sábado, 11 de abril de 2009

O Convento – II

É óbvio que fui reprovado. Se eu quisesse adotá-los, teria que me casar novamente.

-- A presença da mãe é imprescindível! É ela que conduzirá as crianças a uma boa educação. O pai geralmente fica o dia todo fora de casa, trabalhando. Só verá as crianças à noite e muitas vezes quando elas já estiverem dormindo.
-- Há casos de adoção entre casais homossexuais; há casos que a criança não é adotada imediatamente aqui no Brasil: é comprada; há casos de adoção por parte do homem ou da mulher solteiros.
-- Nós sabemos de todas essas modalidades nada convencionais de adoção. Aqui, agimos de forma diferente, por acreditarmos sempre no bem-estar da criança. O senhor não pretende se casar?
-- A senhora acha normal que eu saia daqui e convide a primeira, que eu encontrar na rua, a ser minha esposa?
-- Está sendo grosseiro, senhor André!
-- É apenas uma verdade, irmã! O convento me dá um prazo de noventa dias, para que eu regularize a minha situação. Nesse espaço de tempo, tenho de conhecer uma mulher, confiar-lhe toda a minha vida, apaixonar-me por ela e pedi-la em casamento.
-- Se quiser adotar as crianças, é assim que deverá ser.
-- Pensei que seguissem a doutrina católica...
-- Nós a seguimos.
-- Não parece! O Amor é o primeiro ensinamento de Deus; o convento pede para casar-me dentro de noventa dias. Entre o ensinamento de Deus e os preceitos do convento há uma falha.

Não me respondeu.

-- Eu entendo perfeitamente que a criança seria melhor educada com a mãe presente. Ao adotar as crianças, é claro que eu me casaria novamente, mas é um processo demorado e eu teria também de encontrar uma mulher disposta a criá-los. Em noventa dias, eu não conseguirei.
-- O senhor pode demorar-se o quanto desejar. Encontre a mulher perfeita, que te ame, que ame as crianças.
-- Em um ou dois anos, isso é possível. Mas quem me garante que a Fefê e o Marquinhos não serão adotados, no decorrer desse período, por outra pessoa?
-- Há outras crianças que gostariam de ser adotadas.
-- Acho que a senhora não entendeu. Eu desejo a Fefê e o Marquinhos.

Agradeci-lhe, levantei-me e dirigi-me ao pátio.
Durante cinco domingos, foi assim: encontrava-me com eles, brincávamos, conversávamos, cantávamos, e depois de três horas eu ia embora.
No sexto, sétimo e oitavo domingos, autorizaram-me a passear com eles na praia, sempre acompanhados por uma freira. Nesses dias, saíamos de manhã e voltávamos ao convento às 16h.
No oitavo domingo, Marquinhos sussurrou em meu ouvido que queria conversar comigo a sós.

-- Titio! Eu te amo. A Fefê também te ama muito.
-- Eu também amo vocês.
-- Nós queremos morar com o senhor e com a titia.

Engoli seco!

-- Em breve vocês conhecerão a titia, está bem assim?

Abriu um largo sorriso e voltamos ao lugar onde estavam a Fefê e a freira.

-- Senhor André!
-- Sim, irmã!
-- No próximo domingo virá um casal conhecer a Fefê. O senhor fará a visita somente ao Marquinhos.

A Fefê seria certamente adotada e separada de seu melhor amigo.
Não!! Isso não podia acontecer!!

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