros de rifles.
Dormiu. Quem não conseguiu dormir mais fui eu.
Ao acordar, pela manhã, perguntei-lhe com o que havia sonhado, porque estava muito agitada. Ela respondeu-me de que não se lembrava.
Procurei ajuda de profissionais.
-- Sua namorada teve uma regressão, Sr. André! Traga-a aqui em meu consultório. Farei a regressão com ela e um tratamento para que possa ter noites tranquilas de sono.
Telefonei a ela e marcamos um encontro num restaurante.
-- Você parece preocupado, André!
-- Lourdes, estou preocupado com você. Como é o seu dia, depois que acorda de sonos agitados?
-- Você está se referindo àquela noite?
-- Sim! Sente cansaço durante o dia?
-- Eu sinto muita dor de cabeça.
-- Pois bem, Lourdes! Naquela noite, você regrediu no tempo, talvez ao século XVII ou XVIII, e mantivemos um diálogo. Você falava um português acentuadíssimo, comum em Trás-os-Montes.
-- (risos)
-- Isso é sério, Lourdes! Há quanto tempo você sente essas dores de cabeça?
-- Desde criança eu sinto, mas ultimamente tem piorado.
-- Esse “ultimamente” significa desde que estamos juntos?
-- Sim, André!
-- Deseja acabar com essas dores ou, ao menos, amenizá-las?
-- Claro! É tudo o que mais quero.
-- Conversei com um profissional, um médico, estudioso nesse assunto de regressão. Ele pediu-me que a levasse no consultório dele.
-- Tenho muito medo disso. Se eu regredir e não voltar?
-- Você está aqui, não está? Regrediu naquela noite e voltou, sozinha, isto é, sem ajuda de ninguém. Não há o que temer. Estarei a seu lado.
-- Quando será a consulta?
-- Daqui a pouco. Como é um médico conceituado, foi difícil marcar a consulta.
-- Então, vamos.
Chegamos 40 minutos antes do horário marcado. Diferentemente de outros, o consultório do Dr. Keyson transmite paz. A sala de espera, por exemplo, é embaixo de uma videira. A sala de relaxamento é no centro de um jardim, com muitas flores e um gramado bem cuidado. A sala de regressão, local de trabalho do médico, é rodeada de um grande viveiro, com diferentes espécies de pássaros.
Ao entrar na sala, parece que o paciente está no meio de uma floresta, tal é o canto dos pássaros. Entretanto, quando se começa o tratamento, os pássaros diminuem o ritmo dos cantos e ouvem-se, apenas, piados isolados e em tom baixo.
Em minha opinião, Dr. Keyson não nasceu na Terra. Veio para cá em missão de paz e ajuda. Como diria meu pai, “é um médico das antigas”, porque atende e ajuda pessoas pobres, ricas, humildes e é presenteado, como forma de pagamento, com valores da terra: verduras, frutos, galinhas, aves. Os mais abastados, geralmente mais desconfiados, pagam a consulta em dinheiro.
Exatamente no horário marcado, fomos chamados pela voz doce da enfermeira.
XXXXXXXXXX
