domingo, 17 de maio de 2009

(André)

Meu nome é André. Nunca me preocupei de saber significados de nomes; portanto, desconheço o do meu, se é que haja um. Na verdade, é meu nome “brasileiro”, uma vez que fui registrado nessa abençoada terra, aos dois meses e meio de idade. Abracei o Brasil e fui abraçado pelos brasileiros de uma tal forma carinhosa, que às vezes me pego dizendo que nasci aqui, como você pôde já ter lido em alguns trechos deste livro.

Meu sobrenome advém de uma linhagem franco-austríaca. Um general francês, provavelmente em férias, resolveu passear em terras austríacas. Lá conheceu minha bisavó, fixou residência e deu seu sobrenome à família de meu pai. Minha mãe é portuguesa, de uma pequena aldeia ao norte de Portugal. Conheci, como vocês já sabem, meus avós e tios e primos maternos. Orgulho-me da árvore genealógica da família.

Cresci num bairro de classe média, tendo como vizinhos e amigos pessoas carentes de uma comunidade próxima. Muita gente de meu bairro não entendia o porquê de um “alemãozinho” fazer parte da turma do pé-sujo (jogávamos bola em terrenos lamacentos) e, pior, segundo eles, de frequentar rodas-de-samba.

Eu me orgulho de todos os meus amigos. Serão sempre muito importantes para mim, a tal ponto de eu caracterizá-los como universais. Acredito que, assim como a família, os amigos verdadeiros são a base de qualquer estrutura. Se você a tem, mesmo que esteja passando por dificuldades, financeiras ou de saúde, haverá o equilíbrio.

-- Esse menino sempre foi brasileiro! – é o que meu pai sempre afirmou. – Sempre gostou de samba, de jogar bola nesse lamaçal, de se arrebentar em escorregões. Devia ser corinthiano, para completar.

Lembro-me de que, em minha turma, também havia um André. Era o quinto filho de uma família só de meninas. Seus pais viviam na mendicância e colocava-os a pedir esmolas nas ruas.

Meu amigo, André, respeitava a decisão de seus pais e cumpri-as à risca, mas depois disso, frequentava uma oficina mecânica. Ficava lá só observando.

Uma vez, o dono da oficina pediu que ele limpasse o chão, porque estava escorregadio de tanto óleo esparramado. E André foi ficando e ganhando a confiança de todos.

Num determinado sábado, André resolveu dormir na oficina, para limpá-la durante o domingo. Sua curiosidade e sua vontade de aprender era tão grande que, ao invés de dormir, resolveu mexer nos motores de alguns carros. Nasceu, assim, um profissional.

André trabalhou como mecânico-chefe por vários anos na mesma oficina. Um dia, foi convidado a fazer um curso no Canadá.

Nunca mais o vi, mas tenho certeza que hoje está aposentado e é um bom chefe de família.

São exemplos como esse que esperamos de nossas crianças, carentes ou não. Vencerem na vida pelo que representam, apenas.

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