terça-feira, 12 de maio de 2009

Vidas passadas -- I

Alguns anos depois que me divorciei, namorei uma mulher que falava muito durante a noite. Pode até parecer engraçado isso, mas, confesso, na primeira vez que isso aconteceu, fiquei muito impressionado.

Com um acentuado sotaque português, falava sobre si própria, sobre os “nossos” filhos e sobre mim.

-- Tua mãe matou-me.

Acordado, impressionado e assustado, aproximei-me de seu ouvido e, sussurrando, iniciei um diálogo com ela.

-- Por que ela te assassinou?

-- Porque eu era uma rapariga.

-- Só por que tu nasceste no campo? Isso não é motivo.

-- Tu pertences à casta aristocrática. Ela não me aceita como tua esposa. Os tiranos dela já haviam ameaçado minha família, caso eu ficasse contigo.

-- Como tu foste assassinada?

-- Com tiros de rifles.

Dormiu. Quem não conseguiu dormir mais fui eu.

Ao acordar, pela manhã, perguntei-lhe com o que havia sonhado, porque estava muito agitada. Ela respondeu-me de que não se lembrava.

Procurei ajuda de profissionais.

-- Sua namorada teve uma regressão, Sr. André! Traga-a aqui em meu consultório. Farei a regressão com ela e um tratamento para que possa ter noites tranquilas de sono.

Telefonei a ela e marcamos um encontro num restaurante.

-- Você parece preocupado, André!

-- Lourdes, estou preocupado com você. Como é o seu dia, depois que acorda de sonos agitados?

-- Você está se referindo àquela noite?

-- Sim! Sente cansaço durante o dia?

-- Eu sinto muita dor de cabeça.

-- Pois bem, Lourdes! Naquela noite, você regrediu no tempo, talvez ao século XVII ou XVIII, e mantivemos um diálogo. Você falava um português acentuadíssimo, comum em Trás-os-Montes.

-- (risos)

-- Isso é sério, Lourdes! Há quanto tempo você sente essas dores de cabeça?

-- Desde criança eu sinto, mas ultimamente tem piorado.

-- Esse “ultimamente” significa desde que estamos juntos?

-- Sim, André!

-- Deseja acabar com essas dores ou, ao menos, amenizá-las?

-- Claro! É tudo o que mais quero.

-- Conversei com um profissional, um médico, estudioso nesse assunto de regressão. Ele pediu-me que a levasse no consultório dele.

-- Tenho muito medo disso. Se eu regredir e não voltar?

-- Você está aqui, não está? Regrediu naquela noite e voltou, sozinha, isto é, sem ajuda de ninguém. Não há o que temer. Estarei a seu lado.

-- Quando será a consulta?

-- Daqui a pouco. Como é um médico conceituado, foi difícil marcar a consulta.

-- Então, vamos.

Chegamos 40 minutos antes do horário marcado. Diferentemente de outros, o consultório do Dr. Keyson transmite paz. A sala de espera, por exemplo, é embaixo de uma videira. A sala de relaxamento é no centro de um jardim, com muitas flores e um gramado bem cuidado. A sala de regressão, local de trabalho do médico, é rodeada de um grande viveiro, com diferentes espécies de pássaros.

Ao entrar na sala, parece que o paciente está no meio de uma floresta, tal é o canto dos pássaros. Entretanto, quando se começa o tratamento, os pássaros diminuem o ritmo dos cantos e ouvem-se, apenas, piados isolados e em tom baixo.

Em minha opinião, Dr. Keyson não nasceu na Terra. Veio para cá em missão de paz e ajuda. Como diria meu pai, “é um médico das antigas”, porque atende e ajuda pessoas pobres, ricas, humildes e é presenteado, como forma de pagamento, com valores da terra: verduras, frutos, galinhas, aves. Os mais abastados, geralmente mais desconfiados, pagam a consulta em dinheiro.

Exatamente no horário marcado, fomos chamados pela voz doce da enfermeira.

XXXXXXXXXX